Texto traduzido e enviado pela leitora Cristina Mestre:
"Andrei Arkhanguelsk: Não quero comunicar nem ser activo
Esta crónica não é sobre o calor, mas sobre a nossa cultura de comunicação: é que no nosso país as conversas costumam ser um dos meios de nos salvarmos de qualquer catástrofe natural. Ao mesmo tempo, a verdadeira cultura de comunicação perdeu-se e as conversas transformaram-se num meio de nos levar a consumir.
O escritor Dmitry Danilov tem um livro chamado “Posição Horizontal”. Recomendo este romance porque, creio, nenhum dos actuais escritores expressou com tal força a essência da nossa vida: a repetição de acções automáticas, vazias e sem sentido.
As conversas “sobre qualquer coisa” são uma forma segura de nos obrigarem a fazer compras espontâneas. Por isso, a actividade e a sociabilidade tornaram-se na moral deste mundo.
Uma conversa frequente:
Falamos sobre a Holanda e a França,
Falamos sobre o carácter nacional dos holandeses, comparação com o carácter nacional dos franceses,
Falamos sobre Roterdão, comparação com Amesterdão,
Falamos sobre a subcultura da claque do Feyenoord, comparação com a claque do Ajax,
(Na mesa temos vodka, pão, toucinho fumado, carne, legumes guisados)
Falamos sobre o fenómeno dos carteiristas em Paris,
Falamos sobre as características do metro de Paris, comparação com as características do metro de Moscovo,
Falamos sobre a situação no mercado imobiliário de Moscovo,
Falamos sobre as novas máquinas fotográficas Nikon, comparação com as máquinas fotográficas Canon,
Falamos sobre os problemas ligados à crise económica,
Falamos sobre o escritor Anatoli Gavrilov, comparação com o escritor Viktor Erofeev,
Falamos sobre o restaurante Siviy Merin, que está a fechar,
Falamos ainda sobre várias coisas, à entrada do metro.
“Então até à próxima, gostei de te ver, passámos um bom bocado, depois ligo-te”.
Esta estrutura de uma típica “conversa de intelectuais num café da cidade”: ao contrário das conversas “normais” (onde se fala de coisas que se compraram e de tarifas, dos conhecidos comuns e queixas dos engarrafamentos) estas conversas consistem num interesse patológico sobre tudo o que não tem relação contigo, na rápida passagem de um assunto para outro, na demonstração de uma vasta erudição.
Claro que este formato fragmentado nos foi inculcado pela televisão e pela comunicação na Internet. As conversas sobre os novos produtos, os gadgets, são mesmo um tema à parte: na prática, é o nosso reconhecimento de que as coisas há muito que são mais perfeitas e melhores e até mais independentes do que as pessoas. A própria pessoa sente que a sua existência não é tão importante e está igualmente longe quer da Nikon D80, quer da Nikon D90.
As conversas tornaram-se uma imitação igual a muitas outras: a cultura de comunicação como nascimento de algo novo, conjunto, de procura profunda, terminou. Nós vivemos na época não da filosofia mas da psicologia e, como me disse recentemente uma amiga-filósofa, é por isso que a conversa se transformou para nós num instrumento terapêutico.
Conversámos – relaxámos os músculos da face, esquecemo-nos um no outro: o conteúdo da conversa não interessa, esquecemo-nos dela no meio dos nossos trinta planos. Aliás é fácil de dizer “Vamos falar de forma produtiva”; a frivolidade é o espírito do nosso tempo. Isto é reconhecido como um problema até pelos intelectuais. O curador de arte Hans Ulrich Obrist costuma juntar 16 dos mais conhecidos intelectuais londrinos na galeria Serpentine de três em três meses, às 5.45 da manhã para falar de um determinado tema. A hora não foi escolhida por acaso: às 5.45 não vais a lado nenhum por acaso, não vais lá para matar o tempo. As pessoas sacrificam o seu tempo de sono para poder conversar só se querem mesmo esclarecer algo a sério ou se têm algo para dizer.
Entretanto, o filólogo Mikhail Epstein está a recriar na Rússia a prática de “improvisações”, inventada há 30 anos. Recentemente, estive num destes encontros. Cinco, seis pessoas juntam-se a uma mesa, durante meia hora, escrevem um ensaio sobre um determinado tema, ou seja, assinalam as teses para a discussão e só depois é que discutem o tema.
“Para que é que inventou estas “improvisações” nos anos 80?” – perguntei eu a Mikhail Epstein. “Era uma fuga do sovietismo?” “Não. Era uma fuga do nosso próprio desleixo mental. Há muito que reparei que, quando na Rússia um grupo de pessoas simpáticas e inteligentes se junta à mesa e tu estás à espera de algo semelhante ao “Banquete” de Platão, afinal resulta uma conversa tipo “televisão”: não sei porquê todos consideram como sua obrigação não “falar de coisas pesadas”, deslizando para conversas sobre conhecidos comuns ou sobre anedotas… Porquê? Afinal há ainda quem tenha pena de perder tempo com futilidades! Foi por isso que inventei as improvisações …”.
A experiência de resistência à tagarelice inconsequente hoje ainda é mais actual: a grande descoberta da humanidade – a comunicação – foi colocada ao serviço do consumo. Não é por acaso que um dos argumentos na publicidade é o apelo “a conversar mais e mais”. Trata-se, obviamente, de ser propositadamente activo, conversador, participativo: todas estas coisas são actualmente sinónimo de consumo. Neste sentido, a publicidade há muito que não vende produtos mas sim a ideia de actividade. Faz-se publicidade não à imagem mas ao ritmo de vida. Um empregado experiente no restaurante, ao ver como a conversa está a animar, escolhe o momento adequando para sugerir humildemente: “Mais vinho?”
Aliás, o mesmo acontece com toda a economia, que se baseia actualmente no consumo não do que faz falta mas do que surge pela frente. A comunicação espontânea “sobre qualquer coisa” é a forma mais segura de nos levar a fazer compras espontâneas.
Por isso, a actividade, a comunicabilidade, a participação tornam-se na moral do mundo actual. Uma “pessoa como deve ser” é aquela que se interessa por tudo o que é novo, tudo o que acaba de sair, tudo o que é moderno, super-moderno. É aquela que tem um milhão de conhecidos e amigos. Consequentemente, aquele que evita a comunicação e as novidades, é amoral. Uma pessoa que não faça parte de um qualquer fórum ou rede social é considerada como doente, um irremediável outsider no mundo.
“Ó cabeça no ar, estás neste mundo ou no outro?” - é assim que dizem a uma criança, com um irónico estalar dos dedos em frente aos olhos, quando esta deixa de tagarelar alegremente e fica calada e distraída a pensar ao canto da mesa. “Estás muito calada…”, insistem os adultos com esta criança. Parece que tagarelar sem fim é considerado normal. As pessoas sentem um perigo – elas têm medo que a criança venha a ser pouco comunicativa, ou seja, que viole as regras deste mundo, que se afaste dos limites das pessoas. “Vais ficar toda a vida sozinha”, diz-lhe a mãe, assustando-a com a mais sombria das perspectivas.
….Eu não apelo a ir viver para um mosteiro. Simplesmente, quando te puxam à força para a comunicação, convém suspeitar se tal não estará a ser feito com algum outro motivo.
A alternativa à comunicação total é escapar à actividade imposta, em última instância, escapar à manipulação.
Isto não é, de maneira nenhuma, uma crítica ao capitalismo, é simplesmente a posição de um dependente, de um calaceiro da sociedade de consumo, que vive à custa das compras dos outros e à custa da actividade alheia. Enquanto os outros vendem as palavras quase de graça, o que está calado vende a raridade das suas palavras. Este também é um comportamento económico, só que é outro modelo. Finalmente, a negação e o afastamento da comunicação é também um desejo de ser outra pessoa, de te afastares de ti próprio.
Andrei Arkhanguelsk, jornalista, redactor da secção de cultura da revista “Oganiok” "