quarta-feira, junho 03, 2009

Passem, finalmente, das promessas à prática




Caros leitores, peço desculpa por só agora estar a escrever, mas a actividade profissional a isso obriga. A razão de tão longa ausência foi uma ida à vila de Pretchistoe, no Distrito de Iaroslavl, onde passei dois dias a ver como vive Alexandra e a sua mãe Natália Zarubina.
As condições em que a criança vive, e isto já não deve ser nenhuma novidade nem para os portugueses, nem para os russos, podem ser consideradas humanas se analisadas há luz de meados do séc. XX, ou talvez até de antes.
A vila de Pretchistoe, que em russo significa “limpíssima”, “bem limpa”, é uma vila como outros milhares de localidades russas, com casas novas e velhas, estradas sofríveis e más, etc., etc.
Mas, aqui, o dramático e o importante é constatar que a casa da família Zarubin não tem o mínimo de condições de vida. Construída de madeira, é velha, está inclinada, não tem canalização, nem sequer retrete.
Trata-se de uma família que vive com grandes dificuldades económicas, o pai e o irmão de Natália não deixam dúvidas que nunca perdem a mínima oportunidade de consumir bebidas alcoólicas em quantidades significativas.
Quanto à mãe da Alexandra, nos dois dias em que lá estive, pude constatar que ela não tinha bebido álcool… e nada mais. Diz-se decidida a não voltar mais a Portugal e a refazer a vida na Rússia…
A menina tem bom aspecto e ainda não entende o que se passa.
Resumindo, porque o tempo aperta, vão lendo o que tenho escrito para a Lusa e vejam hoje a SIC, pois as imagens valem mais do que mil palavras.
Tenho recebido dezenas de mails de leitores a perguntarem o que se pode fazer e aproveito para responder a todos: é preciso passar das promessas aos actos para ajudar a Alexandra e a sua família russa.
Não vou discutir mais se o Tribunal de Guimarães decidiu bem ao mal, se a criança saiu ou não legalmente de Portugal, etc. Isso são perguntas às quais as autoridades portuguesas devem responder.
Nem vou discutir se as autoridades russas estão a cumprir ao não o que prometeram no tribunal de Guimarães, porque vi que nada estão a fazer. A menina tem sido visitada por médicos, polícias encarregados de menores, funcionárias da Segurança Social, dezenas de jornalistas russos e portugueses, mas os resultados são praticamente nulos.
A justificação de que Alexandra vive “como vivem muitos outros milhares de crianças russas” não me satisfaz nada, pois, pelo menos em relação à menina, as autoridades russas comprometeram-se perante um tribunal. A Rússia, que pretende ao estatuto de superpotência, tem enormes riquezas naturais, é um Estado soberano e, por isso, os seus dirigentes e só eles podem resolver este tipo de situações.
Aos portugueses, digo: arranjem forma de fazer chegar à mãe da Alexandra ou a alguma organização de defesa dos direitos da criança na Rússia idónea meios financeiros e outros para melhorar a vida desta família. Não consigo imaginar mais nada.
Mas deixo aqui um aviso: cuidado com os impostores que poderão tentar utilizar esta situação.

terça-feira, junho 02, 2009

As desventuras de Tintim na Rússia


A Rússia foi talvez o último país do mundo aonde chegaram os livros de Tintim, não obstante este herói da BD ter tido a sua primeira aventura precisamente no "País dos Sovietes".
O primeiro e, por enquanto, único livro de aventuras de Tintim chegou aos leitores russos apenas em 2004 e chama-se “Os Charutos do Faraó”.
Os especialistas russos em história da banda desenhada não têm dúvidas de que este enorme atraso na chegada das aventuras de Tintim à Rússia se deveu ao primeiro álbum de Hergé “Tintim no País dos Sovietes” (1929), obra que esteve proibida na União Soviética por ser considerada “anticomunista” e que pelo mesmo motivo continua a não chegar às mãos dos leitores chineses.
Georges Remi (Hergé) coloca os seus heróis, Tintim e Milú, no período revolucionário em que os comunistas instauravam o poder pela força, tendo-se baseado na obra “Moscou sans voiles”, de Joseph Douillet, diplomata belga que viveu e trabalhou durante nove anos na Rússia soviética.
Alguns episódios do primeiro álbum de Hergé são uma ilustração exacta de episódios descritos por Joseph Douillet, como, por exemplo, “as eleições democráticas” na aldeia com uma pistola apontada à cabeça.
Sendo o diplomata belga um anticomunista, os estudiosos russos de banda desenhada europeia consideram aí residir uma das causas da “falta de qualidade” dessa obra.
“Não obstante a abordagem extremamente pormenorizada [da situação na Rússia soviética], a primeira experiência falhou, pois deu origem a uma banda desenhada bastante primitiva que contém numerosos disparates", como a existência de um agente da polícia política soviétiva OGPU que adora bananas, considera Elena Bulakhtina, reconhecendo, porém, que “há lugares divertidos”.
Opinião semelhante tem Mikhail Khatchaturov, chamando a atenção para o facto de “Tintim no País dos Sovietes” ter sido “o único volume da série das Aventuras de Tintin que não foi posteriormente trabalhado e que, durante muito tempo, não foi reeditado”.
“Só recentemente ele voltou a ser publicado, muitos anos após a morte do autor, e por isso agora surge orgulhosamente no catálogo da série como o número um”, sublinha Khatchaturov.
Não obstante o comunismo ter caído na União Soviética/Rússia há quase 18 anos, Tintim continua a ser desconhecido entre o grande público russo, ao contrário de outros heróis da banda desenhada como Astérix. “Os Charutos do Faraó” foi a primeira e única das aventuras de Tintim a chegar à Rússia com uma edição de cinco mil exemplares, o que é extremamente pouco para um mercado livreiro tão imenso como é o russo.
Tintim parece ter-se irremediavelmente atrasado na sua chegada à Rússia, mesmo sem sovietes.

domingo, maio 31, 2009

Medvedev e Putin lutam pela opinião pública


Peço desculpa a um dos leitores que me pediu, há uns dias atrás, para reagir à notícia de que o primeiro-ministro Vladimir Putin começou a ter uma coluna permanente na revista Pioneiro Russo, mas estive ocupado com outras questões importantes.

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, terá uma coluna permanente na revista mensal Russkii Pioner (Pioneiro Russo) a partir desta sexta-feira (29). Segundo o editor da revista, Andrei Kolesnikov, não será feita nenhuma correção no texto escrito em "um excelente russo".

No primeiro artigo, intitulado "Por que é difícil demitir pessoas", ele admite, pela primeira vez, os conflitos que ocorreram no Kremlin durante os oito anos que foi presidente.

"Surgem sempre conflitos numa equipa, especialmente numa grande equipa. Isso acontece a cada minuto, a cada segundo - simplesmente porque há sempre disputa de interesses entre as pessoas", escreveu Putin.
Ele cita ainda as maneiras que usava para demitir as pessoas: "Em contraste com governantes soviéticos anteriores, eu sempre faço isso pessoalmente. Eu, geralmente, chamo a pessoa ao meu escritório, olho nos olhos e digo: 'Há reclamações concretas. Se você acredita que não são verdadeiras, então, por favor, você pode lutar contra elas, defenda-se".
"Às vezes, do lado de fora, parece que uma pessoa deveria simplesmente ser varrida com uma vassoura. Mas posso assegurar a vocês que não é sempre assim. Nunca se deve falar mal de alguém pelas costas e não é permissível demitir alguém e colocá-la de lado só porque alguém lhe falou mal dela", conclui o primeiro-ministro.

É curioso assinalar que esta decisão de Putin escrever a coluna surgiu após o Presidente Medvedev ter criado o seu blogue na Internet.

Segundo alguns analistas russos, parece tratar-se de uma luta entre Dmitri Medvedev e Vladimir Putin pelo apoio da opinião pública russa. O primeiro-ministro russo, no primeiro artigo, tenta fugir à sua imagem de político rígido, frio, mostrar que é uma pessoa com sentimentos, resumindo, tenta "aproximar-se do povo", o que Medvedev tem feito ao criar o blog, dar entrevistas a órgãos de informação da oposição, etc.

As eleições presidenciais na Rússia ainda estão longe, mas é importante ganhar o apoio dos eleitores, tanto mais que a crise económica e social no país se agudiza e a situação pode complicar-se.

Para quem quiser ler o texto em russo: www.ruspioner.ru/news/557.html

sexta-feira, maio 29, 2009

A felicidade de Alexandra acima de tudo


Caros leitores, eu não tenha prestado a devida atenção ao blog devido ao facto de as minhas actividades profissionais me impedirem se ser mais frequente na escrita.

Tenho acompanhado passo a passo "o caso Alexandra" na Rússia e, por isso, peço a todos os leitores deste blog que tenham o maior respeito por todas as partes, pois só assim será possível ajudar a menina.

Vi-me obrigado a apagar um comentário insultuoso sobre a Rússia e os russos, porque jamais poderei concordar com isso. Nem os russos, nem os portugueses têm culpa pelos erros dos seus juízes, diplomatas ou governantes.

Sublinho a minha posição de sempre: não há no mundo povos maus e bons, mas sim pessoas boas e más, dirigentes competentes e incompetentes. Vivo há 33 anos na Rússia e tenho o maior respeito por este povo. Defendo a existência de boas relações entre Portugal e a Rússia, pois não há problemas nos nossos contactos que não possam ser superados.

Mais, se consultarem as petições na Internet e os comentários no espaço cibernauta russo, verão que existe uma intensa discussão e muita simpatia pelo casal de acolhimento português.

Claro que é importante acompanhar este caso, chamar a atenção para os problemas, mas de forma calma e sensata, sem sentimentos "patrioteiros".

O despertar da opinião pública russa para a situação de Alexandra é extremamente importante, pois levou as autoridades russas a tomarem medidas. A ida de membros da Câmara Social junto do Presidente da Rússia à aldeia onde vive a menina é um factor importante, significa que, no mínimo, as autoridades russas pretendem mostrar que sabem preocupar-se com os seus cidadãos. A menina apenas ganhará com isso.


quinta-feira, maio 28, 2009

Autoridades russas reagem ao "caso Alexandra"


O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia não comentou a recusa da concessão de vistos à família Pinheiro, mas considera que na imprensa russa e portuguesa estão a ser publicados artigos com “carácter abertamente provocatório”.
“Gostaria de dirigir-me aos jornalistas e órgãos de informação russos para darem a possibilidade à pequena russa, que, devido à força das circunstâncias, foi privada da possibilidade de contactar com a mãe e outros parentes, de se habituar calmamente ao novo meio e aos parentes novamente adquiridos”, declarou Andrei Nesterenko, porta-voz do MNE da Rússia, numa conferência de imprensa em Moscovo.
“Trata-se do destino de uma criança concreta, que não deve ser transformado em mais um reality-show”, acrescentou.
Nesterenko assinalou que “nos últimos tempos, nos órgãos de informação russos e portugueses foram publicados numerosos artigos sobre o regresso à pátria da cidadã russa Zarubina com a filha Alexandra, e alguns deles têm um carácter abertamente provocatório”.
O porta-voz da diplomacia russa não comentou o facto de a Embaixada da Rússia em Portugal ter recusado o visto de entrada no país ao casal Pinheiro e ao seu advogado, que deveriam participar num programa televisivo.
Andrei Nesterenko afirmou que os órgão da segurança social da Rússia estão a tomar todas as medidas necessárias para que os interesses de Alexandra não sejam violados.
Alguns órgãos de informação russos chamam a atenção para o facto de estas palavras serem proferidas no momento em que aumenta o interesse pelos destinos de Alexandra na Internet russa.
“Assinalamos que, nos últimos dias, os blogers, que viram as reportagens dos canais de televisão russos, levantaram barulho em torno da “estória portuguesa””, escreve o jornal newsru.com.
“Saltava aos olhos que os apresentadores e os correspondentes faziam acompanhar as reportagens sobre o destino de Sandra com comentários optimistas e inflamados sobre a reunificação da família, embora as imagens do distrito de Iaroslav (terra onde vive Alexandra) levantam dúvidas sobre o seu bem-estar”, acrescenta o jornal electrónico.
A agência Interfax fala de “happy end duvidoso”: “Teria sido justa a decisão do tribunal de entregar Alexandra à mãe biológica? Muitos têm dúvidas e na Internet tem lugar uma petição sobre o regresso da menina à família portuguesa de acolhimento”.

quarta-feira, maio 27, 2009

Rússia deu "tiro no pé" no caso de Alexandra


Peço desculpa aos leitores por, nos últimos dias, não ter prestado muita atenção ao blog, mas o trabalho tem sido muito. Arranjei agora uns minutos para deixar aqui uma opinião sobre o "caso Alexandra"

O caso de Alexandra, a menina que foi autorizada a partir para a Rússia com a mãe biológica, ainda está longe do fim, mas as autoridades russas, ao recusarem o visto à família afectiva portuguesa, deram “um tiro no pé”, desferiram um golpe no prestígio do seu país pelo menos aos olhos de muitos portugueses.
Segundo a família Pinheiro, tudo estava acordado para receberem os documentos necessários à realização da viagem a Moscovo, a fim de participarem no programa televisivo “Que falem!”. A Embaixada da Rússia em Lisboa tinha comunicado que tudo estava em ordem, mas, à última hora, deu “marcha atrás”.
Não convence a explicação de que o canal televisivo russo ORT alegadamente não enviou nos prazos previstos a cópia-convite para que o Consulado russo na capital portuguesa concedesse o visto russo à família Pinheiro e ao seu advogado. Tratando-se de duas instituições importantes na Rússia: o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a ORT (o maior televisivo público do país), esse problema, com forte repercussão em Portugal, poderia ser realizado em minutos.
No fundo, tratava-se de um problema humanitário que, se fosse resolvido operativamente, apenas contribuiria para melhorar a imagem da Rússia e das autoridades russas entre os portugueses. Mas para o Kremlin, Portugal não passa de um país minúsculo do Continente Europeu, esquecendo-se que temos o direito a veto em organizações importantes como NATO e União Europeia.
Mais ainda, a recusa do visto aos pais afectivos de Alexandra pode ser interpretada como uma falta de respeito por Portugal, um dos países da União Europeia que mais se esforça pelo desenvolvimento das relações de amizade e cooperação entre a Rússia e a UE.
A única explicação para tal decisão só pode ser encontrada no receio de que a participação dos portugueses no programa televisivo estragasse ainda mais o retrato da “heroína” Natália Zarubina, “vencedora da justiça portuguesa”, ou de que a mãe biológica de Alexandra se comportasse da mesma forma que se comportou perante as câmaras de televisão da NTV.
Por isso, se o programa se realizar (pois as filmagens estão a ser objecto de sucessivos atrasos), Natália poderá voltar a “brilhar” e a repetir as acusações que tem feito à família Pinheiro, e esta não terá direito a defesa.

segunda-feira, maio 25, 2009

Contributo para a História (Guiné-Bissau e Cabo Verde)


Portugueses utilizaram divergências entre guineenses e cabo-verdianos para assinar Amílcar Cabral

As autoridades militares portuguesas conseguiram liquidar Amílcar Cabral, dirigente do PAIGC, só à segunda tentativa e aproveitando-se das contradições existentes dentro do movimento de libertação nacional da Guiné Bissau e de Cabo Verde, escreve nas suas memórias o diplomata soviético Pavel Danilov.
Pavel Danilov, na altura 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada da URSS na Guiné-Conacry considera que o general Spínola recebeu ordens para realizar uma operação militar contra a Guiné-Conacri com dois objectivos.
“O objectivo consistia em liquidar o estado-maior do PAIGC…Também era importante o facto de o PAIGC manter em Conacri presos de guerra portugueses, entre os quais havia parentes de influentes famílias portuguesas”, escreve Danilov em “Meses Agitados em Conacri”, publicado em Moscovo.
Segundo ele, a primeira tentativa ocorreu na noite de 19 para 20 de Novembro de 1970, mas falhou devido à falta de coordenação entre as tropas portuguesas e as forças da oposição ao Presidente guineense Sekou Touré. Por exemplo, o agente do serviço de informações da República Federal Alemã, que participava na operação e devia dar o sinal para o seu início, falhou a sua missão por o seu carro ser semelhante ao de Amílcar Cabral.
“Visto que o seu Wolkswagen branco era da mesma marca, cor e modelo do automóvel de Amílcar Cabral, secretário-geral do PAIGC, foi-lhe dado ordem para parar no primeiro posto montado pelos mercenários. Em vez de travar, ele carregou no acelerador. O carro avançou, seguiu-se um tiro de lança-granadas. O agente foi assassinado e a sua secretária ferida”, recorda Danilov.
A segunda tentativa para liquidar os dirigentes do PAIGC foi feita em Janeiro de 1973 e foi parcialmente coroada de êxito.
“O fracasso da agressão militar directa contra a Guiné e da tentativa de liquidação do estado-maior do PAIGC, que desde 1960 se encontrava em Conacri, não fez desistir os colonizadores portugueses de novas tentativas de destruição desse estado-maior e aprisionamento dos seus dirigentes. Os portugueses optaram pela táctica do descrédito dos que eram mulatos, originários de Cabo Verde. No plano propagandista, insistia-se no atiçamento do ódio dos povos autóctones da Guiné-Bissau em relação aos mulatos, não só para os afastar da direcção da luta armada, mas também para liquidar fisicamente Amílcar Cabral, Aristides Pereira e outros dirigentes do movimento de libertação nacional”, recorda Danilov.
“Os agentes da PIDE”, continua ele, “conseguíram infiltrar homens seus na segurança da sede do PAIGC e para o cargo de chefe interino da segurança foi nomeado um seu agente activo…, que gozava da confiança de Amílcar Cabral. Ao todo, para participar na conjura foram preparados cerca de 50 homens, dispersos por diversos pontos de aquartelamento dos destacamentos do PAIGC”.
O diplomata soviético descreve assim o assassinato de Amílcar Cabral: Na noite de 20 de Janeiro, Amílcar Cabral e a sua esposa Ana Maria regressavam de uma recepção na embaixada polaca. Ele estacionou o automóvel perto de sua casa. Nesse momento, de detrás da casa apareceu um jeep. Inocêncio, um dos dirigentes da conspiração, saiu dele, abriu a porta do carro de Amílcar e ordenou-lhe que saísse. Os conspiradores que o acompanhavam apontaram as metralhadoras para Amílcar e Ana Maria. Depois de sair do automóvel, Amílcar Cabral perguntou: “O que significa isto?” Os conspiradores tentaram amarrá-lo. Como ele não deixou fazer isso, Inocêncio deu-lhe um tiro de pistola. À luz dos faróis, Ana Maria viu como Amílcar se sentou no chão e o sangue corria rapidamente através da roupa. Depois de encostar a mão ao ferimento, ele disse: “Que fazem? Os colonizadores ainda não saíram da nossa terra e vós já os servis, traidores!” Algum tempo depois, Inocêncio ordenou assassinar Amílcar Cabral. O seu cúmplice, Bacar, baixou a metralhadora e disparou uma rajada. Amílcar ficou deitado a alguns metros de sua casa”.
Os executores da operação conseguíram também aprisionar “Aristides Pereira, Vasco Cabral, José Araújo e outros militantes mulatos do PAIGC” e tentaram levá-los em lanchas para Bissau, mas, devido à intervenção de um navio de guerra soviético que se encontrava em Conacri, todos eles foram libertados.
Segundo Danilov, Aristides Pereira, que sucedeu a Amílcar Cabral à frente do PAIGC, teve de receber tratamento em Moscovo a fim de evitar a amputação das mãos. Ele tinha sido amarrado com força pelos raptores e esteve assim durante muitas horas no porão de uma das lanchas.

domingo, maio 24, 2009

Memórias subjectivas da pesca do bacalhau


Eu não andei a pescar bacalhau na Terra Nova ou na Groenlândia, mas só talvez porque tenha nascido quatro anos mais tarde do que o meu irmão mais velho, o último membro da família a embarcar num navio que, segundo me recordo, ainda tinha velas, foi o Luísa Ribau.
Recordo-me desde a mais tenra idade dessa aventura dos pescadores da Póvoa de Varzim e Caxinas, das histórias que contavam o meu avô, o meu pai, tio, cunhados e irmão.
Recordo-me dos preparativos para a pesca do bacalhau, que começavam na casa de cada bacalhoeiro. Lembro-me de ver o meu avô, pai e tios a talharem as velas dos botes no quintal da nossa casa na Poça da Barca, recordo-me do cheiro a óleo de peixe que elas utilizavam para tornar as velas impermeáveis.
Em frente de minha casa, havia ainda uma pequena cordoaria, pertencente a Francisco Quintas, o criador da grande empresa de cordoaria e cabos que ainda existe. Aí, os pescadores preparavam as linhas para pescar.
Não me lembro de os meus pais me terem levado alguma vez a Lisboa quando da partida do navio para a Terra Nova, no caso do meu pai, o "Vaz", pois não era costume levar os filhos à despedida. Lembro-me que chegava um camião para carregar os grandes sacos de lona com a roupa e os pipos de vinho, que deveriam dar para seis meses de faina. Um ou dois dias depois, chegava a camioneta que levava os homens. E isto repetia-se ano após ano.
A ansiedade era grande quando nós, crianças, começavamps a ouvir falar do regresso dos bacalhoeiros. Recordo-me que, à noite, a minha avó e minha mãe ligavam um rádio enorme que tínhamos em casa para apanhar (como se dizia nas Caxinas) as comunicações dos navios quando começavam a chegar aos Açores.
Quando se conseguia determinar a hora e o dia da entrada na barra de Aveiro, começava a azáfama de juntar as esposas de todos os marinheiros da Póvoa, Caxinas e Vila do Conde para alugarem o autocarro que deveria trazê-los para casa.
Nós crianças tinhamos direito a "farpela nova", embora seis meses de ausência dos pais em casa, obrigavam muitas das mães a irem penhorar roupas e outros valores até que chegasse o dinheiro conseguido na viagem desse ano.
Entre as minhas recordações mais remotas da infância estão a viagens a Aveiro, as entradas no navio "Vaz" e a imagem do capitão do navio, Armindo Ré, que os marinheiros diziam ser um homem duro, mas que para nós crianças não passava de um velho simpático.
Quando não íamos a Aveiro, ficavamos à espera da chegada da bagagem, pois havia sempre a pequena esperança de que lá vinha uma pequena prenda de São João da Terra Nova: alguma peça de roupa estranha ou algum brinquedo. Mais tarde, quando comecei a fumar às escondidas, as esperanças eram maiores porque se sabia que os bacalhoeiros traziam marcas de cigarros raros.
Íamos esperar os camiões carregados com os sacos às Caxinas, onde, nessa altura, a miudagem local nos recebia de uma forma mais cordial do que habitualmente. Entre os rapazes de que me recordo está o André, conhecido jogador do FCP, cujo pai era camarada do meu no "Vaz".
Embora o meu pai trouxesse sempre óleo de fígado de bacalhau, isso não era o petisco preferido. As latas enormes, de três ou cinco quilos, de margarina e manteiga eram uma autêntica delícia para o nosso pequeno-almoço. As caras, as línguas de bacalhau ainda não eram as iguarias de hoje para nós.
Depois vinha a semana das "estórias", em que à noite, depois da ceia, se ouviam as aventuras da safra: desaparecimento de botes, fuga de alguns pescadores para o Canadá e os maus tratos recebidos do comandante, os desembarques em São da Terra Nova, etc.
Recordo-me que eu e minhas irmãs podíamos ficar a ouvir durante toda a noite, não fosse a minha mãe ou pai mandar-nos para a cama.
Esses relatos do meu avô, do meu pai, tios, irmão e cunhados nunca me atraíram para o mar, compreendia apenas que eles suportavam tudo aquilo para evitar a guerra do ultramar (oito anos de pesca de bacalhau permitiam evitar o serviço militar), mas recordo-me das palavras de meu pai de que a tropa estava longe de ser pior do que a "escravatura do bacalhau".
Regressados do bacalhau, os pescadores íam trabalhar para os barcos de pesca da Póvoa e Caxinas até à próxima partida para o bacalhau.
E assim durante gerações, anos... Francisco, Agonia, Carlos, João, Alberto, José, Filipe... uma lista interminável de familiares e conhecidos que atravessaram a "epopeia do bacalhau"...
São Ruy, Santa Joana, Vaz, Creoula, Sernache, Luísa Ribau... são apenas alguns dos nomes de navios bacalhoeiros que encalharam para sempre na minha memória.

Bacalhau português cada vez mais russo


A Empresa de Transformação de Peixe de Murmansk, porto marítimo situado no norte da Rússia, decidiu criar uma “seca” para o bacalhau a fim de o exportar depois para Portugal, Espanha e França.
Até agora, a Rússia, um dos maiores exportadores de bacalhau, exportava, directamente ou através da Noruega, “fiel amigo” congelado ou salgado, sendo Portugal o mais importante cliente desse peixe russo.
“A maioria dos habitantes do norte da Rússia talvez já se tenham esquecido do que é bacalhau seco, duro como a pedra. Antes já era difícil encontrá-lo nas lojas, mas agora é mesmo impossível: como se costuma dizer, tem um cheiro específico e por isso não goza de procura”, escreve hoje o jornal Murmanski Vestnik”.
“Falando sinceramente, não como bacalhau seco. Nós desabituámo-nos a esse peixe, preferimos fresco. Talvez sirva de petisco para a cerveja, mas é salgado demais”, declara Tamara Malakhova, a chefe da nova produção.
“Mas, em Portugal e Espanha, o bacalhau seco é considerado uma especialidade fantástica”, revela o diário, sublinhando que isso levou a um investimento de cerca de 160 mil euros na seca do bacalhau, que irá criar 50 novos postos de trabalho em Murmansk.
“Os trabalhadores estão agora a estagiar em Portugal”, declarou ao diário Mikhail Zub, director da Fábrica de Transformação de Peixe de Murmansk.
Segundo Mikhail Zub, “a produção já começou e, dentro em breve, teremos o primeiro lote de bacalhau seco. Segundo os nossos cálculos, isto começará a dar lucro dentro de um ano. Os principais mercados de escoamento são Portugal, Espanha e França. Neste momento, realizamos conversações sobre fornecimentos para esses países”.

sexta-feira, maio 22, 2009

Relações entre Rússia e UE batem no fundo


A Cimeira de Khabarovsk nada trouxe de concreto no incremento das relações entre Moscovo e Bruxelas, a não ser a promessa de continuação do diálogo, o que já não é pouco nos tempos actuais.

Voltaram a vir à tona as divergências no campo da energia. A UE insiste na necessidade da Rússia ratificar a Carta Energética, o Presidente Dmitri Medvedev responde "jamais!" e exige a elaboração de um novo documento. O problema já é antigo: a Europa quer ter acesso aos oleodutos e gasodutos russos, que continuam a ser monopólio de Estado, e Moscovo quer ter acesso ao mercado retalhista do gás no Velho Continente, bem como à aquisição de activos financeiros, o que é visto com desconfiança por Bruxelas.

A "guerra do gás" entre a Rússia e a Ucrânia esteve também no centro das atenções. Medvedev considera que a responsabilidade não é só do país fornecedor de combustível, mas também do país de trânsito e insinua que Kiev não tem dinheiro para comprar o gás necessário para encher os seus reservatórios, que, no próximo Inverno, irão fornecer a Europa. Trata-se de qualquer coisa como quatro mil milhões de dólares.

Por isso, o Kremlin afirma que, se a UE quer receber gás, tem de ajudar a Ucrânia a pagar a factura.

Iakov Urinson, antigo ministro da Economia da Rússia, chama a atenção para o facto de Moscovo estar a "puxar demasiadamente a corda" no diálogo com a UE, recordando que "no primeiro trimestre deste ano, os fornecimentos de gás russo à Europa diminuiram em 40%, mas que o consumo geral desceu apenas em 3-5%".

O Kremlin exige também a elaboração de um Tratado de Segurança Europeia que substitua o Acordo de Helsínquia de 1975, mas a UE, antes da cimeira, considerava que não vale a pena mexer nisso. Porém, durante a reunião de Khabarovski, Javier Solana aceitou pensar nessa possibilidade, sublinhando que o novo documento deverá conservar o "espírito de Helsínquia".

Trata-se de uma questão complexa, pois Moscovo pretende fixar no papel as novas realidades políticas e geográficas na Europa, que continuam a ser muito confusas. Irá defender o reconhecimento da independência da Abkházia e Ossétia do Sul em relação à Geórgia e talvez troque isso pelo reconhecimento do Kosovo. Mas isto é apenas uma suposição, pois, durante a cimeira, Geórgia e Kosovo foram dois pomos de discórdia.

O Kremlin também não olha com bons olhos para a "Parceria Oriental", organização que reúne alguns países do antigo "campo soviético" (Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia, Geórgia, Arménia e Azerbaijão) e que visa incrementar a cooperação com a UE, pois continua a achar que ninguém deve entrar na sua zona de influência, vendo nessa organização mais uma tentativa de isolar a Rússia.

As relações entre Moscovo e a UE degradaram-se seriamente em Agosto do ano passado, devido à guerra entre a Rússia e a Geórgia, e não conseguem voltar à normalidade.

quinta-feira, maio 21, 2009

Representantes europeus "vão sentir a grandeza da Rússia"


A realização da Cimeira Rússia/UE em Khabarovski permitirá aos parceiros europeus “sentir a grandeza da Rùssia”, declarou hoje o presidente russo, Dmitri Medvedev, ao discursar perante estudantes dessa cidade russa do Extremo Oriente.
Medvedev recordou que a última Cimeira Rússia/UE se realizou em Khanti-Manssiisk, no estremo norte do país, e que os participantes no encontro já então sentiram que essa terra ficava muito longe da Europa.
“Por força das circunstâncias, a Grande Europa estende-se do Atlântico até ao Extremo Oriente. E agora eles terão de realizar uma viagem significativa, por nove fusos horários, ou seja, deverão sentir a grandeza da Rússia”, acrescentou.
A Cimeira Rússia/UE começa hoje à noite com um almoço informal, em que participarão, além de Dmitri Medvedev, Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, e Vaclav Klaus, Presidente da República Checa, país que preside à UE.
No mesmo encontro, o dirigente russo defendeu a necessidade de continuar a desenvolver projectos estratégicos no campo dos transportes e da energia, não obstante a crise económica
Segundo ele, o êxito do desenvolvimento do Extremo Oriente russo depende das infraestruturas de transporte e energia, acrescentando que é necessário criar novas capacidades de transformação de recursos (petróleo, gás, madeira, metal).
Dmitri Medvedev sublinhou que a Rússia está determinada a realizar conjuntamente com a China projectos conjuntos na esfera energética no território do Extremo Oriente e do Transbaikal.
“É necessário atrair investimentos chineses para a construção de refinarias e petroquímicas, para a extracção de carvão, transporte marítimo e criação de novas capacidades nestas regiões”, declarou.
Instado pelos estudantes a responder à pergunta sobre o que irá fazer quando abandonar o cargo de Presidente da Rússia, Medvedev revelou que pretende voltar a ensinar Direito na universidade, mas não disse quando é que tenciona abandonar o Kremlin.

Afinal havia vodka!


Começo por sublinhar uma vez mais que não ponho em causa as decisões dos tribunais portugueses, mas apenas me limito a publicar um trecho de um artigo publicado hoje no tabolóide russo "Komsomolskaia Pravda", sem qualquer comentário.

Depois de descrever uma imagem idílica da recepção da pequena Alexandra na casa da avó, o jornalista acrescenta: "Tudo aparentemente estava bem, a família juntou-se, todos estavam felizes, a criança estava bem vestida e bonita. Mas... no chão estava uma garrafa de vodka quase vazia e existe suspeita de que a jovem mamã já tinha tido tempo de prová-la... A gabarolice do irmão André também tresandava a ressaca... Na mesa havia conservas com que os pais adoptivos portugueses tinham assustado a menina.. A mamã posava com agrado para as câmaras de vídeo, sendo o quadro decorado por um raminho de flores. A casa dos Zarubin tem o aspecto de uma decoração de cartão de um velho teatro para actores da capital".
Se alguém tiver dúvidas quanto à tradução, aqui fica o texto russo: "Вроде бы все хорошо, семья воссоединилась, все счастливы, ребенок нарядный и красивый. Но… на полу стоит почти допитая бутылка водки, и есть подозрение, что молодая мама успела к ней приложиться. От бахвальства брата Андрея тоже разит перегаром… На столе – те самые консервы, которыми португальские няньки пугали малышку… Мама с удовольствием позирует для видеокамер, картинно умиляясь букетику. Дом Зарубиных выглядит картонной декорацией старого театра для столичных гастролеров".

quarta-feira, maio 20, 2009

Gulbenkian: Primeiro estrangeiro a trocar obras de arte dos museus soviéticos por dinheiro para a “ditadura do proletariado”


O coleccionandor arménio Calouste Gulbenkian foi o primeiro homem de negócios estrangeiro a adquirir, em quantidades consideráveis, obras de arte dos museus da União Soviética, cujo Governo necessitava de dinheiro para financiar a “ditadura do proletariado” e a “revolução mundial”.
A venda de ouro, prata, pedras preciosas e obras de arte começou quase logo após a revolução comunista de 1917 na Rússia, mas tomou envergadura gigantesca a partir dos anos 20.
Em 1919, foi criada a “Comissão Máximo Gorki”, dirigida pelo conhecido escritor russo e soviético, que tinha como um dos objectivos contactar na Europa clientes interessados em adquirir valores e obras de arte confiscados pelo poder comunista. No início do ano seguinte, o dirigente soviético Vladimir Lénine ordenou a aceleração do processo de venda, sublinhando: “estou de acordo em deixar-lhes (aos museus) apenas o mínimo estritamente necessário”.
É curioso assinalar a explicação dada para justificar a venda para o estrangeiro da riqueza nacional: “O valor de Rembrandt não diminuirá se estiver pendurado algures na Europa, mas semelhante passo permite-nos rapidamente construir o socialismo... Depois da revolução mundial, tudo o que é nosso para nós voltará”.
No Verão de 1928, chegou ao conhecimento do Museu Hermitage de Leninegrado a intenção da “Antikvariad”, entidade pública que monopolizava a venda de obras de arte para o estrangeiro, de obrigar esse museu a preparar para venda um grande número de obras de arte.
“O Sr. Gulbenkian... propôs-se adquirir quadros com o valor de 10 milhões de rublos e apresentou uma lista dos 18 melhores quadros do Hermitage, que valem, segundo os cálculos mais modestos, um mínimo de 25-30 milhões de rublos”, escrevia Serguei Troinitzki, director do Hermitage, ao ministro Anastássio Mikoain.
Entre as obras pretendidas pelo magnata encontravam-se a “Madona Alba” de Rafael, “Judite” de Giorgione e o “Filho Pródigo” de Rembrandt.
O magnata arménio não conseguiu adquirir essas obras mas trouxe outros quadros famosos como “Diana” de Jean Gudon ou “Atenas Pallada” de Rembrandt.
Além disso, Gulbenkian adquiria também obras de arte para vender a outros coleccionadores. Por exemplo, vendeu ao norte-americano George Wildenshtein o quadro “Mezzetin” de Antoine Wateau.
Segundo os documentos dos arquivos russos, Calouste Gulbenkian adquiriu quatro lotes de obras de arte, tendo a última sido o quadro de Rembrandt “Retrato do Velho”.
Não se conhece ainda a razão que levou o mecenas arménio a suspender os contactos com os comunistas soviéticos. Na obra “Os tesouros vendidos da Rússia”, os especialistas russos consideram que “a excessiva poupança do 'senhor cinco por cent'” obrigou-o a ceder o lugar a compradores mais generosos”.
“Se, não obstante as minhas críticas, vocês se decidirem continuar a vender os valores dos vossos museus (eu, insistentemente, aconselho-vos a não fazer isso), em vez de os vender a intermediários, ponham esses objectos em venda aberta no mercado, porque o jogo infantil das escondidas, praticado agora, apenas prejudica”, escrevia Gulbenkian a Gueorgui Piatakov, dirigente soviético, em 1930.
Mas os comunistas não tencionavam publicitar a venda dos valores artísticos da Rússia e continuaram a desbaratá-los às escondidas, mas para outros mercados.

terça-feira, maio 19, 2009

Kremlin decidiu que só há uma História!


O Presidente russo, Dmitri Medvedev assinou hoje o decreto “Sobre a Comissão junto do Presidente da Federação da Rússia de luta contra qualquer tentativa de falsificar a História em detrimento dos interesses da Rússia”, informa o serviço de imprensa do Kremlin.
O chefe de Estado tinha insistido várias vezes na inadmissibilidade de toda a falsificação da História, nomeadamente da História da Grande Guerra Pátria (1941-1945). No passado 8 de Maio, o Presidente sublinhou no seu blog que as tentativas de falsificação “se tornam mais cruéis, sujas e agressivas”.
A Comissão irá ser dirigida por Serguei Narichkin, chefe da Administração do Presidente, e terá 28 membros, entre os quais representantes do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Serviço Federal de Segurança, Serviço de Espionagem Externa, Conselho de Segurança, Ministério do Desenvolvimento Regional, Ministério da Justiça, Ministério da Cultura, Câmara Social, Arquivos da Rússia.
Leonid Ivachov, coronel-general na reserva e presidente da Academia das Ciências Geopolíticas, considerou “pertinente” a decisão de Medvedev.
“A História converteu-se numa componente muito forte da luta geopolítica... A falsificação da História, mais que uma série de declarações particulares por parte de impostores políticos, representa uma estratégia de grande envergadura que um grupo de países vem aplicando em relação à Rússia”, defende Ivachov.
“É preciso rever toda a História da Rússia e dar informação verdadeira e contar toda a História a favor da Rússia: mostrar quem é o seu inimigo externo, quanto tempo o ocidente lutou contra nós e como luta hoje”, considera Vladimir Jirinovski, líder nacionalista russo.
Roi Medvedev, conhecido historiador russo, não vê nada de mal na criação da comissão, mas alerta para a possibilidade de ela poder dar início a perseguições ideológicas. “Existe sempre uma tendência histórica central, a Universidade de Moscovo, o Instituto de História da Academia das Ciências devem seguir uma escola histórica”, considera Medvedev, mas acrescenta: “Eu protestarei firmemente contra qualquer perseguição judicial pela falsificação, porque isso seria o renascimento da prática soviética da luta contra ataques ideológicos”.
“Esta Comissão é criada não tanto para combater os revisionistas internos, mas para neutralizar as tentativas dos países vizinhos da Rússia de reverem a sua História, a História deles com a Rússia”, declarou à Lusa, por telefone, um professor universitário russo que pediu anonimato. “Mas isso é um absurdo, pois a Espanha não pode obrigar Portugal a escrever a História à sua maneira. Nem sequer em relação ao período em que foram um Estado único”, frisou o historiador.

Comissões deste tipo só conheço do período soviético, quando era necessário virar a História de "pernas para o ar" e mostrar que "hoje é branco o que ontem era negro".
É curioso assinalar que dela irão fazer parte agentes do Serviço Federal de Segurança e do Serviço de Espionagem Externa da Rússia (qua, na era soviética, constituíam o KGB). Com que objectivo?
Claro que esta comissão poderia ser útil se travasse a publicação de obras de história nacionalistas e chauvinistas, escritas conforme a corrente da "nova cronologia", cujos autores escrevem que tudo o que aconteceu desde os primórdios da História foi obra dos russos: desde a construção das pirâmides no Egipto até ao Tratado de Tordesilhas. Não, não me enganei, em livros publicados com tiragens de milhões de exemplares, afirma-se que o Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo em duas partes, não foi assinado entre Portugal e Espanha, mas entre a Rússia e a Turquia no séc. XVI.
Esta comissão surge para combater as novas análises históricas que são feitas nos países que antes faziam parte da União Soviética. Moscovo não admite revisões, nem novas interpretações dos acontecimentos históricos não só do séc. XX, mas de épocas anteriores. Aqui é importante assinalar "falsificar a História em detrimento dos interesses da Rússia", frase que me faz recordar a tese leninista do "partidarismo da História", que contradiz o principal princípio desta ciência que é a procura da verdade.
Mas se esta comissão quer realmente contribuir para a elaboração de uma História da Rússia objectiva, terá de abrir o acesso dos historiadores aos arquivos russos e soviéticos. Em comparação com os anos 90 do século passado, o acesso aos arquivos tornou-se muito mais difícil.
Não permitir a revisão da História da Rússia significa continuar a justificar os crimes do regime comunista, do estalinismo, cuja reabilitação é visível no país. Os estónios, letónios, lituânos vão ter de continuar a escrever que foram libertados pelas tropas soviéticas em 1939, quando a URSS e a Alemanha nazi dividiram a Europa de Leste pelo Pacto Molotov-Ribbentrop. Mas exemplos deste tipo são muito, muito numerosos.

Como irá viver a menima entregue à mãe biológica russa?

A julgar pelas reacções da imprensa russa abaixo citadas, os russos não esperavam que os tribunais de um país estrangeiro, neste caso Portugal, dessem razão a uma estrangeira (russa) na luta pela custódia da sua filha biológica.
No entanto, sublinho desde já que a reacção não é festiva, mas, pelo contrário, ponderada e até apreensiva face à decisão do Tribunal português.
A imprensa russa destaca hoje a notícia da entrega de uma criança à mãe biológica, a russa Natália Zarubina, após quatro anos numa família de acolhimento em Barcelos, considerando que Portugal trata o caso como tragédia pessoal.
“Portugal recebeu como uma tragédia pessoal a decisão do tribunal que retirou a filha da russa Natália Zarubina à família portuguesa que a educava”, escreve hoje a agência noticiosa russa Ria-Novosti.
A agência sublinha que “muitos canais de televisão mostram a criança a chorar convulsivamente durante a entrega à mãe biológica”.
Os órgãos de informação russos dão várias versões de como a criança foi ter à família de João Pinheiro e Florinda Vieira.
O canal televisivo de informação Vesti noticia que “portugueses conhecidos da russa tomaram conta da criança enquanto Natália, que alugava um apartamento na cidade de Braga, trabalhava longe de casa”.
O Quinto Canal, porém, informa que, “segundo as palavras do pai afectivo da criança, a mãe biológica de Alexandra bebia muito e o pai tentou mesmo vender a filha”.
O conselheiro da Embaixada da Rússia em Portugal, que esteve presente no acto de entrega de Alexandra, recusou-se a revelar a versão oficial do sucedido, mas Oleg Sotnikov, vice-consul da Embaixada russa em Lisboa, declarou que “existiram circunstâncias que levaram a criança a ser educada numa família de acolhimento, cidadãos portugueses”.
“Uma série de peritagens realizadas durante o julgamento no tribunal não confirmaram que a mãe da criança sofre de dependência alcolólica ou outra”, declara o diplomata, citado pela imprensa russa.
“Agora, a mãe russa e a sua filha, que nem sequer fala russo, encontram-se na embaixada da Rússia em Lisboa, mas já amanhã partem para Moscovo e, depois, para casa, para a Região de Iaroslavl, onde a criança é esperada pelos avô e avó 'verdadeiros', bem como irmã mais velha Valéria, fruto de um casamento anterior da mãe”, escreve a Ria-Novosti.
Segundo a Rádio Rossia, “a decisão do tribunal, dizem testemunhas, fez entrar em estado de choque os pais de acolhimento e a própria filha. Pois só na véspera é que ela soube que tinha outra mãe e outra família”.
Os órgãos de informação russos citam as palavras dos pais de acolhimento de que irão continuar a lutar pela custódia da criança nos tribunais europeus.
Dito isto, mas antes de continuar, quero dizer que respeito a decisão do tribunal português, porque o juiz deve ter tido fortes argumentos para ditar a sentença que ditou. Mas gostaria de deixar apenas duas perguntas: a Justiça ou a Segurança Social portuguesas preocuparam-se em saber em que condições irá viver a menina antes de decidirem o destino dela? Ou estão à espera que a Embaixada de Portugal na Rússia os venha a substituir depois?

Para que não seja acusado de violar os direitos de autor, deixo aqui o sítio electrónico onde poderão ver fotografias da família Zarubina e da sua casa perto da cidade de Iaroslavl: http://yar.kp.ru/online/news/488125/



segunda-feira, maio 18, 2009

Oposição propõe programa de reformas constitucionais


Os partidos da oposição, que há mais de um mês se manifestam no centro da capital georgiana para exigir a demissão de Mikhail Saakachvili do cargo de Presidente da Geórgia, apresentaram hoje às autoridades o seu plano de reformas constitucionais.
“A proposta é constituída por seis pontos. Primeiro, trata-se de um apelo às autoridades para que dê passos reais com vista a superar a crise política, mais precisamente, a demissão do Presidente Mikhail Saakachvili e a realização de eleições presidenciais antecipadas”, lê-se numa declaração hoje publicada em Tbilissi.
A oposição considera também que, após as eleições presidenciais no outono de 2009, devem realizar-se eleições parlamentares “livres e justas”, bem como a eleição do Presidente da Câmara de Tbilissi.
A declaração prevê também a realização de reformas constitucionais, nomeadamente através da realização de eleições parlamentares em outubro de 2009 e, paralalemente, de um referendo sobre a organização constitucional da Geórgia.
Irakli Alassania, dirigente do bloco da oposição “Aliança para a Geórgia”, defendeu hoje a continuação de conversações com Mikhail Saakachvili.
“É muito bom que voltamos a falar de um encontro. Eu confirmo novamente o desejo de que os encontros com as autoridades continuem”, declarou Alassania aos jornalistas, ao comentar a proposta de Saakachvili de discutir a candidatura do presidente da comissão constitucional, que deverá ser um representante da oposição.
Porém, Alassiana sublinha que a elaboração de uma nova Constituição deve ser apenas parte do acordo político que leve à realização de eleições antecipadas no país.
Este influente dirigente da oposição georgiana propõe que o novo encontro com Saakachvili se realize no fim desta semana.

Rússia começou a construir centrais nucleares flutuantes

As obras de construção da primeira central nuclear flutuante do mundo começaram hje nos Estaleiros do Báltico de São Petersburgo, informaram fontes da empresa construtora citadas pela agência Ria-Novosti.
A Corporação Industrial Unificada e o consórcio Eneratom assinaram o contracto de construção do gerador flutuante para centrais nucleares de pequena potência em Fevereiro de 2008.
O sistema gerador de energia nuclear será instalado num navio de coberta plana, equipado com dois reactores da mesma classe que são instalados em navios quebra-gelos. Cada reactor de 35 MW tem uma potência térmica de 140 gigacalorias.
A vida útil da central será de cerca de 36 anos, necessitando de obras de manutenção regulares de doze em doze anos.
Os especialistas prevêem que as centrais nucleares flutuantes serão utilizadas principalmente em regiões onde haja falta de energia eléctrica e nos projectos que requerem fornecimento autónomo e ininterrupto de electricidade na ausência de infraestrutura eléctrica desenvolvida. S
egundo os produtores, numerosos países do mundo já revelaram a intenção de adquirir centrais atómicas flutuantes de fabrico russo.

Russos e norte-americanos reatam diálogo sobre desarmamento

Estados Unidos e Rússia vão iniciar hoje em Moscovo a primeira ronda de negociações formais para a assinatura de um novo tratado sobre redução de armas estratégicas (START).
A Rússia e Estados Unidos assinaram em 1993 o Tratado START-2, que previa uma redução significativa dos mísseis balísticos intercontinentais e das ogivas nucleares, mas a partir de 2002 a Rússia deixou de o cumprir respondendo assim à renúncia por parte dos Estados Unidos a um tratado de 1972 que proibia a criação de sistemas de defesa antimíssil.
A vigência do Tratado START termina em Dezembro de 2009 e os presidentes da Rússia e Estados Unidos, Dmitri Medvedev e Barack Obama, decidiram iniciar conversações para assinar um novo acordo.
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, afirmou que durante as conversações a rússia irá ligar a redução de armas estratégicas à questão do sistema antimíssil norte-americano, que tem sido fonte de atrito no relacionamento de Moscovo com Washington e a NATO.
“Penso que não é preciso ser perito para compreender que se uma das partes quiser ou tiver um ´guarda-chuva´ contra todas as ameaças, passará a ter a ilusão de que tudo pode fazer e a agressividade das suas acções irá multiplicar-se muitas vezes e a ameaça de um confronto global atingirá um nível muito perigoso”, declarou Putin.
A primeira reunião será essencialmente dedicada à apresentação de posições, mas o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, manifestou-se optimista, lembrando que reuniões informais preparatórias das negociações permitiram a ambas as partes compreender que "há boas possibilidades de aproximar posições".
Além dos sistemas de defesa antimíssil, outro problema será determinar como contabilizar os mísseis que foram armazenados, mas não foram desmantelados.

sábado, maio 16, 2009

Gays em desgraça na cidade de Moscovo


A polícia de choque do Ministério do Interior da Rússia impediu hoje a realização de uma parada gay, tendo detido cerca de 40 pessoas.
Os manifestantes concentraram-se no miradouro das Colinas Vorovie (antigas Colinas Lénine) em Moscovo a fim de realizar uma parada, não obstante a proibição das autoridades municipais.
Algumas dezenas de pessoas, que portavam nas mãos cravos brancos e cartazes onde se lia: “Direitos Iguais sem Compromissos” e “Homofobia é a vergonha do país”, conseguiram estar reunidas pouco mais de cinco minutos, porque apareceu a polícia de choque e deteve praticamente todos os participantes daquilo que pretendia ser uma parada gay.
Os gays russos pretendiam aproveitar a realização da final do Festival da Eurovisão em Moscovo para se manifestarem em defesa dos seus direitos e tentar realizar uma parada na capital russa aproveitando a presença de numerosos turistas da Europa.
No entanto, as autoridades municipais declaram que “não permitimos, nem iremos permitir no futuro paradas-gay em Moscovo”. “Semelhantes manifestações não só destroem as bases morais da nossa sociedade, mas provocam conscientemente desordens que irão ameaçar a vida e a segurança dos moscovitas e dos hóspedes da capital”, declarou Serguei Tzoi, porta-voz da Câmara de Moscovo.
A Igreja Ortodoxa Russa condenou também a parada pela voz de um dos seus mais conhecidos teólogos, o padre Andrei Kuraev: “A propaganda da homossexualidade é, em qualquer dos casos, um crime contra a infância”. “Há vinte anos atrás, eles diziam que era preciso anular o respectivo artigo do Código Penal (na URSS, a homossexualidade masculina era castigada com três anos de prisão), porque isso tinha lugar num quarto fechado entre dois adultos e não dizia respeito a mais ninguém. Nós acreditámos e anulámos o artigo. Agora, dizem que isto diz respeito a todos!”, acrescenta o teólogo ortodoxo.
“Se queriam um quarto escuro, que fiquem lá. Para que querem sair à rua?”, interroga o padre Kuraev.

sexta-feira, maio 15, 2009

Cada um salva-se como pode


A Rússia e a Itália assinaram hoje um documento que prevê duplicar a capacidade de transporte do sector marítimo do gasoduto South Stream, passando de 31 para 63 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano.
O memorando foi assinado pelos dirigentes da Gazprom russa e da Eni italiana, Alexei Miller e Paolo Scaroni, na presença dos primeiros-ministros russo e italiano, Vladimir Putin e Sílvio Berlusconi, que estiveram reunidos numa estância balnear do Mar Negro para dar um novo impulso às relações económicas e políticas entre Rússia e Itália.
De uma capacidade de 63v mil milhões de metros cúbicos de gás por ano, o gasoduto South Stream ligará a Rússia à Europa Meridional por debaixo dos mares Negro e Adriático, contornando a Ucrânia.
O tubo passará a mais de 2 mil metros de profundidade no Mar Negro, entre o porto russo de Novorrossisk e Varna, na Bulgária) e terá cerca de 900 quilómetros de comprimento.
Com vista à realização dos sectores terrestres do gasoduto, na mesma cerimónia foram assinados acordos com a Bulgária, Sérvia, Hungria e Grécia.
A Rússia prometeu que o combustível azul irá começar a correr no tubo em 2015, o mais tardar. Na conferência realizada após o encontro de Putin e Berlusconi, o primeiro-ministro russo sublinhou que a Rússia não se opõe a projectos de gasodutos alternativos, nomeadamente o projecto da União Europeia Nabucco.
Sílvio Berlusconi, pelo seu lado, considerou que o projecto South Stream é “um importante passo para garantir a segurança energética da Europa”.
Putin pediu ao seu homólogo italiano que o ajude na tarefa de melhorar as relações bitareiais com a União Europeia, pedido que recebeu resposta afirmativa de Berlusconi. “Se se formassem com toda a Europa relações como as que existem com Itália, isso seria um desenvolvimento muito bom da situação”.
Os dois primeiros-ministros analisaram também as possibilidades de desenvolver a cooperação bilateral noutras esferas como energia atómica e energia eléctrica. No sábado, Berlusconi reúne-se com o Presidente russo, Dmitri Medvedev.

quarta-feira, maio 13, 2009

Doutrina de Segurança e Defesa Nacional da Rússia


O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, assinou hoje o decreto “Estratégia da Segurança Nacional da Rússia”, documento que define os princípios da política interna e externa do país.
Segundo o texto do documento, publicado no sítio electrónico do Conselho de Segurança da Rússia, este país tenciona “criar uma parceria estratégica, em pé de igualdade e completa, com os Estados Unidos da América com base nos interesses coincidentes e tendo em conta a influência fulcral das relações russo-americanas no estado da situação internacional em geral”.
O documento apresenta como prioridades a consecução de novos acordos na esfera do desarmamento e do controlo dos armamentos, o reforço de medidas de confiança, bem como a solução dos problemas da não difusão de armas de destruição massiva, do aumento da cooperação antiterrorista, da regularização dos conflitos regionais.
Em conformidade com a Estratégia, “na garantia dos interesses nacionais da Rússia exercerão influência negativa as prováveis reincidências das abordagens unilaterais a partir da força nas relações internacionais, as contradições entre os principais participantes da política mundial, a ameaça de difusão de armas de destruição massiva e da sua posse por terroristas, bem como o aperfeiçoamento de formas de actividade ilegal nos campos da informática e da biologia, na esfera das altas tecnologias”.
O documento prevê o aumento do confronto global no campo da informação, das ameaças à estabilidade dos países industriais e em desenvolvimento do mundo, ao seu desenvolvimento sócioeconómico e aos institutos democráticos.
Além disso, afirma-se na Estratégia, aumentarão as disposições nacionalistas, a xenofobia, o separatismo e o extremismo violento, nomeadamente sob palavras de ordem do radicalismo religioso; agudizar-se-á a situação demográfica mundial e os problemas do meio ambiente; crescerão as ameaças ligadas à migração incontrolada e ilegal, ao tráfico de drogas e de seres humanos, a outras formas de crime organizado transnacional.
A Estratégia considera “provável a difusão de epidemias provocadas por novos vírus” e prevê “a falta de água potável”.
Segundo este documento, a atenção da política internacional irá concentrar-se, a longo prazo, no controlo de fontes de combustíveis, “nomeadamente no Médio Oriente, na plataforma do Mar de Barents e noutras regiões do Árctico, na bacia do Cáspio e na Ásia Central”.
“A médio prazo”, prevê a Estratégia, “a situação no Iraque e no Afeganistão, os conflitos no Médio Oriente, numa série de países do Sul da Ásia e da África, na Península da Coreia irá continuar a exercer influência negativa na situação internacional”.
A Rússia considera também que “o estado crítico de conservação de locais e materiais perigosos, principalmente nos países com uma situação interna instável, assim a difusão incontrolada pelos Estados de armas convencionais poderão agudizar os conflitos internacionais existentes e criar novos”.
Nas condições de aumento da luta pelos recursos, Moscovo não exclui a possibilidade do aparecimento de novos problemas com o emprego da força militar, situação que poderá “violar a balança de forças existente perto das fronteiras da Rússia e dos seus aliados”.
Os estrategas russos acrescentam a esses perigos a possibilidade do aumento de países detentores de armas nucleares e o enfraquecimento da estabilidade regional e global se os Estados Unidos instalarem o sistema de defesa antimíssil na Europa.
Nas relações com a NATO, a Rússia considera inaceitáveis o seu alargamento e as tentativas de lhe conceder funções globais.
Nesta situação, o Kremlin promete realizar uma política externa “pragmática”, que exclua “uma confrontação dispendiosa”, bem como colaborar com as organizações internacionais.

terça-feira, maio 12, 2009

Moscovo disposto a ceder ilhas a Tóquio em troca de cooperação económica


A Rússia e o Japão podem chegar à solução do litígio territorial em torno das ilhas Curilhas criando uma atmosfera de confiança e desenvolvendo projectos conjuntos, declarou hoje Vladimir Putin, primeiro-ministro russo, que se encontra de visita ao Japão.
“Com semelhante estado de espírito, o trabalho conjunto permitirá também chegar à solução de questões globais, nomeadamente à assinatura do tratado de paz”, sublinhou o dirigente russo, num pequeno almoço com homens de negócios russos e japoneses.
Moscovo e Tóquio não assinaram, no fim da Segunda Guerra Mundial, tratado de paz devido a um diferendo sobre as ilhas Curilhas, que passaram para sob o controlo da URSS em 1945. O Japão exige a devolução das quatro ilhas, considerando isso uma condição essencial para assinar o tratado de paz.
No entanto, Vladimir Putin, deixou para o Presidente russo, Dmitri Medvedev, a decisão definitiva sobre o letígio territorial, pois, segundo a Constituição da Rússia, a política externa é prerrogativa do chefe de Estado.
Segundo Putin, Medvedev e o primeiro-ministro japonês irão analisar esse problema à margem da cimeira do G-8, em Itália.
Durante a visita de Putin a Tóquio foram anunciados vários acordos de cooperação, principalmentev no campo energético. O primeiro-ministro russo convidou as companhias nipónicas a participar na construção do oleoduto que irá ligar a Sibéria Oriental ao litoral do Pacífico.
Este é um projecto prioritário para fornecer hidrocarbonetos a países como China, Japão, duas Coreias e Estados Unidos. Com mais de 4 mil quilómetros de comprimento, ele poderá transportar aé 80 milhões de toneladas de crude anualmente a partir de 2009.
Putin anunciou também a construção de uma segunda fábrica de liquefação de gás natural no Extremo Oriente russo. O combustível azul será fornecido por jazigos da Sibéria Oriental e da Sacalina. Moscovo já assinou contratos a 25 anos para o fornecimento de gás condensado ao Japão, Estados Unidos e Coreia do Sul.
Serguei Kirienko, dirigente da Agência Russa de Energia Atómica que acompanha Putin na visita a Tóquio, anunciou que a Rússia irá fornecer ao Japão “urânio pouco enriquecido no valor de centenas de milhões de dólares”.

segunda-feira, maio 11, 2009

Crise na Geórgia ameaça desaguar em perigoso confronto


É daquelas previsões em que gostaria muito de me enganar, mas não parece ser o caso: a Geórgia caminha novamente para um perigoso confronto, que poderá não só desestabilizar a situação no país, mas também em toda a região do Cáucaso.
Como seria de esperar, as conversações entre Mikhail Saakachvili e a oposição falharam e os adversários do Presidente da Geórgia prometem mobilização geral para o afastar do cargo.
O dirigente georgiano considerou o encontro uma "vitória da democracia" e espera a "continuação do diálogo", tendo aberto perante a oposição a possibilidade de ocupar altos cargos nas estruturas do poder.
A oposição recusa as propostas de Saakachvili e declara "mobilização geral".
"A partir de hoje, temos o direito cívico legítimo total de tornar as nossas acções ainda mais agudas, alargar a sua geografia e fazer com que o maior número de cidadãos da Geórgia participe neste processo”, declarou Levan Gatchetchiladzé, um dos dirigentes da oposição, durante o comício da oposição que decorre há um mês junto do Parlamento.
“Mikhail tornou-se absolutamente virtual, vive num mundo virtual e, por isso, no encontro, disse coisas que nada tinham a ver com a realidade”, declarou Salomé Zurabichvili, antiga ministra dos Negócios Estrangeiros da Geórgia e uma das dirigentes da oposição.
“Talvez hoje o nosso diálogo com Saakachvili tenha terminado de uma vez por todas”, concluiu.
A oposição promete bloquear todas as vias de comunicação do país, isolar Saakachvili e obrigá-lo a demitir-se. Mas será que o Presidente georgiano irá permitir semelhante desenrolar dos acontecimentos? A julgar pela história mais recente deste país, o mais provável é que esta disputa se transforme num confronto violento.
Mas vamos imaginar que a oposição consegue afastar Saakachvili por meios mais ou menos pacíficos. E depois? Os catorze ou dezassete partidos da actual oposição irão elaborar novas regras de jogo limpas de forma a que se realizem eleições realmente livres e democráticas? Ou este círculo vicioso irá continuar eternamente?
Recordamos que a maioria dos dirigentes da actual oposição são antigos "companheiros de luta de Saakachvili" e co-responsáveis por muitos dos erros e até crimes de que acusam o Presidente.
A comunidade internacional, particularmente os Estados Unidos, União Europeia, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, tem sérias responsabilidades nesta crise, pois foram os seus observadores que, em 2007, consideraram "democráticas" e "legítimas" as eleições que levaram Saakachvili ao poder, embora a oposição tivesse falado de "falsificações massivas".
E, agora, Washington e Bruxelas vão aceitar os resultados de levantamentos de rua caso eles conduzam ao derrube do Presidente eleito?
Se assim for, apenas irão eternizar o arbítrio e a ilegalidade.
Mas, por outro lado, parece ser cada vez mais difícil manter por muito mais tempo no poder o Presidente Saakachvili e, por isso, talvez a única saída seja conseguir que as partes do confronto calendarizem eleições presidenciais e parlamentares antecipadas como forma de encontrar uma saída pacífica para a crise. Mas, desta vez, o controlo internacional do escrutínio tem de ser mesmo a sério, para que a crise não se repita como se repetiu no Quirguistão, Moldávia, Arménia, etc.
No que respeita ao papel da Rússia em todo este processo, o Kremlin ficará feliz com a queda de Saakachvili, especialmente se ela ocorrer de forma humilhante, mas não terá na oposição um parceiro de diálogo fácil, pois esta não aceita a separação da Ossétia do Sul e da Abkházia em relação à Geórgia, tece duras críticas à política externa russa no Cáucaso.
A não ser que Moscovo volte atrás na sua decisão de reconhecer a independência das duas regiões separatistas da Geórgia, o que é, actualmente, impensável.


domingo, maio 10, 2009

Contributo para a História (Moçambique)


Durante o fim de semana, li na imprensa, mais concretamente na Agência Lusa, que em Lisboa se realizou um seminário sobre o tema "África Austral na Era da Guerra Fria", iniciativa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.
A julgar pelos materiais a que tive acesso (repito, a julgar pelos materiais a que tive acesso), a Guerra Fria volta a ser escrita "sem a parte soviética", o que é de lamentar, porque sem documentação soviética, o puzzle ficará sempre incompleto.
Alguns exemplos, uns dos participantes da conferência citada, José Duarte de Jesus, embaixador e Professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), declarou à Lusa a propósito do assassonato de Eduardo Mondlane: ""quem mais lucrou [com a sua morte] foi a União Soviética e os elementos mais radicais da Frelimo", que "não gostavam dele", uma vez que "não era um marxista, não alinhava com as ideias mais radicais" e até "era casado com uma americana branca", que conheceu enquanto leccionou nos Estados Unidos, na Universidade de Siracusa".
Quanto aos "elementos mais radicais da Frelimo", estou plenamente de acordo, não podendo dizer o mesmo em relação à afirmação de que a URSS foi quem mais lucrou com a morte de Mondlaine.
Segundo testemunhos de embaixadores soviéticos que assistiram a esse processo, Mondlane era altamente considerado em Moscovo. Claro que para os dirigentes comunistas da URSS, era importante que um dirigente de um movimento de libertação nacional fosse "marxista-leninista", mas bastava que ele se declarasse "anti-imperialista", para que recebesse todo o apoio da URSS. Daí os soviéticos terem apoiado dirigentes do Continente Africano como Nasser no Egipto ou Bocassa na África Central.
A União Soviética também não ganhou com a substituição de Mondlaie por Samora Machel, visto que este dirigente moçambicano se tornou uma verdadeira "dor de cabeça" para os soviéticos, principalmente depois da independência de Moçambique. Já publiquei neste blog um texto a propósito do radicalismo de S. Machel aos olhos dos diplomatas soviéticos, mas posso citar outros testemunhos, nomeadamente em relação ao receio de Moscovo face à aproximação de Machel em relação a Pequim.
Podemos encontrar numerosos testemunhos de que os soviéticos se sentiam melhor no diálogo com Joaquim Chissano do que com Samora Machel.
O Professor José Duarte Jesus afirma ainda: "Nesse aspecto (Mondlane) é uma figura singular. Foi talvez o mais independente dos líderes (...) A grande ideia dele foi sempre receber armas da China, da União Soviética e outros países de Leste, mas mandar a maior parte dos bolseiros para a Suíça e Estados Unidos. Receber o 'hard power' de um lado e o 'soft power' de outro".
Sem tecer comentários, cito aqui apenas um episódio relatado por A. Glukhov, conselheiro da Embaixada da URSS na Tanzânia entre 1968 e 1973 e primeiro Encarregado de Negócios da URSS em Moçambique: "Infelizmente, eu não trabalhei durante muito tempo com E. Mondlane. No início de 1969, ele foi assassinado na sua residência em Dar-es-Salam num acto terrorista organizado pelos serviços secretos portugueses (PIDE)".
"Recordo claramente", continua o diplomata soviético, "o último encontro com ele nessa mesma villa dois dias antes da sua morte. Discutia-se então a questão da preparação de um grande grupo de juventude moçambicana para ser enviada para estudar na União Soviética. Ao acompanhar-me até ao carro e despedir-se, ele disse que sonhava que os seus filhos estudassem na União Soviética e que ele tencionava enviar um pedido oficial sobre isso à direcção soviética. (Mais tarde, o filho e a filha dele foram enviados para estudar na URSS)".


sábado, maio 09, 2009

Medvedev promete resposta digna a qualquer atentado contra os cidadãos do país


O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, considera que as lições da vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo alemão são actuais, num momento em que têm lugar novas aventuras militares e prometeu que qualquer agressão contra os cidadãos do seu país terá uma resposta digna.
Ao discursar numa das maiores paradas militares realizadas na Praça Vermelha de Moscovo, dedicada à vitória das armas soviéticas sobre as tropas de Hitler em 1945, Medvedev prestou tributo aos veteranos da Grande Guerra Pátria de 1941-1945, como é conhecida a Segunda Guerra Mundial na Rússia, e defendeu que “hoje, mais do que nunca, um mundo seguro só é possível se forem respeitadas rigidamente as normas do Direito Internacional”.
“Por isso o nosso país apresentou a iniciativa de um novo Tratado sobre a segurança europeia, baseada num controlo seguro dos armamentos e na suficiência sensata de meios militares, na mais ampla cooperação de Estados e na regularização exclusivamente pacífica dos conflitos”, acrescentou.
“Estamos convencidos de que qualquer agressão contra os nossos ciudadãos receberá uma resposta digna. O futuro da Rússia será de paz, êxito e felicidade”, concluiu.
No início da parada militar, Anatoli Serdiukov, de pé num automóvel descoberto, passou revista às colunas de tropas formadas na Praça Vermelha e felicitou os soldados por ocasião do 64º aniversário da vitória sobre o fascismo, tendo os militares respondido com três fortes “hurras!”, segundo a tradição militar russa.
Pela Praça Vermelha desfilaram mais de nove mil efectivos de todos os ramos das Forças Armadas, que foram seguidos por mais de 112 unidades de equipamento de combate, incluindo tanques, peças de artilharia móveis, sistemas de mísseis de defesa anti-aérea e mísseis balísticos intercontinentais.
Terminado o desfile terrestre, 69 aviões e helicópteros sobrevoaram a Praça Vermelha.
Uma manifestação de força para consumo interno e externo.

quinta-feira, maio 07, 2009

Confrontos entre manifestantes da oposição e polícia provocam dezenas de feridos


Confrontos entre manifestantes da oposição ao Presidente da Geórgia, Mikhail Saakachvili, e a polícia provocaram ontem ao fim da tarde dezenas de feridos e voltam a agudizar a situação política no país.

Cerca de dois mil manifestantes juntaram-se em frente do edifício do Ministério do Interior da Geórgia para exigir a libertação de militantes da oposição que tinham sido detidos pela polícia.

Polícias de choque, equipados com capacetes, escudos e cassetetes carregaram sobre os manifestantes. Dirigentes da oposição, citados por agências noticiosas, acusam os agentes da polícia de terem empregue balas de borracha contra os manifestantes.

Segundo jornalistas no local, os confrontos provocaram várias dezenas de feridos, entre os quais se encontram Levan Gatchetchiladzé, um dos dirigentes da oposição, bem como vários guarda-costas de Nino Burdjanadzé, antiga dirigente do Parlamento da Geórgia e hoje uma das líderes dos protestos contra Saakachvili.

Todos os meus guarda-costas sofreram ferimentos na cabeça, o que significa que uma só coisa: eu era o alvo”, declarou Burdjanadzé aos jornalistas.

Eka Zguladzé, vice-ministro do Interior da Geórgia, acusou a oposição de tentar tomar de assalto o edifício do seu ministério e de ter apedrejado a polícia.

A polícia não saiu além do perímetro interior do edifício, não obstante a agressividade da oposição”, declarou ele.

Hoje de manhã, a polícia, a pedido da Igreja Ortodoxa Georgiana, libertou os militantes da oposição, cuja detenção foi a caso dos incidentes, mas os adversários de Saakachvili prometem novas formas de luta.

A situação na Geórgia complica-se cada vez mais, porque a oposição começa a sentir que não consegue derrubar Mikhail Saakachvili por via pacífica. A única força que poderá pôr as partes do confronto a dialogar é a Igreja Ortodoxa Georgiana, mas se não conseguir, qualquer incidente poderá dar início a sérios confrontos no país.


terça-feira, maio 05, 2009

Tentativa de golpe de Estado na Geórgia?


Hoje, as autoridades georgianas anunciaram ter descoberto e neutralizado uma tentativa de golpe militar para assassinar vários dirigentes da Geórgia e assassinar o seu Presidente, Mikhail Saakachvili. Por enquanto, não me arrisco a tirar conclusões, pois considero ser necessário que apareçam novos documentos e factos para fazer análises mais profundas. Mas vou partilhar com os meus leitores algumas ideias.
Se realmente se tratou de um golpe de Estado e as autoridades georgianas provarem que por detrás dos insurrectos estava a Rússia, isso mostrará que Moscovo não olha a meios para derrubar os dirigentes de países vizinhos de quem não gosta. Trata-se de um cenário que não se pode excluir tendo em conta as declarações dos dirigentes russos sobre Mikhail Saakachvili. Além disso, o alegado golpe foi descoberto na véspera do início das manobras da NATO na Geórgia, contra as quais o Kremlin montou uma campanha verdadeiramente histérica.
O Ministério do Interior da Geórgia divulga conversas de um dos chefes (na foto) do levantamento, onde se fala de que os russos viriam em apoio dos revoltosos.
Se isto se vier a confirmar, poder-se-á concluir que a operação foi preparada de forma muito tosca e que Moscovo pouco ou nada aprendeu com a história recente e passada. Não aprendeu, por exemplo, que a política russa face à Geórgia não é só odiada por Mikhail Saakachvili e seus apoiantes, mas também pela oposição ao Presidente georgiano.
Por isso é difícil ver em que forças sociais se iriam apoiar os golpistas caso vencessem. Resumindo, o Kremlin teria dado um autêntico "tiro no pé", o que a provar-se, não seria a primeira vez.
Porém, não se pode excluir que tudo não tenha passado de uma manobra do Presidente Mikhail Saakachvili para neutralizar os protestos da oposição, que se estendem há várias semanas e deveriam aumentar no dia 8 de Maio, com o bloqueio de Tbilissi, capital do país.
Os dirigentes da oposição, nas suas declarações, defendem esta posição, mas, para que não sejam acusados de "traição", decidiram suspender todos os protestos por alguns dias.
Se assim é, Saakachvili ganha mais algum tempo, ou seja, ganhou um combate, mas continua longe de vencer a guerra, porque a oposiçao já prometeu investigar atentamente a situação para provar que o Presidente mais não fez do que encenar um espectáculo.
E se assim for, a oposição georgiana será colocada, de forma ainda mais frontal, perante um dilema: qual a via a escolher para derrubar um dirigente mentiroso e irresponsável? Até agora, os protestos pacíficos de rua não levaram Saakachvili a demitir-se e, por esse caminho, a oposição poderá ir longe. Mas a pressão internacional, neste caso da União Europeia e dos Estados Unidos, tem contribuído para que a oposição não opte pela violência para derrubar Saakachvili, porque isso poderia ter graves consequências para o futuro da própria Geórgia enquanto Estado.
Os leitores podem achar infantil e tonta a ideia de que a situação em torno da Geórgia deveria obrigar a UE, os Estados Unidos e a Rússia a unirem esforços para evitarem que o Cáucaso se transforme num novo "Médio Oriente" na Europa, mas a verdade é que os problemas nessa região estão a complicar-se de tal forma que o descalabro poderá adquirir um carácter irreversível.
Vamos continuar atentos.
Vou acompanhar a situação e peço desculpa por só escrever agora, mas o tempo tem sido mesmo muito pouco.

sábado, maio 02, 2009

Popularidade de dirigentes russos em queda

A popularidade do Presidente Dmitri Medvedev e do primeiro-ministro Vladimir Putin começou a descer, atingindo níveis nunca vistos, constata uma sondagem do Levada-Tsentr.
Segundo este estudo da opinião pública, realizado entre 24 e 27 de Abril, Dmitri Medvedev recebe o apoio de 68 pc dos inquiridos, o que constitui o ponto mais baixo depois da sua eleição para o cargo de Presidente da Rússia em Março de 2008. Em Setembro de 2008, logo após o fim da guerra entre a Rússia e a Geórgia, a sua popularidade atingiu o ponto mais alto: 83 pc, ou seja, sofreu uma queda de 15 pontos.
A popularidade de Vladimir Putin também está em queda. Se, em Setembro de 2008, 88pc dos russos apoiavam a política do primeiro-ministro, em Abril de 2009, esse número desceu para 76 pc.
Ao mesmo tempo, diminui o número dos que consideram que a Rússia “avança pelo caminho certo”. Se em Outubro de 2008, a política do Governo russo gozava do apoio de 53pc dos inquiridos, no mês passado, ele desceu 43 pc.

1º de Maio na Rússia: manifestações para todos os gostos!


A polícia russa deteve, no 1º de Maio, centenas de manifestantes em Moscovo e São Petersburgo, a maioria dos quais jovens.
Leonid Krutov, porta-voz da Câmara de Moscovo, anunciou que cerca de 200 jovens, militantes da organização de extrema-esquerda “Vanguarda da Juventude Vermelha”, foram detidos pela polícia no centro da capital russa.
“Os jovens juntaram-se à coluna do Partido Comunista da Rússia. Quando os manifestantes passavam junto do edifício da Duma Estatal (câmara baixa do Parlamento), os jovens vermelhos tentaram acender very-lights, o que levou a polícia a detê-los e a levá-los para a esquadra”, precisou Krutov.
A manifestação convocada pelo Partido Comunista, a que se juntaram outras forças da oposição ao Kremlin: “Outra Rússia”, Partido Nacional Bolchevique, junto no centro da capital russa mais de cinco mil pessoas.
A polícia de São Petersburgo anunciou ter detido 120 manifestantes ainda antes da marcha do 1º de Maio ter iniciado, precisando que “20 detidos eram nacionalistas que não tinham autorização para participar nas manifestações, foram-lhes conficadas navalhas, very-lights e pistolas de alarme”.
Segundo a mesma fonte, foram também detidos“100 antifascistas e anarquistas que preparavam provocações em relação aos nacionalistas”.
O correspondente da rádio Eco de Moscovo no local informa que os manifestantes nacionalistas acabaram por ser libertados e juntaram-se à marcha, enquanto que os antifascistas e anarquistas foram transportados para a esquadra da polícia.
No 1 Maio, na Rússia, realizaram-se por todo o país cerca de 800 manifestações organizadas pelos mais diversos quadrantes políticos. 200 mil agentes mantêm a ordem.
Em Moscovo, os sindicatos oficiais e o Partido pró-Kremlin Rússia Unida juntaram 25 mil pessoas na “Jornada da Primavera e do Trabalho”. Os manifestantes transportavam faixas onde se podia ler: “Pelo trabalho, pelo salário e pelas garantias sociais!”, “O trabalhador não deve ser pobre!”, “Apoio para os pequenos e médios empresários!”, “Aumento do salário, crescimento da economia!”.
Esta manifestação foi a mais numerosa, porque as autoridades russas obrigaram professores, alunos e funcionários públicos a participar nela, repetindo a tradição soviética da "participação obrigatoriamente voluntária".
O Partido “Rússia Justa”, força política pró-Kremlin que pretende ocupar o espaço político da esquerda, trouxe para as ruas da capital russa cerca de cinco mil manifestantes com palavras de ordem mais radicais: “Burguês, devolve o dinheiro ao povo!”.