Antes de publicar o texto sobre as peripécias do encontro com Ramzan Kadirov, quero salientar que os tchetchenos são um povo muito hospitaleiro e atencioso. Isso permitiu falar com bastantes pessoas em Grozni e ficar com uma ideia da cidade que renasce das cinzas.
A entrevista com o Presidente da Tchetchénia, Ramzan Kadirov, estava marcada para o sábado, mas logo que os jornalistas aterraram na capital tchetchena, na sexta-feira, foram avisados de que o encontro poderia ter lugar a qualquer momento.
“O Presidente Kadirov é imprevisível, tem uma agenda muito cheia, movimenta-se muito. Por isso, não podemos dizer qual a hora certa da entrevista”, informou um funcionário do centro de imprensa da Presidência tchetchena.
“Ramzan Kadirov está em toda a parte”, respondeu o funcionário, com o característico humor caucasiano, à pergunta: “Onde se vai realizar a entrevista?”.
As horas passavam, a noite aproximava-se, mas as informações que chegavam do centro de imprensa continuavam a ser pouco precisas. O primeiro sinal chegou ao hotal cerca das dez da noite, quando nos foi dito que deveríamos estar prontos em quinze minutos para sair.
Uma carrinha da Administração Presidencial recolheu-nos no hotel e dirigiu-se a alta velocidade para fora de Grozni, desrespeitando todas as normas do código de estrada. O encontro não se realizaria no palácio presidencial da capital tchetchena.
Passámos a cidade de Argun e, depois de percorrer cerca de 40 quilómetros, quando nos aproximávamos de Gudermes, outra cidade tchetchena, a carrinha parou junto de uma quinta iluminada com lâmpadas com as cores da bandeira tchetchena: verde, branca e vermelha.
As barreiras e homens barbudos, armados com metralhadoras Kalachnikov, vestidos de forma a que era difícil distinguir se estavamos perante agentes da autoridade ou guerrilheiros, eram um sinal de que ali vivia alguém que necessita de protecção.
Depois da revista de gravadores, máquinas fotográficas e telemóveis, a carrinha transportou-nos através de um parque onde havia um hipódromo (Ramzan Kadirov é um grande admirador de corridas de cavalos) e vários edifícios, entre os quais uma pepuena mesquita, uma jaula com um casal de leões, aves exóticas como pavões e outras.
Um novo e longo compasso de espera foi preenchido com conversas com funcionários do centro de imprensa de Ramzan Kadirov sobre a guerra na Tchetchénia e a situação no Cáucaso.
Já passava da uma hora da manhã quando fomos convidados a entrar na residência do Presidente tchetcheno. Descalçámos os sapatos junto da porta da entrada, como manda a tradição muçulmana, e entrámos numa sala de bilhar, onde Kadirov, vestindo um fato de treino, disputava uma partida com um dos seus seguranças.
Foi ainda preciso esperar mais um pouco para que o Presidente trocasse o fato de treino por uma camisa Dolce & Gabbana e se sentasse à secretária do seu gabinete.
Ramzan Kadirov, com intensa gesticulação e emoção, como é próprio dos homens do Cáucaso, respondeu a todas as perguntas, sem fugir às mais desagradáveis. Os gestos tornavam-se mais frequentes e a voz subia de tom quando se defendia das acusações de estar por detrás de assassinatos de adversários políticos e defensores de direitos humanos.
O dirigente tchetcheno nem sequer escondeu a sua preferência face aos actuais dirigentes russos.
“Putin é o meu herói, estaria disposto a dar a vida por ele. Gostaria que ele fosse Presidente da Rússia!”, exclama Kadirov, mas acrescenta: “O Presidente da Rússia é Dmitri Anatolevitch Medvedev, é perante ele que respondo”.
Eram três da manhã quando Ramzan Kadirov retomou a partida de bilhar, depois de se despedir dos jornalistas.
“Ninguém sabe quando é que o nosso Presidente dorme, descansa ou trabalha. Pode acordar de madrugada e dirigir-se para as montanhas, ou realizar reuniões de trabalho”, revela à Lusa um funcionário da Presidência.























