A situação em torno da Líbia deteriora-se de hora para hora, não sendo, neste momento, possível avaliar quais as consequências deste conflito. Isto, em grande parte, porque as Nações Unidas ou potências capazes de influirem no rumo dos acontecimentos demoraram demasiado tempo a tomar medidas adequadas.
Se a decisão de criar uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia fosse tomada nas primeiras semanas do conflito, quando a oposição ao coronel Khadafi controlava parte significativa do país, talvez o ditador já estivesse nas mãos do Tribunal Penal Internacional, no outro mundo ou, no melhor dos casos para ele e a família, algures na Bielorrússia ou na Venezuela.
A fim de encontrar um consenso, a decisão de sanções militares contra Khadafi foi tomada quase um mês depois do início do conflito, quando o coronel já teve muito tempo para reagrupar as suas forças.
Agora, este atraso talvez vá custar mais uns milhares de vítimas humanas.
Neste conflito, tal como já vem acontecendo há muito, Moscovo tenta agradar a gregos e troianos, arriscando-se a perder posições em regiões onde tinha fortes interesses económicos.
Como é sabido, a Rússia absteve-se na votação do segundo pacote de sanções contra o regime de Khadafi, posição também tomada por Pequim e que abriu caminho à intervenção militar internacional.
Quando esta começou, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia veio lamentar isso, sublinhando que a resolução do Conselho de Segurança da ONU tinha sido mal preparada.
Será que a diplomacia russa já não sabia, quando se absteve, que a resolução estava mal preparada ou que a resposta de alguns países ocidentais e árabes seria uma intervenção militar?
Hoje, Domingo, veio exigir a suspensão da ofensiva , apelando às forças estrangeiras para que suspensam o “uso indiscriminado” da força que, afirma Moscovo, já matou civis.
Numa declaração do porta-voz da diplomacia russa, Alexander Lukachevitch, os ataques aéreos excedem o mandato dado pelo Conselho de Segurança, que aprovou a criação de uma zona de exclusão aérea e autorizou todas as medidas necessárias para proteger a população civil.
O porta-voz afirmou que os ataques aéreos atingiram alvos não-militares na capital líbia, Tripoli, e noutras cidades. Em consequência, disse, 48 civis morreram e mais de 150 foram feridos, além de um centro médico ter sido parcialmente destruído.
Será que o Kremlin não entendia, quando se absteve, que as bombas, por enquanto, ainda não reagem às roupas civis ou às fardas militares?
Esta falta de clareza nas posições de Moscovo (e penso que também de Pequim) deve-se ao facto de a diplomacia russa tentar jogar em vários tabuleiros, esperando colher sempre alguns frutos, independentemente do resultado da contenda. Será que o Kremlin acredita que Khadafi ainda pode ganhar esta guerra?
Normalmente, este tipo de política "maleável" acaba por não dar grandes resultados.
O Kremlin tem-se manifestado claramente contra a chamada "intervenção militar humanitária" e, por isso, fiquei "surpreendido" ao ver que Moscovo se absteve no Conselho de Segurança da ONU. Ou será que não quis fazer a figura de defensor de um regime criminioso e mentecapto como é o de Kahdafi? Pelos vistos, não sabe bem o que fazer e opta por decisões que supostamente permitem estar sentado em dois bancos ao mesmo tempo.
Neste contexto, é também curioso assinalar a posição de uma certa esquerda face ao conflito na Líbia.
Segundo a Agência Lusa, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, manifestou hoje a solidariedade do seu partido para com o povo líbio, defendendo uma “solução política” que ponha “fim à agressão imperialista” naquele país.
“Perante a agressão imperialista à Líbia e ao seu povo, queremos dizer que somos solidários com o povo líbio”, afirmou o líder comunista.
Jerónimo de Sousa abordou a questão da Líbia durante o discurso que proferiu num almoço comemorativo dos 90 anos do PCP, realizado em Mora, distrito de Évora, e que juntou cerca de 1 500 militantes e simpatizantes do partido no Alentejo.
Mas que "povo líbio"? Aquele que estava a ser massacrado e oprimido pelo coronel ou a família de Khadafi e o seu regime.
Voltamos à velha história, o imperialismo agride Khadafi, enquanto os tanques soviéticos libertaram Praga. Na cabeça de certos senhores nada muda, tudo parece conservado e congelado.






