Texto enviado por António Campos:
"Dei a esta peça o título de uma conhecida canção dos Beatles, composta em 1968 em plena guerra fria, a qual me parece constituir um pano de fundo adequado para ilustrar, quase vinte anos volvidos sobre a queda do muro de Berlim, o rumo da história dessa região do mundo.
Nas últimas semanas, três acontecimentos importantes (e sem trazerem grandes surpresas para muitos dos observadores obcecados pela região, tais como eu próprio) tornaram-se num símbolo claro do que a antiga URSS acabou por se tornar: uma amálgama de estados autoritários governados por pequenas elites corruptas cada vez mais ricas que emperram o desenvolvimento social e económico dos seus países, a orbitar em torno do maior e mais corrupto estado de todos. Tal como nos tempos da União Soviética, a Rússia é o epicentro deste terremoto social que dura há já quase vinte anos.
No início do mês de Dezembro, uma peça no Vedomosti confirmava o que já todos sabíamos: que, mau grado a aparente preocupação, de Medvedev relativamente às múltiplas queixas da incipiente “sociedade civil” russa no que respeita às violações ambientais na floresta de Khimki, nos arredores de Moscovo, a construção da auto-estrada Moscovo-São Petersburgo vai mesmo para a frente, respeitando o traçado original. Que se lixe a floresta. A tal não é certamente alheia a maquinação entre o governo francês (país de origem do consórcio construtor) e o Kremlin, que através de uma obscura personagem chamada Sergei Chemezov, antigo agente do KGB em Dresden e actual director da Russia Technologies e da Rosoboronexport - o monopólio estatal russo da exportação de equipamento militar - (e galardoado, sabe-se lá porquê, com a Légion d’Honneur francesa), negoceiam contratos bilionários de venda de material bélico. E não nos esqueçamos também de Arkady Rotenberg, amigalhaço de longa data de Vladimir Putin e instrutor de judo convertido em banqueiro milionário e um dos principais fornecedores de tubagens para a Gazprom, que terá sido nomeado para dirigir a construção da dita auto-estrada. Mais do que óbvio, a “moratória” decretada pelo presidente Medvedev sobre a construção da auto-estrada, para permitir a “consulta” às organizações ambientais e ao público, foi apenas um ardil para esvaziar a pressão pública e fazer a história cair no esquecimento. Kremlin e seus esbirros 1, sociedade civil, zero.
Depois, surgem os acontecimentos do dia 19 de Dezembro na Bielorrússia. Ainda está fresca na nossa memória a campanha do Kremlin contra o presidente bielorrusso em exercício, com longos documentários nas televisões oficiais a retratá-lo como autocrata corrupto e brutamontes, vilificações online de parte a parte e rumores de que o Kremlin estaria a financiar candidatos da oposição. Mas subitamente, numa semelhança assustadora com o pacto Molotov-Ribbentrop entre a Alemanha e a União Soviética em 1939, uma jogada de bastidores entre os aparentes inimigos viscerais Lukashenka e Medvedev coloca a Bielorrússia mais uma vez sob a protecção financeira do Kremlin, conferindo carta branca ao presidente bielorrusso para mostrar ao mundo (e especialmente ao seu próprio povo) de que o degelo pré-eleitoral, que tantas esperanças deu a democratas do lado de cá e de lá, não era mais do que papas e bolos para enganar tolos (especialmente os de Bruxelas). O Kremlin colocou mais uma vez a pata sobre um seu vizinho, agora oficialmente dependente da Rússia, a incipiente sociedade civil bielorrussa dissolveu-se no lamaçal dos cárceres do KGB em Minsk perante a impotência e indiferença do ocidente, bem como a hipocrisia de Medvedev, que após ter feito votos de que “as eleições fossem um passo em frente na democratização da Bielorrússia”, descartou as violações dos direitos humanos como um “assunto interno de outro país”. Putin esfregou as mãos de contente com mais uma expansão territorial. Kremlin 2, sociedade civil zero.
Hoje foi dado a público o veredicto do segundo julgamento de Mikhail Khodorkovsky. Num processo que faria envergonhar qualquer pessoa no mundo que entende a necessidade de um sistema judicial justo e independente dos outros poderes, o antigo oligarca e principal accionista da petrolífera Yukos foi considerado culpado de desvio de fundos e recursos da sua antiga empresa. Os que seguiram o julgamento sabem que as acusações eram absurdas e as motivações políticas. Como refere o Economist, “o verdadeiro crime de Khodorkovsky foi ter-se tornado numa ameaça a Vladimir Putin (que se tornou presidente no ano 2000), agindo como proprietário independente em vez de gestor servil dos recursos naturais da Rússia, e usando a sua influência para contrariar o objectivo de Putin de construir um petro-regime autoritário. O seu encarceramento, e o desmantelamento da Yukos foram essenciais para Putin e para o sistema violento e corrupto que estava a construir.” Com as suas declarações descaradas nos media sobre a “culpabilidade” de Khodorkovsky, o primeiro-ministro russo deitou definitivamente por terra toda a retórica do presidente sobre o alegado combate ao niilismo legal que corrói o país. Kremlin 3; sociedade civil zero.
Com todos estes aparentes sucessos, Vladimir Putin sentir-se-á certamente indestrutível como virtual ditador inquestionável de um território que se vai diariamente aproximando dos limites do que foi a União Soviética, e que insiste em estender os seus tentáculos energéticos até para bem dentro da União Europeia e outros países (http://darussia.blogspot.com/2010/09/blog-do-leitor-nova-horda-mundial.html). Sob os seus auspícios, constrói-se um império em que os antigos oligarcas foram substituídos pelo que o sociólogo Alexander Oslon chamou “empresários-burocratas”, que “privatizaram um activo fraco e sub-capitalizado: o estado russo”. Apagada definitivamente a noção incómoda de conflitos de interesses e com as forças de segurança ao seu serviço, estes novos empresários dividem entre si os lucros da venda das matérias-primas e prestam vassalagem ao imperador a troco de uns biliões enterrados em offshores, villas na Côte D’Azur, Bugattis Veyron e internatos para os rebentos no Eton College.
Mas pouco sobra para a resolução dos graves problemas que continuam a afectar a população. E, mais importante ainda, para a modernização das infra-estruturas e da indústria. Desde o colapso da União Soviética, foi construída uma fábrica de cimento e não foi construída sequer uma única nova refinaria petrolífera na Rússia. As empresas russas preferem investir no estrangeiro e não no seu país (http://darussia.blogspot.com/2010/12/blog-do-leitor-o-dilema-da-nao.html). E o investimento estrangeiro, a encolher cada dia que passa, acabou de levar mais um rude golpe com a condenação de Khodorkovsky. Tal como nos últimos dias da União Soviética, assistimos a uma estagnação de uma economia mantida à tona apenas pela venda de matérias-primas e pelo aumento da despesa pública destinada a manter a popularidade dos governantes. E pela ilusão de uma modernização que não sai do papel.
Na sua obsessão pela grandeza soviética, Putin continua a fazer tudo para reverter a história e restabelecer o império. Mantendo bem nutrida a sua corte de empresários-burocratas, usa a corrupção como base para o seu poder, compra os líderes nacionais dos antigos satelites imperiais e procura estender da mesma forma o tentáculo energético além-fronteiras. Mas o período de estabilização e ressurgimento que muitos lhe dão crédito está a chegar ao fim. E a verdade é que os mitos de grandeza soviética, expansão territorial e grunhidos bélicos anti-ocidentais não resistem à estagnação económica, ao subdesenvolvimento industrial, à decrepitude das infra-estruturas, à abertura para o exterior que o país goza, bem como às tecnologias como a internet, que dificilmente são controladas pela propaganda. Em onda lenta, mas crescente, a população está a passar de indiferente para farta do sistema vigente, dividido entre “nós”, a população, e “eles”, os das luzinhas azuis em cima dos carros. E quando uma parte da elite perceber que o sistema é insustentável tal como Putin o imaginou, poderá perder a vontade de o defender, tal como aconteceu nos no período dos esgares finais da URSS.
E talvez quando chegarmos a esse ponto, a História poderá repetir-se."