segunda-feira, novembro 01, 2010

Movimento “31” divide-se depois de ter sido autorizado a manifestar-se em Moscovo

Митинг на Триумфальной площади

Várias correntes da oposição ao Kremlin tentaram, numerosas vezes, manifestar-se na Praça do Triunfo, no centro da capital russa, mas esbarravam nos cassetetes da polícia de choque. Mas quando foram autorizados a manifestarem-se livremente, divergiram na atitude face a esse passo do poder.
Os dirigentes do Partido Nacional-Bolchevique (extrema-direita) e da Frente de Esquerda (extrema-esquerda) recusaram-se a aceitar essa “prenda”, pois as autoridades permitiram a reunião de 800 pessoas, enquanto o movimento “31” exigia juntar 1500. Por isso, decidiu avançar para um comício ilegalmente convocado para a Praça do Triunfo.
A oposição liberal (movimento Solidariedade, organizações de defesa dos direitos humanos como Memorial, Grupo de Hesínquia, Pelos Direitos Humanos) aceitou as condições das autoridades. Por isso, a polícia decidiu cercar com uma armação o local onde se realizou o comício autorizado.
Mal as manifestações começaram, a polícia interveio para deter mais de uma dezena de jovens que tentaram derrubar a armação e lançaram 'very-lights'.
Porém, os agentes de segurança tentaram sem êxito deter três vezes Eduard Limonov, dirigente do Partido Nacional-Bolchevique. De megafone na mão, Limonov apelava aos manifestantes que não se dirigissem para o comício legal, mas se juntassem a ele, enquanto que os seus apoiantes impediam que a polícia o detivesse.
“Não queremos ser metidos em reservas, temos direito a reunir-nos onde quisermos”, declarou à Lusa um jovem manifestante.
Não ajudaram os apelos à unidade de Boris Nemtsov, antigo ministro do Governo de Ieltsin e dirigente do Solidariedade .
“Surgiu um conflito entre as organizações desta iniciativa. Não podemos oferecer às pessoas prendas como a cisão… No dia 31 de Dezembro, devemos recordar que o artigo 31 da Constituição autoriza manifestações. Por isso, devemos reunir-nos aqui e avançar no sentido do Kremlin”, frisou ele ao discursar no comício.
A polícia tentava canalizar os manifestantes para o território cercado, mas a maioria passou para o outro lado. Limonov conseguiu juntar cerca de 1500 pessoas, enquanto os seguidores dos liberais foram cerca de mil.
Oleg Orlov, dirigente da organização Memorial, não está de acordo com estes números, considerando que a manifestação autorizada reuniu mais de duas mil pessoas, tendo sido mais numerosa do que a outra.
Seja como for, era evidente que qualquer uma das manifestações juntou mais de 800 pessoas, ultrapassando assim o número permitido.
“Precisamos de outra Rússia!”, “Eleição do Presidente da Câmara de Moscovo!”, “Rússia sem Putin!”, gritavam de ambos os lados da praça.
Serguei Udaltsov e outros dirigentes da Frente de Esquerda ficaram espantados com o fato de não terem sido detidos pela polícia quando chegaram à Praça do Triunfo e constaram que os agentes se comportaram de uma forma “mais suave” do que em manifestações anteriores.
Em São Petersburgo, as autoridades proibiram a realização da manifestação do movimento "31", tendo a polícia detido dezenas de pessoas.



sábado, outubro 30, 2010

Presidente afegão critica operação russo-americano contra tráfico de droga

O Presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, criticou a operação especial realizada pela Rússia e os Estados Unidos, durante a qual foram liquidados quatro de laboratórios de produção de estupefacientes, informa a BBC.
Segundo a estação de rádio e televisão britânica, Karzai, num comunicado publicado em Cabul, critica a operação e exige explicações de Moscovo e Washington.
O Presidente afegão considera que a operação, realizada na fronteira com o Paquistão, foi realizada sem autorização e sem conhecimento das autoridades.
“Ninguém tem o direito de realizar operações no território de um Estado sem autorização e acordo com o Governo afegão”, sublinha-se no comunicado.
Hoje, A Rússia e os Estados Unidos prometeram reforçar a luta conjunta contra o terrorismo e o tráfico de estupefacientes no Afeganistão, congratulando-se pelo fato de, na véspera, uma operação conjunta ter levado à destruição de quatro laboratórios que produziam heroína.

Moscovo recorda vítimas das repressões estalinistas

Российские правозащитники протестуют против плана переноса Соловецкого камня в связи с намерениями столичных властей провести строительные работы под сквером на Лубянской площади

O dia das vítimas das repressões estalinistas é no sábado, mas, como já é tradição, a organização não governamental Memorial realizou, na véspera, a iniciativa “Regresso (Devolução) dos nomes”.
Na Praça Lubianka, onde se encontra a Pedra de Solovetski, trazida da ilha homónima onde os comunistas criaram o primeiro campo de concentração em 1921, e a sede do antigo-KGB (polícia política soviética), hoje FSB, soam os nomes das vítimas das repressões do regime leninista-estalinista.
Às dez horas da manhã, Vladimir Lukin, Comissário para os Direitos do Homem da Rússia, subiu a uma pequena tribuna e começou a ler o nome das vítimas das repressões, a sua idade, emprego e data do fuzilamento.
Depois, qualquer pessoa que desejasse, continuava a leitura da longa lista de moscovitas fuzilados.
“Em 12 horas, 400 pessoas devem pronunciar os nomes de 3500 fuzilados” , informou Lukin.
No entanto, sublinharam os organizadores, o número de vítimas das repressões estalinistas em Moscovo foi “muito maior”.
“Meherhold, Vselovod Emilevitch, 66 anos, ator, fuzilado a 2 de Fevereiro de 1940; Zaitsev, Mikhail Ossifovitch, 26 anos, operário fabril, fuzilado a 09 de Maio de 1938”..., pronunciou uma das centenas de pessoas que passaram pelo local, depositaram flores e acenderam velas.
A primeira neve do Inverno caía incessantemente, dando um ar ainda mais fúnebre, emocional à cerimónia.
Arsenii Roguinski, presidente da Memorial, defendeu que o regime soviético deve ser julgado e condenado.
“Os crimes devem ser chamados crimes. O regime deve ser julgado e revelados os seus principais crimes. É preciso uma avaliação jurídica desses crimes e levá-la até às pesoas através dos manuais escolares”, precisou.
Nenhum dos dirigentes russos participou na cerimónia, o que não constituiu uma surpresa para os organizadores.
“Eles não ousam condenar clara e abertamente os crimes estalinistas. Os sinais são ambíguos”, declarou à Lusa Mikhail, estudante universitário.
Na terça-feira, Vladimir Putin, primeiro-ministro russo e antigo agente do KGB, participou no lançamento do “Arquipélado de Gulag”, livro de Alexandre Soljenitzin que denunciou os crimes comunistas.
“Devemos estudar e propagandear a obra do seu marido”, declarou Putin, dirigindo-se à viúva do escritor.
“É melhor estudar”, comentou Natalia Soljenitzin.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Russos e norte-americanos realizam primeira operação conjunta contra narcotraficantes no Afeganistão

A Rússia e os Estados Unidos realizaram, pela primeira vez na história, uma operação conjunta contra o tráfico de drogas no Afeganistão, tendo destruído quatro laboratórios, anunciou Victor Ivanov, diretor do Serviço Federal do Controlo de Drogas da Rússia (FSKN).
Segundo ele, a operação provocou um prejuízo aos traficantes de mais de mil milhões de dólares, tendo sido confiscado heroína para 200 milhões de doses.
Ivanov precisou que a operação russo-americana com vista à destruição de laboratórios de droga foi realizada a poucos quilómetros da fronteira do Paquistão, tendo participado nela agentes do FSKN, do Ministério do Interior do Afeganistão e tropas especiais norte-americanas.
Na operação participaram 70 homens, quatro dos quais funcionários do FSKN. Dois estiveram no campo das operações e dois garantiram o apoio informativo”, disse ele.
Segundo o funcionário russo, “os traficantes de droga afegãos não poderão responder de forma considerável às forças da coligação e aos órgãos de segurança afegãos depois da destruição dos laboratórios de heroína e morfina”.
Victor Ivanov revelou também que Moscovo estuda a possibilidade de enviar para o Afeganistão mais polícias de combate à droga.
“Enviámos o pedido de envio para lá de mais funcionários do FSKN, que poderiam estudar a situação no local”, declarou ele, acrescentando que “se trata de trabalho de polícias russos de combate ao tráfico de droga nos centros de análise da situação no Afeganistão, criados pelos americanos”.
O diretor do FSKN sublinhou que Moscovo está interessado na posterior cooperação com os norte-americanos, sublinhando que dispõe de informação sobre laboratórios noutras regiões do Afeganistão, onde se produzem 65 por cento do ópio.
Segundo a ONU, no Afeganistão fabrica-se 90 por cento de toda a heroína consumida no mundo, fabricada a partir de ópio.
Esta operação provocou receios quanto à possibilidade de Moscovo enviar tropas para o Afeganistão.
“Para a maioria dos russos, a guerra afegã é uma página mais trágica do que gloriosa e a ideia do envio de tropas para o Afeganistão não deverá ter grande apoio social”, declarou aos jornalistas Mikhail Marguelov, senador russo.
Ruslan Auchev, general na reserva que combateu no Afeganistão, manifesta-se contra o envio de tropas e defende o reforço das fronteiras das antigas repúblicas da URSS com o Afeganistão.
O deputado Franz Klintzevitch, que dirige também a União dos Veteranos do Afeganistão da Rússia, considera que “só as tropas russas conseguiriam impôr a ordem no Afeganistão”, mas está contra o seu envio.
“As tropas da NATO devem pôr fim à ameaça do tráfico de droga, utilizando a experiência russa no Afeganistão”, frisou.

P.S. Apenas deixo uma pergunta: será que estou condenado a ver novamente o envio por Moscovo de "um contingente militar limitado" para o Afeganistão, com todas as suas consequências?

Esclarecimento aos leitores

Caros leitores, nos últimos tempos, várias pessoas têem-me alertado para o facto de lerem nos jornais electrónicos comentários assinados pelo José Milhazes. Além disso, mensagens electrónicas com a mesma assinatura são enviados pasra programas televisivos.
Venho por este meio esclarecer que eu nunca escrevi, nem enviei qualquer comentário para meios de comunicação social.
Em Portugal há mais pessoas com esse nome (muitos) e apelido (alguns) e podem escrever e assinar com eles.  Mais, como é sabido, as pessoas (principalmente de má fé) podem tentar criar confusões.
José Milhazes não há só um.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Moscovo apela Washington a realizar inquérito sobre violações de direitos humanos no Iraque

Скандально известный сайт разоблачений Wikileaks запускает проект по России и намерен найти и обнародовать компромат на власти страны

Moscovo apela a Washington que realize uma investigação sobre os numerosos casos de violações dos direitos humanos pelos soldados americanos e forças da coligação quando da operação americana no Iraque entre 2004 e 2009, declarou hoje o porta-voz da diplomacia russa.

“Nós convidamos as autoridades americanas a realizar esse inquérito e a publicar os resultados de forma a que todas as organizações dos direitos humanos e as estruturas internacionais sejam informadas”, acrescentou Andrei Nesterenko.
Segundo ele, “essa iniciativa testemunharia o empenho dos Estados Unidos ao mais alto nível em matéria de respeito dos direitos humanos, respeito que eles exigem constantemente da parte de outros países”.
Moscovo reage assim à publicação no sítio WikiLeaks, a 22 de Outubro, de cerca de 400 mil relatórios de incidentes com soldados norte-americanos.
Quanto à ameaça de Julian Assange publicar comprometedores em relação à Rússia, um perito do Centro de Segurança da Informação do Serviço Federal de Segurança (FSB) declarou ao jornal eletrónico Live News: “segundo uma análise prévia, o sítio de Julian Assange não constitui qualquer perigo para a Rússia”.
Porém, acrescentou que “se for dada a ordem, esse sítio pode tornar-se eternamente inacessível”

«Skinhead» condenado a prisão perpétua, mas ainda ficam muitos em liberdade

Um membro de um grupo de «skinheads» (cabeças rapadas) foi hoje condenado a prisão perpétua por um tribunal de Moscovo por ter assassinado 15 pessoas por “motivos nacionalistas”.
Outro «skinhead», cúmplice nos crimes, terá de cumprir uma pena de 22 anos de prisão de alta segurança.
Segundo a acusação, entre outubro e dezembro de 2007, Vassili Krivetz, de 22 anos, e Dmitri Ufimtsev, de 23 anos, juntaram-se a outros jovens com base na ideia da superioridade racial dos russos em relação às pessoas de origem não eslava.
Entre os meses de outubro de 2007 e maio de 2008, os jovens mataram cidadãos do Tadjiquistão, Uzbequistão, Azerbaijão, Turquia e Rússia. Os crimes foram cometidos, na maioria dos casos, em estações do metropolitano de Moscovo com o emprego de facas, martelos e barras metálicas.
Depois dos crimes, os «cabeças rapadas» roubavam as vítimas.
Krivetz foi detido em 2008. Inicialmente, negou as acusações, mas acabou por reconhecer alguns assassínios e colaborar com a justiça.
Durante a investigação prévia, quando Krivetz foi levado a uma estação de metro da capital russa onde assassinara um músico idoso “porque era judeu”, conseguiu fugir, tendo sido detido um ano depois.
O julgamento decorreu sob fortes medidas de segurança.
Este é o terceiro «skinhead» russo a ser condenado a prisão perpétua.
A incidência de ataques racistas na Rússia sofreu aumento de 39% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2009, enquanto cresceu o número de grupos radicais neonazistas, que são mais de 150, informou nesta quinta-feira o Ministério do Interior.
"Aumentou o número de grupos radicais que baseiam a sua ideologia na intolerância étnica, racial e religiosa", declarou o general Serguei Guirko, chefe do Instituto de Pesquisas Científicas do Ministério do Interior.
Segundo Guirko, existem atualmente na Rússia mais de 150 grupos radicais neonazis, que põem em prática a sua ideologia através da violência e de assassinatos por motivos étnicos, racistas e religiosos. Em 2007, foram registrados 356 ataques deste tipo, número que saltou para 460 em 2008 e para 548 em 2009.
"O ano 2010 não é uma exceção. No primeiro semestre, foram registrados 370 ataques, o que representa 39% mais que no mesmo período do ano passado", detalhou Guirko, citado pela agência Interfax. Os números poderiam ser ainda maiores, porque, como afirmou Guirko, muitos ataques extremistas são classificados inicialmente como delitos cometidos por outros motivos, "já que os grupos extremistas se caracterizam pela sua ligação a círculos criminosos".
A ONG de direitos humanos Sova denunciou, no início de outubro, que 23 pessoas morreram e outras 242 ficaram feridas em ataques xenófobos no país em 2010. O principal alvo deste tipo de ataques são imigrantes procedentes do Cáucaso e da Ásia Central, membros de movimentos juvenis alternativos e representantes de minorias sexuais.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Regressará ou não a Rússia ao Afeganistão?



Fiquei extremamente espantado quando me disseram que alguns jornais ingleses falaram da possibilidade de a Rússia voltar a enviar os seus soldados ao Afeganistão. Mais perplexo ainda fiquei ao ler no jornal Público que o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, "manifestou a expectativa de conseguir firmar uma maior e mais próxima colaboração com Moscovo, incluindo uma participação activa das forças militares russas na guerra do Afeganistão". Compreendo que alguns políticos possam estar mal informados, mas o dirigente da Aliança Atlântica?!
Pode não se gostar da política interna e externa da Rússia, mas isso não é razão, nem motivo para pensar que o Kremlin enlouqueceu e decidiu envolver-se directamente na guerra do Afeganistão. Se tal acontecesse, suspeito que o povo russo, tão calmo até agora, perderia a paciência. Além disso, se a primeira aventura nesse país asiático significou o fim da União Soviética, a segunda desintegraria irremediavelmente a Rússia.
Estou longe de ser um simpatizante de Dmitri Rogozin, embaixador russo junto da NATO, mas, desta vez, não posso deixar de concordar com ele quando afirmou à agência Ria-Novosti:  “Talvez alguém gostaria que a Rússia enviasse “carne para canhão” para o Afeganistão, mas penso que devem moderar os apetites. Os soldados russos permanecerão onde devem estar, no território da Federação da Rússia”, declarou ele.
E frisou: “já estivemos no Afeganistão e não gostámos nada de ter lá estado”.
Por isso, não imagino o que a NATO poderá oferecer à Rússia para que o Kremlin mude de ideias.
Porém, torna-se cada vez mais premente uma colaboração mais estreita entre elas no que respeita ao Afeganistão e Moscovo já fez propostas: treino de polícias afegãos para combater o tráfico de droga, mas realizado fora do país; o trânsito de mercadorias e equipamentos, mas não de armas e soldados, da NATO através do território russo para o Afeganistão e o fornecimento de cerca de 20 helicópteros às forças armadas afegãs.
Esta cooperação é imperativa, porque se a NATO sair do Afeganistão vencida, terá de ser a Rússia a aguentar a fúria dos talibãs, primeiramente na Ásia Central e, depois, talvez até no seu próprio território. Essa onda é particularmente perigosa tendo em conta a complexa situação no Cáucaso do Norte, onde as tropas russas enfrentam uma forte guerrilha islâmica.
Numa situação como estas, é especialmente importante manter a calma e não fazer afirmações desprovidas de fundamento.

terça-feira, outubro 26, 2010

Putin apresenta versão reduzida de Arquipélago de Gulag

Vladimir Putin, primeiro-ministro russo e ex-agente do KGB, apresentou, perante as câmaras de televisão, uma versão reduzida do Arquipélago de Gulag, destinado aos alunos do 11º ano da escola.
“Sem o conhecimento do que aqui está descrito, não teremos uma ideia plena do nosso país e não poderemos pensar no futuro”, declarou ele, dirigindo-se à viúva do escritor Alexandre Soljenitzine.
A versão reduzida do romance que revelou ao mundo os crimes do sistema repressivo estalinista foi preparapada por Natália Soljenitzine, viúva do escritor, e será publicada com uma tiragem de dez mil exemplares.
“Este acontecimento tem lugar na véspera do Dia da Memória das vítimas das repressões políticas. Trata-se de um acontecimento marcante”, sublinhou Putin.
“Sem o conhecimento dos acontecimentos descritos neste livro, nós não passaremos não só o exame da modernização, mas também da sobrevivência”, respondeu Natália Soljenitzine.
Ela revelou que reduziu o texto do romance a um quarto, mas acrescentou: “espero ter conseguido conservar a força e a luz desse livro, não obstante nele haver muitos momentos pesados”.
O Arquipélago de Gulag, proibido na URSS até à perestroika, faz hoje parte do programa escolar.
Em 1974, o escritor foi expulso do país e privado da cidadania soviética depois do livro ter sido publicado no Ocidente. Em 1994, regressou à Rússia depois da queda do regime comunista.
As obras de Soljenitzine continuam a ser controversas no seu país, onde o antigo ditador comunista, José Estaline, é venerado por uma parte da população.
Ao mesmo tempo que se publica o Arquipélago de Gulag, nas prateleiras das livrarias encontram-se obras de Estaline ou sobre os seus “feitos heróicos”.
Em Setembro passado, foi publicado um manual de História, utilizado em algumas universidades, bem como nas academias do FSB (ex-KGB) e do Ministério do Interior, que justifica o terror estalinista.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Estudante guineense refugia-se na embaixada do seu país em Moscovo

Um estudante finalista guineense refugiou-se na embaixada da Guiné-Bissau para não cair nas mãos dos Serviços de Imigração da Rússia. Celestino Nhagh e mais cinco estudantes querem regressar ao seu país, mas o Governo de Bissau não envia o bilhete de avião prometido.
“Fui obrigado a refugiar-me na embaixada do meu país, pois encontro-me ilegal na Rússia e posso ser detido pela polícia”, declarou Celestino à Lusa por telefone.
O estudante guineense, que terminou um curso universitário na cidade de Voronej, situada a sul de Moscovo, teve de abandonar a residência estudantil a 28 de Setembro passado e foi detido pelos Serviços de Imigração da Rússia por “residência ilegal” no país.
“Estive algumas horas na esquadra e foi-me dado uma autorização para eu me deslocar à nossa embaixada, onde hoje me encontro refugiado”, explicou ele.
“Sei que provoco sérios incómodos à embaixada, pois ela é muito pequena, tem pouco espaço. Eu durmo na sala”, reconhece o estudante guineense.
A Embaixada da Guiné-Bissau, devido a dificuldades económicas, encontra-se instalada num apartamento de três assoalhadas num dos bairros de Moscovo.
“Mas não tenho outra saída, não tenho para onde ir, pois posso ser novamente preso”, sublinha Celestino.
Mais cinco estudantes guineenses encontram-se numa situação idêntica e escondem-se em casas de amigos, pois a representação diplomática não tem condições para os acolher a todos.
Celestino Nhagh contou à Lusa que o embaixador guineense em Moscovo já contatou várias vezes o Governo de Bissau, mas o problema continua por resolver.
“Telefonámos para o Ministério da Educação e um dos seus dirigentes disse-nos para que as nossas famílias paguem os bilhetes de regresso, mas elas não têm meios, vivem com dificuldades”, afirma ele.
Este problema repete-se anualmente e irá continuar, pois na Rússia estudam cerca de 245 estudantes da Guiné-Bissau, encontrando-se, presentemente, 06 numa situação de não conseguirem regressar ao país.
Os bolseiros guineenses que vão estudar para a Rússia com bolsas do Governo de Moscovo recebem mensalmente 1200 rublos (cerca de 30 euros), quantia claramente insuficiente para se viver no pais, e muito menos para poupar para o bilhete de avião de regresso.

Número de ações terroristas no Cáucaso do Norte quadriplicou este ano

O número de ações terroristas no Cáucaso do Norte mais do que quadriplicou em 2010, tendo matado 205 polícias e militares e ferido 489, declarou hoje Ivan Sidoruk, vice-procurador-geral da Rússia.
“No ano corrente, nessa região mais do que quadriplicou o número de ações extremistas. Foram registados 352 crimes de caráter terrorista, 254 dos quais na Chechénia”, acrescentou ele ao discursar numa comissão do Conselho da Federação (Câmara Alta) do Parlamento russo.
“As regiões mais problemáticas neste sentido são o Daguestão, Chechénia, Inguchétia, onde agentes da ordem morrem em operações de combate à guerrilha, bem como a Cabardino-Balcária, onde bandos armados declararam guerra às forças de segurança”, frisou.
Segundo ele, “a ala chechena dos bandos armados, dirigida pelo comandante Gakaev, deixou de obedecer a Doku Umarov (comandante-chefe da guerrilha no Cáucaso do Norte) e tenta afirmar-se de todas as formas.
Sidoruk reconheceu que a parte fundamental das armadas utilizadas pela guerrilha vem dos depósitos militares, frisando que “nos últimos tempos, não foi registado nenhum ataque contra a vida de agentes de segurança sem o emprego de “armas e explosivos modernos”.
“A situação agrava-se devido ao alto grau de corrupção no território do Cáucaso”, reconheceu.

domingo, outubro 24, 2010

Contributo para a História de Portugal

Reflexos da Implantação da República em  Portugal na Rússia

A Revolução Portuguesa de 05 de Outubro de 1910 teve fortes repercussões na sociedade russa da época, que passava também por tempos atribulados. Ainda estavam por sarar as feridas da revolução russa de 1905-1907 e aproximavam-se as tempestades revolucionárias de Fevereiro e Outubro de 1917.
Ao receber as notícias sobre o carácter “relativamente pacífico da revolução em Portugal, o grande escritor e pensador russo, Lev Tolstoi, declarou: “No nosso país, se tal coisa acontecer, não terá lugar uma revolução portuguesa” (Makovitski D., Iasnpolianskie zapiski, Livro 4, pág. 360).
Reacção oposta teve Vladimir Lénine, o dirigente da revolução comunista russa de Outubro de 1917. Ele escreveu numa das suas mais importantes obras “O Estado e a Revolução”: “Se se tomar por exemplo as revoluções do séc. XX, claro que a portuguesa e a turca devem ser consifderadas burguesas. Mas nem uma, nem outra é “popular”, porque a massa do povo, a sua esmagadora maioria não se manifestou de forma relevante; nem numa, nem noutra, foi activo, independente, com as suas prórias reivindicações económicas e políticas”.
“Pelo contrário”,  continua Lénine, “a revolução burguesa russa de 1905-1907, embora não tenha tido tanto os êxitos tão “brilhantes” que tiveram, por vezes, a portuguesa e a turca, foi indiscutivelmente uma revolução “popular real”” (Lénine, V. “O Estado e a Revolução”. Obras completas, t. 33, pág. 39).
As forças políticas da direita russa também não receberam com satisfação a notícia do derrube da monarquia em Portugal, mas por outro tipo de razões. Estando de acordo com Lénine de que o levantamento de 05 de Outubro de 1910 em Lisboa não foi uma revolução popular, elas não atribuíam a autoria à “burguesia”, mas à maçonaria portuguesa e internacional.
Um dos  correspondentes do jornal russo “Novoe Vremia” em Lisboa escreveu: “Do lado dos revoltosos estavam apenas oitenta soldados... os restantes estavam inactivos. A guarda municipal tentou defender o rei, mas foi obrigada a render-se, porque os oficiais abandonaram os soldados. Com um canhão instalado no alto da Praça de Pombal podia-se dar cabo de todos os revolucionários... Porém, todos fugiram como lebres, a multidão apoderou-se de canhões e, sem saber disparar, atirava à sorte contra simples curiosos e trauseuntes... Além disso, os revolucionários consideravam a sua causa perdida; o almirante Reis, desesperado, suicidou... A primeira medida do Governo Provisório não foi travar a contra-revolução, mas proteger-se do “povo vencedor” (“Novoe Vremia”, Nº12430).
Os correspondente do mesmo jornal escreve: “Se analisarmos atentamente toda a história do golpe, o quadro tornar-se-á claro mesmo para um profano: todo o golpe foi planeado e realizado por uma sociedade revolucionária secreta... Quando o palácio do rei foi tomado, a juventude, que estava à frente das tropas, avançou para o edifício dos ministérios, ela encontrou todas as pastas já ocuoadas” (“Novoe Vremia”, 12423). 
Não obstante os czares russos já estarem habituados ao som da “Marselhesa”, hino da República Francesa, a queda da monarquia em Portugal foi má recebida na corte de São Petersburgo.
Num telegrama enviado por Serguei Sazonov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, a A. Zelioni, encarregado de negócios russo em Lisboa, datado de 08 de Outubro de 1910, recomendava-se “manter, até receber instruções do Ministério,  uma posição de expectativa” e “tomar conhecimento de todas as declarações do Governo Provisório de Portugal”.
No dia seguinte, o representante diplomático russo em Lisboa recebe uma nota de Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros da República, onde as novas autoridades portuguesas manifestam o desejo de “manter e desenvolver as relações russo-lusas”.
Não obstante esse desejo, a corte russa recomenda, a 3 de Novembro de 1910, à sua Embaixada na capital portuguesa apenas a manter “relações com o Governo Provisório sobre assuntos correntes”, sublinhando que “o reconhecimento da nova ordem é adiado até ao estabelecimento da ordem constitucional e ao reconhecimento por todas as outras grandes potências”.
O novo Governo republicano, fortemente interessado no reconhecimento internacional, pede, a 13 de Março de 1911, que o embaixador Santo Tirso seja recebido “na qualidade de representante de Portugal em São Petersburgo”, mas  a corte russa aceita a sua presença apenas para a solução de “assuntos correntes” a 03 de Maio de mesmo ano.
No mesmo dia, o novo encarregado de negócios russo em Lisboa, Talii, envia uma carta para o ministro dos Negócios estrangeiros do seu país, Anatoli Neratov, onde informa que se encontrou com Bernardino Machado e lhe comunicou “a atitude, por enquanto, negativa da Rússia face ao reconhecimento do novo regime em Portugal”.
Em 11 Junho de 1911, o mesmo encarregado de negócios escreveu ao seu ministro “sobre a inexistência de necessidade de ter pressa com o reconhecimento do novo regime”. Nesta carta existe uma nota escrita pelo próprio czar Nicolau II a 22 do mesmo mês: “É preciso esperar muito tempo até ao reconhecimento”.
No mês seguinte, o Governo russo recebe uma nota da Grã-Bretanha onde se propõe que a corte de São Petersburgo reconheça o novo regime em Portugal, e o czar volta a escrever: “Não é preciso ter pressa”.
A 13 de Setembro, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia chega uma nova carta do seu representante em Lisboa, onde ele comunica “o reconhecimento do Governo republicano pelas grandes potências europeias” e sobre a vontade do MNE de Portugal “conhecer a posição da Rússia sobre essa questão”. 
Dez dias depois, Anatoli Neratov escreve a Nicolau II “sobre a necessidade do reconhecimento da República Portuguesa pela Rússia”, responde o czar com uma nota no relatório: “Agora podemos reconhecer”.
No dia 29 do mesmo mês, o MNE da Rússia envia um telegrama secreto ao seu representante na capital portuguesa para que transmita a nota de reconhecimento do novo regime pela corte de São Petersburgo, tarefa que é realizada no dia seguinte.
A República Portuguesa, porém, não demorou muito tempo a saudar e reconhecer a Revolução de 27 Fevereiro (12 de Março) de 1917, que levou à queda do czar Nicolau II. No dia 8/21 de Março, o embaixador russo em Lisboa, Piotr Botkin enviava um telegrama sobre “a resolução do Senado da República Portuguesa a propósito da Revolução de Fevereiro na Rússia).
Porém, o Governo Português recusou-se a receber as credenciais das mãos de Victor Artsimovitch, conhecido diplomata russo que veio substiuir Botkin no cargo de embaixador em Lisboa. Pelos vistos, os republicanos portugueses olhavam com desconfiança para o facto de ele ter ocupado o cargo de director do II Departamento do MNE da Rússia czarista.
Este problema acabou por não ser resolvido até Novembro de 1917, porque o Governo Provisório da Rússia foi derrubado por insurrectos comunistas, dirigidos por Vladimir Lénine.
Alexandre Kerenski, primeiro-ministro russo, apenas teve tempo de enviar, a 06 de Outubro, um telegrama de felicitações “para o Presidente da República Portuguesa a propósito do aniversário da Revolução de Outubro de 1910.  

quinta-feira, outubro 21, 2010

Dmitri Medvedev apela à superação de esteriótipos

O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, considera ser necessário que a população da Rússia e de outros países superem a opinião sobre a agressividade da NATO e a impossibilidade da democracia no seu país.
“As relações entre a Rússia e a Nato sempre foram difíceis. Talvez isso seja fruto da herança mais as emoções, sensações das pessoas. Todos nós temos um fundo histórico. Sem dúvida que isso torna mais pesadas as nossas relações, nomeadamente com a NATO”, declarou ele, na quarta-feira, num encontro com participantes da Conferência de Munique sobre questões da política de segurança.
Ele concordou com as opiniões dos membros da conferência, que se realizou em Moscovo, sobre que, na Rússia, “há a sensação de que a NATO é uma componente agressiva em relação à Rússia”.
“Talvez isso seja, em grande parte, um engano. Mas também é evidente que, frequentemente, a Rússia é vista por parte do mundo ocidental, das pessoas simples como um país onde não pode haver democracia, cuja direção está apegada a princípios autoritários e não quer desenvolver-se com o restante mundo”, acrescentou.
Medvedev concretizou: “essas coisas estão fortemente enraizadas nas cabeças das pessoas tanto na Rússia, como na Europa e Estados Unidos”.
O dirigente russo defendeu também que a cimeira russo-franco-alemã de Deauville não deve ser considerada como tentativa de dividir a Europa.
“Nós analisámos em Deauville os meios para garantir um nível conveniente de segurança na Europa e regozijo-me pelo fato de os meus colegas da França e da Alemanha, assim como de outros países terem compreendido bem os argumentos da Rússia”, indicou ele.
Segundo Medvedev, “estes encontros não devem ser considerados tentativas de dividir a Europa, a EU, ou de semear a dúvida sobre a sinceridade das intenções dos Estados que participam neste género de cimeiras”, frisou.
Moscovo acolheu pela primeira vez uma reunião itinerante da Conferência de Munique sobre segurança. O encontro, à porta fechada, reuniu políticos americanos e europeus como analista político Zbigniew Brezinski, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Adam Rotfeld, e o chefe da diplomacia sueca Carl Bildt.
A parte russa esteve representada por Serguei Ivanov, vice-primeiro-ministro, Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros, e o seu antecessor no cargo Igor Ivanov.

terça-feira, outubro 19, 2010

Notas sobre a cimeira franco-alemã-russa

Não tenho nada contra as cimeiras internacionais, mas há algumas que me provocam simplesmente perplexidade. Uma delas foi a que reuniu os dirigentes da França, Alemanha e Rússia, respectivamente Nicola Sarkozy, Angela Merkel e Dmitri Medvedev.
Este encontro mostrou uma vez mais que a União Europeia, no seu conjunto, não consegue fazer uma política externa concertada face à Rússia. Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano ficou descontente por não ter sido convidado, os dirigentes polacos também não ficaram nada contentes por ficarem de fora e, quanto a Durão Barroso, não manifestou opinião nenhuma, ao que eu saiba, mas o certo é que também ficou por Bruxelas.
Se o máximo representante da UE não é convidado para este tipo de cimeiras, pode-se pensar que ele não representa coisa nenhuma, ou se representa, menos do que os dirigentes francês e alemão dentro dessa união.
A Rússia, e mal seria se não o fizesse, aproveita as divergências de uma união que anda completamente desorientada, não sabe para onde ir: se continuar a integrar-se rumo a uma confederação ou federação, ou se manter-se no pântano e acabar por aprodecer como aconteceu com a União Soviética.
Dmitri Medvedev fez questão de só aceitar o convite para participar na Cimeira da NATO em Lisboa, no próximo mês de Novembro, após o encontro trilateral, o que significa que deve ter recebido algumas garantias de que viaja à capital portuguesa não só para ficar na fotografia.
Tudo leva a crer que a Rússia recebeu garantias de que irá participar na criação do sistema de defesa antimíssil em pé de igualdade com a NATO, se a iniciativa avançar.
Além disso, deverá ser discutida a iniciativa de segurança europeia, avançada por Dmitri Medvedev, que prevê, entre outras coisas, assinar um novo acordo pan-europeu de segurança que prevê, entre outras coisas, fixar as fronteiras actualmente existentes na Europa e não permitir a qualquer organização ou Estado que monopolize a segurança do continente.
Moscovo considera também, e com razão, que numerosos dos Estados-membros da UE, colocam os seus interesses económicos e financeiros à frente da coesão europeia, tanto mais quando a Europa se vê afundada numa profunda crise económica e social, sem ideias novas face a problema nenhum. 
Para a Alemanha e a França, as trocas comerciais com a Rússia têm forte peso nas suas contas e podem ser ainda mais significativas. Na política de modernização proclamada pelo Kremlin, quem for mais ágil, mais irá conseguir na Rússia. Por exemplo, Paris tem praticamente garantida a venda de porta-helicópteros Mistral.
Na véspera da cimeira, Dmitri Medvedev fez um "amplo gesto de boa vontade" ao devolver a aldeia georgiana de Perevi às autoridades de Tbilissi, sublinhando que, desse modo, Moscovo cumpriu todos os parágrafos do acordo Sarkozy-Medvedev e retirou as suas tropas de todo o território georgiano.
Sarkozy elogiou este passo, mas recordou que ainda era preciso que os observadores da UE tivessem acesso aos territórios da Ossétia do Sul e da Abkházia, que os dirigentes europeus se "esqueceram" de colocar no território da Geórgia em Agosto de 2008, quando da assinatura do citado acordo. Mas, como se diz na minha terra, "tarde piaste, cantador!".
Falou-se também da abolição dos vistos entre a Rússia e a UE, mas as perspectivas apontam, segundo Sarkozy, para a abertura de fronteiras entre elas dentro de 10-15 anos.
Aqui, acho que as coisas poderiam andar mais depressa. Se a razão do adiamento dessa divisão é o receio de a Rússia se transformar num corredor para a imigração ilegal para a Europa, ela não tem fundamento, pois, já agora, só não entra no Velho Continente quem não quer.
Moscovo tenta forçar esse processo, mas preciso sublinhar que, para os europeus, conseguir um visto de entrada na Rússia e permanecer legalmente nesse país é mais difícil do que os russos fazerem o mesmo nos países da UE.
Neste campo, se me pedissem a minha opinião, eu recomendaria a direcção russa a abolir unilateralmente os vistos de entrada para os cidadãos europeus. Além de tirar proveitos disso, pois irá aumentar o caudal de turistas, homens de negócios, cientistas, etc., mostra que não receia tomar medidas ousadas de encontro à aproximação com a UE. E pouco ou nada tem a perder.
A Ucrânia fez isso há já alguns anos e o resultado foi o aumento de entrada de turistas, homens de negócios, etc., não tendo recebido notícias de que essa medida teve implicações negativas.
Sou um fervoroso adepto da aproximação entre a Rússia e a União Europeia, mas torna-se cada vez mais urgente que Bruxelas defina o que realmente quer das relações com Moscovo.
Quanto à NATO, trata-se de um problema mais complicado, mas também aqui a cooperação está e deve aumentar. A situação no Afeganistão e os perigos potenciais noutras regiões próximas exigem um trabalho estreito entre as partes. Não considero real a entrada da Rússia na Aliança, mas a situação obriga a uma cooperação mais profunda.  

Guerrilha separatista ataca Parlamento checheno


Todos os rebeldes que hoje de manhã lançaram um ataque contra o Parlamento da Chechénia foram liquidados, anunciam as agências russas citando fontes oficiais.
“A operação especial no edifício do Parlamento da Chechénia, que foi alvo de um ataque de bandidos, terminou, não se confirmou a tomada de reféns”, anunciou Roman Edilov, vice-ministro do Interior da Chechénia que se encontra no local do incidente.
Edilov acrescentou que “segundo dados provisórios, dois polícias morreram nos confrontos, tendo sido neutralizados quatro atacantes”.
Os confrontos entre os guerrilheiros e a segurança do Parlamento provocaram também pelo menos dezassete feridos.
Segundo as autoridades policiais, na manhã de terça-feira, quando os automóveis dos deputados entravam no território do Parlamento, situado num território fortemente guardado do centro de Grozni, capital da Chechénia, um carro, que transportava os guerrilheiros, conseguiu também entrar no local.
Enquanto um suicida fazia explodir o veículo, três separatistas conseguiram entrar no edifício, tendo-se envolvido em tiroteio com a segurança.
Um destacamento especial da polícia (OMON), comandada pelo dirigente checheno Ramzan Kadirov, chegou rapidamente ao local, evacuou todos os civis e lançou uma operação com vista a liquidar os guerrilheiros separatistas.
“O Ministério do Interior da Chechénia atuou de forma profissional e inteligente”, comentou Rachid Nurgaliev, ministro do Interior da Rússia que se encontra na república russa do Cáucaso do Norte em visita de trabalho.
Esta operação é a mais espetacular na Chechénia desde o ataque lançado por rebeldes islamistas em agosto passado contra a aldeia-natal de Ramzan Kadirov.
Então, os combates provocaram a morte de seis polícias, tendo ficado feridos 17 agentes e sete civis. As autoridades anunciaram ter liquidado 12 ataques.
A Chechénia é palco de guerra desde 1991, quando políticos locais decidiram separar esse território da Federação da Rússia. Embora as autoridades russas tenham anunciado a vitória sobre os separatistas islâmicos, estes alargaram as suas atividades a outras repúblicas do Cáucaso do Norte: Inguchétia, Daguestão, Ossétia do Norte, Cabardino-Balcária, Karatchaevo-Tcherkéssia.
Gostaria de assinalar que este ataque da guerrilha separatista coincide com a cimeira entre França, Alemanha e Rússia que se está hoje a realizar. Será pura coincidência ou trata-se de mais uma operação dos separatistas com vista não só a chamar a atenção da comunidade intenacional para o Cáucaso do Norte, mas também a desacreditar a política russa nessa região?

Hugo Chávez reconhece ter adquirido à Rússia defesa antimíssil inicialmente destinada ao Irão

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que se encontra de visita à Ucrânia, reconheceu que o seu país vai adquirir à Rússia os sistemas de defesa antimíssil que deveriam ser vendidos ao Irão.
Há duas semanas, Serguei Tchemezov, diretor da Rostekhnologuiia, empresa pública que controla a exportação de armamento russo, anunciou que Moscovo anulará o contrato de fornecimento de sistemas S-300 ao Irão e pretende devolver a Teerão os cerca de 150 milhões de euros pagos de avanço.
O contrato do fornecimento de cinco divisões de sistemas de defesa antimíssil, no valor de mais de 600 milhões de euros, foi assinado entre Moscovo e Teerão em 2007.
Porém, devido aos protestos dos Estados Unidos e de Israel, bem como às sanções das Nações Unidas contra o Irão, o presidente russo, Dmitri Medvedev, suspendeu o fornecimento desses armamentos.
Segundo a agência Associated Press, Israel terá já pedido aos Estados Unidos que convença Moscovo a não vender esse tipo de armas à Venezuela, pois receia que elas possam ir ter, na mesma, ao Irão.
Criado para defender grandes fábricas e edifícios administrativos, bases militares e centros de comando de ataques aéreos, o sistema S-300 é capaz de destruir mísseis balísticos. Além disso, pode ser utilizado para atacar alvos terrestres.
Cada um dos sistemas pode atacar seis alvos e disparar contra eles até 12 mísseis.



sexta-feira, outubro 15, 2010

Chefe de Gabinete de Vladimir Putin nomeado presidente da câmara de Moscovo

O Presidente russo, Dmitri Medvedev, nomeou hoje o chefe de gabinete do primeiro-ministro Vladimir Putin para o cargo de presidente da câmara de Moscovo, depois do afastamento de Iuri Lujkov, anunciaram agências russas.
Medvedev disse, citado pelas agências, que apresentou ao Conselho Municipal da capital russa a candidatura de Serguei Sobianin "para que seja confirmado no cargo de presidente da câmara de Moscovo".
O anúncio foi feito durante uma reunião de Medvedev com Sobianin na residência presidencial de Gorki, nos arredores de Moscovo.
“Gostaria de comunicar que decidi apresentar a sua candidatura ao cargo no Conselho Municipal. Trata-se de um trabalho complexo e responsável, mas tem experiência de vida suficiente. Teve êxito como Governador (da Região de Tiumen), depois adquiriu boa experiência de trabalho na Administração do Presidente. Agora trabalha como vice-primeiro-ministro, encontrámo-nos em todos esses lugares”, disse Medvedev dirigindo-se a Sobianin.
Depois de recordar que Serguei Sobianin dirigiu a sua campanha eleitoral em 2006, o Presidente russo declarou: “sei que é um homem de trabalho e sério, considero que tem todas as capacidades para dirigir a capital do nosso país”.
O cargo de presidente da câmara de Moscovo, que tem o estatuto de governador regional, é preenchido por nomeação do Kremlin desde uma reforma administrativa que pôs fim à eleição dos governadores, imposta em 2004 por Vladimir Putin, quando era presidente da Rússia.
Iuri Lujkov, que dirigia a capital russa há 18 anos e era uma das últimas figuras da cena política russa que assumia posições de firmeza face ao Kremlin, foi demitido em finais de setembro por Dmitri Medvedev, depois de um conflito político e de uma campanha mediática contra Lujkov alegadamente orquestrada pela presidência russa.
Sobianin era visto na hierarquia política russa como uma “eminência parda”. O jornal russo Nezavissimaia gazeta chamou-lhe o “aparatchik sem ambições”.
Porém, Mikhail Deliaguin, diretor do Instituto dos Problemas da Globalização, considera esta nomeação uma vitória do primeiro-ministro Putin e uma forte aposta na recandidatura deste ao cargo de Presidente da Rússia em 2012.
“Até às eleições parlamentares de 2011, Sobianin controlará calmamente a máquina eleitoral de Lujkov e irá afiná-la. E Moscovo irá votar em Putin”, acrescentou.
O novo dirigente de Moscovo irá abandonar os cargos que tinha no Governo, o que irá obrigar o Kremlin a fazer alterações no executivo.

Felicidade TV (pesadelos da crise)

Não é preciso estar muito tempo em Portugal, onde agora me encontro, para se cair num estado deprimente. Basta ligar o rádio e a televisão, ler os jornais para se compreender que nos encontramos numa situação muito, mas mesmo muito complicada.
Mas torna-se insuportável ouvir de manhã à noite essas notícias, bem como as justificações dos dirigentes políticos de que fizeram todos os esforços, mas que ainda não chegam, porque a situação internacional, etc. etc.
Mais gritante é o facto de ninguém assumir responsabilidades pela situação criada. Ao menos podia vir algum dirigente à televisão e repetir o que um dia disse Victor Tchernomirdin, antigo primeiro-ministro russo, : "Queríamos fazer da melhor forma, mas o resultado é sempre o mesmo..."
Cada leitor pode continuar o pensamento desse político russo que ficará na história pelos seus sábios ditos.
É numa atmosfera desta que os cidadãos se deitam e considero que isso não permite um descanso completo e saudável, bem pelo contrário. No meu caso pessoal, um dia após a chegada a Portugal, tive um sonho, que passo a relatar:
O Governo (não me refiro a um concreto!), a fim de combater os efeitos nefastos da crise, criou um novo canal televisivo, a quem chamou "Felicidade TV", tendo convidado para esse projecto consultores da ex-União Soviética, alguns dos quais recuperados pelos canais de televisão russos actualmente controlados pelo Kremlin, e da Coreia do Norte.
O noticiário/telejornal começava ora com o Presidente da República a condecorar o primeiro-ministro pelos grandes êxitos na "frente económica e social" ora com o primeiro-ministro a condecorar o Presidente pela "sábia direcção" do país.
A seguir vinham  as reportagens sobre as visitas dos dirigentes a unidades agrícolas e industriais de vanguarda, onde eram alegremente recebidos pelos trabalhadores, ou sobre as inaugurações de novos infantários e centros de ensino.
E aquela senhora simples, do povo, toda feliz a sair de um hipermercado com um carrinho de compras cheio a repetir uma frase: "A vida torna-se melhor; a vida tornou-se mais alegre"! Fiquei emocionado ao ouvir sair daquela boca essas palavras pronunciadas por José Estaline. Tanta felicidade e que nível de cultura! Até conhecia os clássicos da felicidade!
Recordo-me que nas notícias não havia nem pobres, nem desempregados. Ou mais precisamente, existiam, mas nos países vizinhos. Por exemplo, gostei da reportagem onde se mostrava um gigantesca fila junto de um centro de emprego em Espanha, seguida, para contraste, de outra feito no país por mim sonhado, onde os centros de emprego estavam vazios e nas paredes se viam anúncios de emprego: operário da construção civil - 5 mil euros; assalariado agrícola - 7 mil, deputado - 15 mil, ministro 16.532,05 euros, etc.
Chamou-me também a atenção uma reportagem sobre os turistas que visitavam a capital do país e ficavam maravilhados com o bem-estar dos habitantes locais. Seis senhoras da Arábia Saudita, que envergavam burka, declararam perante as câmaras, depois de terem recebido autorização do marido, que estavam estupefactas ao encontrar um país tão rico e feliz como o delas.
"Só é pena as vossas mulheres não usarem burka. Quanto ao resto, nada nos ficam a dever", sublinhou a primeira esposa por detrás daquela rede que não lhe deixa ver a cara.
A Felicidade TV, durante o sonho (repito), prestava enorme atenção ao desporto, particularmente ao futebol. Fiquei satisfeitíssimo ao constatar que as selecções do Chipre e da Noruega tinham sido humilhadas pela selecção de futebol local e que já se preparavam os fatos dos jogadores para a final do Campeonato da Europa de 2012, bem como as faixas de campeões.
O telejornal/noticiário terminou com um concurso em que banqueiros distribuíam dinheiro aos participantes que provassem ainda ter pouco dinheiro nas contas bancárias.
Acordei a meio de um spot publicitário. A Felicidade TV prometia um automóvel de luxo a todos os telespectadores que ligassem para o número 13131313. Corri para o meu telemóvel, peguei nele e acordei quando ouvi uma voz feminina gravada a dizer: "Esse número não está atribuído".
E foi assim que voltei à crise.
Isto fez-me recordar uma anetoda soviética que rezava que ninguém teria sabido que Napoleão Bonaparte perdeu a Batalha de Waterloo se controlasse o jornal Pravda, órgão oficial do Partido Comunista da União Soviética.
Será que só com a abertura do canal Felicidade TV o país do sonho sairá da crise?
P.S. Tinha-me esquecido de mais uma reportagem, que mostrava uma conhecida figurina do jet-set a rebentar garrafens de champagne contra dois submarinos que deviam ser exportados para a Alemanha.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Partido do presidente deposto mais votado no Quirguistão

O partido Ata-Jurt, movimento leal ao antigo presidente Kurmanbek Bakiev deposto pela revolução de abril passado, obteve o melhor resultado nas legislativas de domingo, anunciou a Comissão Eleitoral Central do Quirguistão.
O Ata-Jurt (Caminho do Pai) obteve 8,88 por cento dos votos e 28 lugares no parlamento.
O segundo partido mais votado foi o Partido Social-Democrata com 8,04 por cento (26 lugares), sendo seguido pelos partidos Ar-Manis (Dignidade) com 7,74 por cento (25 lugares), República, 7,24 por cento (23) e Ata Meken com 5,60 por cento (18).
De fora do parlamento ficaram 24 partidos e organizações políticas que não superaram a barreira dos 05 por cento, condição necessária para eleger os 120 deputados.
A presidente do Quirguistão, Rosa Otunbaieva, está «chocada» com à vitória nas eleições de domingo do movimento leal ao antigo líder do país, deposto na revolução de abril passado, declarou hoje à agência noticiosa francesa AFP fonte próxima da chefe de Estado.
Apesar da vitória, o Ata-Jurt poderá ser excluído do próximo governo, que deverá ser apoiado por uma coligação de partidos que se enquadre no atual regime, indicaram analistas políticos.
Kurmanbek Bakiev foi derrubado por um levantamento popular em Abril passado e refugiou-se na Bielorrússia. Rosa Otunbaeva, sucessora à frente dos destinos do país mais pobre da Ásia Central, teve de enfrentar uma onda de confrontos étnicos entre quirguizes e uzbeques, que provocaram milhares de mortos e desalojados.
Em junho entre 400 e duas mil pessoas morreram nos confrontos, principalmente uzebeques no sul do país.
O bom resultado do Ata-Jurt, que integra vários responsáveis do regime de Bakiev e rejeita as aspirações políticas das minorias, em particular dos uzbeques, pode reavivar as tensões.
Após uma reforma constitucional, que transformou o Quirguistão numa república parlamentar, foi decidido realizar eleições legislativas livres.
Nem todos aceitaram os resultados de escrutínio, que os observadores internacionais afirmam ter decorrido de forma livre e democrática. Partidários da organização Quirguistão Unido, que obteve 4,84 por cento dos votos, cortaram uma importante estrada do sul do país para exigir a recontagem de votos.
As legislativas contaram com uma afluência às urnas de 55,9 por cento dos eleitores inscritos.
O Quirguistão é ponto nevrálgico na operação da NATO contra os talibãs no Afeganistão, tendo os Estados Unidos aí instalado uma base militar. Por outro lado, a Rússia possui também bases militares nesse país, receando o reforço da zona de influência norte-americana na Ásia Central, região rica em hidrocarbonetos.



terça-feira, outubro 12, 2010

Jogos perigosos entre Rússia e Geórgia no Cáucaso

A decisão de Tbilissi de abolir vistos de entrada para os cidadãos russos residentes nas repúblicas do Cáucaso do Norte russo é uma provocação georgiana, declarou hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia.
“Não recebemos ainda nenhuma confirmação oficial dessa decisão, mas, segundo o que se pode ler na imprensa, parece tratar-se mais de uma nova iniciativa propagandística”, acrescentou Serguei Lavrov.
A vice-ministra dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, Nino Kalandadzé, anunciou, na segunda-feira, que a Geórgia vai suprimir os vistos para os habitantes das repúblicas do Daguestão, Chechénia, Inguchétia, Ossétia do Norte, Cabardino-Balkária, Karatchaievo-Tcherkésia e Adigueia.
Em conformidade com um documento que entrará em vigor nas próximas duas semanas, os habitantes desses repúblicas do Norte do Cáucaso serão autorizados a passar 30 dias na Geórgia sem visto.
Atualmente, os habitantes dessas regiões devem obter um visto junto da Embaixada da Suíça em Moscovo para entrar na Geórgia.
O Ministério do Interior da Rússia tem vindo a acusar a Geórgia de albergar bases de terroristas que lutam pela separação do Cáucaso do Norte em relação à Rússia.
“Semelhante decisão é avaliada como completo delírio e total estupidez da parte das autoridades georgianas, parecendo visar um objetivo: facilitar os contatos entre os bandos de terroristas no Cáucaso do Norte e os bandos e autoridades georgianas”, comentou o senador Alexandre Torchin, membro do Comité Antiterrorista Nacional da Rússia.
A 26 de Agosto de 2008, tropas russas entraram em território georgiano a pretexto de defender a integridade dos seus cidadãos na Ossétia do Norte. Depois da derrota das tropas de Tbilissi, Moscovo reconheceu a independência dessa parte do território da Ossétia do Sul e da Abkházia.
A Geórgia respondeu rompendo com as relações diplomáticas com a Rússia.
As conversações sobre a estabilização no Cáucaso, que se têm vindo a realizar em Genebra entre a Rússia e a Geórgia entraram num beco sem saída. Moscovo quer que Tbilissi comece o diálogo sem que seja discutida a questão da independência da Osséria do Sul e da Abkhásia, mas os georgianos recusam-se.
Nesta situação, as partes do conflito recorrem a outros métodos para resolver os seus problemas, mas podem provocar problemas ainda maiores.
As autoridades georgianas sabem que podem prejudicar a Rússia no seu "tendão de Aquiles", ou seja, no Cáucaso do Norte, deixando que o seu território existam bases de apoio aos separatistas islâmicos que combatem contra as tropas russas nessa região.
Se tal informação se vier a confirmar, significa que Moscovo não controla completamente a sua fronteira no Cáucaso do Norte e que armas, explosivos e homens continuarão a entrar na região.
Por outro lado, repito: se tal informação vier a confirmar-se, as consequências para a Geórgia poderão ser bastante más. É que os separatistas islâmicos que combatem contra a Rússia não são "pêra doce", a sua ideologia e métodos radicais de actuação são bem conhecidos e o alastramento do conflito nada promete de bom também aos georgianos.
Autoridades russas e georgianas repetem a triste experiência do Afeganistão. Recordo: tropas soviéticas invadiram esse país em 1979; Estados Unidos e companhia criaram os talibans e os resultados estão à vista.

domingo, outubro 10, 2010

O Canário na Mina

Texto enviado por António Campos:

O caso da IKEA é um bom barómetro do clima de investimento na Rússia actual. Esta empresa, nada menos do que o maior investidor estrangeiro no país, acaba de anunciar que suspendeu a construção de um centro comercial nas imediações de Moscovo, com um valor orçado em cerca de mil milhões de dólares, e que se concentraria a partir de agora "nas lojas existentes". Nos próximos três a cinco anos não serão abertas mais lojas.
Segundo o bloguista Jesse Heath, esta mudança de estratégia é importante na medida em que, desde que abriu a sua primeira loja em 1999, a IKEA, por si só, investiu no país sensivelmente o mesmo que a totalidade das empresas estrangeiras nos parques empresariais na região de Kaluga e, é interessante notar, cerca do dobro planeado para os próximos três anos na "bala de prata que vai resolver todos os problemas tecnológicos russos e potenciar a modernização" chamada Skolkovo.
Dá que pensar que, apesar da excelente potencial atractividade comercial de uma rede de lojas como a da IKEA, a mesma tenha decidido mesmo assim interromper a sua expansão. A tal não será certamente alheio o clima selvagem de corrupção que tem vindo a causar inúmeros problemas na abertura das lojas, bem como os recentes escândalos de subornos a executivos russos da empresa.
Não é de admirar: numa peça no Moscow Times, Michael Bohm refere que durante o reinado de Putin o nível de corrupção aumentou seis vezes, de cerca de 50 mil milhões de dólares por ano na década de 90, para mais de 300 mil milhões em 2009, de acordo com a Indem. Uma razão para tal é que, sob a alçada do actual primeiro-ministro, o número de funcionários públicos aumentou de 485.566 em 1999 para 846.307 em 2008.
É então fácil de perceber a razão pela qual as acções das empresas russas são transaccionadas a preço de saldo nos mercados de capitais e os níveis de investimento directo estrangeiro têm vindo a ser miseráveis, apesar de todas as manobras de charme do Kremlin. As acções estão grosseiramente subvalorizadas porque ninguém as quer comprar. E essa subvalorização deve-se ao efeito de Vladimir Putin na economia.
É tempo de os russos acordarem e começarem a fazer contas à destruição de valor causada pelo impacto de Putin na economia. Se compararmos com o Brasil, o seu colega BRIC, o desconto bolsista é de 45%, o que representa o valor astronómico de quase mil milhares de milhões dólares.
Além de tudo o resto, foi este o preço “económico” que os russos tiveram que pagar por Putin. Se o russo comum tivesse acesso a estes dados, seria certamente um interessante exercício verificar o seu impacto nos níveis de popularidade do salvador da pátria.
http://therussiamonitor.com/2010/10/08/truth-or-consequences-ikea-as-a-case-study-of-russias-miserable-investment-climate/
http://www.themoscowtimes.com/opinion/article/thieves-should-go-to-jail/418993.html

quinta-feira, outubro 07, 2010

Guerra de calendários no dia de aniversário de Vladimir Putin

AFP /Agência



O primeiro-ministro russo Vladimir Putin celebra hoje o 58 º aniversário do seu nascimento, tendo recebido mensagens de felicitações dos mais variados tipos.
Kristina Poputchik, porta-voz do movimento juvenil pró-governamental “Nachi” (Nossos), publicou no seu blog um calendário com belas e jovens estudantes da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Moscovo em posses eróticas e que transmitem a Vladimir Putin mensagens bastante ambíguas.
Elena Gornostaeva, aluna do 5º ano que se exige na folha do mês de Março, diz: “Vladimir Vladimirovitch, apagaram os incêndios florestais, mas eu continuo em brasa”; a finalista Aliona Galina do mês de Fevereiro, faz a pergunta: “E que tal uma terceira vez?”; Nastia Klabukova, aluna do 3º ano que representa Setembro, afirma: “Você só melhora com a idade”.
Segundo Kristina Poputchik, Putin irá receber 50 mil exemplares do calendário que já se encontra à venda numa conhecida rede de supermercados em Moscovo.
Podemos ver nisso uma iniciativa privada dessa dama. No que respeita ao gosto, é uma querstão pessoal dela”, comentou Dmitri Peskov, porta-voz do primeiro-ministro russo.
Porém, outras alunas da mesma faculdade, belas também, mas trajando roupa clássica e com a boca colada com fita adesiva, decidiram fazer também um calendário, mas com perguntas incómodas para Vladimir Putin.
Margarita Juravliova, aluna do 3º ano cuja fotografia aparece na folha dos meses de Fevereiro e Março, pergunta: “Quando é que Khodorkovski será libertado?”
Mikhail Khodorkovski é um homem de negócios russos que está a ser julgado por crimes económicas, mas organizações de defesa dos direitos do homem vêem nele um preso político.
Quem assassinou Anna Politkovskaia?” - interroga Ekaterina Ulianova, aluna do 3º ano. A jornalista Politkovskaia foi assassinada em 2007 e os autores do crime continuam à solta.
Maria Tsitziurskaia, também do terceiro ano, pergunta: “Para quando a liberdade de reunião sempre e em toda a parte?”. Tatiana Kartachova quer saber: “Quando será o próximo ato terrorista?” e Svetlana Mukhina questiona: “Como é que a inflação influi nos subornos?”.
Este último calendário foi publicado no blog de uma das alunas da Faculdade de Jornalismo, mas ainda não mereceu comentários da parte das entidades oficiais.
Podem ver os dois calendários em:

quarta-feira, outubro 06, 2010

Muitos candidatos para poucos lugares no Parlamento

Cerca de dois milhões e setecentos mil eleitores irão, no próximo domingo, eleger o novo Parlamento do Quirguistão dotado de amplos poderes, transformando este país na primeira república parlamentar da Ásia Central.
Três mil e duzentos candidatos de 29 partidos políticos irão disputar 120 lugares no Parlamento daquele país.
Tendo em conta o grande número de candidatos e de partidos para tão poucos lugares, políticos e analistas receiam que este ato eleitoral possa contribuir para uma nova desestabilização do país, depois dos sangrentos confrontos entre quirguizes e uzbeques que, em Abril passado, provocou centenas de mortos e milhares de desalojados.
Além disso, algumas das forças políticas que participam no escrutínio defendem posições nacionalistas, extremamente perigosas num país dilacerado por confrontos étnicos.
O povo principal deve ser o principal, ele não pode estar abaixo de outros povos que vivem neste país. Eles que respeitem as nossas tradições, língua e história, só então as pessoas viverão em paz. Mas se um povo qualquer no nosso país: russos, uzbeques, turcos ou chineses, diz que é igual ou está acima dos quirguizes, então o Estado irá desintegrar-se”, declarou um dos dirigentes do partido Ata-Jurt, que reúne os adeptos do antigo Presidente Kurmambek Bakiev.


Nenhum dos partidos participantes apresenta um programa claro de desenvolvimento económico e político do país.
Omurbek Tekebaev, dirigente do Partido Ata-Meken (Pátria), um dos favoritos da corrida eleitoral, reconheceu: “o nosso programa económico está ainda verde, nem sequer é um programa, mas apenas teses”.
Segundo as sondagens, outros favoritos são o Partido Social-Democrata do Quirguistão, dirigido por Almazbek Atambaev, atual vice-primeiro-ministro do Governo, o Partido Pátria”, do antigo primeiro-ministro quirguize Felix Kulov, e o Ata-Jurt, que reúne os apoiantes de Bakiev, hoje refugiado na Bielorrússia.


É importante que as eleições no Quirguistão não se transformem num detonador de acontecimentos negativos”, declarou Janibek Karibjanov, representante da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) no Quirguistão.
Nikolai Bordiuja, secretário-geral da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), que reúne países como Rússia, Quirguistão, Bielorrússia, Arménia, Tadjiquistão, Cazaquistão, considera que há “numerosos perigos”.
Primeiro, trata-se do inevitável agravamento da situação sócioeconómica no Quirguistão no Inverno de 2010. Segundo, a preparação das eleições é feita com o emprego de “tecnologias sujas”, o que provocar o agravamento das relações entre comunidades étnicas”.
O escrutínio irá ser acompanhado por centenas de observadores de organizações como a OSCE, OTSC, Comunidade de Estados Independentes e outras.
O Quirguistão é ponto nevrágilco na operação da NATO contra os talibans no Afeganistão, tendo os Estados Unidos aí instalado uma base militar. Por outro lado, a Rússia possui também bases militares nesse país receando o reforço da zona de influência norte-americana na Ásia Central, região rica em hidrocarbonetos.

terça-feira, outubro 05, 2010

Ex-presidente da Câmara de Moscovo anunciou intenção de criar movimento político

 Iúri Lujkov, que foi afastado na semana passada do cargo de presidente da Câmara de Moscovo pelo Presidente russo Dmitri Medvedev, anunciou hoje que tenciona criar um movimento político.
“Formarei o meu próprio movimento político”, revelou ele numa entrevista à revista russa The New Times.
Interrogado pelos jornalistas, Lujkov desmentiu a possibilidade de criação de um movimento com base no partido da oposição liberal Iabloko, sublinhando que pretente criar um movimento político e não um partido.
“Se decidi, digo firmemente que irei realizar isso. Tentarei realizar”, acrescentou.
Mas Lujkov não nega que isso pode implicar riscos, nomeadamente a abertura de processos-crime contra ele ou a esposa.
“Mas eu não sou uma criança... Claro que compreendo que isso pode acabar em processos-crime. Vou lutar pela minha honra, porque eu tenho-a. Mas se os que quiserem meter-me na cadeia tiverem fundamentos para isso, estou pronto para tudo”, acrescentou.
Os politícos e politógos russos, na sua generalidade, consideram que o antigo senhor omnipotente de Moscovo não passa de um “cadáver político” e consideram essa decisão “errónea”.
Igor Lebedev, dirigente do grupo parlamentar do Partido Liberal Democrático da Rússia, afirma que Lujkov já tem idade demais (74 anos) para se dedicar à política.
“O fato de ter perdido a confiança do Presidente é uma causa séria que significa que não se deve dedicar a mais nada. Deve ir calmamente para a reforma, tanto mais que o senhor Lujkov está materialmente garantido, a mulher ajudá-lo-á. Se quer fazer alguma coisa, que se dedique à criação de abelhas”, declarou Lebedev aos jornalistas.
“Hoje, considero-o um cadáver político”, concluiu.
Os partidos da oposição liberal ao Kremlin já fizeram saber que não estão dispostos a fazer alianças com Lujkov.
“Os seus opositores políticos irão recordar-lhe sempre o que ele não fez à frente de Moscovo, os capitais da sua esposa... Por isso, não se deverá manter muito tempo na política”, defende Serguei Mitrokhin, dirigente do partido Iabloko.
Ivan Melnikov, membro do Comité Central do Partido Comunista da Federação da Rússia, considera que Lujkov ainda tem forças para criar um movimento, mas sublinha que “não tem nicho político”.
“Segundo sei, ele vai tentar colocar objetivos democráticos, a luta pela liberdade, mas tenho fortes dúvidas em relação a Lujkov enquanto lutador pela democracia”, frisou.
O Partido Rússia Unida, do qual Lujkov foi um dos dirigentes máximos, não comentou os planos deste seu antigo militante.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Golpe de Estado "suave" na Ucrânia

 Президент Украины, которая решением Конституционного суда превратилась из парламентско-президентской республики в президентско-парламентскую, объявил новую реформу политической системы страны
O Tribunal Constitucional da Ucrânia votou hoje a favor do reforço dos poderes do Presidente Victor Ianukovitch ao considerar ilegal uma reforma que reduzia as prerrogativas do chefe do Estado, adotada em finais de 2004, durante a “revolução laranja”.
“O Tribunal Constitucional considera … anticonstitucional a revisão da Constituição da Ucrânia de 08 de Dezembro de 2004, devido a violações dos processos de análise e aprovação” da reforma”, declarou Anatoli Golovin, presidente desse tribunal.
Paradoxalmente, essa reforma foi proposta durante a “revolução laranja” por Victor Ianukovitch e seus partidários para reduzir os poderes do candidato pró-ocidental, Victor Iuschenko, e da sua aliada de então, Iúlia Timochenko, caso Iuschenko vencesse o escrutínio presidencial.
Mais, essa foi uma das principais exigências para que Ianukovitch aceitasse a realização de uma terceira volta das eleições presidenciais, em que acabou por ser derrotado por Iuschenko.
Eleito Presidente da Ucrânia no início do ano, o pró-russo Ianukovitch exigiu a revogação dessa reforma para conseguir o aumento de prerrogativas presidenciais na formação do Governo, nomeadamente a de nomear e demitir o primeiro-ministro.
O partido da ex-primeira-ministra Iúlia Timochenko já condenou a decisão do Tribunal Constitucional.
“Essa instância está desacreditada… esta última decisão está próxima do abuso do poder, o Tribunal Constitucional chamou a si, sem autoridade, o direito de modificar a lei fundamental ucraniana”, considerou Olena Chustik, vice-dirigente do grupo parlamentar do Bloco Iúlia Timochenko.
Segundo a presidência ucraniana, a decisão de hoje restabelece a Constituição da Ucrânia de 1996, quando o país passou a ser dirigido por mão de ferro por Leonid Kutchma e Victor Ianukovitch era primeiro-ministro.
“Isto quer dizer que todas as relações jurídicas no seio do Estado serão regidas por esta Constituição, que foi reconhecida como sendo a melhor da Europa”, declarou a vice-chefe da administração presidencial, Olena Lukach.
“Esta decisão do Tribunal Constitucional é estranha por várias razões. Primeiro, tanto Iuschenko, como Timochenko tentaram fazer com que essa instância revogasse a dita reforma constitucional, mas sem êxito, embora os juízes sejam praticamente os mesmos”, comentou à Lusa por telefone a partir de Kiev Vladimir Dolin, analista político.
“Além disso, tanto o atual Parlamento, como o Presidente Ianukovitch foram eleitos segundo as normas agora revogadas. Por isso, seguindo a lógica, deveriam realizar-se novas eleições presidenciais e parlamentares”, continua.
Segundo ele, “pode parecer uma usurpação, parece tratar-se de um golpe de Estado suave”.
“Por enquanto, o Presidente tem o apoio da maioria dos deputados no Parlamento e, por isso, a decisão do Tribunal parece não ter sentido. A não ser que Ianukovitch receie que essa maioria seja instável…”, concluiu.