terça-feira, agosto 11, 2009

Ramzan Kadirov, o dirigente que não deixa ninguém indiferente


Os tchetchenos que o apoiam chamam-lhe carinhosamente “o nosso Ramzan”, enquanto que os seus adversários políticos o acusam de numerosos crimes e a guerrilha separatista o transformou no mais importante alvo a abater. Mas o Presidente da Tchetchénia, diz ser apenas um “servo do povo”.
Ramzan Akhmatovitch Kadirov nasceu a 05 de Outubro de 1976 na vila de Tsentoroi, República Autónoma Socialista Soviética da Tchetcheno-Inguchétia, uma das regiões da Federação da Rússia e, por conseguinte, da União Soviética.
O actual dirigente tchetcheno não esconde que cedo pegou em armas, para combater as tropas russas que invadiram a Tchetchénia em 1994. Porém, na segunda guerra da Tchetchénia, em 1999, passa, juntamente com o pai, para o lado de Moscovo, acusando a guerrilha separatista de ter caído sob a influência do wahhabismo, corrente radical do Islão.
Quando o seu pai, Akhmad Kadirov, passou a dirigir o Governo pró-russo da Tchetchénia (2000), Ramzan acumulou vários cargos nas estruturas do poder, principalmente ligados à segurança.
A 10 de Maio de 2004, Akhmad Kadirov morre vítima de um atentado terrorista organizado pela guerrilha. No dia seguinte, Ramzan promete liquidar os autores do atentado e pede ao Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que altere a legislação para que ele se pudesse candidatar ao cargo de Presidente da Tchetchénia, mas recebeu uma recusa.
Nessa altura, Ramzan tinha 28 anos e, segundo as leis russas, o Presidente das repúblicas e regiões russas não pode ter menos de 30 anos.
Não obstante, o seu poder era cada vez mais forte na Tchetchénia e, logo que cumpriu os 30 anos, foi nomeado Presidente pelo Kremlin.
Kadirov escapou a mais de cinco atentados, mas conseguiu liquidar os mais conhecidos comandantes da guerrilha separatista: Salman Raduev, Chamil Bassaev, Aslan Maskhadov, etc. Conseguiu, através de conversações e amnistias, trazer para o seu lado muitos dos guerrilheiros, alguns dos quais ocupam, hoje, cargos importantes no sistema de poder da república. Porém, agora, aposta apenas na componente militar para acabar com o que resta da guerrilha.
A guerrilha está, presentemente, bastante enfraquecida, mas, não obstante, continua a organizar atentados terroristas e ataques em várias regiões da Tchetchénia, coordenando também as suas operações com as guerrilhas separatistas que actuam na Inguchétia, Daguestão e Cabardino-Balcária.
Moscovo tem canalizado importantes meios financeiros para a reconstrução da Tchetchénia, permitindo a Kadirov realizar alguma política social e conquistar o apoio de parte significativa da república, cansada da guerra.
Porém, alguns analistas consideram que o poder de Kadirov se baseia quase exclusivamente na repressão e na liquidação dos seus adversários.
“Uma pessoa que se orgulha de matar “federais” (soldados russos) desde os quinze anos é um bandido. Ele continua a ser bandido mesmo depois de Putin o ter condecorado com a medalha de Herói da Rússia”, considera Garri Kasparov, ex-campeão do mundo de xadrez e dirigente da oposição russa.

Ninguém tem qualquer prova de que sou um assassino


“Ninguém tem qualquer prova de que eu tenho assassinado ou mandado assinar alguém. Jornalistas, polícia, procuradores, todos investigaram e investigam. Se provarem a minha culpa, que me castiguem”, declarou Ramzan Kadirov, Presidente da Tchetchénia, numa entrevista exclusiva à Agência Lusa.
“Que poderia fazer essa mulher contra mim? Ela acusava-me de violar os direitos humanos, queixou-se de mim a Moscovo, vieram cá comissões, activistas, mas nada conseguiram provar”, acrescenta, indignado.
Kadirov referia-se, concretamente, a Natália Estemirova, activista dos direitos humanos que foi raptada em Grozni e assassinada na Inguchétia (república vizinha da Tchetchénia) no mês passado.
“Ela nunca teve honra, consciência, honestidade. Eu convidei-a para trabalhar em conjunto pelo povo, mas ela recusava-se a trabalhar com a direcção da república”, acrescentou.
“Putin vai ao estrangeiro, assassinam Politkovskaia; Medvedev vai ao estrangeiro, assassinam Estemirova. Com que objectivo?”, interroga Ramzan Kadirov.
Anna Politkovskaia, forte crítica da política do Kremlin na Tchetchénia, foi assassinada em Outubro de 2006 em Moscovo, tendo alguns activistas dos direitos humanos acusado Kadirov de estar por detrás desse crime.
Porém, o dirigente tchetcheno não tem dúvidas de que essas acusações são dirigidas não só contra ele, mas contra o primeiro-ministro,Vladimir Putin.
“Sou totalmente um homem de Putin. Dizem que sou um homem do Kremlin, eu jamais trairei Putin, estou disposto a dar a minha vida por ele”, frisa, acompanhando estas palavras com forte gesticulação.
Kadirov não tem dúvidas que por detrás dessas acusações estão aqueles que “recebem dinheiro do Ocidente e querem receber mais e mais, por isso inventam”.
“Eles (activistas dos direitos humanos) não se preocupam com a integridade da Rússia. Consideram-se defensores dos direitos humanos, mas não respeitam os meus. Sou, em primeiro, lugar, um homem, e só depois Presidente. Não me acusem sem provas”, sublinhou.
“Sabem que Kadirov é firme, tem um programa claro para o futuro da Tchetchénia, quer ver a sua república próspera e maravilhosa. Os cães ladram, mas a caravana passa”, concluiu.
P.S. Hoje, terça-feira, tornou-se pública a notícia de que mais dois defensores dos direitos humanos foram assassinados a tiro em Grozni. O mistério continua...

Putin é o meu herói, devo-lhe a vida


Avenida Putin em Grozni

“Putin é o meu herói! Estou disposto a sacrificar a minha vida por ele!Devo a vida a esse homem. Esta é a minha posição pessoal. Mas como Presidente da República da Tchetchénia, tenho presente que o nosso Presidente é Dmitri Anatolevitch Medvedev, político forte, sábio, correcto”, declarou o dirigente tchetcheno à Lusa, ao definir a sua posição face aos actuais dirigentes russos.
“Ele (Putin) não teve vergonha de baixar para o cargo de chefe do Governo, quis servir o seu povo, o seu Estado, no posto mais responsável. Por isso, a minha atitude para com Putin jamais mudará”, acrescentou ele.
“Quero, quero muito que Putin seja o Presidente vitalício da Federação da Rússia!”, exclamou, entusiasmado, ao responder à pergunta de se concorda com o regresso de Vladimir Putin ao Kremlin.
Kadirov não esconde o seu apoio à política do Kremlin no Cáucaso, considerando que qualquer cedência de Moscovo nessa região significará o fim da Rússia. Por isso, apoiou as acções militares russas contra a Geórgia, em Agosto do ano passado.
“A Ossétia do Sul é um pretexto para os americanos controlarem o Cáucaso e ditarem as suas condições. O Governo russo fez bem em não os ter deixado entrar... Porque o Cáucaso é a fronteira da Rússia”, explicou.
“Mas porque é que devemos entregar a Ossétia do Sul ou a Abkházia? Que sejam Estados soberanos, mas para a Rússia serão aliados”, sublinhou.
Durante a primeira guerra da Tchetchénia (1994-1996), Ramzan Kadirov combateu ao lado da guerrilha separatista tchetchena contra as tropas russas, mas sublinha que nunca lutou contra a Rússia.
”Eu nunca estive contra a Federação da Rússia, eu estive ao lado do meu povo. Então, o povo estava contra, foi obrigado por políticos: Ieltsin (antigo Presidente da Rússia), Berezovski (oligarca russo que se encontra refugiado em Londres) e outros do género que queriam destruir a Federação da Rússia, tal como tinham feito com a União Soviética”, defende ele.
O meu povo estava contra porque lançaram tanques contra nós, eram abençoados como se fossem combater fascistas, nós víamos tudo isso e suportámos tudo. Foi isso que nos obrigou a estar contra a Rússia”, sublinhou.
“Quando apareceram fortes estrategas na política da Federação da Rússia (Putin), o nosso povo compreendeu que podia ser útil à Rússia, que se podia reconciliar com os povos da Federação da Rússia, provar a toda a sociedade russa que o povo tchetcheno não foi o culpado do sucedido”, concluiu.

Os terroristas são diabos, devem ser liquidados



“Os terroristas não são pessoas, são diabos que nada têm de humano”, declarou Ramzan Kadirov, Presidente da Tchetchénia, numa entrevista à Lusa, comentando as actividades da guerrilha islâmica separatista.
“É preciso matá-los. Eles não merecem nem amnistia, nem perdão. Só a morte”, sublinhou emocionado.
Os guerrilheiros separatistas assassinaram o seu pai, Akhmad Kadirov, em Maio de 2004, e organizaram vários atentados contra a sua vida. A última operação terrorista de envergadura teve lugar há pouco mais de dez dias, quando uma suicida se fez explodir à entrada da sala de concertos de Grozni.
O Presidente da Tchetchénia deveria assistir a um espectáculo nesse dia, mas, por razões desconhecidas, não apareceu. A explosão matou seis pessoas e feriu dezenas.
“Eles têm as mãos cobertas de sangue do meu povo, o lugar deles é uma cova com três metros de profundidade, mas não nos cemitérios muçulmanos, pois eles não são muçulmanos”, frisou.
Sabendo que estava a dar uma entrevista a uma agência de informação estrangeira, Kadirov acrescentou: “Hoje, liquidámos um e vamos liquidá-los a todos. Trata-se de terroristas internacionais. Eles não combatem só contra a Tchetchénia e a Rússia...”.
No entanto, Kadirov está disposto a receber Akhmed Zakaev, ministro dos Negócios Estrangeiros da Itchkéria (nome que a guerrilha separatista dá à Tchetchénia), que reside em Londres. Nos últimos tempos, Zakaev tem apelado à guerrilha para que suspendam os ataques terroristas, mas sem êxito.
“Há pouco tempo, ele, zangado, telefonou-me e pediu-me para não dizer que ele irá ser nomeado director da Sala de Concertos de Grozni. Eu respondi-lhe que já temos um bom ministro da Cultura, mas ele ocupará um lugar digno quando regressar à Tchetchénia, pois não falta trabalho”, revelou.
Antes de se dedicar à política, Akhmed Zakaev era actor no Teatro Dramático de Grozni e o mais conhecido intelectual entre os comandantes da guerrilha separatista. Em Londres, ele tem o apoio da conhecida actriz britânica Vanessa Redgrave.
Nos últimos tempos, mantém conversações com Kadirov com vista ao seu regresso à Tchetchénia.

Falamos de política sem microfone ligado

O futuro da Tchetchénia

Homem armado à paisana


Parque de Grozni, Monumento à amizade dos povos ao fundo


“Posso falar de tudo contigo, pois não tenho nada a esconder, mas desliga o gravador quando quiseres falar de política”, declarou à Lusa Aslambek, pequeno empresário tchetcheno, quando iniciámos a conversa.
Os tchetchenos, tais como outros povos do Cáucaso, são um povo muito hospitaleiro e comunicativo, considerando os pedidos dos seus hóspedes como uma ordem de cumprimento obrigatório, mas, desta vez, foi pedida uma excepção.
“Não peço isso porque receie criticar o Presidente Kadirov, mas a nossa história recente é dramática demais para fazer considerações públicas”, acrescentou Aslambek.
Zurema - uma mulher tchetchena que regressou há poucos anos de um campo de refugiados na Inguchétia, república vizinha da Tchetchénia – concretiza mais essa ideia.
“Eles não se cansam de falar do “síndroma de guerra” dos soldados, mas esquecem-se dos milhares de civis, de pessoas simples que sofreram durante estes anos”, começa ela o seu relato.
“Eu e a minha família tivemos de fugir da Tchetchénia duas vezes e ninguém se lembrou de nós”, continua, e sublinha com emoção: “os canais centrais de televisão (da Rússia) deturpam tudo, não acreditem neles. Apresentam os tchetchenos como uns selvagens, mas isso é uma grande mentira”.
Durante a viagem de avião para Grozni, um oficial das tropas do Ministério do Interior que ía sentado ao nosso lado, preveniu-nos: “Rapaziada, durante o dia, podem passear na cidade, mas não vos aconselho a sair do quarto do hotel durante a noite, a situação é complicada”.
“Eles (soldados russos) têm de justificar a sua presença aqui, por isso inventam. Vai ver que as coisas são bem diferentes”, explica à Lusa um taxista, enquanto nos transporta pelas ruas de Grozni.
O taxista chama a atenção, com um sorriso irónico, para um dos poucos monumentos que sobreviveram às duas guerras na Tchetchénia: o monumento à amizade dos povos. Um tchetcheno e um inguche (tchetchenos e inguches são povos muito próximos) seguem atrás de um russo. Estas três personagens históricas implantaram o poder comunista na Tchetchénia e Inguchétia depois da Revolução de Outubro de 1917.
“O monumento à amizade desses povos resistiu às bombas, mas a confiança entre tchetchenos e russos está longe de ser uma realidade. Duas guerras que provocaram muitos milhares de mortos entre a população civil tchetchena deixaram feridas muito profundas que não sei se algum dia sararão”, declara à Lusa Mukhamad, professor universitário que saiu da Tchetchénia em 1996 para a República Checa e que só recentemente regressou a casa.
“Vim ver o que tudo vai dar...”, frisa com algum cepticismo.
“Não obstante o que foi feito, que é visível em Grozni, ainda falta fazer muito mais. O desemprego é ainda muito grande, principalmente entre a juventude, que viveu a maior parte da sua vida na guerra. A corrupção e o compadrio são um forte travão económico e social”, acrescenta ele.
A prova da corrupção na Tchetchénia não tardou a chegar. Um polícia de trânsito mandou parar o táxi em que seguíamos, alegando que o condutor não tinha virado no lugar certo. O taxista “reuniu-se” a sós com o agente e regressou quase meia hora depois.
“Queria tirar-me a carta de condução por quatro meses e só me safei depois de pagar 400 rublos (cerca de oito euros). Normalmente, levam cem ou duzentos, mas desta vez exagerou, levou-me muito dinheiro”, relatou ele.
A presença militar russa não é visível no centro de Grozni, mas, nos arredores, nomeadamente junto do aeroporto, pode ver-se, por detrás de muros de tijolo, um enorme quartel de tropas do Ministério do Interior da Rússia.
“É fácil sarar as feridas materiais, reconstruir edifícios e ruas, mas as marcas da guerra vão demorar tempo a sair dos corações dos tchetchenos. Sofremos muito”, frisa Zurema.

Grozni, a cidade que renasceu das cinzas

Mesquita Akhmad Kadirov

Retratos de pai e filho Kadirov

Sala de Concertos de Grozni


As ruas da capital da Tchetchénia, cidade de Grozni, já não fazem lembrar as imagens televisivas que chegavam desta urbe nos anos noventa do século passado ou nos primeiros anos do actual.
A capital tchetchena sarou muitas das feridas materiais provocadas pela guerra, mas os cidadãos daquela república da Federação da Rússia no Cáucaso do Norte ainda sentem o peso da perda de milhares dos seus entes queridos na guerra entre separatistas islâmicos e Moscovo.
“Conta-se que um jornalista ocidental prometeu cem euros a quem lhe mostrasse um edifício atingido por bombas ou balas, mas não encontrou ninguém capaz de fazer isso”, declara à Lusa Adam, advogado de Grozni, com uma ponta de orgulho.
Adam chama a atenção para o Parque construído em memória dos jornalistas que norreram nas duas guerras da Tchetchénia (1994-1996 e 1999-2001).
“Esté é o primeiro lugar na cidade onde as pessoas puderam estar até altas horas da noite à mesa das esplanadas de cafés e restaurantes sem receio de tiros ou bombas”, sublinha ele, apontando para um longo jardim ladeado de árvores novas e com uma fonte ao meio.
Alguns metros à frente, torna-se visível a grandiosa mesquita que tem o nome de Akhmad Kadirov, Presidente pró-russo da Tchetchénia que foi assassinado pelos guerrilheiros islâmicos em 2004, pai do actual dirigente, Ramzan.
Pelo traço e pela imponência, este templo muçulmano tenta não só copiar, mas até competir com a Catedral de Santa Sofia em Istambul, na Turquia, templo cristão transformado em mesquita pelos turcos.
Perto da mesquita, que Adam recorda ser “a maior da Europa”, foi recentemente inaugurada uma moderna sala de concertos, que já foi palco de um atentado terrorista. Há pouco mais de dez dias atrás, uma suicida fez-se explodir à porta do edifício, tendo o atentado, que visava liquidar Ramzan Kadirov, morto seis pessoas e ferido dezenas.
“Trata-se de um acto cada vez mais raro em Grozni e na Tchetchénia. Os terroristas querem mostrar que ainda combatem, mas têm cada vez menos apoio. As pessoas estão cansadas”, afirma à Lusa Akhmad, estudante de uma das escolas superiores da capital tchetchena.
O taxista Aslambek desvia a nossa atenção para o nome da principal artéria da cidade: a Avenidade Lénine ostenta agora o nome do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin.
“Trata-se de uma iniciativa de Ramzan Kadirov, que considera que Vladimir Putin está na origem na estabilidade que hoje temos”, frisa Mukhamad, outro estudante.
O culto da personalidade, ou mais exactamente, de várias personalidades, é evidente desde que se aterra no Aeroporto de Grozni.
“A minha arma é a verdade e qualquer exército é impotente perante essa arma”, reza umas das citações de Akhmad Kadirov escrita à entrada do aeroporto. A poucos metros da porta aérea da capital tchetchena, numa das paredes de um hotel pode-se ver um gigantesco retrato de Ramzan Kadirov com a palavra de ordem: “A felcidade consiste em servir o povo”.
Além dos retratos de Akhmad e Kadirov, pode-se ver em numerosas praças e ruas da cidade os rostos de Dmitri Medvedev e Vladimir Putin, Presidente e primeiro-ministro da Rússia.
“Eu não aprovo que se colem por todo o lado o meu retrato, a iniciativa não é minha. Pode retirá-los todos amanhã, mas aparecerão novos. Se ninguém os arranca ou estraga com tinta, é porque o povo me apoia”, declarou à Lusa Ramzan Kadirov, quando confrontado com essa questão.
“É um gesto do povo para com o Presidente, que trouxe estabilidade, calma à Tchetchénia”, concorda o advogado Adam.
Durante o dia, Grozni é uma cidade como outra qualquer, mas quando cai a noite é notório o aumento de patrulhas militares e policiais nos acessos à capital tchetchena.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Tropas russas poderão ser autorizadas a actuar em qualquer região do mundo

O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, anunciou hoje ter apresentado à Câmara Baixa do Parlamento Federal um projecto-lei que regulamenta o emprego das Forças Armadas russas no estrangeiro.
“Este assunto está ligado ao que aconteceu há um ano”, precisou Medvedev, referindo-se ao conflito russo-georgiano em torno da Ossétia do Sul, e acrescentou: “Não queremos nada que se repitam tais acontecimentos, mas é necessário ter um regulamento estrito”.
O dirigente russo fez essa declaração numa reunião com os dirigentes dos quatro partidos representados na Duma Estatal da Rússia, realizada em Soitchi, no sul do país.
Dmitri Medvedev pediu aos deputados para introduzir alterações à lei “Sobre a Defesa”, propondo uma adenda ao artigo 10 dessa lei, que define o emprego das tropas russas no estrangeiro.
Segundo essa adenda, as tropas russas poderão ser empregues para “rechaçar ataques contra as Forças Armadas da Federação da Rússia ou contra outras tropas aquarteladas fora do território da Rússia”, “rechaçar ou impedir a agressão contra outro Estado”; “defesa dos cidadãos da Federação da Rússia no estrangeiro” e “lutar contra pirataria e garantir a segurança da navegação”.
A “defesa dos cidadãos da Federação da Rússia no estrangeiro” foi, ainda antes de estar prevista na lei, foi o pretexto utilizado por Moscovo, em Agosto do ano passado, para expulsar as tropas georgianas da Ossétia do Sul e levar os seus militares às portas de Tbilissi, capital da Geórgia.
Quem será a próxima ou as próximas vítimas desta nova doutrina militar?

Marinha de Guerra russo envia vasos para procurar navio de carga desaparecido

O Ministério da Defesa da Rússia anunciou hoje que, na quarta-feira, navios da sua Armada do Mar Negro entrarão no Oceano Atlântico para dar início às buscas do navio de carga Arctic Sea, com tripulação russa a bordo.
Segundo a agência Interfax, que cita fontes do Ministério da Defesa da Rússia, “amanhã, às 23.00 horas (20 horas TMG), quatro vasos de guerra da Armada do Mar Negro atravessarão o Estreito de Gibraltar e entrarão no Atlântico, tendo já sido dado a respectiva ordem”.
Porém, os militares russos sublinham que as operações de busca se irão realizar “de passagem”, ou seja, “na zona e no quadro do gráfico de movimentação dos navios de guerra russos, porque eles devem chegar ao porto Baltisk (no Mar Báltico) na hora marcada”.
A velocidade destes navios de guerra é de 11 nós (cerca de 20 km/hora).
Na véspera, a Marinha de Guerra da Rússia anunciou que o navio Arctic Sea, que transportava madeira do Báltico para a Argélia, teria desaparecido em águas territoriais portuguesas.
Porém, hoje, o Ministério dos Transportes da Rússia anunciou ter recebido das autoridades portuguesas a informação de que esse navio não se encontra nas águias territoriais de Portugal.

Foi Dmitri Medvedev que disse

Caros leitores, para não dizerem que sou eu que passo a vida a denegrir a Rússia e os seus dirigentes, deixo aqui um artigo difundido pela AFP com importantes declarações do Presidente Medvedev. Afinal, é urgente modernizar e diversificar a economia russa.
"O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, considerou hoje que o seu país deve reformar a sua economia, que actualmente depende fortemente da venda de hidrocarbonatos (petróleo e gás natural) para sair do actual “impasse”.
“No futuro não podemos continuar a desenvolvermo-nos desta maneira. É um impasse”, disse Medvedev em Sotchi (estância balnear do Sul da Rússia), em declarações emitidas pela cadeira de televisão NTV.
“De outro modo a nossa economia não tem futuro”, sublinhou.
“A Rússia precisa de andar para a frente, mas de momento não há passos em frente. Andamos às voltas, e a crise mostrou-o bem”, disse ainda Medvedev.
Muito estimulada pelos petrodólares, nos últimos anos a economia da Rússia teve taxas de crescimento espectaculares: 5,6 por cento no ano passado, 8,1 por cento em 2007 e 7,7 por cento em 2006.
“Mas desde que a crise começou afundámo-nos. E afundámo-nos de maneira mais intensa que muitos outros países”, reconheceu o Presidente da Rússia.“Porquê? Porque não mudámos a estrutura da nossa economia. A nossa economia assenta nos hidrocarbonetos, os recursos naturais e a sua exportação”, explicou.
As autoridades russas estimam para este ano uma queda de 8,5 por cento do PIB do país."

Impressões da Tchetchénia

"Eu,culpado? Provem!"

Entrada da residência de Ramzan Kadirov em Gudermes

Avenida Vladimir Putin, Grozni


Caros leitores, tal como estava planeado, eu realizei uma visita, há muito tempo esperada, à Tchetchénia. As impressões são muitas. O objectivo era entrevistar Ramzan Kadirov, Presidente dessa república do Cáucaso russo, mas ainda tive tempo de passear por Grozni, falar com as pessoas.
Antes de publicar o texto sobre as peripécias do encontro com Ramzan Kadirov, quero salientar que os tchetchenos são um povo muito hospitaleiro e atencioso. Isso permitiu falar com bastantes pessoas em Grozni e ficar com uma ideia da cidade que renasce das cinzas.

A entrevista com o Presidente da Tchetchénia, Ramzan Kadirov, estava marcada para o sábado, mas logo que os jornalistas aterraram na capital tchetchena, na sexta-feira, foram avisados de que o encontro poderia ter lugar a qualquer momento.
“O Presidente Kadirov é imprevisível, tem uma agenda muito cheia, movimenta-se muito. Por isso, não podemos dizer qual a hora certa da entrevista”, informou um funcionário do centro de imprensa da Presidência tchetchena.
“Ramzan Kadirov está em toda a parte”, respondeu o funcionário, com o característico humor caucasiano, à pergunta: “Onde se vai realizar a entrevista?”.
As horas passavam, a noite aproximava-se, mas as informações que chegavam do centro de imprensa continuavam a ser pouco precisas. O primeiro sinal chegou ao hotal cerca das dez da noite, quando nos foi dito que deveríamos estar prontos em quinze minutos para sair.
Uma carrinha da Administração Presidencial recolheu-nos no hotel e dirigiu-se a alta velocidade para fora de Grozni, desrespeitando todas as normas do código de estrada. O encontro não se realizaria no palácio presidencial da capital tchetchena.
Passámos a cidade de Argun e, depois de percorrer cerca de 40 quilómetros, quando nos aproximávamos de Gudermes, outra cidade tchetchena, a carrinha parou junto de uma quinta iluminada com lâmpadas com as cores da bandeira tchetchena: verde, branca e vermelha.
As barreiras e homens barbudos, armados com metralhadoras Kalachnikov, vestidos de forma a que era difícil distinguir se estavamos perante agentes da autoridade ou guerrilheiros, eram um sinal de que ali vivia alguém que necessita de protecção.
Depois da revista de gravadores, máquinas fotográficas e telemóveis, a carrinha transportou-nos através de um parque onde havia um hipódromo (Ramzan Kadirov é um grande admirador de corridas de cavalos) e vários edifícios, entre os quais uma pepuena mesquita, uma jaula com um casal de leões, aves exóticas como pavões e outras.
Um novo e longo compasso de espera foi preenchido com conversas com funcionários do centro de imprensa de Ramzan Kadirov sobre a guerra na Tchetchénia e a situação no Cáucaso.
Já passava da uma hora da manhã quando fomos convidados a entrar na residência do Presidente tchetcheno. Descalçámos os sapatos junto da porta da entrada, como manda a tradição muçulmana, e entrámos numa sala de bilhar, onde Kadirov, vestindo um fato de treino, disputava uma partida com um dos seus seguranças.
Foi ainda preciso esperar mais um pouco para que o Presidente trocasse o fato de treino por uma camisa Dolce & Gabbana e se sentasse à secretária do seu gabinete.
Ramzan Kadirov, com intensa gesticulação e emoção, como é próprio dos homens do Cáucaso, respondeu a todas as perguntas, sem fugir às mais desagradáveis. Os gestos tornavam-se mais frequentes e a voz subia de tom quando se defendia das acusações de estar por detrás de assassinatos de adversários políticos e defensores de direitos humanos.
O dirigente tchetcheno nem sequer escondeu a sua preferência face aos actuais dirigentes russos.
“Putin é o meu herói, estaria disposto a dar a vida por ele. Gostaria que ele fosse Presidente da Rússia!”, exclama Kadirov, mas acrescenta: “O Presidente da Rússia é Dmitri Anatolevitch Medvedev, é perante ele que respondo”.
Eram três da manhã quando Ramzan Kadirov retomou a partida de bilhar, depois de se despedir dos jornalistas.
“Ninguém sabe quando é que o nosso Presidente dorme, descansa ou trabalha. Pode acordar de madrugada e dirigir-se para as montanhas, ou realizar reuniões de trabalho”, revela à Lusa um funcionário da Presidência.



Fez-me lembrar José Estaline, que também gostava de trabalhar à noite, podendo levantar da cama os seus ministros a qualquer hora da noite.

domingo, agosto 09, 2009

Navio mercante com tripulação russa desaparece junto da costa portuguesa



A Marinha de Guerra da Rússia segue com atenção o desaparecimento do navio de carga Arctic Sea e já deu as indicações necessárias aos seus navios, lê-se num comunicado divulgado hoje em Moscovo.
O navio de carga Arctic Sea, com tripulação russa de 13 homens, deixou de estar em contacto com terra junto da costa portuguesa, escreve hoje a edição electrónica do Sovfakht, jornal especializado em transportes marítimos.
Segundo o director deste jornal, Mikhail Voitenko, o navio, que navegava sob bandeira de Malta, deveria ter chegado a um porto argelino no passado dia 04 de Agosto, mas não existe qualquer tipo de comunicação com ele desde 28 de Julho.
“O navio literalmentente desapareceu, não há comunicação com ele, nem o armador, nem os parentes sabem da sua localização. O navio está a ser procurado por todos os serviços, incluindo armadas militares”, acrescentou.
“Um navio desse tipo não pode desaparecer facilmente, não podia afundar-se antes de lançar um SOS, isso é simplesmente impossível”, frisou.
Na sexta-feira passada, a rádio finlandesa informou que o navio teria sido desviado no Mar Báltico, quando navegava da cidade de Ikovstadt rumo à Argélia.
Segundo o diário Helsingin Sanomat, citando autoridades portuárias espanholas, o navio de carga não atravessou ainda o Estreito de Gibraltar.
Emm Moscovo não se exclui a possibilidade de este desvio do navio de carga estar ligado ao tráfico de droga.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Parlamento da Ossétia do Sul nomeou o primeiro-ministro



Para os leitores que não compreenderam os meandros financeiros na Ossétia do Sul, que vive exclusvamente à custa do Orçamento da Rússia, deixo aqui um texto que escrevi para a Agência Lusa hoje:

"O Parlamento da Ossétia do Sul, região separatista da Geórgia, cuja independência foi reconhecida pela Rússia, nomeou o cidadão russo Vadim Brovtsev (na foto), para o cargo de primeiro-ministro.
Na véspera, Eduard Kokoiti, Presidente osseta, demitiu Aslanbek Bulatsev de chefe do governo da Ossétia devido “ao seu estado de saúde”.
A candidatura de Brovtsev, apresentada por Kokoiti, foi aprovada, em votação secreta, por 24 dos 27 deputados do Parlamento.
Vadim Brotsev, 40 anos, ocupava o cargo de director de uma companhia de construção civil da cidade russa de Tcheliabinski, nos Urais.
Esta troca de um ossete por um russo no cargo de primeiro-ministro poderá ter a ver com o desaparecimento dos meios financeiros canalizados pela Rússia para a reconstrução da Ossétia do Sul.
“Recentemente, uma missão do Tribunal de Contas da Rússia esteve na Ossétia do Sul e constatou que muito do dinheiro enviado tinha desaparecido nos meandros da corrupção local”, declarou à Lusa por telefone uma fonte em Moscovo.
“Trata-se claramente de uma tentativa de aumentar o controlo de Moscovo sobre os dirigentes da Ossétia do Sul”, frisou.
“Por outro lado, o Kremlin sublinha uma vez mais que é senhor da situação naquela república”, concluiu a fonte."

terça-feira, agosto 04, 2009

Ossétia do Sul encerra fronteira com Geórgia

A fronteira estatal da Ossétia do Sul com a Geórgia será encerrada à meia noite, declarou hoje o Presidente osseta, Eduard Kokoiti, citado pela agência interfax.
Numa reunião com dirigentes dos serviços de segurança em Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul, Kokoiti invocou, como razões para justificar essa decisão, as “provocações cada vez mais numerosas da parte georgiana nos últimos tempos, bem como o perigo da entreda na Ossétia do Sul da “gripe suína”, alguns casos da qual foram registados na Geórgia.
Segundo Kokoiti, a proibição da travessia da fronteira diz respeito tanto a veículos como a peões. Entretanto,
Tbilissi já reagiu à decidiu de Moscovo de pôr o seu contingente militar em estado de alerta. “As tropas russas encontram-se no território da Geórgia de forma completamente ilegal, elas ocupam hoje cerca de 20 pc do nosso território”, declarou Alexandre Nalbandov, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia.
Segundo ele, “as declarações sobre o reforço da preparação militar dos militares e guarda-fronteiriços russos que se encontram na Ossétia do Sul, são até curiosas”.
“Elas contêm uma ameaça aberta de emprego da força contra a Geórgia”, frisou.
Nos últimos dias, as relações entre Moscovo e Tbilissi agudizam-se, acusando-se mutuamente de ataques armados na Ossétia do Sul, região separatista da Geórgia, mas cuja independência é reconhecida pela Rússia.
P.S. Gostaria de chamar a atenção para uma das causas do encerramento da fronteira: a gripe suína. O Sr. Kokoiti deveria ter inventado algo mais inteligente. Na Geórgia h~´a apenas 12 casos de gripe A H1V1.
Seria mais importante analisar se toda esta agudização da crise na Ossétia do Sul não tem a ver com o desaparecimento dos meios financeiros canalizados pela Rússia para a reconstrução do "novo Estado independente".

segunda-feira, agosto 03, 2009

Uzbequistão não quer base militar russa no Quirguistão

O Uzbequistão opõe-se à instalação de uma nova base militar russa no sul do Quirguistão porque desestabilizará a situação na região, anunciou hoje o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Uzbequistão num comunicado.
“O Uzbequistão considera que não existe necessidade alguma de instalar uma nova base militar russa no sul do Quirguistão, uma zona complicada e pouco previsível onde se juntam as fronteiras de três países e onde se poderá desestabilizar a situação”, assinala-se no comunicado.
Moscovo revelou os seus planos de criar uma nova base militar no Quirguistão depois de assinar, no dia 01 de Agosto, o memorando “Sobre as intenções da Rússia e do Quirguistão de desenvolver o marco legal que regula o estacionamento de unidades militares e o aquartelamento de contingentes adicionais russos no território do Quirguistão”.
Segundo este plano, Moscovo pretende instalar um contingente militar adicional que incluirá um batalhão e um centro de instrução para preparar militares russos e quirguizes.
A Rússia tem já uma importante base aérea militar em Kant, nos arredores de Bichkek, capital do Quirguistão, perto da base área militar norte-americana de Manas. Estas bases foram criadas a pretexto de travar o alargamento do extremismo islâmico à Ásia Central e de apoiar a luta contra os talibãs no Afeganistão.
“Esses planos podem provocar processos de militarização e dar início a manifestações nacionalistas e extremistas capazes de desequilibrar seriamente a situação neste vasto território”, assinala a diplomacia uzbeque.

domingo, agosto 02, 2009

Acusações de Moscovo são “ameaça aberta” - diplomacia georgiana

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia condenou hoje a declaração do Ministério da Defesa da Rússia onde se acusa as autoridades georgianas de provocações contra a Ossétia do Sul.
Segundo a diplomacia de Tbilissi, as acusações são “absolutamente infundadas” e a declaração é considerada uma “provocação aberta contra a Geórgia”.
Além disso, na declaração sublinha-se que a posição de Moscovo “visa desestabilizar a situação na região e encaminhar os acontecimentos segundo um cenário perigoso”.
O Ministério da Defesa da Rússia advertiu, ontem, que utilizará a força para defender a Ossétia do Sul e os soldados russos aquartelados nessa república caso a Geórgia não suspenda os ataques contra essa sua república separatista.
“Esses ataques causam sérias preocupações. E no caso de mais provocações que ameaçem a população da Ossétia do Sul e o contingente russo, o Ministério da Defesa da Rússia reserva-se o direito de empregar toda a sua força e recursos disponíveis para defender a população civil e as tropas russas”, sublinha-se num comunicado desse ministério.
Segundo ele, nos últimos dias, desde o território da Geórgia que se têm realizado ataques contra povoações da Ossétia do Sul e Tskhinvali, capital dessa república, sem, até ao momento, provocar vítimas.
“Num cenário similar desenvolveram-se, em Agosto de 2008, os acontecimentos que conduziram à agressão da Geórgia contra a Ossétia do Sul e os ataques contra as tropas de paz russas”, acrescenta-se no comunicado do Ministério da Defesa.
Horas antes, o Ministério da Informação da Ossétia do Sul anunciou que um posto de observação militar desse território tinha sido atacado na manhã de Sábado com fogo de morteiros a partir do território da Geórgia.
A 30 de Julho, Geórgia e Ossétia do Sul trocaram acusações sobre as origens do tiroteio que se produziu durante a noite na zona de Tskhinvali, sem causar vítimas, nem destruições.
Trata-se da primeira onda de incidentes depois da Rússia ter intervindo militarmente contra a Geórgia, a 08 de Agosto de 2008, a pretexto de defender os seus cidadãos e tropas de manutenção da paz na Ossétia do Sul.
Essa guerra terminou com um cessar de fogo assinado entre a Rússia e a Geórgia, tendo a União Europeia actuado como intermediária. Em Setembro do mesmo ano, Moscovo reconheceu a independência não só da Ossétia do Sul, mas também da Abkhásia, outra república separatista da Geórgia.
Até agora, esta iniciativa do Kremlin recebeu o apoio apenas da Nicarágua.

Contributo para a História (Moçambique)


Guennadi Luchenok foi um dos pilotos militares soviéticos que combateu em Moçambique ao lado da FRELIMO.
Aqui fica parte de uma entrevista por ele concedida ao jornal “Vesti Segodnia”, orgão de informação publicado na Letónia (país onde actualmente reside) em língua russa. Luchenok tripulava um caça MIG-17 e combateu em Moçambique em 1979. Os aviões de combate soviéticos chegavam por mar ao porto de Nacala.
“Deram-nos várias vacinas, mas, no fundamental, recomendavam tratar com álcool todas as doenças incuráveis para os europeus. Viajavamos para África como uma equipa de desportistas, em aviões civis, tínhamos passaportes diplomáticos verdes. Se bem me recordo, partimos no Outono e chegámos ao Hemisfério Sul no zénite do Verão”, recorda.
Guennadi, que esteve apenas uma vez no Maputo, pois os caças soviéticos estavam estacionados “num ponto completamente diferente do país, reconhece que também participou nos combates contra a RENAMO, “apoiada pela República da África do Sul e pela Rodésia do Sul”. “Do “outro” lado também havia aviões antigos: os americanos “Sabre” e “Super-Sabre”. Mas nunca tive de disparar contra eles; no fundamental, atacavamos alvos terrestres, peças de artilharia ou lança-mísseis. Voavamos a 1200-1800 metros. O MIG-17 estava muito bem armado, tinha duas metralhadoras de 23 mm e uma de 30 mm, enquanto que os “Sabre” americanos” tinham 6 metralhadoras de 12,7 mm. Mas o “Sabre” fazia ponjaria através de um sistema de rádio, enquanto que, no MIG, tínhamos de fazer contas de cabeça, ter em conta todos os ângulos, correntes aéreas que desviavam as munições”, continua o piloto.
“Eu disparava e bombardeava bem”, continua o oficial soviético, “Voei em Moçambique 150 horas, ou seja, realizei cerca de 250 voos... Tínhamos muitas limitações com o combustível, porque, os caças voam com mais êxito, e com menos consumo de combustível, a uma altura de 9-10 quilómetros”.
Quanto às baixas entre pilotos moçambicanos, o soviético recorda que, fundamentalmente, os aviões eram abatidos por peças de artilharia anti-aérea. “Eu comandava um grupo de 5 homens, dos quais 2 morreram. Eles catapultaram e lixaram-se. Lá, as leis são cruéis e só dificilmente fazia prisioneiros”, conclui.


quinta-feira, julho 30, 2009

Moldávia: resultados eleitorais que apenas colocam interrogações


Depois de contados 98% dos votos, a Comissão Eleitoral Central da Moldávia anunciou que o Partido dos Comunistas venceu o escrutínio com 45,1% dos votos (48 deputados), o Partido Liberal-Democrático ficou em segundo lugar com 16,4% (17 mandatos), o Partido Liberal conseguiu 14,4% (15 assentos), o Partido Democrático obteve 12,6% (13 lugares) e a aliança Nossa Moldávia - 7,4% (oito deputados).
Se estes resultados se concretizarem, os comunistas perderão a maioria que tinham no Parlamento (60 dos 101 deputados), alcançada no passado mês de Abril.

Mas antes de passar à análise dos resultados, gostaria de chamar a atenção para o facto de, em quatro meses, os comunistas terem perdido 22 deputados, ou seja, quase um terço dos votos. Este número parece dar razão à oposição que, em Abril, acusou os comunistas de falsificação dos resultados da eleição parlamentar, pois é muito difícil perder tantos deputados em tão pouco tempo. Ou talvez continue a ter razão o ditador comunista José Estaline, que dizia que "o importante não é em quem se vota, mas a forma como se contam os votos".
Nas parlamentares de Abril, os comunistas ficaram a um voto de puderem eleger o Presidente da República no Parlamento. Eram necessários 61, mas o Partido dos Comunistas conseguiu 60 e, desta vez, ao contrário do que acontecera anteriormente, não conseguiu arrastar para o seu lado nenhum deputado da oposição. Como as eleições de Julho foram convocadas porque o Parlamento não conseguiu eleger o Chefe de Estado de um dos países mais pobres da Europa, os resultados do último escrutínio vieram ainda mais complicar a situação.
Em nome do afastamento dos comunistas do poder e do enfraquecimento do domínio político e económico do clã do ainda Presidente da República, Vladimir Voronin, os partidos democráticos poderão conseguir formar Governo, mas este vai ser instável, porque há fortes contradições no campo anti-comunista.
Além disso, a situação económica e social da Moldávia é tão deplorável, que o futuro Governo terá tarefas titânicas para resolver.
As complicações internas poderão ser agravadas pelos problemas externos com que se debate esta antiga república da União Soviética.
A Moldávia enfrenta o problema do separatismo na Transdniestria, onde a maioria da população é russa e ucraniana, e na Gagaúzia, onde a população é predominantemente turcomana. Se o novo Governo tentar fazer uma política pró-romena ou pró-europeia, terá sérios problemas com esses territórios separatistas, que recebem o apoio de Moscovo.
As coisas ficarão ainda piores se o novo Governo fizer ressuscitar a adesão da Moldávia à NATO.

É de assinalar que a Rússia tem nas mãos fortes alavancas de pressão económica, como é o caso do boicote aos produtos agrícolas moldavos, principalmente ao vinho. Não foi por acaso que, durante a campanha eleitoral, Moscovo suspendeu as limitações à importação de vinho moldavo, que antes considerava não estar conforme as normas sanitárias.
Esta pesada derrota dos comunistas é, ao mesmo tempo, um revés para a política externa russa na região, se ela for analisada segundo o prisma da luta entre a Rússia, por um lado, e a UE e Estados Unidos, por outro lado.
Nada promete estabilidade no país e o primeiro teste será a eleição do novo Presidente da República. Se os comunistas não chegarem a um acordo com a actual oposição, sobre a figura do novo Presidente, será impossível a sua eleição, o que obrigará a uma repetição de eleições parlamentares. Um país tão pobre como a Moldávia não se pode dar ao luxo de realizar actos eleitorais tão frequentemente como acontece agora.


domingo, julho 26, 2009

Dirigentes russos reconhecem crise tecnológica no país


Vladimir Visotski, comandante-chefe da Marinha da Rússia, reconheceu, numa entrevista à agência Ria-Novosti, que os fracassos nos testes do míssil balístico intercontinental "Bulava" se devem "à crise no desenvolvimento das tecnologias na Rússia".
Seis dos onze ensaios, nomeadamente os últimos dois, falharam.
"Realmente, hoje existe uma crise nas áreas tecnológicas. O "Bulava" é uma prova fundamental que provará se a Rússia irá superar essa crise", acrescentou o almirante.
Estes fracassos levaram à demissão do académico Iúri Solomonov do cargo de director do instituto que fabrica esses mísseis que deverão equipar os submarinos de última geração. Mas os ensaios irão continuar para que o complexo militar-industrial russo não "perca a cara".
O almirante russo colocou o dedo numa das mais graves feridas da actual Rússia, ou seja, constatou que o país se atrasa em relação a outros no campo da investigação científica e tecnológica, correndo o risco de esse atraso se tornar irreversível.
Este retrocesso tem várias causas, algumas das quais têm origem no período que se seguiu ao fim da União Soviética. Nomeadamente, na "fuga de cérebros". Nessa altura, milhares de cientistas russos partiram para países estrangeiros (e não só ocidentais) à procura de melhores condições de vida e de trabalho. Além disso, as autoridades deixaram praticamente de investir na investigação científica, mantendo-se esta, muitas vezes, por carolice por cientistas.

A situação poderia ter mudado com a chegada de Vladimir Putin ao Kremlin, em 2000, e com o aumento brusco do preço do petróleo e gás nos mercados internacionais. Foram lançados alguns programas para atrair cientistas que tinham partido, bem como estrangeiros, mas tiveram pouco êxito. Os que decidiram regressar vêem-se confrontados com barreiras como a burocracia e a corrupção e optam por emigrar novamente.

A degradação do nível de ensino no país é outro factor que contribui seriamente para a crise nas áreas tecnológicas.

Outra via que poderia ter sido melhor aproveitada é a via da aquisição de novas tecnologias no estrangeiro, de produções inteiras, como, por exemplo, o caso da Qimoda, mas aqui, a julgar pelos resultados das inovações no complexo militar-industrial, também parece não ter havido grande aproveitamento.
Se há algum avanço sensível, ele existe na cooperação de empresas russas com estrangeiras. Por exemplo, o fabrico do avião de passageiros Superjet-100.
A direcção russa não soube aproveitar a chuva de dólares, provocada pelo aumento do preço do petróleo e gás, para modernizar e diversificar o seu tecido económico. Daí ser evidente que, entre os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), a Rússia não é uma locomotiva do desenvolvimento tecnológico, não me enganando se afirmar que, neste campo, é a"última carruagem".
Claro que seria um absurdo continuar a política soviética de "autosuficiência", quando tudo se fabricava no país, mesmo que os produtos tivessem pouca qualidade, mas também não é normal que um país como a Rússia, que tem pretensões a potência mundial, importe uma grande parte de produtos e bens que consome.
Portugal teve uma amarga experiência neste campo. Quando dos Descobrimentos, o dinheiro das especiarias (no caso da Rússia, leia-se petróleo e gás) ia para luxos e para pagar as dívidas contraídas pela Coroa junto de casas bancárias estrangeiras.

sábado, julho 25, 2009

Resposta do Senhor Bispo de Leiria-Fátima

Recebi a seguinte resposta de Sua Excelência, o Senhor Bispo de Leiria-Fátima, a propósito da minha carta sobre o ícone de Nossa Senhora de Kazan. Antes de a publicar, quero manifestar o meu agradecimento pela atenção dispensada.

"O Senhor Bispo de Leiria-Fátima recebeu as suas observações, que agradece e que leu atentamente.

O assunto apresentado será posto à consideração dos responsáveis.

Apresento respeitosos cumprimentos.


Vítor Coutinho
Chefe de Gabinete Episcopal"

quinta-feira, julho 23, 2009

“Obama de Volgogrado” é originário da Guiné-Bissau


Joaquim Crima, 37 anos, natural da Guiné-Bissau, era um dos muitos estrangeiros desconhecidos que viviam na Rússia, mas passou a ser conhecido por “Obama de Volgogrado” depois de ter decidido candidatar-se a presidente da junta de freguesia de Srednii Akhtubinsk, localidade que se situa no concelho de Volgogrado.
Crima, que terminou a Universidade Pedagógica de Volgogrado (antiga cidade de Estalinegrado), foi viver para Srednii Akhtubinsk há 12 anos atrás, casou-se com uma russa e considera-se russo, escreve o diário Nezavissimaia Gazeta, exigindo ser tratrado por Vassili Ivanovitch.
O guineense, que se dedica com êxito à venda de melancias numa estrada, foi buscar esse nome e patronímico a Tchapaev, herói comunista da guerra civil de 1917-1922 na Rússia e personagem principal de um famoso filme soviético homónimo.
Segundo órgãos de informação regionais citados pelo diário de Moscovo, “o negro Vassili Ivanovitch, que já passou a ser conhecido por “Obama de Volgogrado”, declarou que, se for eleito presidente da junta, irá trabalhar como um negro de manhã à noite em prol dos habitantes”.
O Nezavissimaia gazeta sublinha que a campanha eleitoral para o poder local no Distrito de Volgogrado adquire um carácter “cada vez mais escandaloso”, sublinhando que os candidatos, para vencerem, por vezes mudam a cor política, “nomeadamente no sentido directo”.
Baseando-se em opiniões de observadores locais, o jornal escreve, com ironia, que a candidatura do “Obama de Volgogrado” deve contribuir apenas para a reeleição do actual presidente da junta Vassili Romanov, porque “tendo como fundo um candidato negro derrotado, as boas acções e a firmeza do patriarca da política de Srednii Akhtubinsk devem ser mais visíveis”.
O Nezavissimaia Gazeta chama a atenção para o facto de Romanov estar a mudar de cor, mas, neste caso, cor política. Depois de ter sido, durante muitos anos, um “comunista inabalável” e crítico da “política de Vladimir Putin”, ele abandonou o Partido Comunista da Federação da Rússia e suspeita-se que passará a apoiar a Rússia Unida, força política do actual primeiro-ministro russo.