Texto enviado pelo leitor Manuel Santos:
"A Grande Guerra dos Continentes – Parte I
Alexander Dugin é um dos mais proeminentes politólogos russos e catedrático. É o fundador do Movimento Eurásico e desde 2008 é o ideólogo oficioso do “Rússia Unida”, o partido do governo presidido por Vladimir Putin. Dugin é autor de numerosas obras e as suas posições são conhecidas pela controvérsia envolvendo simpatias que passam desde os movimentos bolcheviques aos partidos nacionalistas-fascistas. De qualquer das formas o pensamento de Dugin é incontornável quando se tenta compreender a essência do ser russo e quais os desígnios que este povo almeja. Na sua primeira obra traduzida para português e talvez a mais relevante da sua carreira literária, Dugin expõe a tese geopolítica de que há uma imensa conspiração planetária que envolve as duas maiores forças supranacionais: a abordagem terrestre ou continental e a abordagem marítima ou insular.
A história deste confronto começa logo nos relatos de Platão em que a oceânica Atlântida investe contra a continental Atenas. Já no plano histórico o grande combate começa com a marítima Cartago a disputar o domínio com Roma, potência terrestre.
As potência marítimas utilizam como modelo de domínio o comércio, o establecimento de colónias e numa fase mais posterior o “mercado-capitalista-mercantil” como é o caso do Império Britânico e de outras nações europeias que se aventuraram além-mar. Nas civilizações marítimas vingam os interesses materiais e o liberalismo económico aliados ao individualismo. Concretiza-se o primado do económico sobre o político.
Os países anlgo-saxónicos, em particular os EUA e Reino Unido são o actual expoente máximo deste paradigma e são os classificados por MacKinder, atlantistas.
As potências terrestres já assentam sob uma estrutura autoritária, com um Estado mais forte e presente, mais guerreiro que comercial em que o interesse individual cede ao desígnio do todo. Aqui o político impera sobre o económico. Temos como exemplos Roma, o Império Austro-Húngaro, Alemanha e claro, o Império Russo.
Na época moderna temos o confronto antagonista entre o atlantismo, em concreto EUA, Inglaterra com o primado do indivíduo, do liberalismo económico e da democracia protestante e o eurasianismo (Евразийцы no russo original) com o autoritarismo , a hierarquia, o Estado acima do indivíduo do qual a Rússia e a Alemanha são exemplo.
Temos então a conspiração dos atlantistas, levantando o estandarte da “nova Cartago” através da defesa do individualismo, a livre empresa, o liberalismo democrático face aos eurásicos.
Tudo isto resulta no conflito global e milenar em que temos permanentemente o mundo continental com a sua filosofia imperial terrestre assente no idealismo autoritário, na ideia heróico-comunitária que nas palavras do autor é “a Ordem da Eurásia contra a Ordem do Atlântico (da Atlântida); a Roma eterna contra a eterna Cartago” ou seja uma constante guerra púnica que se verifica desde a antiguidade.
A dualidade “sangue e solo” é também dissecada, em paticular a importância da prevalência do solo sobre o sangue que deverá ser o desígnio do euroasianismo.
Na revolução bolchevique o grande confronto verificou-se entre Lenin, continentalista preocupado em perservar o grande espaço imperial russo e Trotski, o revolucionário mundialista, exportador da revolução considerando a URSS apenas algo efémero para vir a atingir outros objectivos.
Um factor comum entre os partidários russos do euroasianismo foi a sua germanofilia quase obrigatória em contraponto a uma anglofobia omnipresente.
Em contrapartida na Alemanha os eurásicos eram russófilos.
A relação dos eurásicos germanicos e russos aprofunda-se entre as duas guerras, tendo o seu ápice com o pacto Ribentropp-Molotov.
Assim que a narrativa descritiva e histórica se vai desenrolando com distanciamento e objectividade, o tom conspirologista vai crescendo há medida em que penetramos cada vez mais na história comtemporânea.
A Grande Guerra dos Continentes – Parte II
Uma das mais surpreendentes teses da conspirologia eurásica baseia-se no pressuposto que teria sempre existido uma espécie de sociedade secreta de cariz quasi-esotérico, a grande Ordem dos eurásicos, mesmo no seio dos mais secretos serviços de informação soviéticos: o GRU (Glavnoye Razvedyvatel'noye Upravleniye - Serviços de Informações Militares) pois enquanto o KGB defendia a efemeridade do Partido, o GRU seria a última linha de defesa do estado. O verdadeiro oponente da CIA era o GRU e não o KGB cujo atlantismo compartilhava com a sua congénere americana.
Em contrapartida houve sempre alegações da existência de uma organização secreta atlantista com enfoque em estudos paranormais e esotéricos inicialmente na Tcheka e depois no KGB, a sociedade de Viy.
É narrada a longa batalha eurásicos-atlantistas travada no seio dos serviços secretos e forças armadas soviéticas desde a fundação da URSS até ao seu colapso com base no trabalho de pesquisa do escritor e jornalista francês Jean Parvulesco. Os atlantistas mais proeminentes, alguns classificados como “atlantistas vermelhos”, teriam sido Djersinski, Koruchev, o “sr. Perestroika, Alexander Yakovlev. Do lado eurásico as figuras de destaque teriam sido Aralov, Toukatchevski, Chtemenko e o “soldado formidável” mentor da Ordem Polar, o marechal Nikolai Ogarkov. Já no descalabro da URSS, Dugin apresenta o golpe de Agosto como uma última e frontal confrontação entre os “filhos da Eurásia” contra os “soldados da Atlântida”. No final exprime o seu ponto de vista escatológico e apocalíptico em que haverá uma batalha final ou endkampf entre a Ordem da Eurásia e a Ordem do Atlântico, em contornos esotéricos e metafísicos de carácter messiânico. Já nos apêndices do livro, o autor faz menção a um pequeno país europeu, não rico nem influente e com nada para se orgulhar, mas que vive o sonho secreto do advir de um quinto império e com toda a sua alma impressa numa palavra intraduzível para as outras línguas: saudade. O motivo esotérico luso é usado como analogia e explicação para algo que não se pode pôr em palavras no que liga a alma russa aos desígnios eurásicos. No final há uma entrevista dada por Dugin ao Los angeles Times um mês após o conflito da Georgia em que este refere a Rússia a ter um papel relevante num mundo multipolar, sendo a eventual entrada na NATO de nações como a Georgia ou Ucrânia uma declaração de guerra. Realça ainda que o Irão poderia ser um aliado da Rússia sendo um patamar de influência desta no Médio Oriente. No final quando questionado se a Rússia poderá enveredar pelo isolamento e se esse será viável, Dugin responde numa frase que contém toda a essência do livro e do seu próprio pensamento:
“ A Rússia não ficará isolada – nem da Europa nem da Ásia.
Dos Estados Unidos talvez, mas isso não nos importa.” "