
Iunus-Bek Evkurov, Presidente da Inguchétia (república do Cáucaso do Norte russo), encontra-se internado num hospital de Moscovo em "estado muito grave", continuando em estado de coma.
O atentado contra a vida deste político, general e Herói da Rússia, veio mostrar uma vez mais que a "política de pacifícação", realizada pelo Kremlin no Cáucaso, está muito longe de dar resultados positivos, ou mais precisamente, falhou.
Para quem não saiba, o general Evkurov comandou as tropas russas que, em 1999, depois de uma rápida marcha, ocuparam o aeroporto de Pristina, no Kosovo.
A aposta de Moscovo na força militar dura e crua é insuficiente para normalizar a situação no Cáucaso. Ela pode ter efeitos positivos, mas apenas temporários e muito relativos. Tropas e polícias russos concentram os seus esforços na Tchetchénia e o Kremlin até chegou ao ponto de suspender o "regime de operação antiterrorista" nesse território, mas a guerrilha separatista islâmica desfere ataques noutras repúblicas vizinhas do Cáucaso russo: Inguchétia, Daguestão, Ossétia do Norte ou Cabardino-Balcária.
O Serviço Federal de Segurança (ex-KGB) da Rússia, os Ministérios do Interior e da Defesa da Rússia não se cansam de anunciar "êxitos" na luta contra os terroristas, mas o facto é que nem sequer conseguem garantir a segurança de altos dirigentes das repúblicas caucasianas.
Quanto aos dirigentes da guerrilha, funciona o princípio da "matrioska" (boneca russa), ou seja, as forças de segurança matam um cabecilha, mas este é imediatamente substituído por outro, normalmente mais radical e sanguinário do que o antecessor.
A solução destes problemas só pode ser complexa, porque são complexas as raízes deste conflito.
Uma das causas é o nível altíssimo de corrupção no Cáucaso do Norte, onde tudo se compra e se vende, desde o mais simples emprego até aos mais altos cargos políticos. No caso da Inguchétia, os oito anos de presidência de Murat Ziazikov, general do KGB que antecedeu a Evkurov, ficaram marcados por grande aumento desse cancro social. Iunus Bek-Evkurov tentou mexer nesse vespeiro e as consequências estão à vista.
Outro problema é a arbitrariedade dos órgãos de poder em relação aos cidadãos. As pessoas sentem-se completamente desprotegidas, vão parar à prisão sem saberem a razão, o desaparecimento de pessoas, raptos, etc. são fenómenos muito comuns.
Uma das formas de enfrentar a brutalidade do poder, principalmente entre os jovens, é pegar em armas, fugir para as montanhas e juntar-se à guerrilha islamita, que pretende separar o Cáucaso da Federação da Rússia e criar um califado.
Outra das fontes de força humana desse guerrilha é o desemprego, que atinge dimensões catastróficas. Na Inguchétia, o número de desempregados é superior a 50% da população activa. Por isso, a participação na guerrilha ou em grupos de crime organizados é a única fonte de rendimento para muitas famílias.
É importante assinalar que as ligações entre a guerrilha islamita e o crime organizado são outro elemento que Moscovo prefere não ter em conta, preferindo acusar organizações islâmicas estrangeiras de financiar os guerrilheiros, embora não seja segredo para ninguém que muito do dinheiro ganho em negócios escuros e corruptos vai alimentar a guerrilha.
Nesta situação, a Rússia, se não quiser perder definitivamente o Cáucaso, terá de tomar medidas urgentes não só no campo militar, mas também nas áreas diplomática, política e social.
A diplomacia é necessária para contactar e dialogar com aqueles sectores da guerrilha ou da oposição que ainda aceitam sentar-se à mesa das conversações, embora se deva reconhecer que estes sectores são cada vez menos numerosos, mas, mesmo assim, é um meio que ainda pode ser aproveitado.
No campo social e económico, é preciso criar condições em que os cidadãos se sintam seguros e com possibilidade de trabalhar, que a ascensão social não dependa da pertença a este ou àquele clã, mas da competência e do esforço individual.
Trata-se de um trabalho árduo e longo e onde a Rússia deve ter o apoio da União Europeia, pois o Cáucaso faz parte da Europa e a degradação da situação pode transformar essa região em mais um Afeganistão ou Somália, a escolha não é muito grande.
Se os problemas do Cáucaso, e aqui tenho em vista não só a parte russa, mas também a Geórgia, Arménia, etc., não começarem a ser resolvidos de forma séria e complexa, arriscamo-nos a ter mais um "buraco negro" na Europa.
Mas para que isso aconteça, é necessário que a região deixe de ser uma zona de disputa entre a Rússia, os Estados Unidos e a União Europeia. Ou será que se juntarão esforços apenas quando o Cáucaso se transformar irremediavelmente noutro Afeganistão?



















