sexta-feira, junho 12, 2009

Estabilidade energética, alimentar e financeira no centro das atenções da cimeira dos BRIC


Os dirigentes do Brasil, Rússia, Índia e China reúnem-se na Cimeira de Ekaterimburgo, entre 15 e 17 de Junho, para analisar questões da estabilidade dos mercados mundiais energértico, alimentar e financeiro, anunciou Arkadi Dvorkovitch, assessor económico do Presidente Medvedev.
“O programa (da Cimeira dos BRIC) está praticamente pronto, mas ainda não está fechado”, declarou ele, numa conferência convocada para o efeito, sublinhando que “já é claro que se trata de um programa rico”.
Arkadi Dvorkovitch revelou que os participantes da Cimeira irão abordar dois temas. O primeiro está ligado ao facto de a reunião dos BRIC se realizar na véspera da Cimeira do G-8, no formato 8+5, onde deverão participar todos os países dos BRIC.
“Para ser mais preciso, a Cimeira dos BRIC vai realizar-se entre a Cimeira dos “20”, onde participamos todos, e a Cimeira do G-8, por isso iremos discutir as questões que foram e irão ser levantadas nessas cimeiras”, precisou.
“Veremos até que ponto coincidem as nossas posições face a vários problemas, chegaremos a conclusões conjuntas, mas seria precipitado declarar a que conclusões chegaremos, isso ficará claro depois da discussão”, acrescentou o assessor do Presidente russo.
Dvorkovitch afirmou também que o segundo tema das discussões será a cooperação entre os países dos BRIC em diversas áreas.
“Claro que existem”, continuou, “interesses comuns no comércio, nos investimentos, em acções coordenadas com vista a garantir a estabilidade dos mercados mais diversos, tenho em vista mercados fulcrais como o energético, alimentar e financeiro”.
“Penso que poderão surgir conclusões e declarações interessantes, mas claro que, do ponto de vista político, é importante que países tão grandes cheguem a acordo sobre interacções e elaborem posições conjuntas sobre questões fulcrais das relações internacionais, antes de tudo, da economia internacional”, concluiu.
Serguei Ivanov, vice-primeiro-ministro russo, considera que os BRIC serão a locomotiva que retirarão a economia mundial da crise.
“Os países BRIC estarão entre os primeiros, que, como uma locomotiva, irão arrancar a economia mundial da crise. E isto não é apenas uma declaração. Os BRIC são economias em desenvolvimento dinâmico”, declarou ele no Forum Económico de São Petersburgo, realizado no fim da semana passada.

Combate ao terrorismo e crise económica na ementa da OCX


A Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), que começa na segunda-feira na cidade russa de Ekaterimburgo, irá debruçar-se sobre medidas de combate ao terrorismo e crise económica.
“Os presidentes dos países da OCX assinarão uma convenção sobre a luta contra o terrorismo. Será dedicada grande atenção ao problema do Afeganistão no contexto da realização do plano de acções dos Estados da OCX, que foi aprovado numa conferência especial em Moscovo”, anunciou Andrei Nesterenko, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia.
“No encontro irá realizar-se uma discussão activa com vista a avançar a cooperação económica nas condições da crise económica”, acrescentou.
A Organização da Cooperação de Xangai foi fundada em 2001 e tem como membros a Rússia, China, Cazaquestão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão. A Índia, Irão, Mongólia e Paquistão têm o estatuto de observadores nessa organização.
Na Cimeira de Ekaterimburgo, que irá decorrer paralelamente à Cimeira dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), a Bielorrúsia e o Sri-Lanka deverão ser aceites como “parceiros de diálogo” da OCX.
A reunião da OCX irá também fazer um balanço da sua actividade durante a presidência da Rússia, que entregará esta função ao Uzbequistão.
No âmbito desta cimeira, é de salientar o encontro do Presidente afegão, Hamid Karzai, com o seu homólogo quirguize, Kurmanbek Bakiev, onde o primeiro irá tentar convencer o segundo a adiar o encerramento da base área militar norte-americana no Quirguistão.
“Não vale a pena esperar sensações do encontro dos dirigentes da OCX. Eles encontram-se pela primeira vez durante a crise económica mundial e não se pode excluir a possibilidade de se abordar a questão da criação de uma nova moeda mundial de reserva. O Presidente Medvedev propôs o yuan chinês, mas é curioso assinalar que os chineses não se precipitam a fazer essa proposta”, declarou Arkadi Dubnov, especialista em assuntos da Ásia Central.
A cidade de Ekaterimburgo foi escolhida porque fica situada junto dos montes Urais, que separam a Europa e a Ásia.
As cimeiras da OCX e dos BRIC serão acompanhadas de um Festival das Culturas Nacionais dos Estados da Organização da Cooperação de Xangai. O Museu Hermitage de São Petersburgo apresenta a exposição “Filigramas Valiosas do Oriente”, onde são exibidas obras encomendadas pela família imperial russa a artistas orientais.

quinta-feira, junho 11, 2009

Mãe de Alexandra humilhada em programa televisivo russo


“Fui enganada e apresentaram-me como alcoólica”, declarou Natália Zarubina, mãe de Alexandra, ao semanário Argumenti i Fakti.
Comentando a participação da sua família no programa “Que falem!”, gravado na semana passada, mas ainda sem data de transmissão, Natália declarou indignada: “Durante as filmagens, mostraram umas imagens onde eu bebo conhaque, depois do que um dos conviados do programa gritou que eu sou alcoólica!”.
“A equipa de Malakhov (o apresentador do talk show) apresentou de propósito essa imagem: quando vieram ter comigo para me convencerem a participar no programa, pediram para beber conhaque com eles, que tinham trazido consigo. Fomos enganados quando disseram que queriam mostrar tudo de forma positiva”, continua Natália, cidadã russa a quem o Tribunal de Guimarães entregou a sua filha que estava à guarda de uma família portuguesa.
“Antes das filmagens, deram-me instruções: diz isto, diz aquilo. Por exemplo, pediram-me para não me esquecer de recordar que a família portuguesa vive numa casa que antes tinha sido um bordel”, recorda.
Segundo o semanário russo, os participantes do programa dividiram-se em dois campos: “uns gritavam: “Devolvam Sandra a Portugal! Tu és alcoólica e drogada!”; outros defenderam as mulheres de Iaroslavl”.
Natália Zarubina acusa o apresentador, Andrei Malakhov, de ter desempenhado o papel de “defensor da moralidade”.
“Ele perguntou-me: como se foi deitar na cama com um trabalhador ilegal, sem registar as vossas relações?”, revela a mãe de Alexandra.
Natália afirma que o pai biológico de Sandra, Gueorgui Tsklauri, lhe telefonou e comunicou que a família lhe propôs dinheiro para retirar a criança à mãe através do tribunal, mas que ele teria dito que não faria isso.
“Se Florinda e o marido me tivessem devolvido a menina sem todos os julgamentos, eu manteria relações com eles, mas agora estou muito zangada com eles”, frisou.
A mãe de Alexandra promete-lhe contar toda a história do seu regresso à Rússia quando for mais crescida, mas reafirma a sua intenção de não regressar a Portugal.
“Vou organizar a minha vida aqui, dentro de pouco tempo vou inscrever-me num centro de emprego, a minha filha vai para o infantário. Quero que, no futuro, as minhas filhas terminem a universidade e possam encontrar um emprego normal, e não lavar o chão de alguém”, concluiu.

TAP chega finalmente a Moscovo









Caros leitores, gostaria apenas de dar boas notícias. Por isso, não posso perder esta oportunidade de o fazer. Para mim, a abertura da ligação aérea Lisboa-Moscovo-Lisboa pela TAP é um grande acontecimento e, por isso, o dia 10 de Junho foi intensamente vivivido.
Antes de passar à notícia, porém, quero apenas dizer que tive a oportunidade de conhecer funcionários da TAP simpáticos e espero que este voo dure muito tempo e corra sempre bem.




"Eram precisamente 03 horas e 45 minutos da manhã (0 horas e 45 minutos em Portugal Continental) quando os pneus do avião Eugénio de Andrade, da Tranportadora Aérea Portuguesa, entraram em contacto com a pista do Aeroporto de Domodedovo, nos arredores da capital russa.
O Airbus 320, que deu início às ligações aéreas regulares entre Lisboa e Moscovo, aterrou 30 minutos antes da hora prevista, o que provocou uma verdadeira correria entre os numerosos fotógrafos e alguns jornalistas portugueses que quiseram fixar essa chegada.
A TAP irá, a partir de hoje, realizar cinco voos por semana entre as capitais portuguesa e russa, o que poderá dar um forte impulso não só ao sector do turismo, mas também a outros sectores da cooperação económica.
Não obstante a hora tardia e o cansaço de quase cinco horas de voo, Bernardo Trindade, Secretário de Estado do Turismo, não escondia a sua satisfação e optimismo quando desembarcou no Aeroporto Domodedovo.


“A viagem correu lindamente e reflecte o bom momento que atravessam as relações entre Portugal e a Rússia”, declarou ele à Lusa.
“Há dois anos atrás, começámos com um pavilhão de nove metros quadrados na Feira de Turismo de Moscovo. No ano passado, o stand português foi considerado o melhor e, este ano, inaugurámos uma linha aérea regular garantida pela nossa companhia de bandeira”, acrescentou Bernardo Trindade.
Segundo ele, “a TAP já tem 15 mil reservas nesta rota. Por isso, deveremos ultrapassar o número de 30 mil turistas russos (alcançado no ano passado) e esperamos um crescimento de dois dígitos”.
Bernardo Trindade chamou também a atenção para o facto de esta nova ligação aérea impulsionar os contactos bilaterais, sublinhando que vinha acompanhado de vários homens de negócios.
Mas foi a tripulação do Eugénio de Andrade a primeira a atravessar a fronteira russa.
“A viagem correu muito bem, o tempo estava bom, por isso chegámos mais cedo”, disse à Lusa Falé Borges, comandante da TAP, sublinhando que “fomos muito bem recebidos pelos parceiros russos”.

Falé Borges assinalou que existem algumas diferenças no trabalho dos pilotos e controladores russos e europeus, mas acrescentou que “preparámo-nos bem e não houve problemas”.
Naída Simons, chefe de cabine, reconheceu que nem todos os bilhetes foram vendidos para o primeiro voo, mas estava optimista.
“Para cá viajaram 78 passageiros, mas para lá já voarão 124. Pensamos que esta linha tem boas perspectivas”.
A chefe de cabine da TAP disse à Lusa que o serviço de bordo, principalmente na classe executiva, tem algumas particularidades.
“Trata-se de uma viagem longa e isso permite um serviço melhor e mais alargado”, disse Naída Simons, e acrescentou: “Servimos aperitivos, sopa e os passageiros da executiva puderam escolher entre três pratos. A sobremessa foi constituída por doces típicos portugueses, entre os quais habia pastéis de nata”.
Logo que o Airbus 320 aterrou em Moscovo, no aparelho entrou uma brigada de limpeza, que devia preparar o aparelho para o voo de regresso a Lisboa, a cujo Aeroporto chegou ontem.


A Transportadora Aérea Portuguesa, que inaugurou a nova linha que liga as capitais portuguesa e russa, planeia aumentar o número de voos, não excluindo a possibilidade de abrir novas rotas entre Lisboa e outras cidades russas.
“Começámos com cinco voos por semana, mas isto é o início para, mais tarde, aumentar a sua frequência para Moscovo”, anunciou Carlos Paneiro, vice-presidente da TAP, numa conferência de imprensa realizada na capital russa.
“Estados convencidos do enorme potencial do mercado russo e, por isso, até poderemos vir a criar novos destinos na Rússia”, acrescentou.
Segundo Carlos Paneiro, o objectivo é não só aumentar o fluxo turístico russo para Portugal, mas também aproveitar a situação estratégica de Lisboa e de outras rotas da TAP.
“Somos a companhia aérea europeia que tem mais destinos no Brasil (oito) e em África (oito)”, frisou.
Serguei Rudakov, director do Aeroporto Domodedovo de Moscovo, onde passaram a aterrar os aparelhos da transportadora portuguesa, apoia o optimismo da TAP.
“A TAP é um dos grandes parceiros para o desenvolvimento do nosso aeroporto. Portugal é não só um centro de turismo e negócios na Europa, mas igualmente um ponto de passagem para a África e o Brasil, o que nos fazia falta”, defendeu.
“Por isso, dentro em breve, poderá ser organizado um voo diário entre Lisboa e Moscovo, bem como poderão ser utilizados com maior capacidade de transporte de passageiros”, acrescentou.
Carlos Paneiro salientou, porém, que a estratégia da TAP foi elaborada com muito cuidado para evitar desaires em tempo de crise.
“Tornámos o sonho realidade. Mas agora vamos concentrar-nos na rota de Moscovo para garantir o êxito dos voos já existentes. Queremos ter lucro para não desistir”, sublinhou.
“Até agora já estão reservados 16 mil bilhetes, esperamos vender 24 mil até ao fim do ano, mas o objectivo é chegar aos 40 mil passageiros por ano”, concretizou.
Carlos Paneiro não concorda que os preços praticados pela TAP sejam superiores aos dos concorrentes, sublinhando que “trata-se de um bom sinal se vendemos os bilhetes de categorias económicas mais rapidamente do que as outras empresas”.
“A TAP chegou em tempo de crise, quando todos têm cuidado. Nós também temos cuidado, mas olhamos para o futuro”, concluiu Rudakov, dirigente do melhor aeroporto da capital russa.
A TAP irá realizar um voo de Lisboa para Moscovo à segunda, terça, quinta e dois ao sábado.

terça-feira, junho 09, 2009

Mãe de Alexandra não quer regressar a Portugal


Natália Zarubina, a mãe de Alexandra, recebeu “três propostas extremamente atraentes” de Portugal, mas reafirma que não pretende abandonar a Rússia, escreve hoje Olga Kuznetsova, jornalista do diário “Komsomolskaia Pravda”.
“O caso (Alexandra) emocionou Portugal inteiro. Agora, os portugueses propõem à mãe e filhas habitação e emprego, apenas para que ela (Natália) regresse a esse país com a filha. Porém, ela, que reside na vila Pretchistoe, Distrito de Iaroslavl, não tenciona abandonar a Rússia”, acrescenta a jornalista de Iaroslav, que tem acompanhado de perto este caso.
O Komsomolkaia Pravda revela: “uma câmara municipal de uma das principais cidades de Portugal propôs a Natália, à sua família e à família do irmão habitação grátis. Uma empresa prometeu montar um café para Natália poder trabalhar. Um dos homens mais ricos do país prometeu pagar as despesas de transporte da família”.
“Zarubina olha com desconfiança para a proposta de regressar a Portugal. Ela afirma recear que os portugueses iniciem um novo processo para lhe retirar a criança, que a acusem de prostituição e maus tratos da criança”, continua a jornalista, citando declarações de Natália.
O diário escreve também que Natália não recusa ajuda material dos portugueses, pois vive à custa da mãe e só poderá começar a procurar emprego em Setembro.
“Ela propõe aos pais afectivos portugueses que enviem dinheiro para comprar uma casa com boas condições, uma casa de banho, para que Sandra não precise de nada”, sublinha o Komsomolskaia Pravda.
O diário electrónico newsru.com lembra que “os rendimentos da avó e avô, que são o sustento da família, é de cerca de 20 mil rublos (cerca de 450 euros) por mês”.
“E que irei eu fazer na velhice em Portugal? Ficar sentada entre quatro paredes?”, afirma Olga Zarubina, avó de Alexandra, quando lhe falaram das propostas portuguesas.
Num artigo publicado hoje na edição electrónica do jornal Komsomolskaia Pravda, chama-se a atenção para as declarações contraditórias feitas por João Pinheiro, pai afectivo de Alexandra, à imprensa portuguesa: "a um dos jornais ele afirma que falou com Natália e ela recebeu com entusiasmo a proposta de se transferir. Mas, a outro jornal, João declarou que Natália apenas prometeu pensar, expressando receio face à possibilidade de lhe virem a retirar novamente a criança".

segunda-feira, junho 08, 2009

Kremlin receia protestos nas Forças Armadas


O Kremlin está preocupado com o aumento dos sentimentos de protesto no Exército e Marinha, o que levou o Presidente Medvedev a ordenar a introdução de correcções na reforma militar, escreve hoje a imprensa russa.
Nikolai Makarov, chefe do Estado Maior das Forças Armadas da Rússia, considera que a organização castrense russa fica muito aquém das FA dos Estados Unidos e da NATO, defendendo a criação de “uma estrutura mais flexível”, escreve o diário económico Vedomosti.
A nova reforma militar, que está a ser implamentada, visa reduzir fortemente o número de oficiais e soldados, maleabilizar o sistema de comando, tornando as Forças Armadas da Rússia máis móveis e flexíveis.
Segundo o general Makarov, no Ministério da Defesa não existe uma “oposição de generais”, mas apenas “alguns oficiais não querem ir para o novo local de serviço”.
Porém, o diário Nezavissimaia Gazeta, citando fontes militares, considera que a situação é bem mais grave, o que levou o Presidente Medvedev a reagir às numerosas queixas que recebe de militares a propósito da realização da reforma limitar.
Segundo este jornal, os oficiais e membros das suas famílias já organizaram piquetes para protestar contra o encerramento de hospitais militares emn algumas guarnições.
O diário Rossiskaia Gazeta, órgão oficial do Governo russo, reconhece a existência de problemas nas Forças Armadas, mas considera que eles se devem ao facto de os generais não querem perder “os seus lugares quentes”.
Segundo este jornal, a perda de “lugares quentes” é bem real, porque a última avaliação das competências dos oficiais de alta patente levou a que apenas 66 dos 249 generais avaliados continuem nos seus cargos, enquanto que 133 serão enviados para novos locais e cerca de 50 irão para a reserva.
“A rotação obrigatória de comandantes, que o ministro da Defesa ordenou realizar de três em três anos, transformou-se numa espécie de catástrofe para uma série de comandantes. Com ligações, apartamentos e casas de campo na capital, eles não querem abandonar os lugares quentes”, considera o Rossiskaia Gazeta.
“Além disso, regra geral, essas pessoas nunca comandaram soldados e chegaram ao cargo de general sem se afastarem de Moscovo e São Petersburgo”, frisa o diário.

Natália Zarubina não aceita regressar a Portugal


Natália Zarubina receia perder a filha se voltar a terras portuguesas e recusou várias propostas de trabalho para voltar.
A mãe de Alexandra Zaburin, a menina russa que viveu com uma família de Barcelos durante quatro anos, diz que recebeu várias propostas de trabalho e ajuda caso regressasse a Portugal, mas recusou-as por recear que lhe tirem a filha.
Uma câmara municipal ofereceu-se para dar à família Zarubin um apartamento perto da terra do casal Pinheiro, que acolheu Alexandra, uma empresa portuguesa ofereceu-se para abrir um café para a mãe da menina gerir e um conhecido homem de negócios português prontificou-se ainda a pagar todas as despesas com a viagem dos Zarubin para Portugal se Natália Zaburin voltasse com a filha, disseram à Lusa fontes próximas das duas famílias (Zaburin e Pinheiro).
A câmara municipal, a empresa e o homem de negócios em causa pediram anonimato para que este caso não seja utilizado politicamente, nem seja visto como oportunismo político, segundo as mesmas fontes.
Porém, Natália recusou a proposta, sublinhando que teme perder a filha: "Eu regresso e a família portuguesa começa outra vez a recorrer aos tribunais para me retirarem a menina, voltam a acusar-me de alcoólica, prostituta... Não, não posso aceitar essa proposta", disse à Agência Lusa.
"Além disso, os meus pais são pessoas idosas, nada terão a fazer em Portugal. São idosos e não se irão sentir bem, estão habituados à vida na Rússia, não querem ir para lado nenhum", acrescentou.
Porém, Natália não recusa apoio material dos portugueses: "Se querem ajudar a Alexandra e a mim, que enviem apoio material. Eu assim poderei melhorar as condições de vida aqui, na Rússia, arranjar uma casa normal, etc.".
Serguei Zarubin, avô de Alexandra, revelou à Lusa que as autoridades locais de Pervomaisk, onde fica a vila de Pretchistoe, onde a família vive, ofereceu quinze dias de férias a Natália e às duas filhas numa casa de repouso.
"Elas partirão amanhã [terça-feira] e irão descansar quinze dias. Natália está neste momento a receber essa oferta da Junta de Freguesia, pois precisa de descansar", sublinhou o avô.
Alexandra, de seis anos e filha de uma imigrante russa, estava à guarda de uma família de Barcelos há quatro anos quando uma decisão do Tribunal da Relação de Guimarães, confirmada pelo Supremo Tribunal de Justiça, determinou a sua entrega à mãe.
A criança passou a viver recentemente com a mãe e os avós numa cidade russa, a 350 quilómetros de Moscovo.

sábado, junho 06, 2009

Reconciliação para ajudar Alexandra




Continuo a receber dezenas de mails, alguns deles muito emocionados, cujos autores pretendem ajudar Alexandra, a menina russa que foi entregue pelo Tribunal de Guimarães à mãe biológica russa e que reside actualmente na vila Pretchistoe.
Neste caso, as duas partes que disputam a menina já disseram tudo o que tinham a dizer uma da outra, parecendo estar esgotadas todas as acusações, principalmente depois do pai biológico ter também dito "da sua justiça" em numerosos órgãos de informação.
Agora, é urgente ajudar concretamente a Alexandra, mais, essa ajuda já deveria ter começado a chegar à longínqua vila russa.
Em casos complicados e dramáticos como este, é necessário, em primeiro lugar, prestar uma ajuda urgente, ser uma espécie de INEM que presta os primeiros socorros, sendo depois necessário dar passos para encontrar uma solução mutuamente aceitável para as partes do conflito.
As condições de vida da família Zarubina são más, há falta de dinheiro e, por conseguinte, de alimentos. Por isso, talvez não fosse má ideia enviar alguma ajuda.
Alguns receiam que essa ajuda poderá ser desviada para o álcool, mas será que não existem organizações sociais e pessoas idóneas que possam controlar esse processo?
Depois de se prestar os "primeiros socorros" e, paralelamente, pôr fim às acusações mútuas, pode-se começar a dar passos no sentido da aproximação das famílias Zarubina e Pinheiro e, neste caso, devem tomar uma atitude semelhante à mãe verdadeira do relato bíblico sobre o Rei Salomão, ou seja, pôr os interesses supremos da criança acima de tudo.
Superadas as duas etapas, as duas famílias poderão decidir onde e com quem Alexandra deverá viver. Aqui, há várias possibilidades: a menina pode viver na Rússia em condições decentes e ir passar férias com a mãe a Portugal; a família Pinheiro poderá visitar Alexandra, a família de Alexandra poderá ir viver para Portugal e visitar a Rússia, etc., etc.
Paralelamente a isso, as autoridades portuguesas e russas deverão explicar como é que acontecem situações destas e tomar medidas para que não se repitam.
Li na empresa que a Assembleia da República Portuguesa irá rever a lei para aumentar a protecção das crianças. Muito bem, mas também não seria mau se a Rússia assinasse, finalmente, a Convenção de Haia. É urgente aproximar as legislações da Rússia e da União Europeia no campo da defesa dos direitos da criança.
Este caso mostrou claramente que a justiça portuguesa falhou, mas parece não ter sido a única instituição a falhar. Alguns advogados russos consideram que foram violadas leis russas no processo de atribuição da cidadania russa a Alexandra, e isto deve também ser esclarecido.
E nunca podemos esquecer que há muitas Alexandras na Rússia e Portugal, que necessitam também de ajuda urgente.

Fotos da longa guerra civil em Angola

Cartaz da exposição

Foto


Alexandre Dzassokhov


Victor Chalinev e Andrei Tokarev



Veterano



Uma exposição de fotografias tiradas por veteranos de guerra soviéticos e russos em Angola, entre 1974 e 1992, irá estar patente até ao próximo dia 15 no Museu de História Moderna da Rússia, na capital russa.
O tema da exposição “Nós não deveríamos lá estar?” foi retirado de uma canção composta por um dos veteranos soviéticos em Angola e é uma pergunta à posição oficial soviética que nunca reconheceu que cidadãos seus combateram naquela ex-colónia portuguesa.
“Do ponto de vista dos soldados e oficiais que aqui se encontram, a sua presença em Angola foi uma missão internacionalista, quiseram apoiar o povo que se libertára do colonialismo e apoiar as forças políticas nossas aliadas”, declarou à Lusa Alexandre Dzassokhov, antigo membro do Bureau Político do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética.
Nas paredes do museu podem-se ver várias dezenas de fotos, a preto e branco e cores, tiradas por militares e outros especialistas soviéticos e russos durante operações militares contra os adversários do MPLA: UNITA e FNLA.
Fotos tiradas junto a tanques e canhões sul-africanos destruídos, crianças penduradas em blindados e canhões, militares russos e soviéticos ao lado de combatentes do MPLA, ou seja, cenas de uma guerra civil onde participaram duas superpotências:
“Para os Estados Unidos e a União Soviética, o confronto em Angola foi a continuação da guerra fria, mas de forma “quente”, militar. Uma guerra entre duas superpotências, embora elas se recusassem a reconhecer a sua participação directa no conflito”, frisa Dzassokhov, que visitou várias vezes Angola.
Esta posição é apoiada por Victor Chalinev, que foi intérprete militar na Escola de Cadetes de Huambo entre 1985 e 1987.
“Os nossos corações jovens ardiam de desejo de prestar ajuda aos povos oprimidos. Não tive, nem tenho dúvida da justeza da nossa missão”, afirmou à Lusa.
Andrei Tokarev, hoje professor de português e historiador, foi um dos primeiros especialistas militares a chegar a Angola.
“Aterrei em Luanda ainda antes da proclamação da independência do país, na véspera de 11 de Novembro de 1975”, recorda Andrei, na altura tradutor militar, e acrescenta: “tratou-se de uma missão de serviço multiplicada por um internacionalismo sincero, por um desejo de ajudar os amigos num momento difícil”.
À medida que se aproxima a hora de abertura da exposição, dezenas de “veteranos de Angola”, como se designam os russos que combateram ao lado do MPLA, entre os quais se via pessoas de várias idades.
Um veterano mais idoso, que trazia na lapela uma medalha da Organização de Veteranos de Angola na Rússia e um emblema de veterano dos serviços secretos soviéticos (KGB), aceitou prestar declarações à Lusa, mas sem revelar o nome.
“Ajudámos Angola a tornar-se um verdadeiro Estado independente. Foi um período de alto nível nas relações entre Angola e a União Soviética. E mais digo...”, afirmou.
“Esta exposição mostra que a URSS e a Rússia, para não falar de Cuba, deram um grande contributo para a actual estabilidade no nosso país”, declarou à Lusa António José Mateus, adido de imprensa da Embaixada de Angola na Rússia, considerando que “as relações russo-angolanas entraram numa nova de etapa, somos parceiros”.

Rapper angolano à conquista de fama


Estudante da Universidade da Amizade dos Povos de Moscovo, Denérido Cudidissa, de seu nome artístico Dene XL, lançou o seu primeiro trabalho a solo, intitulado “Dentro e Fora do Meu Quarto”, num registo Rap- Hip Hop, ainda em Angola, em 2007.
Em declarações à Agência Lusa, diz-se influenciado por variadíssimos géneros musicais, desde Kizomba, zouk, fado, samba, e por outros artistas angolanos e norte americanos da área do Rap- Hip Hop. Considera que o Rap é o género musical de intervenção política por excelência, e por definição, capaz de veicular com impacto uma mensagem de denúncia dos grandes flagelos da sociedade contemporânea.
Tem actuado com regularidade em universidades, clubes nocturnos, em eventos hip-hip e na Embaixada de Angola em Moscovo.
Para além de autor e compositor, Dene XL estreou-se na Rússia há três anos como produtor, numa altura em que sentiu a falta de “beats” (instrumentais) próprios. Não queria cantar em “beats” alheios, nem fazer download de ritmos de outrem. Adquiriu então material, começou a compor os seus próprios ritmos e tornou-se produtor de artistas russos e de outras nacionalidades.
Confessa que ainda não se conseguiu adaptar totalmente ao pais, mas salienta o papel importante que a sua vivência na Rússia tem desempenhado na sua criatividade artística, nomeadamente pela riqueza da tradição musical do país.
Nunca foi agredido fisicamente, mas é diariamente alvo de comentários racistas fora da universidade, no metro, e em inúmeras situações do dia a dia em Moscovo. Encara estas ocorrências com filosofia, considerando que tais comportamentos são fruto da ignorância de pessoas que “não sabem conviver não só com pessoas de outras raças, como também não sabem viver de todo em sociedade, pura e simplesmente.”
Apesar de tudo, diz-se feliz por ter vindo estudar para a Rússia, principalmente pela qualidade de ensino que lhe é providenciada. Feliz também por aprender imenso fora do âmbito dos estudos e por saber que o conjunto de experiências que leva daqui lhe há- de servir no futuro.
É oriundo de Luanda, mas a quem lhe pergunta de que província é, costuma responder que é da província de Uíge, terra do seu pai, sendo a sua mãe do Kwanza Norte.
De olhos postos em Angola, tenciona regressar em 2010 com o seu filho e a sua esposa, Gabriela , de nacionalidade equatoriana, depois de concluir o mestrado em Geologia,
O seu quotidiano é o de um estudante normal, feito de estudo e das pequenas alegrias que lhe proporciona o aconchego do lar, na companhia do filho e da esposa. No pouco tempo livre, compõe música, e, aos fins de semana, encontra-se com os amigos. Segundo dados seus, a comunidade angolana, constituída por cerca de duzentos jovens indivíduos, é a mais numerosa de todas as comunidades estrangeiras da Universidade da Amizade dos Povos.
Do ponto de vista do jovem luandense, não existe diferença entre o DeneXL dos palcos e o Denérido Cudidissa de vinte e cinco anos de idade. Quando compõe tenta não só exprimir a sua sensibilidade pessoal, como também “aquilo que os outros são e vivem”. Põe-se “na pele de uma outra pessoa para transmitir.”
Na vida como no palco, DeneXL define-se como “uma pessoa directa, de intervenção”.

quinta-feira, junho 04, 2009

Ministério da Defesa acusa Polónia de ser a culpada do início da Segunda Guerra Mundial


O Ministério da Defesa da Rússia considera que foi a Polónia e não a Alemanha que provocou a Segunda Guerra Mundial de 1939-1945, tentando assim rever mais uma página da História Universal do séc. XX.
“Todos os que estudaram não tendenciosamente a história da Segunda Guerra Mundial sabem que ela começou devido à renúncia da Polónia satisfazer as pretensões alemãs, sendo as exigências da Alemanha bastante moderadas: incluir a cidade livre de Danzig no Terceiro Reich, permitir a construção de caminhos de ferro e estradas extra-territoriais, que ligassem a Prússia Oriental à Alemanha”, escreve o coronel Serguei Kovaliov, do Instituto de História Militar do Ministério da Defesa na Rússia.
“É difícil considerar infundadas as duas primeiras exigências”, sublinha o militar no artigo “Especulações e Falsificações na avaliação do papel da URSS na véspera e durante a Segunda Grande Guerra”, publicado na secção “A História contra a mentira e as falsificações” do sítio electrónico do Ministério da Defesa.
O coronel repete, para apoiar a sua tese, as justificações da invasão da Polónia, apresentadas pelos dirigentes da Alemanha nazi em Setembro de 1939.
“A esmagadora maioria dos habitantes de Danzig, separados da Alemanha pelo Tratado de Paz de Versalhes, era constituída por alemães, que desejavam sinceramente a reunificação com a pátria histórica... A propósito, ao contrário das fronteiras ocidentais, a Alemanha nunca reconheceu voluntariamente as mudanças territoriais feitas a Oriente pelo Tratado de Versalhes”, escreve Serguei Kovaliov.
O historiador militar sublinha que Varsóvia respondeu com uma “negativa decidida”, porque “tentava obter o estatuto de grande potência” e as suas “ilusões infundadas” eram apoiadas pelos países vencedores na Primeira Guerra Mundial.
(caros leitores, isto não vos faz lembrar nada na história recente da Rússia?)
(Se esta tese for verdadeira, então a Rússioa deverá devolver Kalinninegrado à Alemanha?)
O coronel defende também a tradicional tese soviética de que Estaline não teve outra alternativa do que assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop, pois a URSS precisava de adiar o início da guerra para preparar novas linhas de defesa a ocidente da antiga fronteira soviética.
Esta artigo faz parte da campanha iniciada pelo Presidente russo, Dmitri Medvedev, com a criação de uma comissão especial para “combater as falsificações da História”.

quarta-feira, junho 03, 2009

Passem, finalmente, das promessas à prática




Caros leitores, peço desculpa por só agora estar a escrever, mas a actividade profissional a isso obriga. A razão de tão longa ausência foi uma ida à vila de Pretchistoe, no Distrito de Iaroslavl, onde passei dois dias a ver como vive Alexandra e a sua mãe Natália Zarubina.
As condições em que a criança vive, e isto já não deve ser nenhuma novidade nem para os portugueses, nem para os russos, podem ser consideradas humanas se analisadas há luz de meados do séc. XX, ou talvez até de antes.
A vila de Pretchistoe, que em russo significa “limpíssima”, “bem limpa”, é uma vila como outros milhares de localidades russas, com casas novas e velhas, estradas sofríveis e más, etc., etc.
Mas, aqui, o dramático e o importante é constatar que a casa da família Zarubin não tem o mínimo de condições de vida. Construída de madeira, é velha, está inclinada, não tem canalização, nem sequer retrete.
Trata-se de uma família que vive com grandes dificuldades económicas, o pai e o irmão de Natália não deixam dúvidas que nunca perdem a mínima oportunidade de consumir bebidas alcoólicas em quantidades significativas.
Quanto à mãe da Alexandra, nos dois dias em que lá estive, pude constatar que ela não tinha bebido álcool… e nada mais. Diz-se decidida a não voltar mais a Portugal e a refazer a vida na Rússia…
A menina tem bom aspecto e ainda não entende o que se passa.
Resumindo, porque o tempo aperta, vão lendo o que tenho escrito para a Lusa e vejam hoje a SIC, pois as imagens valem mais do que mil palavras.
Tenho recebido dezenas de mails de leitores a perguntarem o que se pode fazer e aproveito para responder a todos: é preciso passar das promessas aos actos para ajudar a Alexandra e a sua família russa.
Não vou discutir mais se o Tribunal de Guimarães decidiu bem ao mal, se a criança saiu ou não legalmente de Portugal, etc. Isso são perguntas às quais as autoridades portuguesas devem responder.
Nem vou discutir se as autoridades russas estão a cumprir ao não o que prometeram no tribunal de Guimarães, porque vi que nada estão a fazer. A menina tem sido visitada por médicos, polícias encarregados de menores, funcionárias da Segurança Social, dezenas de jornalistas russos e portugueses, mas os resultados são praticamente nulos.
A justificação de que Alexandra vive “como vivem muitos outros milhares de crianças russas” não me satisfaz nada, pois, pelo menos em relação à menina, as autoridades russas comprometeram-se perante um tribunal. A Rússia, que pretende ao estatuto de superpotência, tem enormes riquezas naturais, é um Estado soberano e, por isso, os seus dirigentes e só eles podem resolver este tipo de situações.
Aos portugueses, digo: arranjem forma de fazer chegar à mãe da Alexandra ou a alguma organização de defesa dos direitos da criança na Rússia idónea meios financeiros e outros para melhorar a vida desta família. Não consigo imaginar mais nada.
Mas deixo aqui um aviso: cuidado com os impostores que poderão tentar utilizar esta situação.

terça-feira, junho 02, 2009

As desventuras de Tintim na Rússia


A Rússia foi talvez o último país do mundo aonde chegaram os livros de Tintim, não obstante este herói da BD ter tido a sua primeira aventura precisamente no "País dos Sovietes".
O primeiro e, por enquanto, único livro de aventuras de Tintim chegou aos leitores russos apenas em 2004 e chama-se “Os Charutos do Faraó”.
Os especialistas russos em história da banda desenhada não têm dúvidas de que este enorme atraso na chegada das aventuras de Tintim à Rússia se deveu ao primeiro álbum de Hergé “Tintim no País dos Sovietes” (1929), obra que esteve proibida na União Soviética por ser considerada “anticomunista” e que pelo mesmo motivo continua a não chegar às mãos dos leitores chineses.
Georges Remi (Hergé) coloca os seus heróis, Tintim e Milú, no período revolucionário em que os comunistas instauravam o poder pela força, tendo-se baseado na obra “Moscou sans voiles”, de Joseph Douillet, diplomata belga que viveu e trabalhou durante nove anos na Rússia soviética.
Alguns episódios do primeiro álbum de Hergé são uma ilustração exacta de episódios descritos por Joseph Douillet, como, por exemplo, “as eleições democráticas” na aldeia com uma pistola apontada à cabeça.
Sendo o diplomata belga um anticomunista, os estudiosos russos de banda desenhada europeia consideram aí residir uma das causas da “falta de qualidade” dessa obra.
“Não obstante a abordagem extremamente pormenorizada [da situação na Rússia soviética], a primeira experiência falhou, pois deu origem a uma banda desenhada bastante primitiva que contém numerosos disparates", como a existência de um agente da polícia política soviétiva OGPU que adora bananas, considera Elena Bulakhtina, reconhecendo, porém, que “há lugares divertidos”.
Opinião semelhante tem Mikhail Khatchaturov, chamando a atenção para o facto de “Tintim no País dos Sovietes” ter sido “o único volume da série das Aventuras de Tintin que não foi posteriormente trabalhado e que, durante muito tempo, não foi reeditado”.
“Só recentemente ele voltou a ser publicado, muitos anos após a morte do autor, e por isso agora surge orgulhosamente no catálogo da série como o número um”, sublinha Khatchaturov.
Não obstante o comunismo ter caído na União Soviética/Rússia há quase 18 anos, Tintim continua a ser desconhecido entre o grande público russo, ao contrário de outros heróis da banda desenhada como Astérix. “Os Charutos do Faraó” foi a primeira e única das aventuras de Tintim a chegar à Rússia com uma edição de cinco mil exemplares, o que é extremamente pouco para um mercado livreiro tão imenso como é o russo.
Tintim parece ter-se irremediavelmente atrasado na sua chegada à Rússia, mesmo sem sovietes.

domingo, maio 31, 2009

Medvedev e Putin lutam pela opinião pública


Peço desculpa a um dos leitores que me pediu, há uns dias atrás, para reagir à notícia de que o primeiro-ministro Vladimir Putin começou a ter uma coluna permanente na revista Pioneiro Russo, mas estive ocupado com outras questões importantes.

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, terá uma coluna permanente na revista mensal Russkii Pioner (Pioneiro Russo) a partir desta sexta-feira (29). Segundo o editor da revista, Andrei Kolesnikov, não será feita nenhuma correção no texto escrito em "um excelente russo".

No primeiro artigo, intitulado "Por que é difícil demitir pessoas", ele admite, pela primeira vez, os conflitos que ocorreram no Kremlin durante os oito anos que foi presidente.

"Surgem sempre conflitos numa equipa, especialmente numa grande equipa. Isso acontece a cada minuto, a cada segundo - simplesmente porque há sempre disputa de interesses entre as pessoas", escreveu Putin.
Ele cita ainda as maneiras que usava para demitir as pessoas: "Em contraste com governantes soviéticos anteriores, eu sempre faço isso pessoalmente. Eu, geralmente, chamo a pessoa ao meu escritório, olho nos olhos e digo: 'Há reclamações concretas. Se você acredita que não são verdadeiras, então, por favor, você pode lutar contra elas, defenda-se".
"Às vezes, do lado de fora, parece que uma pessoa deveria simplesmente ser varrida com uma vassoura. Mas posso assegurar a vocês que não é sempre assim. Nunca se deve falar mal de alguém pelas costas e não é permissível demitir alguém e colocá-la de lado só porque alguém lhe falou mal dela", conclui o primeiro-ministro.

É curioso assinalar que esta decisão de Putin escrever a coluna surgiu após o Presidente Medvedev ter criado o seu blogue na Internet.

Segundo alguns analistas russos, parece tratar-se de uma luta entre Dmitri Medvedev e Vladimir Putin pelo apoio da opinião pública russa. O primeiro-ministro russo, no primeiro artigo, tenta fugir à sua imagem de político rígido, frio, mostrar que é uma pessoa com sentimentos, resumindo, tenta "aproximar-se do povo", o que Medvedev tem feito ao criar o blog, dar entrevistas a órgãos de informação da oposição, etc.

As eleições presidenciais na Rússia ainda estão longe, mas é importante ganhar o apoio dos eleitores, tanto mais que a crise económica e social no país se agudiza e a situação pode complicar-se.

Para quem quiser ler o texto em russo: www.ruspioner.ru/news/557.html

sexta-feira, maio 29, 2009

A felicidade de Alexandra acima de tudo


Caros leitores, eu não tenha prestado a devida atenção ao blog devido ao facto de as minhas actividades profissionais me impedirem se ser mais frequente na escrita.

Tenho acompanhado passo a passo "o caso Alexandra" na Rússia e, por isso, peço a todos os leitores deste blog que tenham o maior respeito por todas as partes, pois só assim será possível ajudar a menina.

Vi-me obrigado a apagar um comentário insultuoso sobre a Rússia e os russos, porque jamais poderei concordar com isso. Nem os russos, nem os portugueses têm culpa pelos erros dos seus juízes, diplomatas ou governantes.

Sublinho a minha posição de sempre: não há no mundo povos maus e bons, mas sim pessoas boas e más, dirigentes competentes e incompetentes. Vivo há 33 anos na Rússia e tenho o maior respeito por este povo. Defendo a existência de boas relações entre Portugal e a Rússia, pois não há problemas nos nossos contactos que não possam ser superados.

Mais, se consultarem as petições na Internet e os comentários no espaço cibernauta russo, verão que existe uma intensa discussão e muita simpatia pelo casal de acolhimento português.

Claro que é importante acompanhar este caso, chamar a atenção para os problemas, mas de forma calma e sensata, sem sentimentos "patrioteiros".

O despertar da opinião pública russa para a situação de Alexandra é extremamente importante, pois levou as autoridades russas a tomarem medidas. A ida de membros da Câmara Social junto do Presidente da Rússia à aldeia onde vive a menina é um factor importante, significa que, no mínimo, as autoridades russas pretendem mostrar que sabem preocupar-se com os seus cidadãos. A menina apenas ganhará com isso.


quinta-feira, maio 28, 2009

Autoridades russas reagem ao "caso Alexandra"


O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia não comentou a recusa da concessão de vistos à família Pinheiro, mas considera que na imprensa russa e portuguesa estão a ser publicados artigos com “carácter abertamente provocatório”.
“Gostaria de dirigir-me aos jornalistas e órgãos de informação russos para darem a possibilidade à pequena russa, que, devido à força das circunstâncias, foi privada da possibilidade de contactar com a mãe e outros parentes, de se habituar calmamente ao novo meio e aos parentes novamente adquiridos”, declarou Andrei Nesterenko, porta-voz do MNE da Rússia, numa conferência de imprensa em Moscovo.
“Trata-se do destino de uma criança concreta, que não deve ser transformado em mais um reality-show”, acrescentou.
Nesterenko assinalou que “nos últimos tempos, nos órgãos de informação russos e portugueses foram publicados numerosos artigos sobre o regresso à pátria da cidadã russa Zarubina com a filha Alexandra, e alguns deles têm um carácter abertamente provocatório”.
O porta-voz da diplomacia russa não comentou o facto de a Embaixada da Rússia em Portugal ter recusado o visto de entrada no país ao casal Pinheiro e ao seu advogado, que deveriam participar num programa televisivo.
Andrei Nesterenko afirmou que os órgão da segurança social da Rússia estão a tomar todas as medidas necessárias para que os interesses de Alexandra não sejam violados.
Alguns órgãos de informação russos chamam a atenção para o facto de estas palavras serem proferidas no momento em que aumenta o interesse pelos destinos de Alexandra na Internet russa.
“Assinalamos que, nos últimos dias, os blogers, que viram as reportagens dos canais de televisão russos, levantaram barulho em torno da “estória portuguesa””, escreve o jornal newsru.com.
“Saltava aos olhos que os apresentadores e os correspondentes faziam acompanhar as reportagens sobre o destino de Sandra com comentários optimistas e inflamados sobre a reunificação da família, embora as imagens do distrito de Iaroslav (terra onde vive Alexandra) levantam dúvidas sobre o seu bem-estar”, acrescenta o jornal electrónico.
A agência Interfax fala de “happy end duvidoso”: “Teria sido justa a decisão do tribunal de entregar Alexandra à mãe biológica? Muitos têm dúvidas e na Internet tem lugar uma petição sobre o regresso da menina à família portuguesa de acolhimento”.

quarta-feira, maio 27, 2009

Rússia deu "tiro no pé" no caso de Alexandra


Peço desculpa aos leitores por, nos últimos dias, não ter prestado muita atenção ao blog, mas o trabalho tem sido muito. Arranjei agora uns minutos para deixar aqui uma opinião sobre o "caso Alexandra"

O caso de Alexandra, a menina que foi autorizada a partir para a Rússia com a mãe biológica, ainda está longe do fim, mas as autoridades russas, ao recusarem o visto à família afectiva portuguesa, deram “um tiro no pé”, desferiram um golpe no prestígio do seu país pelo menos aos olhos de muitos portugueses.
Segundo a família Pinheiro, tudo estava acordado para receberem os documentos necessários à realização da viagem a Moscovo, a fim de participarem no programa televisivo “Que falem!”. A Embaixada da Rússia em Lisboa tinha comunicado que tudo estava em ordem, mas, à última hora, deu “marcha atrás”.
Não convence a explicação de que o canal televisivo russo ORT alegadamente não enviou nos prazos previstos a cópia-convite para que o Consulado russo na capital portuguesa concedesse o visto russo à família Pinheiro e ao seu advogado. Tratando-se de duas instituições importantes na Rússia: o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a ORT (o maior televisivo público do país), esse problema, com forte repercussão em Portugal, poderia ser realizado em minutos.
No fundo, tratava-se de um problema humanitário que, se fosse resolvido operativamente, apenas contribuiria para melhorar a imagem da Rússia e das autoridades russas entre os portugueses. Mas para o Kremlin, Portugal não passa de um país minúsculo do Continente Europeu, esquecendo-se que temos o direito a veto em organizações importantes como NATO e União Europeia.
Mais ainda, a recusa do visto aos pais afectivos de Alexandra pode ser interpretada como uma falta de respeito por Portugal, um dos países da União Europeia que mais se esforça pelo desenvolvimento das relações de amizade e cooperação entre a Rússia e a UE.
A única explicação para tal decisão só pode ser encontrada no receio de que a participação dos portugueses no programa televisivo estragasse ainda mais o retrato da “heroína” Natália Zarubina, “vencedora da justiça portuguesa”, ou de que a mãe biológica de Alexandra se comportasse da mesma forma que se comportou perante as câmaras de televisão da NTV.
Por isso, se o programa se realizar (pois as filmagens estão a ser objecto de sucessivos atrasos), Natália poderá voltar a “brilhar” e a repetir as acusações que tem feito à família Pinheiro, e esta não terá direito a defesa.

segunda-feira, maio 25, 2009

Contributo para a História (Guiné-Bissau e Cabo Verde)


Portugueses utilizaram divergências entre guineenses e cabo-verdianos para assinar Amílcar Cabral

As autoridades militares portuguesas conseguiram liquidar Amílcar Cabral, dirigente do PAIGC, só à segunda tentativa e aproveitando-se das contradições existentes dentro do movimento de libertação nacional da Guiné Bissau e de Cabo Verde, escreve nas suas memórias o diplomata soviético Pavel Danilov.
Pavel Danilov, na altura 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada da URSS na Guiné-Conacry considera que o general Spínola recebeu ordens para realizar uma operação militar contra a Guiné-Conacri com dois objectivos.
“O objectivo consistia em liquidar o estado-maior do PAIGC…Também era importante o facto de o PAIGC manter em Conacri presos de guerra portugueses, entre os quais havia parentes de influentes famílias portuguesas”, escreve Danilov em “Meses Agitados em Conacri”, publicado em Moscovo.
Segundo ele, a primeira tentativa ocorreu na noite de 19 para 20 de Novembro de 1970, mas falhou devido à falta de coordenação entre as tropas portuguesas e as forças da oposição ao Presidente guineense Sekou Touré. Por exemplo, o agente do serviço de informações da República Federal Alemã, que participava na operação e devia dar o sinal para o seu início, falhou a sua missão por o seu carro ser semelhante ao de Amílcar Cabral.
“Visto que o seu Wolkswagen branco era da mesma marca, cor e modelo do automóvel de Amílcar Cabral, secretário-geral do PAIGC, foi-lhe dado ordem para parar no primeiro posto montado pelos mercenários. Em vez de travar, ele carregou no acelerador. O carro avançou, seguiu-se um tiro de lança-granadas. O agente foi assassinado e a sua secretária ferida”, recorda Danilov.
A segunda tentativa para liquidar os dirigentes do PAIGC foi feita em Janeiro de 1973 e foi parcialmente coroada de êxito.
“O fracasso da agressão militar directa contra a Guiné e da tentativa de liquidação do estado-maior do PAIGC, que desde 1960 se encontrava em Conacri, não fez desistir os colonizadores portugueses de novas tentativas de destruição desse estado-maior e aprisionamento dos seus dirigentes. Os portugueses optaram pela táctica do descrédito dos que eram mulatos, originários de Cabo Verde. No plano propagandista, insistia-se no atiçamento do ódio dos povos autóctones da Guiné-Bissau em relação aos mulatos, não só para os afastar da direcção da luta armada, mas também para liquidar fisicamente Amílcar Cabral, Aristides Pereira e outros dirigentes do movimento de libertação nacional”, recorda Danilov.
“Os agentes da PIDE”, continua ele, “conseguíram infiltrar homens seus na segurança da sede do PAIGC e para o cargo de chefe interino da segurança foi nomeado um seu agente activo…, que gozava da confiança de Amílcar Cabral. Ao todo, para participar na conjura foram preparados cerca de 50 homens, dispersos por diversos pontos de aquartelamento dos destacamentos do PAIGC”.
O diplomata soviético descreve assim o assassinato de Amílcar Cabral: Na noite de 20 de Janeiro, Amílcar Cabral e a sua esposa Ana Maria regressavam de uma recepção na embaixada polaca. Ele estacionou o automóvel perto de sua casa. Nesse momento, de detrás da casa apareceu um jeep. Inocêncio, um dos dirigentes da conspiração, saiu dele, abriu a porta do carro de Amílcar e ordenou-lhe que saísse. Os conspiradores que o acompanhavam apontaram as metralhadoras para Amílcar e Ana Maria. Depois de sair do automóvel, Amílcar Cabral perguntou: “O que significa isto?” Os conspiradores tentaram amarrá-lo. Como ele não deixou fazer isso, Inocêncio deu-lhe um tiro de pistola. À luz dos faróis, Ana Maria viu como Amílcar se sentou no chão e o sangue corria rapidamente através da roupa. Depois de encostar a mão ao ferimento, ele disse: “Que fazem? Os colonizadores ainda não saíram da nossa terra e vós já os servis, traidores!” Algum tempo depois, Inocêncio ordenou assassinar Amílcar Cabral. O seu cúmplice, Bacar, baixou a metralhadora e disparou uma rajada. Amílcar ficou deitado a alguns metros de sua casa”.
Os executores da operação conseguíram também aprisionar “Aristides Pereira, Vasco Cabral, José Araújo e outros militantes mulatos do PAIGC” e tentaram levá-los em lanchas para Bissau, mas, devido à intervenção de um navio de guerra soviético que se encontrava em Conacri, todos eles foram libertados.
Segundo Danilov, Aristides Pereira, que sucedeu a Amílcar Cabral à frente do PAIGC, teve de receber tratamento em Moscovo a fim de evitar a amputação das mãos. Ele tinha sido amarrado com força pelos raptores e esteve assim durante muitas horas no porão de uma das lanchas.

domingo, maio 24, 2009

Memórias subjectivas da pesca do bacalhau


Eu não andei a pescar bacalhau na Terra Nova ou na Groenlândia, mas só talvez porque tenha nascido quatro anos mais tarde do que o meu irmão mais velho, o último membro da família a embarcar num navio que, segundo me recordo, ainda tinha velas, foi o Luísa Ribau.
Recordo-me desde a mais tenra idade dessa aventura dos pescadores da Póvoa de Varzim e Caxinas, das histórias que contavam o meu avô, o meu pai, tio, cunhados e irmão.
Recordo-me dos preparativos para a pesca do bacalhau, que começavam na casa de cada bacalhoeiro. Lembro-me de ver o meu avô, pai e tios a talharem as velas dos botes no quintal da nossa casa na Poça da Barca, recordo-me do cheiro a óleo de peixe que elas utilizavam para tornar as velas impermeáveis.
Em frente de minha casa, havia ainda uma pequena cordoaria, pertencente a Francisco Quintas, o criador da grande empresa de cordoaria e cabos que ainda existe. Aí, os pescadores preparavam as linhas para pescar.
Não me lembro de os meus pais me terem levado alguma vez a Lisboa quando da partida do navio para a Terra Nova, no caso do meu pai, o "Vaz", pois não era costume levar os filhos à despedida. Lembro-me que chegava um camião para carregar os grandes sacos de lona com a roupa e os pipos de vinho, que deveriam dar para seis meses de faina. Um ou dois dias depois, chegava a camioneta que levava os homens. E isto repetia-se ano após ano.
A ansiedade era grande quando nós, crianças, começavamps a ouvir falar do regresso dos bacalhoeiros. Recordo-me que, à noite, a minha avó e minha mãe ligavam um rádio enorme que tínhamos em casa para apanhar (como se dizia nas Caxinas) as comunicações dos navios quando começavam a chegar aos Açores.
Quando se conseguia determinar a hora e o dia da entrada na barra de Aveiro, começava a azáfama de juntar as esposas de todos os marinheiros da Póvoa, Caxinas e Vila do Conde para alugarem o autocarro que deveria trazê-los para casa.
Nós crianças tinhamos direito a "farpela nova", embora seis meses de ausência dos pais em casa, obrigavam muitas das mães a irem penhorar roupas e outros valores até que chegasse o dinheiro conseguido na viagem desse ano.
Entre as minhas recordações mais remotas da infância estão a viagens a Aveiro, as entradas no navio "Vaz" e a imagem do capitão do navio, Armindo Ré, que os marinheiros diziam ser um homem duro, mas que para nós crianças não passava de um velho simpático.
Quando não íamos a Aveiro, ficavamos à espera da chegada da bagagem, pois havia sempre a pequena esperança de que lá vinha uma pequena prenda de São João da Terra Nova: alguma peça de roupa estranha ou algum brinquedo. Mais tarde, quando comecei a fumar às escondidas, as esperanças eram maiores porque se sabia que os bacalhoeiros traziam marcas de cigarros raros.
Íamos esperar os camiões carregados com os sacos às Caxinas, onde, nessa altura, a miudagem local nos recebia de uma forma mais cordial do que habitualmente. Entre os rapazes de que me recordo está o André, conhecido jogador do FCP, cujo pai era camarada do meu no "Vaz".
Embora o meu pai trouxesse sempre óleo de fígado de bacalhau, isso não era o petisco preferido. As latas enormes, de três ou cinco quilos, de margarina e manteiga eram uma autêntica delícia para o nosso pequeno-almoço. As caras, as línguas de bacalhau ainda não eram as iguarias de hoje para nós.
Depois vinha a semana das "estórias", em que à noite, depois da ceia, se ouviam as aventuras da safra: desaparecimento de botes, fuga de alguns pescadores para o Canadá e os maus tratos recebidos do comandante, os desembarques em São da Terra Nova, etc.
Recordo-me que eu e minhas irmãs podíamos ficar a ouvir durante toda a noite, não fosse a minha mãe ou pai mandar-nos para a cama.
Esses relatos do meu avô, do meu pai, tios, irmão e cunhados nunca me atraíram para o mar, compreendia apenas que eles suportavam tudo aquilo para evitar a guerra do ultramar (oito anos de pesca de bacalhau permitiam evitar o serviço militar), mas recordo-me das palavras de meu pai de que a tropa estava longe de ser pior do que a "escravatura do bacalhau".
Regressados do bacalhau, os pescadores íam trabalhar para os barcos de pesca da Póvoa e Caxinas até à próxima partida para o bacalhau.
E assim durante gerações, anos... Francisco, Agonia, Carlos, João, Alberto, José, Filipe... uma lista interminável de familiares e conhecidos que atravessaram a "epopeia do bacalhau"...
São Ruy, Santa Joana, Vaz, Creoula, Sernache, Luísa Ribau... são apenas alguns dos nomes de navios bacalhoeiros que encalharam para sempre na minha memória.

Bacalhau português cada vez mais russo


A Empresa de Transformação de Peixe de Murmansk, porto marítimo situado no norte da Rússia, decidiu criar uma “seca” para o bacalhau a fim de o exportar depois para Portugal, Espanha e França.
Até agora, a Rússia, um dos maiores exportadores de bacalhau, exportava, directamente ou através da Noruega, “fiel amigo” congelado ou salgado, sendo Portugal o mais importante cliente desse peixe russo.
“A maioria dos habitantes do norte da Rússia talvez já se tenham esquecido do que é bacalhau seco, duro como a pedra. Antes já era difícil encontrá-lo nas lojas, mas agora é mesmo impossível: como se costuma dizer, tem um cheiro específico e por isso não goza de procura”, escreve hoje o jornal Murmanski Vestnik”.
“Falando sinceramente, não como bacalhau seco. Nós desabituámo-nos a esse peixe, preferimos fresco. Talvez sirva de petisco para a cerveja, mas é salgado demais”, declara Tamara Malakhova, a chefe da nova produção.
“Mas, em Portugal e Espanha, o bacalhau seco é considerado uma especialidade fantástica”, revela o diário, sublinhando que isso levou a um investimento de cerca de 160 mil euros na seca do bacalhau, que irá criar 50 novos postos de trabalho em Murmansk.
“Os trabalhadores estão agora a estagiar em Portugal”, declarou ao diário Mikhail Zub, director da Fábrica de Transformação de Peixe de Murmansk.
Segundo Mikhail Zub, “a produção já começou e, dentro em breve, teremos o primeiro lote de bacalhau seco. Segundo os nossos cálculos, isto começará a dar lucro dentro de um ano. Os principais mercados de escoamento são Portugal, Espanha e França. Neste momento, realizamos conversações sobre fornecimentos para esses países”.