terça-feira, julho 27, 2010

Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA – 3ª parte)

Oposição de cozinha
Uma amiga de infância, a jornalista Irina Khalip – um dos líderes da oposição bielorrussa, é uma mulher corajosa, decidida, agraciada com o título Herói da Europa pela sua luta pelos direitos humanos e liberdade. Nós estamos as duas sentadas na sua cozinha (na melhor tradição do underground soviético) e falamos sobre o destino da Bielorrússia. As nossas posições estão irremediavelmente afastadas: A Irina é uma romântica, democrata até ao tutano, eu sou pragmática; a Irina admira a América, eu não. Há dez anos que ela luta contra o ditador Lukachenko e há dez anos que Lukachenko se sente maravilhosamente.
A pequena e zangada oposição bielorrussa está infinitamente longe da população, das massas desconfiadas de antigos camponeses, que encaram tudo o que seja novo com uma apreensão resmungona. Para elas, a democracia até pode ser uma boa coisa mas não dá de comer.
“Lukachenko brinca sempre com a oposição”, explica-me ela. “Ele podia acabar com toda a gente, como se faz às moscas, mas não o faz. Para ele é mais vantajoso deixar os opositores sob vigilância, mas em liberdade: quando começar um novo jogo com o Ocidente, pode sempre dizer que tem alguém na oposição. Como diria Lukachenko, eles que continuem pelos seus apartamentos ou que discutam na Internet mas, se fizerem comícios, lá terão polícias com bastões à espera. No nosso país, só se pode fazer verdadeira política na cozinha, tal como na URSS, com a única diferença que os nossos dissidentes podem sempre emigrar, aqui ninguém os segura. Não posso dizer que temos uma ditadura com letra grande, a nossa é uma pequena ditadura familiar. Infelizmente, a maioria da população está-se nas tintas para a política”. 


Um idílio de exportação
A nossa gente considera sinceramente que a Bielorrússia é o “futuro luminoso” da Rússia, ou melhor, um dos futuros, o mais bem-amado. Em relação ao outro possível futuro, à maneira da China, e não obstante todas as aspirações dos comunistas, os russos têm uma certa desconfiança por razões conhecidas.
Compreensivelmente, a perspectiva de um futuro tipo “Europa” ou, Deus nos livre, “Estados Unidos”, na Rússia é encarada com repulsa.
Aliás, esta repulsa em relação ao Ocidente, aliada ao respeito em relação ao Batka, é tão enternecedora e paradoxal que percebemos enfim como a alma russa é de facto misteriosa.     
Em Minsk gostam de brincar com os russos que se admiram com a limpeza das ruas bielorrussas, com os relvados bem tratados, com as vedações pintadas de fresco, com as máquinas agrícolas que funcionam (!) e com os exuberantes campos bem cultivados (!).
Uma coisa que me admirou pessoalmente há uns anos foi uma decisão do Batka: em todas as aldeias deveria haver uma cabeleireira! Eu até franzi docemente a testa. Que idílio! Imaginei a cabeleireira rural a frisar os caracóis às ordenhadeiras…. Lukachenko, tu és mesmo um verdadeiro pai, preocupado com os filhos, pensei eu encantada e sem qualquer ironia.
Sim, os kolkhoses, para cumprir o capricho do presidente, foram obrigados a gastar dinheiro nas cabeleireiras, contaram-me os meus amigos de Minsk a sorrir do meu arrebatamento. E o que é que aconteceu? As cabeleireiras lá ficaram sentadas sem trabalho e acabaram por ser mandadas embora. Não havia ninguém para arranjar o cabelo!
Depois de eu ter percorrido o país de Lukachenko, compreendi uma coisa importante (pelo menos, para mim). Há que ter muito cuidado com as impressões quando se vai à Bielorrússia. Muitas delas são para exportação.  
Por exemplo, vemos um kolkhoz limpinho, com belíssimos indicadores de produção de leite e carne, com ordenados de 500 dólares. Podemos ficar emocionados e recordar os horrores das aldeias russas da região de Tver? Naturalmente. Só não nos podemos esquecer que os kolkhoses-modelo na Bielorrússia não são assim tantos e, se sairmos da estrada principal e entrarmos numa estrada velha, podemos rapidamente ir parar à “Rússia”.
Sim, a limpeza das ruas, a ordem, as casas sólidas e os autocarros que respeitam o horário ao minuto, tudo isto é naturalmente mérito do Governo.
Mas ainda é mais mérito dos bielorrussos, simples e trabalhadores, coisa que os apoiantes do Batka esquecem não sei porquê, ou melhor, não gostam de ter em conta….
Neste país, desprovido de grandes jazigos de petróleo e gás, apertado entre o Leste e o Ocidente em permanente rivalidade, e vivendo à custa de dotações russas, Lukachenko construiu uma economia exótica que os analistas mundiais não se cansam de olhar com admiração. Mas a sua admiração não tem a ver com inveja, mas sim com aquele sentimento de surpresa e estranheza como quando percorremos um museu de raridades: que coisas mais estranhas há neste mundo! Ou com a preocupação pensativa de um arquitecto: quanto tempo ainda irá ficar em pé esta engenhoca, construída contra todas as leis da Física? 

Espírito empresarial luso na Rússia

A Parfois, marca portuguesa que é líder do mercado no sector dos acessórios, abriu duas lojas na capital russa e prepara-se, até 2013, para ter uma rede de doze lojas em Moscovo e São Petersburgo.
A empresa portuguesa, que fabrica acessórios, bijuteria, carteiras, relógios, chapéus, calçado e óculos, instalou as suas primeiras lojas na Rússia em dois grandes centros comerciais de Moscovo: “Centro Comercial Mega-Khimki” e “Centro Comercial Mega-Tiopli Stan”.
O sítio eletrónico Intermoda.ru não dúvida do êxito desta empresa portuguesa na Rússia, sublinhando que a Parfois “renova a sua coleção semanalmente”, acrescentando que, por isso, “aí poderá encontrar-se sempre uma prenda ideal para os mais existentes seguidores da moda”.
Além disso, chama-se a atenção para “a correlação ideal entre qualidade e preço”.
A Parfois, criada em 1994, tem lojas em 19 países e lança-se agora à conquista do mercado russo, onde o tipo de mercadoria por ela fabricada goza de grande procura.
 Em declarações à Lusa, Sérgio Marques defende que “Moscovo é prioritário para a Parfois”, realçando que “o plano de expansão prevê dez lojas em Moscovo e duas em São Petersburgo até 2013”.

segunda-feira, julho 26, 2010

Ponte 25 de Abril vista de Oeiras

Moscovo visto da minha janela


O mercúrio nos termómetros da capital russa subiu hoje até aos 37,2 graus centígrados, batendo assim o recorde absoluto durante todo o período de observações meteorológicas.
O anterior recorde: 36,8 graus centígrados, foi registado em 1926.
Porém, o Serviço Meteorológico da Rússia já veio anunciar que este recorde, o sétimo este ano, poderá ser batido já na próxima quinta-feira.
A Rússia está a ser assolada por uma onda inaudita de calor, que começou no início de Junho. Nas últimas semanas, o mercúrio não desce abaixo dos 30 graus na capital russa e arredores.
Esta anomalia atmosférica já levou à perda de 10 milhões de hectares de culturas, bem como a fortes fogos florestais.
Hoje de manhã, Moscovo acordou coberta por uma densa nuvem formada pelo fumo e cinzas explidos pelos incêndios nas florestas dos arredores da capital russa.
Segundo as autoridades sanitárias, o nível de poluição atmosférica em Moscovo é sete vezes superior à norma.

Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA – 2ª parte)


Este banquete é à custa de quem?
Uma das fraquezas dos bielorrussos é o vício das palavras de ordem, hábito que ficou dos tempos soviéticos. Por exemplo, num campo de cultivo aberto encontrei um severo placard de alerta: “Proteja as condutas de gás! O gás é a nossa riqueza!”.
“Um momentinho…”, indignei-me eu. “Por que é que o gás é a vossa riqueza? O gás é a nossa riqueza!”
 “Mas nós temos as condutas”, explicaram-me com um sorriso angelical.
“A astúcia bielorrussa consiste em dar a ideia que nós somos todos pobres e, ao mesmo tempo, receber da Rússia cerca de 8 mil milhões de dólares de subsídios por ano”, diz o politólogo local Leonid Zaiko. “Na Rússia não sabiam disso até 2004, simplesmente não contavam o dinheiro. Nós, só do petróleo, não pagávamos taxas de importação no valor de 3.010 milhões de dólares por ano. Aliás, Lukachenko nem sequer deu ordem para não pagar mas, mesmo assim, não pagávamos. Agora a Bielorrússia começou um novo jogo com a Europa e faz alusões a uma eventual mudança de “orientação”. O que acontecerá à Bielorrússia se a Rússia a obrigar, como vingança, a pagar o preço de mercado do gás? Só lhe poderemos dizer obrigado. Assim que a Rússia começar a vender-nos o gás de acordo com os preços médios regionais, o nosso país começará a progredir economicamente. Os baixos preços da matéria-prima levam à baixa competitividade dos produtos. Assim que o vosso Miller começar a vender-nos gás a preços normais eu organizo um abaixo-assinado para lhe construir uma estátua no centro de Minsk como libertador da Bielorrússia. O gás barato é como uma droga. Se nos libertarmos da dependência do gás barato, poderemos ser competitivos”. (…) “As bem ordenadas zonas rurais bielorrussas, que você parece tanto admirar, são pagas pelas cidades. O Estado canaliza todos os anos mil e quinhentos milhões de dólares para estas zonas. A agricultura é de tal maneira subsidiada que tal até irrita o Kremlin. Os trabalhadores agrícolas pagam a energia eléctrica a preços mais baixos que a média nacional. Nós temos uma estranha sociedade de subsídio-dependentes: uma em cada duas pessoas recebe subsídios do Estado. Metade da população habituou-se que lhe paguem diversas subvenções, pensões e regalias, enquanto a outra metade precisa de trabalhar. Na Bielorrússia nós estamos perante um vulgar neo-socialismo autoritário, com uma política social bastante perigosa, que já levou ao crescimento do paternalismo – um neo-socialismo construído com base nas ideias da igualdade e do logro económico”. 

Por que é que Lukachenko é tão popular? 
“Na Bielorrússia, respeitam os produtores porque eles garantem postos de trabalho”, diz o director da empresa de cosméticos Modum, Victor Lobkovich. “Lukachenko disse a dada altura: não precisamos de intermediários, dos que compram os produtos a baixo preço no estrangeiro e os vendem aqui mais caro.
 Nós temos uma lei que não está escrita: 70% dos produtos vendidos nas lojas têm que ser nacionais, em todo o lado se lêem apelos a comprar produtos bielorrussos.  
Fazendo uma activa propaganda do produtor local, o Estado, no entanto, mete os empresários na prisão com facilidade e variedade. Uma amiga minha bielorrussa, que há muito fugiu para o estrangeiro, contou-me que, dos 20 empresários que ela conhecia, 13 (!) estão presos.
“No nosso país, mantêm o povo sempre “em forma”: um grande número de homens de negócio estão nas prisões devido à imperfeição da nossa legislação”, diz o redactor-chefe do jornal “Obozrevatel”, Serguei Atrochenko.  “Isto é triste. Prendem também responsáveis públicos e até ministros. Ninguém está livre disso. Mas não há sistemas ideais. Nós, pelo menos, não temos oligarcas, como na Rússia. O que é a oligarquia? É a fusão dos grandes empresários com o poder político. Na Bielorrússia de Lukachenko isso é completamente impossível”.
As prisões de funcionários públicos e empresários são muito populares entre a população, condescendendo com os seus instintos mais baixos (quando se diz “somos pobres mas honestos” há sempre uma certa dose de agressividade social).
“Lukachenko joga com o seu eleitorado – pessoas de instrução média, a viver em pequenas cidades ou zonas rurais, com cerca de 50 anos ou mais velhas”, diz o politólogo Leonid Zaiko. Mas o seu eleitorado preferido são os reformados acima dos 70 anos, que no país não são poucos, cerca de 933.000. Este tipo de pessoas fica sempre muito bem impressionado com a “cenoura” das regalias sociais e o “pau” das prisões.   

Poderá haver uma revolução na Bielorrússia?
Tal parece ser pouco provável. A tendência para as revoltas e revoluções advém fundamentalmente dos estômagos vazios e, numa Bielorrússia rural, não há grande risco de fome. Todas as tentativas da pouco significativa oposição de “fazer despertar” a consciência política do povo estão condenadas ao fracasso.
Em parte, tal explica-se por uma espécie de reacção anti-romântica das classes médias em relação à Revolução Laranja na Ucrânia.
O camponês bielorrusso tem uma imagem caricatural da democracia ucraniana. Para ele, tudo aquilo não é mais que uma balbúrdia caótica. Uma outra explicação mais profunda tem a ver com o carácter nacional, paciente, tolerante, ponderado. “Os bielorrussos aguentam durante muito tempo”, diz o empresário Viktor Lobkovich. “Para além disso, nós não temos uma ideia nacional como na Ucrânia ou nos países bálticos. Nós nunca vivemos separados da Rússia, nós pensamos em russo, embora tenhamos, claro, o nosso orgulho próprio”.
“Somos um povo sossegado”, confirma o dono do jornal Obozrevatel, Serguei Atrochenko. Mas até um povo sossegado pode ser “aquecido” se a ideia do nacionalismo for bem financiada. Quando Lukachenko chegou ao poder, ele expulsou logo organizações do tipo George Soros. Mando-as embora e fez muito bem”.
No entanto, a geração jovem da época da Internet olha com esperança para o Ocidente. Cerca de 70% dos filhos da elite trabalham no estrangeiro e já não irão voltar. Mas a maioria da juventude, que não pode pagar universidades no estrangeiro, estuda nos estabelecimentos de ensino do Estado, ficando condenada a não poder sair do país. Lukachenko introduziu o velho sistema soviético de “distribuição” de licenciados: depois de terminarem o curso, o jovem é obrigado a trabalhar alguns anos no local para onde for “distribuído”. Os estudantes universitários que planeiam ser colocados pelo Estado estão proibidos de sair do país: é praticamente impossível obter um visto Schengen. Depois disso, as coisas seguem o seu curso natural: casamento, filhos, casa, e o jovem especialista fica “enterrado” numa qualquer pequena cidade ou zona rural do país. Este é um sistema brilhante, experimentado durante largos anos, que eu não me canso de aplaudir: a que propósito os contribuintes, na pessoa do Estado, deverão pagar os estudos de jovens mal-agradecidos que depois de receberem o diploma se vão logo embora para o estrangeiro e fazem de lá um gesto feio à sua mal-amada pátria?
(continua)

domingo, julho 25, 2010

Vladimir Putin encontrou-se com espiões russos expulsos dos Estados Unidos



O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, informou hoje que se encontrou com os russos que foram expulsos dos Estados Unidos por espionagem.
“Eu encontrei-me com eles”, reconheceu aos jornalistas num encontro com jornalistas em Foros, na residência do Presidente ucraniano, após conversações com Victor Ianukovitch.
“Conversámos sobre a vida”, acrescentou.
Quando os jornalistas lhe pediram para confirmar se ele realmente cantou com os ex-espiões karaoke, ele respondeu: “Cantámos não karaoke, mas com música ao vivo, cantámos “Quais as origens da Pátria””.
Esta famosa canção foi composta na era comunista e visava educar o patriotismo nos soviéticos.
(Não consigo imaginar a cena de Putin a cantar com os antigos espiões. Pagaria para ver)
Putin, que também foi agente dos serviços secretos soviéticos, declarou que os espiões desmascarados “irão trabalhar”.
“Estou convencido de que eles irão trabalhar em lugares condignos, estou convencido de que terão uma vida interessante e rica”, frisou.
No início de Julho, as autoridades policiais norte-americanas detiveram e expulsaram do país dez pessoas acusadas de espionagem a favor da Rússia.
Antes de se encontrar com Ianukovitch, Vladimir Putin participou num encontro de motociclistas que se reuniram na Crimeia. O primeiro-ministro Vladimir Putin apareceu num potente triciclo Harley Davidson, tendo sido recebido triunfalmente.
Quanto ao encontro com o Presidente da Ucrânia, o dirigente russo frisou que o objectivo principal foi "dar-lhe os parabéns". 


Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA)


Texto traduzido e enviado pela leitora Cristina Mestre:

"Reportagem de uma jornalista russa na Bielorrússia
No voo Moscovo – Minsk costumam dar jornais bielorrussos aos passageiros. Ao lê-los, mergulhamos num mundo fantástico de ordenhas e ordenhadoras, de heróis da produção agrícola, da luta pelas colheitas e pelo conhecimento, de êxitos desportivos e laborais.
Estes jornais alimentam-nos de moral em grandes doses. Na sociedade bielorrussa de gente boa também aparecem uns meliantes, condenados ao fracasso: uns burocratas maus, com os quais esta mesma sociedade leva a cabo uma permanente luta vitoriosa.  
Não sei, de facto, que relação têm estes jornais com o jornalismo mas o facto é que acalmam espantosamente os nervos. 
No mundo das futuras crises financeiras mundiais, os médicos deveriam receitar imprensa bielorrussa a todos os que estão aflitos, em vez de calmantes e soporíferos.
A Bielorrússia é a última ilusão de estabilidade e regresso da infância soviética, quando não havia publicidade nem engarrafamentos nas estradas, quando todos tinham a confiança tranquila que o futuro seria …igual ao presente.

Em frente rumo ao passado
No restaurante “Déjà vu”, no centro de Minsk, há esculturas de mármore de jovens comunistas com cornetas, vagueiam imponentes empregadas sonolentas, nas paredes estão pendurados retratos do Politburo e carpetes gastas (tal como na minha infância, quando colocar carpetes no chão era considerado um hábito burguês e uma bofetada à moral pública).
Os altifalantes difundem com entusiasmo: “Nada de tristezas, temos toda a vida pela frente!”. Parece que os bielorrussos não têm razões para estarem tristes. Têm um TSUM e um GUM, ruas de Lenine e de Karl Marx, avenidas largas e direitas. A criminalidade, pelos vistos, não existe: as crianças andam na rua até altas horas da noite. As pessoas são amigáveis e um bocado inibidas, os taxistas são bem-educados e dão troco de acordo com o taxímetro, os bêbados andam a direito, em geral mantendo a direcção, e não são brutos. As mulheres são moderadamente bonitas, os homens são moderadamente feios.
Pela discrição nas cores, pela fleuma e moderação no comportamento, a Bielorrússia está mais próxima da Europa do que a Rússia.  
O lema do presidente “um prato de torresmos e um cálice de vodka” é rigorosamente respeitado: nas ruas não há mendigos e um naco de toucinho e um cálice de vodka estão garantidos a todos.
Acrescente-se a isso a natural sovinice camponesa dos bielorrussos. “Quando compro toucinho na loja, levo fresco e vez de salgado, que é mais barato, e salgo-o em casa”, explica-me uma minha conhecida. “Nós, bielorrussos somos poupados, gostamos de guardar coisas como os hamsters. Todos têm qualquer coisa escondida em casa para o que der e vier”.    
A popular rede de lojas “Rubliovski”, que eu erradamente tomei por um oásis de luxo e produtos gourmet, está antes vocacionada para as pessoas que gostam de poupar. “Isto não é a vossa Rubliovka”, explicaram-me os bielorrussos ligeiramente ofendidos. “Rubliovka vem da palavra rublo. É uma loja para quem cada rublo conta”.
O bielorrusso não é só uma nacionalidade mas uma mentalidade.
“Trata-se de um fenómeno de um país de camponeses, ou melhor, de um país de camponeses migrantes não adaptados”, diz o politólogo bielorrusso Leonid Zaiko. 
É daqui que vem a sua prudência de pessoas do campo, a capacidade de se adaptar a uma realidade pobre, a baixa emigração, a astúcia amenizada por uma gentileza faladora e uma irremediável hostilidade em relação a qualquer ideia revolucionária que tenham ouvido nos últimos 20 anos.
Em Moscovo há muito menos trabalhadores imigrantes bielorrussos do que tajiques, moldavos ou ucranianos.  
Os bielorrussos ficaram presos à terra dos seus campos. Eles sentem nostalgia em relação ao seu passado soviético, basta-lhes o seu presente e têm medo do amanhã. 
Neles está há muito tempo escondida uma desconfiança em relação ao enriquecimento rápido, aos novos-ricos. Não é tanto uma assumida consciência de classe mas sim uma secreta inveja de camponês. Quando há umas semanas, um carro velhinho embateu num Bentley em Minsk, os cidadãos viram-se a braços com um complexo sentimento: por um lado, orgulho de na Bielorrússia terem surgido os primeiros Bentley, por outro, o embate satisfez-lhes o seu sentido de justiça social (“é bem feito, para o Bentley não andar a fazer-se de fino!)  
“No nosso país é indecente ser rico”, diz Viktor Lobkovich, um empresário local.
“Não se pode mostrar o dinheiro que tens: para quê irritar as pessoas? Aqui não há um fosso tão grande entre os pobres e os ricos, como na Rússia”.
“Então vocês gostam de serem todos nivelados?”, perguntei.
“Gostamos da estabilidade”.
“Estabilidade na pobreza?”  
“Ainda que assim seja. Não temos pessoas MUITO pobres, mas também não há bielorrussos na Forbes.”
A elite russa gosta de ter o Abramovich, que pode comprar iates ou um submarino, gosta dos oligarcas”, diz o politólogo Leonid Zaiko. “Quando eu olho para essas caras tenho a impressão que estou no futebol: andam 20 jogadores no campo e os outros estão sentados a ver. Na Bielorrússia não há um único iate. É perigoso tê-los. Se alguém aparece com algum, o presidente “privatiza-o” logo e mete o dono na prisão. No nosso país gostam de prender as pessoas.
Se um empresário começa a ter dinheiro, é convidado para uma “conversa” com as autoridades locais e estas propõem-lhe afavelmente que patrocine alguma escola ou hospital (conforme os rendimentos).
Esta é uma proposta que pode ser recusada mas que é melhor não recusar já que na Bielorrússia há cerca de 70.000 leis e actas normativas e não será difícil encontrar uma razão para prender um empresário renitente.
O patrocínio é uma espécie de imposto moral: se tu tiveste sorte, faz favor de ajudar a sociedade.
“É mais fácil para mim dar uns computadores e equipamento desportivo todos os anos à escola, do que pôr em risco a minha liberdade”, explicou-me um empresário conhecido.
(continua) 

http://kp.by/daily/24344/534140 "

sábado, julho 24, 2010

Blog dos leitores (O Padrinho)



Texto escrito e enviado pelo leitor António Campos: 

"Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades", lá diz o velho ditado português, que parece reflectir o encanto que, de quando em vez, para nós vão tendo as politiquices entre quistos totalitários regurgitados das cinzas da União Soviética. Refiro-me neste caso à recente guerra mediática entre o Kremlin e o seu antigo compadre, Aleksander Lukashenka, que anda a dar que falar e garante desenvolvimentos interessantes. Especialmente tendo em conta que as próximas eleições presidenciais na Bielorrússia estão marcadas para daqui a alguns meses.

A administração russa parece ter-se cansado da rebeldia do presidente da  "última república soviética", depois de uma série de bofetadas que este resolveu dar nos propósitos do seu irmão mais velho. Todos temos bem presentes as inúmeras disputas político-económicas entre estes dois vizinhos, que acabavam quase sempre em boicotes de parte a parte, e parece que a mais recente guerra do gás, em conjunto com uma redescoberta amizade entre o ditador e a União Europeia, levaram a que o Kremlin tenha tirado as luvas e passado ao ataque abaixo da cintura.

No dia 16 de Julho, a cadeia de televisão NTV, propriedade da Gazprom, transmitiu um documentário  intitulado "O Padrinho", retratando Lukashenka como um líder desonesto, ignorante e sem escrúpulos, empenhado em manter o poder a todo o custo. Entre muitos outros salamaleques do mesmo género, a reportagem revela também que o "milagre económico bielorrusso" provém fundamentalmente da subsidiação russa. As invectivas jornalísticas continuam durante largos minutos, contando com o apoio diante das câmaras de diversas figuras da oposição bielorrussa.

A verdade é que, para os observadores da realidade política e económica de ambos os países, não há aqui nada de extremamente novo. Mas para muitos dos dez milhões de bielorrussos, cuja informação é manipulada por meios de comunicação subservientes ao regime (o qual tem também vindo a contar com uma relativa benevolência dos media russos transmitidos via satélite), o que lhes entrou pelas casas adentro foi devastador. De momento, este é o principal tema de conversa nas cozinhas do país inteiro. Inquirido para comentários, Lukashenka afirma que não responde ao que apelida de “suja propaganda anti-bielorrussa”. (Estava aqui a pensar com os meus botões…de acordo com a interpretação de Lukashenka, será neste caso legítimo acusar os russos de “bielorrussofobia”?)

A retaliação não se fez esperar: jornalista bielorrussos deslocaram-se à Geórgia para entrevistarem Saakashvili. Na peça, transmitida pela televisão, este não se poupou a esforços para dissecar a natureza maléfica do regime russo. E lá veio o contra-ataque, com a transmissão da segunda parte do documentário, onde, pasme-se, os jornalistas russos fazem revelações bombásticas sobre atropelos aos os direitos humanos e os misteriosos desaparecimentos de políticos oposicionistas em finais da década de 90. Cada vez mais interessante, a troca de galhardetes continua, desta vez com a publicação na Bielorrússia de excertos do famoso relatório incriminatório de Boris Nemtsov sobre Putin (cujas cópias destinadas a distribuição em território russo foram confiscadas pelo FSB), imediatamente contraposta pela deslocação à Rússia, a convite das autoridades, de destacadas figuras da oposição bielorrussa.

Lukashenka enfrenta um problema sério, uma vez que preside a um país com uma fraca identidade nacional e pouca consciência cívica e política, o que o torna extremamente permeável à propaganda russa. Por outro lado, o apoio coxo do ocidente à oposição bielorrussa está a levá-la a procurar apoios mais a leste, o que paradoxalmente levou a uma total inversão dos patrocínios: temos hoje um cenário em que se vê Lukashenka a apelar à inteligentsia ocidentalizada com algumas cenouras apontadas a oeste, e os oposicionistas a orquestrarem campanhas suspeitamente bem financiadas, pondo-se ao lado da Gazprom durante a guerra do gás. As voltas que o mundo dá…

Qual é o verdadeiro objectivo do Kremlin com esta manobra de agitprop que lembra o negrume soviético? Shaun Walker,  jornalista a escrever no Independent, dá um lamiré, quando relembra o "súbito interesse da televisão russa, no início deste ano, sobre os abusos dos direitos humanos no Quirguistão, que serviu como catalisador do descontentamento popular, levando a uma revolução que depôs o presidente Bakiyev".  Há quem ande já a dizer que as deslocações de políticos oposicionistas bielorrussos a Moscovo fazem parte do processo de "casting" para seleccionar o sucessor de Lukashenka. Por outro lado, se os seus vassalos se aperceberem que o timoneiro já não cai nas graças de Moscovo, poderão virar rapidamente a casaca e tirar-lhe o tapete, uma vez que em política o cavalheirismo pouco conta. Outros afirmam que estas manobras são apenas uma tentativa de vergar o presidente sem fomentar a mudança de regime, voltando a ter a Bielorrússia como um estado satélite subserviente conduzido por um Lukashenka menos problemático.

Seja qual for o verdadeiro plano do Kremlin, encurralado entre Moscovo e Moscovo, o querido Batka (rebaptizado Krestni Batka – padrinho -  pela televisão estatal russa) tem à sua frente uns quantos meses que prometem ser cativantes para nós, que adoramos estas intrigas, e mais importante que tudo, meses que talvez sejam decisivos para o futuro a longo prazo dos bielorrussos. Mas a capacidade de sobrevivência de um ditador que se conseguiu cravar no poder durante 16 anos sem contestação de maior, num país com a economia de pantanas e um dos mais baixos níveis de vida da Europa, não é certamente de subestimar.

quinta-feira, julho 22, 2010

Antologia de poesia russa e soviética


Texto publicado ontem pela Lusa:
"A antologia "Poesia soviética russa (séculos XIX-XX)", editada esta semana, integra 107 poemas de 30 autores russos, seleccionados, traduzidos e anotados pelo poeta José Sampaio Marinho.
A época que José Sampaio Marinho viveu na ex-União Soviética 'foi determinante' para a escolha os poetas, escreve no prefácio o jornalista José Milhazes, que foi seu amigo.
José Sampaio Marinho faleceu em 1998, na Póvoa de Varzim, vítima de cancro no pulmão, mas antes entregou a José Milhazes os poemas traduzidos, considerando este ser sua incumbência encontrar uma editora, como afirma no prefácio.
No texto, Milhazes salienta 'a qualidade das traduções', conservando 'não só o conteúdo, mas a riqueza rítmica dos originais russos'.
Estão representados nesta antologia, entre outros, Serguei Essénine, Boris Pasternak, Leonid Martínov, Nikolai Rúbtsov,Vladimir Sokolov, ou poetas que na década de 1980 'não tinham sido reabilitados', como Òssip Madelchtam, Anna Akhmatova e Marina Tsvetéeva.
Há também poetas revolucionários como Vladimir Maiakovski, mas em que prevalece a sua 'qualidade poética'.
Referindo-se ao trabalho do amigo, Milhazes conta: 'Paralelamente, nas horas extras depois do 'trabalho oficial', Sampaio, quase sempre acompanhado do seu uísque com gelo e água gaseificada, de cigarro praticamente sempre aceso, traduzia poemas de autores soviéticos e russos, que, de vez em quando, recitava na presença dos amigos mais próximos'.
José Sampaio Marinho, tradutor da editora Arcádia, foi amigo do poeta Ruy Belo, colaborou com o escritor Vitorino Nemésio e trabalhou na ex-Emissora Nacional.
Após o 25 de Abril de 1974, foi convidado pela editora soviética Progresso a ir trabalhar para a Moscovo, onde residiu durante 15 anos, regressando a Portugal, onde foi professor do ensino secundário.
Deixou editados, além de muitas traduções, que fez do russo para português de textos vários - romances, ensaios, e poesia - quatro livros de poesia de sua autoria. Um deles, 'Nuvens choram - Poemas', reúne todos os poemas escritos entre 1952 e 1956.
Referindo-se a 'Poesia soviética russa (séculos XIX-XX)', publicado pela Editora Labirinto com o apoio da Câmara de Fafe, José Milhazes atesta: 'Na generalidade, os russos afirmam que há poetas seus tão nacionais que é impossível a tradução dos seus versos para línguas estrangeiras. Um deles é o poeta lírico Serguei Iessénime, mas José Sampaio Marinho ousou fazer o impossível e conseguiu'.
P.S. Fico à espera das críticas de todos os que se interessam pela cultura russa, principalmente daqueles que consideram que este blog é um ninho de russófobos. É muito mais difícil fazer do que falar... 

Mas que calor!



Caros leitores, cheguei a Moscovo com uma vontade grande de incentivar a publicação de textos no blog, mas é impossível, o calor não deixa fazer nada.
Vivo há 33 anos em Moscovo, mas nunca passei por um Verão assim. O mercúrio dos termómetros está acima dos 30 graus e ameaça continuar a subir até aos 36-38 nos próximos dias. Como não tenho, nem gosto de ar condicionado em casa, nada mais me resta do que aguentar, embora seja muito difícil.
Alguns leitores poderão considerar que estou a exagerar, pois temperaturas dessas registam-se em Portugal, no Brasil, etc., mas aqui é mais difícil suportar essas temperaturas. Ainda bem que os bombeiros têm conseguido, por enquanto, controlar os incêndios nas florestas em torno de Moscovo, porque, caso contrário, o fumo não deixaria respirar completamente.
Em Moscovo, o metropolitano não é salvação, porque a ventilação nunca foi grande coisa e, em algumas estações, a temperatura é de 32 graus. Os russos procuram um pouco de frescura nas fontes, lagos, rios, em qualquer lugar onde haja água fria, mas a falta de cuidado e o excesso de bebidas alcoólicas já mataram 1244 banhistas no mês de Julho.
A onda de calor, que se estende praticamente a todo o país, está a provocar uma das maiores secas na História da Rússia, o que terá sérios reflexos negativos na economia.
Quando conseguir novas forças, darei notícias.

quarta-feira, julho 21, 2010

Blog dos leitores (Os Intocáveis)

Texto enviado pelo leitor António Campos:

"O caso Magnitsky é a melhor ilustração do fosso que separa as palavras e os actos do jurista presidente da Federação Russa no que toca ao seu combate pessoal ao que chamou o "niilismo legal" prevalecente no país. O tema é particularmente espinhoso, numa altura em que o Kremlin se desdobra em inúmeras manobras de charme para atrair investidores e fomentar a transferência de tecnologia, no contexto da mais recente cruzada de "modernização". Para que algum peixe incauto caia na rede, é imperativo passar uma imagem de que a Rússia é atraente para os empresários estrangeiros.

Daí que Sergei Magnitsky, mesmo depois de morto, continue a ser uma pedra no sapato do Kremlin. Um pouco de contexto para os poucos que ainda não ouviram falar deste jovem advogado: Magnitsky desmascarou uma conspiração de funcionários policiais que, em conivência com os tribunais, transferiram fraudulentamente a propriedade da gestora de fundos Hermitage Capital para um assassino condenado, tendo depois defraudado o estado em 230 milhões de dólares por via de um pedido de reembolso fiscal deferido em dois dias pela administração responsável. Na sequência do seu trabalho de investigação sobre o que constitui a maior fraude fiscal de que há memória na história da Rússia, Mangitsky foi acusado de corrupção pelos funcionários que desmascarou e encarcerado durante mais de um ano, tendo morrido na prisão com problemas de saúde por lhe ter sido recusada a necessária assistência médica.
Incansáveis, os membros da equipa da sociedade de advogados Firestone Duncan, onde Magnitsky exercia as suas funções, continuam a empreender todos os esforços ao seu alcance para sensibilizarem a opinião pública e os decisores ocidentais no sentido de pressionar o Kremlin a levar este caso a sério e punir os responsáveis tanto pela fraude como pela sua morte. A sua mais recente iniciativa é uma colecção de vídeos exibidos no Youtube dedicada à exposição dos funcionários que acusaram Magnitsky de corrupção. Neles é revelado que, enquanto Magnitsky literalmente apodrecia na prisão, o major Pavel Karpov e o tenente-coronel Artyom Kuznetzov acumulavam riquezas fabulosas e levavam estilos de vida bem para além do que os seus parcos salários de funcionários públicos alguma vez permitiriam. Por exemplo, a mãe do major Karpov, a viver de uma pensão de cerca de 500 dólares, terá adquirido um apartamento no luxuoso complexo Shuvalovsky em Moscovo, no valor de 930 mill dólares, terrenos no valor de 120 mil dólares, um Mercedes-Benz E280, um Porsche 911 e um Audi A3. Os serviços de fronteiras reportam que Karpov ausentou-se do país oito vezes num ano, tendo visitado o Chipre duas vezes, a Grã-Bretanha, Oman, os Estados Unidos e outros países. As riquezas acumuladas pela família Kuznetzov são ainda mais chocantes.

Esta exibição descarada de sinais exteriores de riqueza à boa maneira russa não parece preocupar os seus beneficiários, entretanto promovidos a posições superiores, uma vez que estão conscientes de que não vivem (e não vão viver tão cedo, contrariamente ao que a retórica de Medvedev sugere) num estado de direito. E o sinal mais reconfortante para os mesmos terá sido certamente o facto, reportado pelo jornal de negócios RBK Daily, de que o gabinete da administração presidencial, em vez de mandar investigar a fonte de tamanha opulência, que obrigaria o major a acumular o seu salário durante 145 anos para a adquirir, tê-lo-á instado a submeter à procuradoria-geral uma queixa por difamação contra a Firestone Duncan. Aparentemente, o kompromat difundido por esta sociedade anda a prejudicar de forma inaceitável a reputação das forças policiais russas, o que terá provocado esta presidencial reacção de repulsa. Se não fosse tão trágico, poderia até ser considerado cómico.

Para os interessados no deboche medieval apadrinhado pelo tandem no poder e dançado ao ritmo rap do "combate ao niilismo legal" , e especialmente, para os que continuam quixotescamente a balbuciar que "as coisas estão a mudar na Rússia" e para os aspirantes a investidores no país, os links abaixo são de leitura obrigatória. Os eméticos estão incluídos.


http://russian-untouchables.com/eng/
 



sábado, julho 17, 2010

Poesia russa e soviética a não perder!


Ontem à noite, sexta-feira, estive em Fafe para apresentar o livro do meu saudoso amigo e poeta José Sampaio Marinho: "Poesia Soviética Russa (sec. XIX e XX)". Tratou-se de um bom momento que contou com a presença de familiares, amigos e conterrâneos de Sampaio Marinho.
Como podem já ter constatado pelos poemas por ele traduzidos e que publiquei neste blog, trata-se, segundo a minha opinião, de uma das melhores traduções de poesia russa para língua portuguesa. Enquanto poeta, Sampaio Marinho conseguiu conservar a beleza rítmica, a força espiritual e poética de grandes poetas russos e soviéticos como Anna Akhmatova, Boris Pastarnak, Marina Svetaeva, etc.
Sampaio Marinho conseguiu verter para a língua de Camões poetas russos como Serguei Essenine, conhecido pela sua alma profundamente nacional, russa.
Caros leitores, se gostam realmente da cultura e da literatura russas, se pretendem conhecer  mais de perto uma das culturas mais ricas do mundo, leiam este livro, porque, além das qualidades acima referidas, o preço dele não é alto. Na sessão de lançamento, custava 10 euros.
Podem adquirí-lo através do sítio electrónico da Editora Labirinto:  http://www.editoralabirinto.com/ .
E claro que fico a aguardar as vossas opiniões e críticas.

sexta-feira, julho 16, 2010

Coisas boas de Portugal

Como os leitores já devem ter dado conta, pela frequência na publicação de textos, encontro-me em Portugal. Entre poucas férias e muito trabalho, vai-se encontrando algum tempo livre para passar por lugares interessantes do nosso país.
No caminho entre Lisboa e Póvoa de Varzim, há um local que toda a gente conhece pelo leitão assado e pelo bom vinho: a Mealhada. Como sou um apreciador dessas delícias, não ousei recusar o convite de um leitor deste meu blog (o que é particularmente agradável e gratificante) para visitar o seu restaurante, que se chama "Nova Casa dos Leitões".
É difícil descrever a qualidade da comida e dos vinhos nessa casa, só provando, recomendo fortemente a todos os leitores que passem pela Mealhada.
  Fiquei surpreendido ao constatar a vontade de inovar e modernizar do nosso anfitrião, André Martins. Além do restaurante, possui uma excelente adega, com vinhos de grande qualidade por ele produzidos. Provei excelentes vinhos, tintos e brancos, e espumantes de alta qualidade.
Deixei a Mealhada bem impressionado com a recepção que me foi concedida por André Martins e apenas posso recomendar os meus leitores a passarem na "Nova Casa dos Leitões".  

Blog do leitor (As consequências de 1812)

Texto enviado pelo leitor António Campos:

Acabei de passar por um comentário do historiador Conrad Black que, com um toque de história alternativa, faz uma reflexão provocatória sobre a evolução da Rússia e o impacto de um hipotético sucesso napoleónico em 1812.

"Estas lamentações sobre o que poderia ter sido são em geral infrutíferas e cansativas, mas podem ser úteis porque o perverso trabalho de poda dos historiadores tem muitas vezes que ser questionado. Não vou agitar mais as águas com reflexões adicionais sobre a revolução americana. No entanto, a derrota de Napoleão na Rússia, que mais do que compensou a Grã-Bretanha pela sua perda no Novo Mundo, é geralmente considerada uma coisa boa.

À excepção de alguns franceses obscuros, que eu saiba, sou o único historiador que reconhece o desastre que foi para o mundo a derrota de Napoleão na Rússia. Como resultado, os nativistas russos prevaleceram sobre os sucessores ocidentalistas de Pedro o Grande; os criadores de mitos tradicionalistas, liderados por Tolstoy, venderam bem a fraude da nobreza da Rússia medieval, bárbara e vagamente santificada, com o desespero da servidão, a opressão absurda das cinzentas massas eslavas, os pogroms e a indiferença à violência Dostoyevskiana, para não falar da estalinista.

Napoleão, tal como Goethe e Beethoven famosamente decidiram, não era propriamente um agente da democracia. Mas à sua luz, e certamente tendo em conta os padrões primitivos da Europa oriental, era um agente do iluminismo. Se tivesse tido a possibilidade de impor qualquer influência na Rússia, tal como o fez no resto da Europa, teria eliminado a servidão, criado uma qualquer espécie de tradição legislativa e modernizado o decrépito estado russo. Teria ancorado a Rússia no Ocidente, tal como Churchill, Roosevelt, Truman, Eisenhower, de Gaulle, Kennedy, Nixon e Reagan, colaborando com Adenauer e Kohl, ancoraram a Alemanha no Ocidente. As vidas de Lenine e Trotsky teriam sido os mais longos e menos violentos anais dos Ulyanov e Bronstein, e a vida de Estaline, o ladrão de bancos siberianos Djugashvili, mais curta e menos consequente.

Carlos XII era um novo-rico exibicionista. Hitler era um maníaco genocida. Napoleão foi o único invasor sério que a Rússia enfrentou que teria melhorado de facto o país, mau grado a indesculpabilidade da presença da Grande Armée no território."

terça-feira, julho 06, 2010

Putin repete bom diagnóstico para Cáucaso do Norte

Os extremistas no Cáucaso do Norte transformam-se cada vez mais em criminosos puros e simples a coberto de palavras de ordem políticas, afirmou hoje o primeiro ministro russo, Vladimir Putin, numa conferência regional do Partido Rússia Unida.

“Com efeito, os extremistas realizam atentados, mas degeneram mais e mais, atualmente, em bandos de criminosos comuns e recorrem a palavras de ordem políticas para se dedicarem aos ataques armados e à nova redistribuição de propriedades”, afirmou Putin na conferência “Estratégia de Desenvolvimento Social e Económico do Cáucaso do Norte até 2020” a decorrer em Kislovodsk.

“Iremos fazer todos os esforços para proteger a vida, os direitos e a segurança dos nossos cidadãos. Não admitiremos jamais ingerência nos nossos assuntos internos, qualquer atentado à soberania e à integridade territorial da Rússia”, sublinhou, acrescentando que o tempo do extremismo passou.

Vladimir Putin fez fortes críticas às autoridades regionais, considerando que “estão afastadas dos problemas reais e, por conseguinte, desacreditam o Estado, envolvem-se em disputas de clãs e revelam frequentemente incompetência gritante”.

Para o chefe do Governo russo, o desemprego crónico do Cáucaso do Norte é o mais grave problema social e psicológico da região.
O Partido Rússia Unida, que é chefiado por Vladimir Putin, detém a maioria esmagadora na Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento Russo e deu início a um ciclo de conferências regionais com vista à preparação das eleições parlamentares, marcadas para o próximo ano.
O diagnóstico feito por Vladimir Putin não é novo, mas, até agora, nunca foi levado à prática. Será que vai ser desta?



Apresentação de livro na Póvoa de Varzim


Caros leitores, irei estar na Póvoa de Varzim para lançamento do meu livro "Samora Machel : Atentado ou Acidente?".
A sessão irá realizar-se no dia 8 de Julho , às 22 horas, no Diana-Bar.

sexta-feira, julho 02, 2010

Resultados da TAP na Rússia cima das expectativas

 Os resultados da Transportadora Aérea Portuguesa na linha Moscovo-Lisboa ficaram acima das expetativas no primeiro ano de operações, o que levou a aumentar o número de voos de seis para sete por semana.
A TAP deu início a voos regulares entre as capitais portuguesa e russa a 10 de Junho de 2009.
Segundo dados revelados pela representação da TAP na capital russa, a companhia aérea transportou, no ano passado, 15 291 passageiros, sendo a ocupação média no Verão de 68 por cento e, no Inverno, 47 por cento.
Não obstante a crise mundial e financeira, a operadora aérea nacional diz que esses números ficaram “acima dos planos iniciais” e as perspetivas são boas.
Nos primeiros três meses de 2010, o número de russos que visitaram ou passaram por Portugal aumentou em 24 por cento se comparado com igual período do ano anterior, o que levou a TAP a abrir um sétimo voo por semana entre 14 de Julho e 15 de Setembro.
A Lusa sabe que 75 por cento dos lugares nesse voo já estão vendidos.
Operadores turísticos contatados pela Lusa consideram que a TAP tem boas perspetivas no mercado russo não só por não ter concorrentes na linha que liga Moscovo a Lisboa, mas por possuir “um bom e moderno parque de aviões”.
Além disso, num momento em que o Brasil e a Rússia aboliram entre si o sistema de vistos e não existir uma ligação direta entre os dois país, a TAP aparece como um meio cómodo de ligação entre Moscovo e várias cidades brasileiras.
No entanto, os operadores turísticos russos chamam a atenção para a morosidade na passagem da fronteira no Aeroporto de Lisboa.
“Não se pode fazer com que os turistas estejam uma hora e mais à espera numa fila só porque o número de funcionários do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras é insuficente. Trata-se do primeiro contato com o país...”, disse à Lusa um operador turístico que decidiu ficar no anonimato.
Esta morosidade está a causar sérios prejuízos à TAP não só nas ligações com o Brasil, mas também com a Madeira, destino turístico muito apreciado pelos russos.
“Os nossos turistas chegam a Lisboa ao princípio da noite e, devido às longas filas de espera na fronteira, perdem as ligações para a Madeira e outros destinos. Claro que a TAP os aloja em hotéis de Lisboa uma noite e, no dia seguinte, eles partem, mas já com o plano de férias estragado”, acrescentou o operador.
“Além do mais, isso provoca também sérios prejuízos à transportadora portuguesa”, sublinhou.
Em geral, os turistas russos elogiam o serviço de bordo da TAP, mas chamam a atenção para o fato das instruções de segurança e outros anúncios não serem feitos também em russo.
“Não compreendo. Será que a TAP não pode fazer uma gravação em russo e passá-la depois das instruções em português e inglês? É estranho que num país onde os russos são recebidos de forma cordial, a transportadora aérea não faça um gesto tão pequeno de simpatia, tanto mais que o serviço de bordo em si é bom”, disse à Lusa Vladimir, turista russo que frequentemente passa férias em Portugal.

quinta-feira, julho 01, 2010

Blog dos leitores (Não somos responsáveis pelos tiranos do passado)

\
Texto enviado por Cristina Mestre:

"Caros leitores, posso estar enganada mas acho que estamos perante um artigo histórico. O editorial de ontem do jornal Gazeta.ru afirma algo que muitos esperavam há muito que fosse dito publicamente: que a Rússia só andará para a frente quando reconhecer que não é “continuadora”nem “herdeira” do regime soviético. Pois isso acaba agora de ser afirmado abertamente, pela boca de Konstantin Kossachov, dirigente do Comité de Assuntos Internacionais na câmara baixa do Parlamento russo, que começou por publicar um texto no seu blogue na rádio Ekho Moskvy, depois reproduzido pela Interfax e agora pelo jornal.
Diz ele que “se a Rússia se demarcar da actuação de Estaline e de outros ditadores do período soviético, poderá preservar o seu orgulho nacional e não complicar a vida com repentinos embargos sanitários e guerras verbais com países do antigo bloco socialista”.
O deputado propõe adoptar para tais efeitos “uma espécie de doutrina histórica”, que evite à Rússia a necessidade de “reacção a cada provocação”. N opinião de Kossachov, a Rússia deverá “cumprir os compromissos do Estado soviético em matéria de acordos internacionais, de dívida externa etc., mas sem assumir a responsabilidade jurídica nem moral pela actuação daquele regime”, ou seja, não aceitar as exigências políticas, financeiras ou legais pelas violações do direito nacional e internacional cometidas na época soviética. “Os países do Báltico, Geórgia, Moldávia e Ucrânia levaram a cabo nos últimos anos reiteradas tentativas de reavaliar a História que partilharam com a Rússia durante o período soviético. Moscovo reagiu a isso com campanhas públicas de protesto, declarações ameaçadoras por parte do Parlamento e do Ministério dos Negócios Estrangeiros e até com embargos comerciais praticamente simultâneos a essas reavaliações. Mais que impressionar os países vizinhos, este tipo de respostas confirma que a Rússia se sente vulnerável no seu orgulho nacional”.
O jornal qualifica a iniciativa de Kossachov como “pensada, suficientemente rigorosa, inequívoca e benéfica para a imagem da Rússia”.
Esta conclusão a que Kossachov chega (e à qual muitos já haviam chegado dentro e fora da Rússia, embora não publicamente) termina, mesmo assim, numa nota pessimista. Ora vejam:
Em caso de adopção oficial da Doutrina Histórica, ela, infelizmente só terá influência na esfera internacional. Dentro do país não há nem haverá qualquer consenso sobre a responsabilidade moral e jurídica pelas acções do poder soviético, nem sequer uma tolerância mínima entre os que discutem sobre este tema. Uma vez que nós não temos uma entidade política ou social que possua suficiente autoridade moral para não reagir aos que fazem escândalos e remetê-los para tal documento aprovado, não são de esperar mudanças.
/Não haverá mudanças/ enquanto a maioria dos cidadãos não encontrar outra coisa de que se orgulhar para além das conquistas reais ou imaginárias da defunta União Soviética”.

Fonte: http://www.gazeta.ru/comments/2010/06/30_e_3392654.shtml"