Oposição de cozinha
Uma amiga de infância, a jornalista Irina Khalip – um dos líderes da oposição bielorrussa, é uma mulher corajosa, decidida, agraciada com o título Herói da Europa pela sua luta pelos direitos humanos e liberdade. Nós estamos as duas sentadas na sua cozinha (na melhor tradição do underground soviético) e falamos sobre o destino da Bielorrússia. As nossas posições estão irremediavelmente afastadas: A Irina é uma romântica, democrata até ao tutano, eu sou pragmática; a Irina admira a América, eu não. Há dez anos que ela luta contra o ditador Lukachenko e há dez anos que Lukachenko se sente maravilhosamente.
A pequena e zangada oposição bielorrussa está infinitamente longe da população, das massas desconfiadas de antigos camponeses, que encaram tudo o que seja novo com uma apreensão resmungona. Para elas, a democracia até pode ser uma boa coisa mas não dá de comer.
“Lukachenko brinca sempre com a oposição”, explica-me ela. “Ele podia acabar com toda a gente, como se faz às moscas, mas não o faz. Para ele é mais vantajoso deixar os opositores sob vigilância, mas em liberdade: quando começar um novo jogo com o Ocidente, pode sempre dizer que tem alguém na oposição. Como diria Lukachenko, eles que continuem pelos seus apartamentos ou que discutam na Internet mas, se fizerem comícios, lá terão polícias com bastões à espera. No nosso país, só se pode fazer verdadeira política na cozinha, tal como na URSS, com a única diferença que os nossos dissidentes podem sempre emigrar, aqui ninguém os segura. Não posso dizer que temos uma ditadura com letra grande, a nossa é uma pequena ditadura familiar. Infelizmente, a maioria da população está-se nas tintas para a política”.
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Um idílio de exportação
A nossa gente considera sinceramente que a Bielorrússia é o “futuro luminoso” da Rússia, ou melhor, um dos futuros, o mais bem-amado. Em relação ao outro possível futuro, à maneira da China, e não obstante todas as aspirações dos comunistas, os russos têm uma certa desconfiança por razões conhecidas.
Compreensivelmente, a perspectiva de um futuro tipo “Europa” ou, Deus nos livre, “Estados Unidos”, na Rússia é encarada com repulsa.
Aliás, esta repulsa em relação ao Ocidente, aliada ao respeito em relação ao Batka, é tão enternecedora e paradoxal que percebemos enfim como a alma russa é de facto misteriosa.
Em Minsk gostam de brincar com os russos que se admiram com a limpeza das ruas bielorrussas, com os relvados bem tratados, com as vedações pintadas de fresco, com as máquinas agrícolas que funcionam (!) e com os exuberantes campos bem cultivados (!).
Uma coisa que me admirou pessoalmente há uns anos foi uma decisão do Batka: em todas as aldeias deveria haver uma cabeleireira! Eu até franzi docemente a testa. Que idílio! Imaginei a cabeleireira rural a frisar os caracóis às ordenhadeiras…. Lukachenko, tu és mesmo um verdadeiro pai, preocupado com os filhos, pensei eu encantada e sem qualquer ironia.
Sim, os kolkhoses, para cumprir o capricho do presidente, foram obrigados a gastar dinheiro nas cabeleireiras, contaram-me os meus amigos de Minsk a sorrir do meu arrebatamento. E o que é que aconteceu? As cabeleireiras lá ficaram sentadas sem trabalho e acabaram por ser mandadas embora. Não havia ninguém para arranjar o cabelo!
Depois de eu ter percorrido o país de Lukachenko, compreendi uma coisa importante (pelo menos, para mim). Há que ter muito cuidado com as impressões quando se vai à Bielorrússia. Muitas delas são para exportação.
Por exemplo, vemos um kolkhoz limpinho, com belíssimos indicadores de produção de leite e carne, com ordenados de 500 dólares. Podemos ficar emocionados e recordar os horrores das aldeias russas da região de Tver? Naturalmente. Só não nos podemos esquecer que os kolkhoses-modelo na Bielorrússia não são assim tantos e, se sairmos da estrada principal e entrarmos numa estrada velha, podemos rapidamente ir parar à “Rússia”.
Sim, a limpeza das ruas, a ordem, as casas sólidas e os autocarros que respeitam o horário ao minuto, tudo isto é naturalmente mérito do Governo.
Mas ainda é mais mérito dos bielorrussos, simples e trabalhadores, coisa que os apoiantes do Batka esquecem não sei porquê, ou melhor, não gostam de ter em conta….
Neste país, desprovido de grandes jazigos de petróleo e gás, apertado entre o Leste e o Ocidente em permanente rivalidade, e vivendo à custa de dotações russas, Lukachenko construiu uma economia exótica que os analistas mundiais não se cansam de olhar com admiração. Mas a sua admiração não tem a ver com inveja, mas sim com aquele sentimento de surpresa e estranheza como quando percorremos um museu de raridades: que coisas mais estranhas há neste mundo! Ou com a preocupação pensativa de um arquitecto: quanto tempo ainda irá ficar em pé esta engenhoca, construída contra todas as leis da Física?










