Texto traduzido e enviada pela leitora Cristina Mestre:
"Dmitry Bábich, RIA Novosti
O presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, e os líderes de Itália e Coreia do Sul, reunidos recentemente numa conferência na antiga cidade russa de Yaroslav, debateram assuntos de importância crucial para a Rússia e para o mundo.
Na fase pública do fórum e na reunião de politólogos participaram os membros do Clube internacional de Debates Valdai, instituído pela RIA Novosti conjuntamente com o Conselho para a Política Externa e de Defesa.
Os participantes no fórum consideraram que um dos temas centrais tem a ver com os problemas e os erros na modernização da Rússia. Recordamos que o Clube Valdai dedicou grande parte dos seus debates a analisar a história da Rússia e a sua influência (muitas vezes negativa) na situação actual do país.
No seu encontro com especialistas, Medvedev disse que a inércia da história russa em grande parte determinou o futuro do país e que a Rússia, à excepção dos últimos 20 anos, nunca teve democracia.
“Temos mil anos de história autoritária. Somos um exemplo interessante de como a democracia se pode desenvolver com base numa história autoritária muito antiga”, disse Medvedev.
Significa isso que os russos nunca foram livres? Não, o que foi argumentado de forma muito convincente no Clube Valdai por Adam Michnik, redactor-chefe do jornal Gazeta Wyborcza e reconhecido especialista antisoviético.
A propósito, na Europa, durante os séculos mencionados por Medvedev, estabeleceu-se a prática de ver o povo e o Estado russo em separado.
Muitas vezes, esta visão é justa, ainda que também sirva de pretexto cómodo para os críticos da Rússia.
Quando afirmam que sentem simpatia pelo povo russo e repúdio pelo Kremlin, esses peritos tentam impor a sua posição antirussa tanto contra o Governo como contra o povo.
Mas até os adversários mais irreconciliáveis da Rússia não negam que os russos sempre lutaram pela sua liberdade individual.
Tal foi destacado também por outros membros do Clube Valdai, que recordaram o historiador Vassili Kliuchevski, cujas obras continuam actuais até hoje. A mesma tese mas de outra forma foi expressa pelo primeiro vice-presidente da Administração do Kremlin, Vladislav Surkov.
“Não sei se sou um democrata mas estou certo de que sou um homem livre”, disse Surkov, citado pelo jornal Rossiskaya Gazeta.
“Este paradoxo da história da Rússia, de um país livre com muita gente livre, encontrou a sua descrição no “Índice Valdai”, um documento que recolhe os critérios sobre o desenvolvimento da Rússia elaborado entre as sessões anuais do clube, com base nas avaliações e opiniões dos seus membros.
O documento foi apresentado ao primeiro-ministro Vladimir Putin e também a Medvedev que provavelmente não desfrutou muito da sua leitura porque os aspectos mais criticados no índice referiam-se ao estado actual do sistema político da Rússia.
Há um ano, Medvedev no seu artigo “Rússia, avante!” propôs a sua variante de reforma política destinada a melhorar o sistema, que foi o tema principal do fórum político anterior.
Não obstante, passado um ano, 52% dos peritos do clube Valdai não viram nenhum avanço no estado da política russa, mais ainda, muitos falaram de uma “deterioração considerável”. Pois bem, a liberdade começa pela possibilidade de expressar opiniões negativas.
Curiosamente, os membros do clube valorizaram de maneira muito mais positiva outros aspectos: 74% deles qualificaram a actuação diplomática da Rússia como positiva; 69% destacaram o papel que a Rússia desempenha na segurança global.
Tanto as opiniões a favor como as críticas reflectem uma realidade objectiva: a Rússia de hoje é um país não agressivo e pragmático, que não tenta inculcar a ninguém o seu modo de vida e a sua ideologia. A avaliação do Clube Valdai relativamente os “recursos humanos” no desenvolvimento da Rússia também não foi alta. Somente 38% dos inquiridos viram alguns progressos, 12% considera que há uma deterioração e 50% não vêem quaisquer mudanças.
Neste sentido tem relevância a posição de Medvedev quando disse que o desenvolvimento da democracia não pode ir à frente do desenvolvimento do homem, da sua personalidade, educação e auto-estima. A auto-estima é um tema complexo, sobretudo nos últimos anos.
“Há muitos que, mesmo no século XXI, gostam de afirmar que não são livres, que estão humilhados e que não depende nada deles. Esta é uma postura muito cómoda já que, se não podes fazer nada, não se te pode exigir muito”, assinalou Medvedev no Fórum.
Segundo o presidente, um dos critérios importantes do desenvolvimento da democracia é a convicção de que os cidadãos vivem num país democrático. Esta certeza tem que ser máxima mas, na Rússia, é muito baixa. Em parte por razões objectivas, mas também devido à trivial tendência de fuga às responsabilidades.
Não nos devemos render às dificuldades objectivas e isso os membros norte-americanos do Clube sabem-no bem.
“Nós, os norte-americanos, temos muitos defeitos mas a maior parte dos cidadãos dos EUA continua a acreditar na democracia do seu país”, assinalou Timothy Colton, dirigente da cátedra de Administração Pública da Universidade de Harvard. “Pode ser que seja ingénuo, mas esta fé no sistema protege-nos das ditaduras. Graças a esta fé ingénua, os norte-americanos acreditam mais nas instituições e nos “bons” políticos, com competências extraordinárias”, disse Timothy Colton.
Foi talvez por isso que Colton perguntou a Vladimir Putin, em Sochi, como tencionava aumentar o papel das instituições na política russa sem mencionar o papel dos políticos.
Como se depreende do discurso de Medvedev, a Rússia continua a procurar sem êxito uma resposta para esta pergunta. Mesmo assim, tal não teve ser motivo para abandonar a busca.
http://sp.rian.ru/analysis/20100915/127757543.html
http://rian.ru/authors/babich/ "