segunda-feira, outubro 07, 2019

Olhar da Rússia para o Mundo - 8

Na sequência de uma questão colocada é abordada a questão da “centralidade da Alemanha” e da política externa da Rússia. 

A questão da Alemanha vai depender muito da evolução da União Europeia. O futuro da União Europeia vai ditar o papel da Alemanha nas relações com a Rússia e mesmo com a própria União Europeia. 
O Brexit é um desastre, e o futuro da União Europeia está por um fio, e se a União Europeia se começa a desintegrar, vamos assistir ao aparecimento de blocos dentro do continente, como já aconteceu no passado e, nesse sentido, podemos até pensar, Berlim-Moscovo um bloco, dando a Rússia à Alemanha o papel principal dentro da sua zona de influência europeia e a Alemanha reconhecendo a Rússia, porque efetivamente neste bloco há grandes interesses económicos, como a questão do gás. Claro que a Alemanha quer que seja acabado de construir o norte stream 2, porque a Alemanha renunciou à energia atómica, e por isso tem grandes necessidades de gás natural e a Rússia vê na Alemanha um forte parceiro em termos de fornecimento de tecnologia, e as empresas alemãs também estão interessadas nisso, claro que agora há sanções e as coisas são mais complicadas. Mas eu penso que as relações entre a Alemanha e a Rússia vão depender, muito, da evolução da própria União Europeia. 
O que vai ser quando a Frente Nacional chegar ao poder em França? …por exemplo ou… O que vai ser com o aumento das chamadas forças de extrema-direita noutros países? 
Tudo isto é que vai ditar o tipo de relações. 
Antes da Crimeia, nós tínhamos as tais relações de que estava tudo a melhorar e cada um, à sua maneira, aproveitava a oportunidade para fazer negócio. No caso da Alemanha havia grandes possibilidades, porque tinha políticos como o senhor Schroden… que ainda ontem veio defender a reintegração da Crimeia, porque é um dos dirigentes da Gazprom, ou seja, a Rússia também tem os seus agendes de influência na Europa. 
Efetivamente para muitas empresas europeias as sanções também prejudicam… e alguns países europeus, nomeadamente a Alemanha, tiveram que deixar de vender tecnologia para a Rússia. 
Ou seja, a Alemanha e a evolução da política externa e das relações com a Rússia irá depender muito da situação da União Europeia. 
Se a União Europeia se desintegrar, nós podemos começar a desenhar todo o tipo de eixos, possíveis e imaginários, que se começarão a formar em todo o continente. Não se sabe se se manterá a NATO, pode ser que se recue até ao ano de 1949 e acaba-se com o projeto europeu, mas mantém-se a NATO.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Olhar da Rússia para o Mundo - 7

Faço um parêntesis para referir uma área muito interessante mas muito complexa que é a Ásia Central… o problema do Afeganistão está por resolver, está por saber se o problema do Afeganistão vai saltar do Afeganistão cá para fora ou não, e se saltar, a área da Ásia Central é uma zona vital para a Rússia do ponto de vista estratégico, e o desenvolvimento da situação na Ásia Central eventualmente, poderá trazer novidades, não só para a Rússia, mas também no norte e nordeste da China e a desestabilização da Ásia Central criaria graves problemas para estes dois países. 
Daí que, eu considero, que devemos estar atentos à política do senhor Putin, mas sermos racionais e pragmáticos. Por exemplo, os russos fornecem gás à Europa, e alguns dizem “a Europa depende dos combustíveis russos, do gás russo”, isso pode ser e não ser verdade: primeiro, os russos constroem e estão a construir em quantidades significativas, gasodutos e oleodutos, e lá dentro tem que correr alguma coisa, e para que lá dentro corra alguma coisa, alguém tem que comprar e se não comprar aquilo enferruja, ou seja, a Europa precisa de gás, mas a Rússia também precisa vender gás. E precisa de outra coisa a Europa, que é diversificar as fontes de fornecimento de combustíveis. Finalmente está a ser construído o gasoduto entre a França e Espanha, que durante muitos anos não havia, e se esse gasoduto existisse em 2009 a crise do gás russo seria muito menor porque o gás podia entrar por Portugal e Espanha e ser transportado por esse gasoduto… que agora vai, finalmente, juntar todos os países da União Europeia. 
Claro que os Estado Unidos querem vender o gás deles, e até lhes desejamos êxitos, porque só se formos “lorpas” é que não aproveitaremos a situação estratégica do porto de Sines. O porto de Sines vai-se transformar num dos portos de entrada do gás liquefeito na Europa e isto para nós é importante e estarmos atentos a estas situações. 
Ou seja, resumindo, considero que em relação à Rússia temos (a União Europeia e a NATO) que ter uma política clara, seria bom se tivéssemos uma política comum, seria ideal, uma política externa e de segurança comum em relação à Rússia, seria muito bom, e falar de igual para igual, aproveitando as fraquezas uns dos outros, nós as deles e eles certamente irão aproveitar as nossas. 
Como sabem os hackers russos são bons, mas computadores não são russos, são ocidentais… nunca vi nenhum computador russo.

terça-feira, agosto 20, 2019

OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO - 6

Palestra proferida no EMGFA (continuação)

A política de dois padrões ou de vários padrões continua a ser a política atual e é ela que funciona. O que temos hoje? 
Putin e Trump, na Cimeira de Osaca do G20, encontraram-se, mas sem qualquer resultado palpável. 
Mas em termos de desarmamento, não se antevê nada de positivo ou a ocorrer será muito pouco, porque o senhor Trump “jogou” uma carta importante em cima da mesa que foi “nós agora de desarmamento não vamos falar a dois, vamos falar a três” e acrescentou a China, e a China responde “mas isso não é nada connosco, nós não fazemos parte desse clube”… e este vai ser outro grande problema se se começar um novo desanuviamento e uma nova etapa de desarmamento. 
Há problemas gravíssimos, a questão da Síria e do Irão que poderão, de um modo ou de outro, fazer mudar bruscamente ou fortemente as relações entre os EUA e a Rússia, mas na minha opinião, penso que vamos continuar a ter tempos de guerra-fria, ou seja, a guerra-fria nunca acabou, só que havia altos e baixos e neste momento estamos numa situação em que a guerra-fria está a subir de tom. 
Em relação à Europa e à Rússia, tendo em conta que a Europa faz parte da NATO, e esperamos que a NATO esteja atenta ao que se passa à sua volta, acho que chegou a hora de existir uma coordenação muito maior entre as Forças Armadas dos países europeus, não de Forças Armadas únicas mas quase de… ou seja, a Europa tem que estar pronta a enfrentar determinados desafios e a ter uma politica de defesa e de segurança, própria. 
Em conversa com o senhor Almirante, antes de entrarmos, foi abordada uma questão/problema que a meu ver é fundamental, que é… há muita gente que não entende porque é que os Polacos, os Estónios ou os Lituanos, ficam aterrorizados com a Rússia… não entendem porque não leem a História, porque se lessem, entendiam rapidamente, se a Europa não entender estes povos e não for ao encontro deles, estes povos vão diretamente aos Estados Unidos, como faz agora a Polónia e dizem “mandem mais gente para cá”… Porque a senhora Merkel até pode dizer, ela sabe muito bem russo, conhece muito bem os russos, conhece o senhor Putin… - eu conheço bem os russos e falo bem russo, mas não conheço o senhor Putin só o vi ao longe, mas posso dizer que estou de acordo com a senhora Merkel ao dizer que os russos são pessoas simpáticas, são simpatiquíssimas, não há dúvida absolutamente nenhuma-, mas isso não é política externa. 
A política externa é uma coisa muito mais complicada, a política externa tem uma carga histórica enormíssima, daí que nós temos que dar aos nossos amigos da Europa de Leste garantias de que não vamos fazer acordos abstractos, sem a intenção de os cumprir… 
Outra coisa muito importante é que só prestamos atenção quando a casa já está a arder, quando já funcionam as formas de influência que a Rússia leva a cabo para atingir os seus objetivos no estrangeiro. 
Estimados, nós já sabemos há muito tempo, não é segredo para ninguém, que a União Soviética fazia, e a Rússia continua a fazer, como faz qualquer potência que tenha interesses: comprar pessoas, infiltrar agentes, minar o território do potencial adversário. 
Por exemplo, agora há pouco tempo veio-se a saber que a filha do porta voz de Putin, trabalhava como secretária de uma deputada do Parlamento Europeu da extrema direita francesa, e que tinha acesso a documentos classificados. 
Ora, estimados amigos, depois disto, só apetece rir… isto são coisas elementares. Dou-vos outro exemplo… se Inglaterra não fosse tão invejosa quando entrava o dinheiro sujo dos oligarcas russos, e não foi investigar mortes estranhas em Inglaterra, nomeadamente, de alguns oligarcas russos, que até se conseguiram “matar” a si próprios sozinhos com um cinto, quando acordou com Skripal (o espião russo que foi envenenado no Reino Unido), já a casa estava a arder… não sabemos se vão levar a investigação até ao fim das consequências ou se vão considerar que é um acontecimento passageiro e que vai passar e vai voltar tudo ao normal, como acontece maioritariamente… 
Ou seja, nós estamos efetivamente perante uma política externa revisionista com interesses claros na zona da antiga influência Soviética.

domingo, agosto 11, 2019

Olhar da Rússia para o mundo - 5

Palestra no EMGFA (continuação)

Assim estamos a assistir à Rússia com uma nova política Africana, que nas palavras de Putin significa que “desta vez a política africana tem que dar dinheiro”, não será como as políticas da União Soviética que exportavam aquelas maquinetas que não funcionavam em África e construíram umas centrais hidroelétricas, mas fundamentalmente o que enviavam eram armas. Hoje a Rússia tem uma política diferente. A Rússia tenta entrar nos países onde são extraídos metais ou matérias primas que concorrem com a Rússia no mercado internacional. Diamantes em Angola, ou ouro no Zimbabué ou outros metais. Na República Centro-Africana, também existe essa política. Na Líbia, o petróleo porque a Rússia tem fortes interesses no petróleo líbio, e por isso a Rússia tenta ocupar estes lugares deixados vagos, pelo Ocidente, principalmente em situações de conflito, onde há guerras entre numerosos grupos e tenta, dessa forma, entrar e mexer-se para garantir alguns dos seus interesses. 
Se falarmos da América Latina, temos dois vectores contraditórios. 
Por um lado, a Venezuela, onde a Rússia tem grandes interesses e de onde só sairá se esses interesses ficarem seriamente guardados e garantidos, porque a Rússia já está farta de assinar papeis, sem efeitos práticos. Neste caso, julgo que não se trata de a Rússia pôr em causa a influência de Monroe ou pôr em causa a influência Norte Americana na América Latina, mas sim uma forma de a Rússia ganhar força para discutir questões noutros lugares, nomeadamente na Ucrânia ou em outras zonas da antiga União Soviética. 
Quero chamar a atenção para um acontecimento ocorrido há poucos dias… Por incrível que pareça os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia, na pequena Moldávia, conseguiram chegar a acordo e fazer um milagre… conseguiram destituir os corruptos que lá estavam no poder e restabelecer o regime democrático naquele país. Claro que a Moldávia é um país pequenino, é um país muito pobre, mas isto é um bom sinal! É sinal que nem sempre é obrigatório estarmos todos em conflito, tanto mais em zonas sensíveis, tanto para a Rússia como para a NATO, como é a Moldávia, que é junto à Roménia, que tem uma série de problemas complicados... 

Na América Latina, temos a questão do Brasil, porque o senhor Bolsonaro não promete nada de bom em relação ao projeto dos BRICS. Alguns apresentaram o projeto dos BRICS como o aparecimento de uma daquelas super-organizações, que agora é que vai ser, que os Estados Unidos vão ficar para trás, mas ao que tudo indica, o senhor Bolsonaro não está muito disposto a prejudicar as suas relações com o Trump em nome da integração nos BRICS. Por isso, neste momento, o projeto é uma organização que está congelada, ou seja, existe, mas não funciona de forma visível e ativa. 
Quanto à relação com os Estados Unidos e com a Europa, aqui as questões são complicadas porque muito vai depender da política de Donald Trump em relação à Rússia, à Europa e a outros países. Se esta política que ele tenta, pelo menos publicamente mostrar, que a política internacional para ele é uma espécie de grande empresa em que ele é o sócio maioritário, e que está disposto a falar com os outros sócios e a assinar acordos com eles, mas nas condições dele. Se assim é, e parece que foi o que aconteceu com o México, ele conseguiu pelo menos aparentemente ganhar a batalha com o México, se conseguir chegar a um acordo com a China, isso será de extrema importância porque permitirá ao Senhor Trump continuar, ou não, com essa política. 
Os russos estão extremamente preocupados com esse eventual acordo… Na minha opinião, os russos já se arrependeram de ter apoiado e se congratulado com a eleição de Donald Trump, porque as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, neste momento, não podiam estar piores do que o que estão. 
Não poderão ficar melhor, no próximo ano, se acabarem com o último Tratado do período de desanuviamento, que é o tratado de limitação dos mísseis de longo e médio alcance. Se os Estados Unidos e a Rússia saírem desse acordo, o mundo ficará sem qualquer tipo de acordo nesse campo. 
Com o Direito Internacional que hoje temos, e a forma como é cumprido, não sei se os acordos têm alguma validade… porque, hoje, o Direito Internacional só serve quando é aceite por “alguém”. E recordando tempos mais atrás, a Rússia não teve problema em esmagar completamente a resistência nacionalista da Tchetchénia, defendendo a sua integridade territorial… Mas, agora, acha que a Ucrânia não tem direito a fazer o mesmo, e isto dá origem a que muita gente acredite que o senhor Putin é a salvação, é um anti-imperialista que trouxe às relações internacionais uma nova etapa…

(continua)

quarta-feira, julho 31, 2019

OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO -4

O Báltico não faz parte dos planos russos, em termos de zona de influência, por enquanto, e não faz porque o Báltico já faz parte da NATO. 
E a partir dessa altura os russos, as Forças Armadas russas, que sofreram um longo processo de modernização realizado por Putin, e de rearmamento, apesar de não ser totalmente convincente a existência dos mísseis invisíveis, a verdade é que as Forças Armadas russas são, hoje, incomparavelmente mais fortes que as Forças Armadas russas de há 10 ou até 20 anos atrás. 
Nesta situação, a Rússia viu-se debaixo de sanções. Na minha opinião, se essas sanções duríssimas, tivessem sido tomadas em 2008, nós talvez não estivéssemos agora a falar da invasão da Crimeia, mas como na História não há lugar a Ses, o que está feito, está feito. 
Com consciência desta capacidade (mais fortes que há 10 ou até 20 anos atrás) a Rússia começa a tentar entrar nos pontos mais vulneráveis em termos internacionais, e a aproveitar-se das contradições entre os Estados Unidos e a Europa, ou entre os Estados Unidos a Europa e outros aliados em termos locais, para fazer uma nova política internacional. Nova para os russos. 
Antes de continuar quero realçar algumas questões importantes, uma questão sobre o Extremo Oriente, o Japão vai-se manter a ver as quatro ilhas Curilhas por um canudo, porque apesar dos russos terem andado muito tempo a “vender” ao Japão a ideia de que até poderia chegar a um acordo, a verdade é que não vai haver acordo nenhum ali, porque a Rússia não vai ceder nada ao Japão; a questão da Coreia do Norte e do Sul, que é uma questão que tem muita importância na diplomacia Russa, porque como sabemos a Rússia tem fronteira com a Coreia do Norte e é uma fronteira vital, até para a própria Coreia do Norte. A questão é que todos dizem que querem a reunificação da Coreia, mas a verdade é que há poucos os que realmente querem a reunificação da Coreia… Claro que a Rússia é daqueles que não quer a reunificação da Coreia, a China também não, e o Japão “idem, idem, aspas, aspas”. 
Ou seja, na reunificação da Coreia estarão interessados os EUA e a própria Coreia do Sul. De resto ninguém quer ver uma Coreia poderosa, ao nível de que se acontecer alguma coisa, certamente ninguém quer que aconteça na Coreia o que aconteceu na Alemanha, ou seja, quem vence é a República Federal Alemã e nunca a República Democrática Alemã, porque são duas economias completamente desequilibradas e não havia possibilidade de equidade, e na Coreia também não há, não pode haver uma integração entre iguais. 
Aliás, pessoalmente até gostaria de assistir a essa “matrioska”, mas já não deve acontecer “nos meus dias”, que é colar o socialismo coreano com o capitalismo coreano, que deveria ser um acontecimento histórico absolutamente impressionante. 
Depois, naquela zona temos a famosa, nos dias de hoje, “aliança” entre a Rússia e a China, o que considero ser uma espécie de “história da carochinha”, e assim o é porque se for uma aliança é uma aliança entre uma potencia gigantesca do ponto de vista económico e militar, e uma potencia militar com pés de barro, que não é potencia económica, não pode haver uma aliança igual entre a Rússia e a China. Claro que a China pode utilizar o trunfo da aliança com a Rússia nas suas relações com os Estados Unidos, o que é normal, mas se Donald Trump tiver a capacidade de chegar a um acordo com a China, esta não vai fazer nenhuma aliança com a Rússia, tendo em conta os interesses norte-americanos na China e os interesses chineses na América do Norte. Essa aliança poderá, eventualmente, ter lugar se se comportarem com a China de tal forma que os chineses fiquem encurralados. Há acordos pontuais entre Moscovo e Pequim. A China tem garantido por parte da Rússia combustíveis e, mais tarde, poderá tê-los até a preços mais favoráveis, quando os gasodutos estiverem construídos e o gás começar a correr para a China, esta terá alguma capacidade de ditar à Rússia o preço do combustível que compra.
(Continua)

segunda-feira, julho 29, 2019

O OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO - 3

Quando chegam, contentes e felizes, porque acabou a guerra e se vão colocar os capacetes azuis no terreno, os Russos dizem: “não, não. No Tratado está escrito que os observadores da OSCE ficam, mas só do lado da Geórgia, no território da Ossétia do Sul e da Abecásia não há capacetes azuis para ninguém”. 
A Europa, os Estados Unidos e a NATO viram-se obrigados a aceitar, até que, nessa altura,  Vladimir Putin faz, paralelamente , uma política internacional bastante ativa e até virada para uma cooperação com a Europa e a NATO, cooperação essa que se intensifica, com a cimeira da NATO-Rússia, em Portugal em 2010, ou com os acordos que foram assinados e a cooperação especial e particular entre a NATO e a Rússia, para se pensar, naquela altura, que as coisas estavam a avançar no bom sentido. 
E estavam a avançar no bom sentido, estávamos muito perto de suspender o sistema de vistos entre a Rússia e a União Europeia, medida que defendo porque considero que quanto mais russos viajarem melhor é para eles e para a humanidade: Mas dá-se uma coisa, para muitos inesperada, que se chama a Invasão da Crimeia. 
Na minha opinião, a invasão da Crimeia foi uma tentativa da Rússia “esticar a corda sabendo que ela não ia rebentar”, porque a Ucrâni não faz parte da NATO e o artigo quinto não poderia ser acionado. 
Há um momento importante ao longo da História que nos esquecemos quando estamos a tratar com a Rússia, há muitos que pensam que a Rússia é um país normal. Mas a Rússia não é um país normal, a Rússia é um continente, a Rússia é um país gigante, cujos cidadãos e dirigentes têm uma estrutura mental um pouco diferente da nossa, podemos chamar de imperialista, podemos chamar de supremacia espacial (no sentido de espaço), mas isso está no ADN dos russos e é com isso que nós devemos trabalhar. 
Em 2004, deu-se a chamada revolução laranja na Ucrânia. 
Criou-se uma grande “novidade” e “precedente” na democracia ucraniana e mundial, que foi fazer uma terceira volta das eleições presidenciais. E para quem esteve lá e acompanhou esse período, foi um acontecimento completamente surrealista! 
Quando os ucranianos pensaram que a União Europeia e os Estado Unidos os iam apoiar economicamente, etc. enganaram-se redondamente, tal como se tinha enganado a Rússia, uns anos antes. 
E isto levou a uma segunda revolta, em 2013. 
E aqui dá-se um momento muito importante. 
O presidente Víktor Ianukovitch, depois de fortes pressões, nomeadamente da Rússia, assina um acordo com três ministros dos negócios estrangeiros da União Europeia, onde garante que os manifestantes vão para casa e ele vai realizar eleições presidenciais e parlamentares antecipadas, que era o que os manifestantes queriam. 
Assinou o acordo, mas “ainda a tinta não tinha secado”, ou seja, no dia seguinte, Ianukovitch, teve que fugir para não acabar como acabou Kadafi. Ou seja, a União Europeia, os três representantes da União Europeia que assinaram o acordo, não se responsabilizaram pelo seu cumprimento. 
Chega ao poder, na Ucrânia, gente que poderia querer a democracia e a integração europeia, ou aquelas coisas que dizem para aos europeus acreditarem neles, mas não respeitaram o acordado, o que constituiu um verdadeiro insulto à Rússia. E a União Europeia também não garantiu coisa nenhuma. 
E Putin deve ter decidido assim: “ai vocês fazem assim, então eu também posso fazer!”, e leva a cabo a operação de ocupação da Crimeia e, posteriormente o Leste da Ucrânia. E isto, na minha opinião, constitui o momento de ruptura nas relações internacionais, porque a Rússia deixou claro que estava disposta a usar a força na defesa da sua zona de influência.
(Continua)

domingo, julho 21, 2019

O olhar da Rússia para o mundo -2

A União Soviética entra na corrida ao desarmamento, porque foi uma corrida ao desarmamento a que se assistiu… cede onde pode e não pode, mas iriam ter o apoio do ocidente. Neste caso, Gorbatchov foi amaldiçoado pelos russos, exatamente porque confiou em coisas que não se deve confiar… Porque em Relações Internacionais não há amizade, há apenas interesses! 
Isto de “amigos, amigos, negócios à parte”, e foi o que aconteceu a Gorbatchov, que teve azar… claro que agora temos mais facilidade em criticar, porque o tempo dele já passou, mas imaginemos naquele tempo… Gorbatchov pediu um apoio de 100 mil milhões de dólares aos Estados Unidos e ao Ocidente, para o apoiarem nas reformas. O Ocidente naquela altura já tinha em vista a queda de Gorbatchov e a chegada ao poder de Ieltsin, e na sequência disso não achou por bem, continuar a “enterrar dinheiro” para a manutenção do poder e das reformas de Gorbatchov, ou seja, nem a apoiar Gorbatchov, e não lhe deu o apoio pedido. 
E nesta altura, coloca-se uma questão? 
E se, por exemplo, os russos em vez de terem pedido ajuda, tivessem dito à Alemanha “ou vocês põem em cima da mesa 100 mil milhões de marcos ou então as nossas tropas não vão sair da Alemanha oriental e de Berlim”. 
Como sabem a União Soviética, retirou as tropas que tinha no antigo sector de influência soviética praticamente de “forma gratuita”, o que levou a uma grande degradação dentro do corpo militar russo, porque muitos oficiais voltaram para a União Soviética e não tinham onde dormir. Alguns deles dormiam com a família no avião que tinham tripulado, ou no helicóptero ou no tanque, porque não havia mais nada, ou então, alguns viviam em campo aberto. 
Isto criou um grande descontentamento entre os militares e numa grande debanda, principalmente entre os oficias, que começaram a ver que poderiam organizar a sua vida, muito melhor, fora das Forças Armadas. 
Mais tarde, percebemos que muitos dos homens ricos da Rússia são pessoas que estiveram ligados às altas patentes das forças armadas ou dos serviços secretos… 
E entramos nos anos 90 e na queda da União Soviética, e lembro-me, em Portugal de ouvir alguns analistas dizerem que a Rússia estava arrumada e que não tinha qualquer potencial para se transformar numa grande potência, talvez regional, mas a nível mundial, não. 
E digamos que este tipo de política aliada à desilusão dos russos (do povo), nos anos 90, que esperavam ser integrados na tal sociedade ocidental e começaram a ver que estavam a ser enganados… cria um ambiente ideal para que apareça uma figura como Vladimir Putin. 
Claro que Vladimir Putin aparece numa tentativa de a elite Russa encontrar um sucessor para Boris Yeltsin, mas … um sucessor que continuasse a política de Yeltsin, ou seja, que estivesse sobre o controlo daqueles “oligarcas e mafiosos” que dirigiam o país. 
No entanto, saiu-lhes o tiro pela culatra. Apareceu um homem, que veio dos serviços secretos, e que tentou dar aos russos, ou compensar os russos, pelas humilhações que eles tinham sofrido, quer em termos internos, quer em termos internacionais. Em termos internos, quis “acabar” com os oligarcas, que afinal não acabou, apenas os substituiu por amigos. No campo externo, quis fazer com que a Rússia voltasse a ser ouvida, na tomada de decisões. 
O primeiro sinal de Putin nesse sentido, primeiro do ponto de vista militar, para pôr ordem na casa, de uma forma absolutamente brutal e cruel, foi a chamada segunda guerra da Tchetchénia, em que matando centenas de milhares de pessoas, restabelece o poder da Rússia na Tchetchénia. 
Perante estes acontecimentos, o Ocidente teve que aceitar, porque se tratava de território da federação da Rússia, e aparece, mais tarde, um sinal, que para alguns já foi mais preocupante, para outros ainda um pouco vago, que é 2008! 
E é 2008, que é quando se dá a invasão da Geórgia. 
Invasão esta  à qual o Ocidente reagiu mal, porque não entendeu que se tratava claramente do regresso da Rússia à política da subordinação de zonas de influência. 
Vão a correr a Moscovo, Sarkozy e Durão Barroso, no sentido de assinar um tratado de paz, para travar o conflito entre a Geórgia e a Ossétia do sul e Geórgia-Abecásia, que hoje, são países quase independentes, reconhecidos pela Rússia e por outros países mais pequenos. E assim, como os países europeus tinham tanta pressa em acabar com a guerra, quando assinaram o acordo com Medvedev, nem se quer se deram conta de como estava estabelecido esse acordo, sobre a colocação dos capacetes azuis da OSCE no terreno.
(Continua)

sexta-feira, julho 19, 2019

O olhar da Rússia para o mundo

Palestra no Estado Maior General das Forças Armadas

Boa tarde, 
Pediram-me para falar deste tema que é bastante complicado, tendo em conta a actual situação internacional, é muito difícil! 
Não me peçam para fazer prognósticos, porque é difícil, e é difícil porque tudo muda de forma tão rápida que é impossível prever o que poderá acontecer amanhã ou depois de amanhã. 
E é difícil porque, como nós sabemos, passámos a ter um novo tipo de dirigentes mundiais que antes não tínhamos, e que também não tinham twitter, porque se tivessem, se calhar alguns deles poderiam ser assim. 
Assim sendo, eu vou falar sobre como “A Rússia olha para o Mundo”, mas não hoje, quero falar sobre um pouquinho antes. 
Como nós sabemos da História, a Rússia que não é bem um país, é um continente! É um corpo gigantesco situado entre a Europa e a Ásia. 
E eu sou da opinião que a Rússia é um país europeu. Poderá ter uns traços asiáticos, mas nada que influencie a política atual. O que influencia na política atual russa, principalmente no que diz respeito à política externa, é um pouco o papel que a Rússia acha ser seu, desde há muito tempo, e que é: a Rússia é uma das principais potências mundiais e que deve ser vista e olhada desta forma. 
Isto esteve presente em vários períodos históricos como no reinado de Pedro I, nas Guerras Napoleónicas, na União Soviética e hoje, naquilo a que nós chamamos o “Putinismo”. Ou seja, a Rússia pretende chamar a si um papel fundamental nas relações internacionais e na resolução dos problemas internacionais. 
Isto não foi verdade depois do fim da União Soviética. 
A União Soviética foi o império que menos tempo durou na História da Humanidade, pouco mais de 70 anos, o que em termos históricos são frações de milésimo de segundo. Mas a União Soviética não é um corpo estranho dentro da ideia imperial russa. O internacionalismo proletário não cai do céu, nem do marxismo-leninismo, ele tem origem na natureza imperial da Rússia pré-revolucionária. 
E em doutrinas mais antigas, se recuarmos até à Idade Média, chamada a Terceira Roma, ou seja, estamos a falar do Czar Vassili III, que quando cai 
Constantinopla nas mãos dos turcos, em 1453, Moscovo chamou a si o papel de Roma, como centro do Cristianismo. 
A I Roma morreu destruída pelos Bárbaros, a II Roma morreu destruída pelos Turcos, a III Roma, e última, é Moscovo. 
Esta teoria faz-nos lembrar a teoria do V Império, mas é uma teoria que esteve sempre muito presente na política externa Russa e Soviética ao longo da História. 
Dá-se uma ruptura importante no fim da União Soviética, com a desintegração desta. Isto porque a União Soviética mostrou ser incapaz de criar um sistema económico e social capaz de garantir a política externa que ia conduzindo, ou seja, em termos militares era uma superpotência, em termos económicos e de desenvolvimento social, era um país típico do terceiro mundo. Isto pode parecer paradoxal, mas é verdade! Em conclusão, a União Soviética era um colosso com pés de barro. 
Um dos indícios daquilo que afirmei, era o facto de a maioria das exportações da União Soviética ser em matérias não-transformadas, como era o caso do Petróleo e do Gás. 
A União Soviética praticamente não exportava mais nada. Exportava armamentos, mas isso não se pode considerar como exportar, era mais oferecer do que exportar, que o digam os Angolanos ou outros povos, que recebiam armamentos em quantidades industriais, e que depois, o pagamento, era para o tal futuro radioso que acabou por não chegar. 
E é precisamente esta diferença colossal entre o desenvolvimento interno e a política externa ofensiva da União Soviética, uma das causas do fim da União Soviética. 
Bastou que o senhor Reagan atirasse cá para baixo o preço do Petróleo a nível internacional, para Gorbatchov não ter dinheiro para realizar as reformas com vista a renovar o sistema soviético. 
E é aqui que começa o problema! 
A União Soviética começa com Gorbatchov a ter consciência de que não pode continuar aquela política, e cria-se na sociedade soviética e nalguns setores da direção soviética, a ideia de que o ocidente os vai ajudar. 
(Continua)

segunda-feira, julho 15, 2019

E as quotas para os imigrantes do Leste Europeu, chineses, etc.?


Ao impormos sistemas de quotas para minorias étnicas ou para mulheres, estamos apenas a considerá-las incapazes de atingir certos objectivos na vida. Por isso considero que o sistema de quotas é anti-constitucional, pois discrimina os cidadãos.
Quando o Partido Socialista e extrema-esquerda vêm propor quotas para africanos e ciganos, esquece-se que em Portugal existem outras minorias que ficaram de fora dessa proposta: ucranianos, brasileiros, moldavos, etc.
Em relação aos brasileiros, não sei se os autores da dita proposta se esqueceram que não há entre eles só brancos, mas mestiços, negros e índios. Estes também irão ter quotas pela cor da pele?
No que respeita às minorias do Leste da Europa, porque é que elas ficam de fora? A resposta é muito simples: porque os seus membros fazem todos os esforços para se integrarem na sociedade em que vivem, para aprender a língua e para mandar os seus filhos para escolas públicas gratuitas. 
Quem está atento ao que se passa à volta, vê que há cada vez mais cientistas, jornalistas e desportistas com nomes e apelidos que nos são estranhos, nomeadamente eslavos, na vida portuguesa e, pelo que vemos e lemos, não se queixam de discriminação. Não tardará o dia em que teremos deputados e até ministros com raízes na Ucrânia, Rússia, Moldávia, etc.
A propósito de minorias, porque é que deverá ficar de fora a chinesa? Porque os autores da ideia das quotas consideram que eles querem continuar a viver à parte ou porque são ricos? Vivo em Oeiras e vejo diariamente crianças chinesas a dirigirem-se para as escolas públicas, a falarem português. Será que também iremos inventar quotas para elas?
A criação de um sistema de quotas, além de injusto e humilhante, é o reconhecimento de que o Estado e a sociedade foram incapazes de solucionar o problema da difícil integração dos africanos e ciganos. 
A Dra. Fátima Bonifácio poderia ter sido mais suave a fazer o diagnóstico, mas teve o mérito de pôr a sociedade portuguesa a discutir nos meios de comunicações problemas abordados apenas em cafés ou entre as quatro paredes da casa. 
É verdadeiramente hilariante acusar de racismo alguém que levanta o problema grave da dificuldade de integração dos ciganos na sociedade portuguesa, pois ele é muito real. Talvez fosse melhor se os “anti-racistas puros” e os “verdadeiros anti-fascistas” se dedicassem ao estudo da experiência de integração de minorias noutros países, nomeadamente dos ciganos. 
Na União Soviética, que para alguma esquerda continua a ser “o passado radioso da humanidade”, a propaganda não se cansava de repetir a “igualdade dos povos”, a “convivência sadia”, etc.  Mas, quando a URSS se desintegrou, viu-se que os ciganos, não obstante todas as medidas repressivas, continuam a viver à margem da sociedade. Estaline até fez tentativas de criar unidades colectivas de produção para os ciganos e em Moscovo ainda hoje existe um Teatro Cigano, mas não conseguiu fazer deles “homens novos soviéticos”.  Nunca vi ciganos no Comité Central do Partido Comunista da União Soviética. Talvez houvesse algum entre os deputados do Soviete Supremo, mas este órgão tinha apenas funções decorativas.
Isto não significa que estamos a falar de um grupo étnico condenado à segregação. A experiência dos países escandinavos ou da Alemanha (após a Segunda Guerra Mundial) mostra que é possível a integração, mas para isso é preciso estudar e tomar medidas reais. 
Quanto aos africanos, a integração é possível se não construirmos ou não deixarmos que se formem guetos. A construção de bairros sociais também não é a melhor solução, pois isso nem sempre é sinónimo de integração. 
A minha experiência de vida mostra que o problema principal é nascer numa família pobre ou família abastada. A irradicação da pobreza é talvez o melhor remédio para resolver o problema. 
Por isso, se não queremos racismo, discriminação, xenofobia, devemos concentrar as nossas atenções no combate à pobreza, na criação de “elevadores sociais” que permitam aos melhores subir, e não só àqueles que tiveram a sorte de nascer num “berço de ouro” ou num “berço de prata”. Por isso, parece evidente que o combate à pobreza e a meritocracia são meios mais eficazes no combate à segregação do que os apelos a autos de fé contra aqueles que colocam questões difíceis e delicadas. 
Não tenho a menor dúvida de que os arautos das quotas nasceram em famílias com meios, muitos deles foram “levados ao colo” para os cargos que hoje ocupam ou, no mínimo, com um empurrãozinho. Desconhecem o país real ou levantam falsas questões para alcançar os seus objectivos. 
Claro que existe racismo e segregação, e esses fenómenos devem ser combatidos, mas, volto a repetir, o problema está na pobreza.



P.S. Se, por exemplo, com a ajuda dos recenseamentos se determinasse a cor da pele e a origem étnica, talvez se ficasse com um maior número de elementos para resolver os problemas das minorias. Mas envereda-se pelo politicamente correcto. A seguir, será proibir fixar no papel se o inquirido é homem ou mulher.
E os “académicos progressistas” lá se vão aguentando à custa de novas causas para esconderem, por exemplo, males como o controlo das ciências sociais nas universidades públicas por esquerdistas, sem direito a contraditório. 

quinta-feira, maio 23, 2019

Presidente Zelenski não irá ter vida nada fácil

O Presidente da Ucrânia, Vladimir Zelenski, dissolveu o Parlamento (Rada Suprema) e marcou eleições parlamentares antecipadas para 21 de Julho, mas os deputados não parecem dispostos a dispersar.
Não obstante Zelenski ter chegado a acordo com os dirigentes dos grupos parlamentares sobre alterações à lei eleitoral, a maioria dos deputados votou contra. O Presidente propunha o fim dos círculos uninomimais (em que são eleitos 50% dos candidatos) e a eleição apenas em círculos proporcionais. Além disso, baixava de 5 para 3% dos votos a barreira para que os partidos pudessem eleger deputados. 
À primeira vista, pode parecer anti-democrático acabar com os círculos uninominais, mas, na Ucrânia, não é assim, pois essa é uma forma dos oligarcas comprarem votos no Parlamento. Além disso, essa prática dificulta a criação de maiorias capazes de formar governo. Como as sondagens dão uma forte vitória ao novo partido do Presidente "Servos do Povo", os opositores de Zelenski tentam dificultar-lhe a vida.
Alguns grupos parlamentares recorreram também para o Tribunal Constitucional para que este se pronuncie sobre a legalidade do decreto presidencial e a Comissão Eleitoral já se queixa de não conseguir organizar eleições atempadamente.
Vladimir Zelenski hesita sobre a realização de um referendo sobre as relações entre a Ucrânia e a Rússia, tentando encontrar o formato que mais lhe convém.
Entretanto, Zelenski vai formando a sua equipa, promete mudanças e reformas. Vamos aguardar. 

sexta-feira, maio 17, 2019

Busca em casa de alto funcionário do Serviço Federal da Russia bate recorde na apreensão de dinheiro vivo



Kirill Tchekalin, coronel do Serviço Federal de Segurança (ex-KGB) da Rússia, que dirigiu a direcção desse serviço que controla o Baco Central e os bancos privados,  foi detido por receber luvas que, feitas as contas, batem o recorde de dinheiro vivo apreendido durante uma busca: cerca de 12 000 000 000 mil milhões (ou biliões) de rublos, ou seja, em contas aproximadas (um euro vale entre 70 e 75 rublos), cerca de 18 000 000 (milhões de euros).  Até agora, a maior apreensão de dinheiro tinha sido feita a um alto oficial do Ministério do Interior: 3 000 000 000 de rublos menos.
As luvas eram recebidas pela "protecção" que o dito coronel prestava a algumas empresas e bancos.
Números impressionantes!!! 
O território de Portugal é cerca de pouco menos de 200 vezes do que a Rússia, mas com isto não quero dizer que os ladrões nacionais roubam pouco. Quero dizer sim que a corrupção corrói cada vez mais as sociedades modernas, sendo uma das principais causas do seu empobrecimento.

P.S. Caros leitores, se encontraram algum erro de cálculo, previnem-me, pois já não sou muito forte em matemática.



Подробнее: https://www.newsru.com/russia/17may2019/cherkalin.html

quarta-feira, maio 01, 2019

Um olhar sobre o impasse na Venezuela


Ainda não será desta 

A conversa telefónica de Pompeo e Lavrov a nada levou. As posições da Rússia e dos Estados Unidos continuam a ser completamente divergentes. Se os últimos querem que a Rússia saia da Venezuela e leve consigo Maduro, Moscovo exige o fim das ingerências internacionais. Por detrás de Putin está a China que, como sempre, faz o seu próprio jogo.

Uma situação muito semelhante àquela que se formou quando a Rússia interveio militarmente na Síria para salvar o regime de Assad. Embora, desta vez, a operação seja feita "nas barbas" dos Estados Unidos, estes já não são o que eram e, por isso, uma intervenção militar é improvável e perigosa. 
No terreno, é evidente que os apoiantes de Gaidó não conseguiram mais uma vez trazer para seu lado as Forças Armadas venezuelanas, mas Maduro parece também não controlar os militares de forma a ordenar-lhes esmagar a oposição.
Esta situação poderia ser a ideal para que os militares venezuelanos façam um "25 de Abril". Tomam o poder, distanciam-se das forças políticas e transformam-se em garante da transição para a democracia na Venezuela, mas as chefias militares parecem estar mergulhadas na corrupção, no tráfico de droga, o que torna difícil este cenário.
Desse modo, o povo venezuelano vai continuar a sofrer por tempo indeterminado, pois a segunda tentativa de Gaidó fracassou: erros de cálculo.
A política da União Europeia neste campo tem sido vergonhosa, pois a diplomacia espanhola não se farta de fazer asneiras e a levar os restantes europeus atrás de si. Os Estados Unidos, no campo da política externa, têm receio dos resultados das suas possíveis acções e Trump já mostrou ser um Presidente que não quer ou não sabe como resolver os graves problemas internacionais.
Do outro lado, a Rússia e a China esfregam as mãos de contentes. A primeira, porque está convencida que os seus interesses estão protegidos e a segunda, porque a Rússia adora fazer a política da "retirada das brasas do fogo". 
Realmente, o mundo deixou de ser o que era e estamos perante uma guerra fria estranha e complexa.

quinta-feira, abril 25, 2019

Para que serve o Direito Internacional?

Prenda de Kim a Putin (Ria.Novosti)

Para que serve o Direito Internacional? Deveria servir para estabelecer as regras de convivência entre os Estados, mas essa função torna-se cada vez mais uma ficção. O "direito da força" é uma realidade, provocando novas guerras e conflitos. 
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou uma lei que permite a concessão de passaporte (cidadania) russo aos habitantes das duas regiões separatistas da Ucrânia: Donetsk e Lugansk. Isto é mais um passo para a anexação desses territórios por parte da Rússia. 
Esta experiência já foi testada na Abkházia e na Ossétia do Sul e o resultado é conhecido: a Geórgia perdeu parte significativa do seu território. 
Depois do encontro com o ditador norte-coreano, Putin declarou que não tenciona provocar Kiev (!) e justificou a sua decisão com o facto de alguns europeus passarem passaportes aos seus concidadãos no estrangeiro (!). Não sei se o Presidente Putin tinha em mente o caso da anexação da Áustria e de parte da Checoslováquia por Hitler nas vésperas da Segunda Guerra Mundial.
"Que levem a questão da concessão de passaportes para para o Conselho de Segurança da ONU, discutiremos" - terminou Putin, deixando claro que se está nas tintas para esse órgão das Nações Unidas, onde a Rússia tem direito de veto.
Volodimir Zelensky, Presidente eleito da Ucrânia, deu uma resposta à primeira vista humorística, mas, se bem analisada, tem muita razão de ser. Ele propôs a Angela Merkel que conceda passaportes alemães aos cidades de Kalininegrado, enclave russo que foi território alemão até à Segunda Guerra Mundial. 
Continuando esta linha de pensamento, talvez não fosse má ideia o governo finlandês conceder passaporte aos habitantes das regiões da Finlândia ocupadas por Estaline.
Gostaria de ver a reacção de Putin e as justificações que ele daria para condenar essa política.
O dirigente russo levou o seu país para uma via muito perigosa. Uma crise interna na Rússia poderá ter como final a desintegração do país. Veja-se o que aconteceu à URSS.

Quando ao encontro de Vladimir Putin com o ditador norte-coreano Kim Joung-un, terminou como previsto e não fez avançar a solução para a crise em torno do programa nuclear da Coreia do Norte. Putin não vai além de Trump, pois os interesses das partes envolvidas são muito diferentes.
Ninguém conseguirá dar garantias de segurança ao paranóico ditador norte-coreano de que não será fuzilado, esquartejado ou entalado depois de renunciar às armas nucleares. Actualmente, quaisquer garantias têm uma validade muito curta.
Além disso, nem a Rússia, nem a China e nem o Japão, por diferentes razões, estão interessados na reunificação da Coreia, pois isso levará ao aparecimento de uma nova grande potência regional. 

quarta-feira, abril 10, 2019

História: O que une Portugal à Estónia?


Vista de Talin

Texto publicado pela primeira vez a 17 de Setembro de 2006: 

Reza a lenda que foi graças às pressões da católica Berengária que o seu marido decidiu, em 1210, lançar uma cruzada contra os últimos povos pagãos do Báltico Pela primeira vez na sua História, Portugal inaugurou uma representação diplomática em Talin, capital da Estónia, tarefa realizada por uma mulher: a embaixadora Ana Paula Zacarias. Era necessário dar esse passo, pois os dois países fazem parte do mesmo espaço económico e político: a União Europeia. 
Porém, os primeiros contactos entre os dois povos ocorreram na Idade Média e o mar era o principal corredor de ligação entre eles. E, talvez coincidência ou sinal do destino, os primeiros contactos entre portugueses e estónios estão ligados a outra mulher: Berengária de Portugal (1194-1221), filha do Rei D. Sancho I e de Dulce de Barcelona e Aragão. 
A princesa portuguesa casou-se em segundas núpcias com Valdemar II, o rei da Dinamarca cognominado de "Conquistador" e "Vitorioso". Reza a lenda que foi graças às pressões da católica Berengária que o seu marido decidiu, em 1210, lançar uma cruzada contra os últimos povos pagãos do Báltico, entre os quais se encontravam os "eestis", a fim de os converter ao cristianismo. 
Uma outra lenda conta que a 15 de Junho de 1219, durante a batalha de Lyndanisse (local onde actualmente se situa Talin), do céu caiu milagrosamente nas mãos de Valdemar II um pedaço de tecido vermelho com uma cruz branca estampada no meio, que se veio a transformar na bandeira da Dinamarca. Segundo uma das versões existentes, a própria cidade de Talin deve o seu nome a esse Rei: Taani-linna (a cidade dos dinamarqueses). 
Desde os primórdios da nacionalidade portuguesa que existiam contactos directos entre Portugal e a Estónia, principalmente de cariz comercial. Talin, depois de conquistada pelos cruzados teutónicos, transformou-se num dos importantes portos marítimos hanseáticos onde chegavam o sal, as frutas secas e o vinho portugueses, que, em seguida, eram encaminhados para locais tão longínquos como a Rus (Rússia). Em troca, eram exportados para os portos portugueses produtos como peles, cânhamo, linho, madeiras, etc. 
No início do séc. XVIII, ao abrir "a janela para a Europa", o czar russo Pedro I anexa as terras estónias ao seu império, continuando os portos de Talin e Pärnu a manter o seu carácter estratégico. Entre 1721 e 1755, por exemplo, só a Reval (como então se chamava Talin) aportaram 70 navios de várias nacionalidades provenientes de portos portugueses. Por isso, o senhor das Rússias envia um dos seus mais fiéis colaboradores: António Vieira, judeu de origem portuguesa que chegou a ocupar o cargo de chefe da polícia de São Petersburgo, para reconstruir o porto de Talin.
A aldeia de Vääna, a algumas dezenas de quilómetros da capital estónia, viu nascer Otto-Magnus von Stackelberg, barão de origem alemã que desempenhou um papel relevante no estabelecimento das relações diplomáticas entre as cortes de Lisboa e São Petersburgo. Representante diplomático da Rússia em Madrid entre 1767 e 1711, segue com atenção a situação política em Portugal. 
Numa das suas cartas enviadas à imperatriz Catarina II, Stackelberg caracteriza da seguinte forma o Marquês de Pombal: "O seu génio penetra todos os ramos do Estado, ao mesmo tempo que dá ao comércio toda a prosperidade possível no contexto da situação pouco vantajosa que existe no comércio entre Portugal e a Inglaterra... Homem raro que conseguiu abalar parcialmente o jugo que Portugal sofria devido aos tratados com Carlos II de Inglaterra."
É precisamente no reinado da czarina Catarina II que a Rússia passa a ter interesses importantes no Mediterrâneo, vendo-se obrigada a enviar para lá armadas militares. Estas passam a ter em Lisboa um seguro porto de apoio para reabastecimento dos navios russos.
Situada nas costas do mar Báltico, a Estónia é também terra de grandes navegantes. Aí nasceu e faleceu Johann Kruzenstern (1770-1846), que empreendeu a primeira viagem russa de circum-navegação (1803-1806), durante a qual visitou o Brasil e Macau. 
Na Estónia teve igualmente o seu berço o poeta Guilherme Kiukhelberg (1797-1846), homem ligado à cultura portuguesa. Conhecido pela sua participação activa no Movimento Dezembrista na Rússia, que tentou derrubar o czar Nicolau I em 1825, Kiukhelberg, tal como outros dezembristas, foi beber as ideias liberais que nortearam o movimento às revoluções liberais em Espanha e Portugal. Kiukhelberg figura entre os intelectuais russos que sabiam falar português e espanhol, tendo visitado a Península Ibérica. "Agora, nas horas livres, releio os meus livros espanhóis e portugueses e dedico maior atenção, entre outros, a Camões e ao criador de "D. Quixote"" - escreve ele da cidade de Cádis em 1819. 
Em meados do século XIX, Ivan Velho, neto de José Celestino Velho - mercador portuense e primeiro cônsul luso em São Petersburgo que passou a servir os czares russos e recebeu o título de barão -, foi governador da cidade estónia de Narva. Ainda hoje, no centro da urbe, se encontra um edifício conhecido por "Palácio do Velho", onde residiu o neto do negociante portuense. 
O século XX foi talvez um dos mais atribulados da história da Estónia. Por um lado, foi o tempo que viu nascer o primeiro Estado estónio independente, reconhecido pelo Governo da República Portuguesa de facto em 1918 e, "de jure", a 6 de Fevereiro de 1921. Por outro lado, essa independência foi sol de pouca dura devido, entre outros factores, à traição das democracias da Europa Ocidental, que assistiram imóveis à divisão da Europa do Leste entre Hitler e Estaline em 1939. 
Entre as duas guerras mundiais, Portugal manteve relações diplomáticas com a Estónia, mas sem ter qualquer representante seu neste país. Em Lisboa, os interesses estónios eram defendidos por um consulado-geral honorário em Lisboa, na pessoa de M. K. Andersen, bem como por dois vice-cônsules residentes em Ponta Delgada (Açores) e no Porto. 
A Estónia foi, entre 1918 e 1939, um refúgio para todos aqueles que procuravam escapar da ditadura comunista. Entre aqueles a quem os estónios deram guarida está o jornalista e escritor Piotr Piilski (1875-1941), descendente, por linha materna, de António Vieira.
Depois da catástrofe que foi a Segunda Guerra Mundial, a Estónia foi anexada pela União Soviética, acto que o Estado Novo e os governos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 não reconheceram como legítimo. É verdade que, em 1987, uma delegação parlamentar portuguesa visitou a União Soviética e, quando se preparava para embarcar no avião em Moscovo rumo a Talin, as autoridades de Lisboa lembraram-se de que isso significaria o reconhecimento de facto da anexação soviética e suspenderam a viagem. 
Portugal esteve entre os primeiros países que reconheceram o restabelecimento da República da Estónia a 27 de Agosto de 1991, mas está entre os últimos países europeus a abrir uma representação diplomática em Talin. Por seu lado, os estónios foram bem mais céleres e inauguraram a sua embaixada em Lisboa em 1998. 
Gradualmente, as trocas comerciais e os fluxos humanos aumentam, embora não tão rapidamente como ambas as partes pretendem. Mas há sinais positivos. Neste ano, por exemplo, cerca de cinco mil cidadãos da Estónia visitaram Portugal, número significativo para um país que tem apenas um milhão de habitantes. 
Porém, no campo cultural, o intercâmbio poderia ser mais intenso. Os portugueses conhecem apenas o escritor estónio Jaan Kross, autor do romance "O Louco do Czar", enquanto os estónios, por seu turno, têm apenas acesso a algumas obras de Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Depois da adesão da Estónia à União Europeia cresce substancialmente o interesse pela língua lusa, a que o Instituto Camões correspondeu com o envio de dois leitores de português para as universidades de Talin e Tartu. 
No campo político, Portugal e Estónia são dois países pequenos no seio da União Europeia, o que os leva a uma cooperação mais estreita, a fim de defender os seus interesses face aos Estados mais poderosos. As autoridades estónias revelam grande interesse pela experiência de Portugal na adesão à União Europeia e ao euro, tentando, assim, evitar os erros cometidos pelos portugueses. 
Para os portugueses poderia ser interessante a experiência estónia no campo da sua reestruturação económica. Quando da desintegração da União Soviética, em 1991, algumas vozes em Moscovo profetizaram a falência económica e social da Estónia independente, mas o facto é que este país foi, entre as antigas repúblicas soviéticas, o que teve mais êxito na transição do "socialismo para o capitalismo", revelando uma taxa de crescimento económico anual invejável: 9,8 por cento. Os estónios apostaram em domínios promissores, como o turismo e as altas tecnologias. A Estónia não deixa, contudo, de enfrentar problemas complicados, como sejam o futuro da sua agricultura no seio da União Europeia ou as dificuldades da integração na sociedade estónia da numerosa comunidade russófona.

terça-feira, março 26, 2019

Delírio sobre a família



(Relato de um pesadelo)

Numa sociedade pequena e fechada como a portuguesa, onde reinam as capelinhas, corporações, etc., é difícil que familiares não se cruzem em empregos ou cargos no Governo ou noutras instituições. A endogamia é uma característica das sociedades pequenas, que visam proteger os seus membros.
Os que defendem que a família é a célula básica da sociedade deveriam estar calados quanto à presença de muitos familiares num governo ou num partido político, pois a família deve estar à frente de tudo. Ou será que não é assim? 
Isto é um sinal de que o Partido Socialista se converteu aos valores mais conservadores.
O mesmo gostaria de poder pensar a direita em relação ao “fenómeno familiar” no Bloco de Esquerda e penso que é para ter esperança nisso, pois esse partido de extrema-esquerda é mais “português” do que “marxista”, doutrina cujos fundadores afirmam que a família não passa de uma invenção da sociedade de classes. 
Karl Marx escrevia: "Sobre quais fundamentos se assenta a família actual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o proveito privado. Em sua forma completamente desenvolvida, a família tradicional é uma instituição burguesa e existe somente na burguesia”, e acrescenta que seria relativamente fácil abolir a família depois da abolição da propriedade da burguesia. 
"A família burguesa será naturalmente eliminada com o eliminar deste seu complemento, e ambos desaparecerão com o desaparecimento do capital", escreveu um dos mestres da extrema-esquerda.
Por isso, pensarão talvez os dirigentes do BE, enquanto não se consegue derrubar a burguesia e abolir a família, o melhor é proteger esta última.  
Não ficarei espantado se nos outros partidos tradicionais (de esquerda e de direita) a “protecção da família” for semelhante. Um dos sinais de que assim pode ser é o conflito laborar entre o Partido Comunista Português e um dos membros da dinastia comunista dos Casanova.
E se é proibido e feio discriminar pelo sexo, religião, opção política, etc., porque é que a família tem de ser motivo para se discriminar os familiares? Afinal são parentes, não são estranhos nenhuns... 
E também existe outro forte argumento. Se há empresas familiares privadas, porque é que não pode haver públicas? Se estas últimas forem bem geridas, isso apenas contribuirá para o bem comum. Imaginem que o governo fosse uma grande família e nós vivêssemos felizes e contentes. Alguém viria para as ruas protestar ou fazer greve? Por enquanto ainda há protestos e indignação porque a família ainda é pequena, mas, por este andar, a felicidade está ao cruzar da esquina...
Por isso, fixei perplexo, para não dizer indignado, quando o dirigente do PSD veio tentar difamar uma das mais bonitas festas em família: a consoada. Afirma ele: “omal é achar normal que o Governo, e depois tudo o que anda à volta do Governo, ande à volta, também, de laços familiares. Um primo aqui, um irmão e a mulher acolá. Mesmo o Conselho de Ministros parece uma ceia de Natal”. Não compreendo como é que ousou criticar a ceia de Natal, ofendendo não só as famílias portuguesas, mas também o bacalhau com batatas, as rabanadas à poveira, etc.
E se continuarem os investigadores a cavar e a chegar ao nível das autarquias, receio que não haja salas, nem mesas tão grandes para acolher as ceias de Natal de que Rui Rio fala, ou melhor, as reuniões de câmara, etc. 
Por isso, pode-se concluir que este ataque contra o governo socialista não passa de mais uma vil campanha contra a família tradicional. E o que leva o Bloco de Esquerda a não lutar contra esta instituição obsoleta no seu interior? A resposta foi acima dada por Marx e, nesse partido ainda se conservam pais e filhos, irmãos e irmãs, primos e primas.
E quem não põe a família em primeiro lugar que atire a primeira pedra!
Afinal, nem tudo está perdido, direi eu aos defensores de um dos fundamentos tradicionais da sociedade portuguesa: a FAMÍLIA. Nem sequer o Bloco de Esquerda com todo o seu vanguardismo bolorento. 
E isto diz muito respeito também aos monárquicos, pois sem pais e filhos, ou seja, sem família e boas relações familiares, não há herdeiros da coroa. Por isso, devem elogiar o actual governo

P.S. Esta reflexão foi fruto de um pesadelo, não a levem muito a sério. Qual semelhança com o real é apenas fruto da má disposição do autor. 

domingo, março 24, 2019

terça-feira, março 19, 2019

Não haverá nada de mais sagrado do que os investimentos estrangeiros?





Não há dúvida que os investimentos estrangeiros na economia de um país são essenciais, tanto mais num mundo globalizado como o nosso, mas eles não justificam a destruição de santuários naturais como, por exemplo, o Lago Baical, na Sibéria.
Há muito que alguns ecologistas e activistas russos chamam a atenção para a actuação  de algumas empresas chinesas na Sibéria e no Extremo-Oriente russo, principalmente no que respeita à exploração florestal. Após o derrube desenfreado de árvores, desaparecem milhares de hectares de floresta, pois trata-se da realização de uma autêntica política de “terra queimada”, ou, como diz um provérbio russo, “depois de nós até pode vir o Dilúvio”.
É com razão que protestamos contra o corte incontrolado de árvores na Amazónia, mas não nos devemos esquecer que na Terra existem outros locais vitais para o futuro sustentável do planeta. A Sibéria é um desses lugares não só devido às suas densas florestas, mas também por aí se encontrar o Lago Baical, uma das grandes maravilhas naturais e a maior reserva de água potável no mundo. 
Para quem não teve oportunidade de o visitar e de beber água directamente desse lago tal a sua pureza (eu tive esse privilégio), recordo que ele tem 636 quilómetros de comprimento, 80 de largura e 1680 metros de profundidade. Com cerca de 23% da água doce do planeta, o seu volume é superior ao dos Grandes Lagos da América do Norte juntos. Nele desaguam cerca de 300 rios.
Alguns futurólogos e analistas políticos consideram que grandes conflitos armados irão ter lugar no planeta devido à água potável. Por isso, é urgente tomar medidas para salvar o Baical.
Até agora, as autoridades russas não se davam ao trabalho de ouvir os protestos dos ecologistas e da opinião pública em geral, mas a situação ecológica em torno do Baical é de tal forma grave que não pode passar despercebida. 
Desta vez, a campanha de protestos começou com a construção por uma empresa chinesa de uma fábrica de engarrafamento de água desse lago. A fábrica está a ser erigida na margem do Baical e o projecto prevê a extracção diária de 528 mil litros de água das profundezas através de um tubo com três quilómetros de comprimento.
Um abaixo-assinado com quase um milhão de assinaturas, recolhido em toda a Rússia, levou o primeiro-ministro Dmitri Medvedev a exigir que se inspecionasse se a obra está “conforme os mais altos padrões ecológicos modernos” e um tribunal de Irkutsk, região onde se encontra o lago suspendeu a construção, alegando irregularidades durante as avaliações ecológicas e concessão de licenças.
Semelhante estado de coisas só é possível devido à corrupção. Não há outra explicação também para o facto de os habitantes locais serem desalojados das suas casas construídas há muito nas margens do lago, enquanto que empresas chinesas constroem ilegalmente nesses lugares hotéis para alojar turistas vindos da China, o que provoca também a deterioração da qualidade das águas.
Por isso, os habitantes locais e muitos russos em geral receiam a realização de projectos cada vez mais megalómanos nas margens do Baical. Em 2017, o diário inglês The Guardian noticiava que as autoridades chinesas planeavam a construção de uma conduta com mil quilómetros de comprimento para transportar água do Baical para o Norte da China através do território da Mongólia.
Além disso, ainda são muitos os que se recordam dos projectos das autoridades comunistas da URSS de desviarem parte da água dos rios siberianos para sul, o que traria consequências catastróficas para o equilíbrio ecológico e o clima da Sibéria. Felizmente, a política de abertura de Mikhail Gorbatchov permitiu a criação de um forte movimento social que conseguiu travar esses projectos faraónicos.
Ainda antes do início da construção da fábrica de engarrafamento de água, os ecologistas alertaram para  o processo de degradação a que vem sendo submetido o Lago Baical. Toneladas de lixo, provenientes de áreas turísticas e de barcos que navegam aí, têm sido atiradas para as águas ameaçando transformá-lo num pântano.  
Recordo uma canção popular russa do século XIX que começa com as palavras “Mar glorioso, Baical sagrado” e pergunto: será que os investimentos estrangeiros justificam a profanação deste santuário natural?
É preciso salvar o Baical!

quinta-feira, março 14, 2019

Os portugueses são bons em qualquer parte do mundo



"Esta lápide memorial foi colocada em honra de Anton Manuilovitch Devier (1682-1745). 
Entre 1718 e 1727 foi o primeiro chefe da polícia da cidade de São Petersburgo, general em chefe.
Entre 1739 e 1742 foi o dirigente da Região de Okhotsk-Kamtchatka". 
Foi com orgulho que descobri que nessa longínqua região do Extremo Oriente russo foi prestada homenagem a este português de origem judaica: António Manuel de Vieira. Muito fez ele pelo desenvolvimento da Marinha Russa no "outro lado do mundo".
Foi também com muito orgulho que escrevi e publiquei o livro "O Favorito Português de Pedro, o Grande" sobre a vida e obra de António de Vieira, bem como dos seus descendentes no Império Russo/URSS/Rússia. 

Apresentação do meu livro sobre António de Vieira feita pelo Dr. Jaime Gama

P.S. Se está interessado em ter mais informações sobre o livro ou pretender adquiri-lo pode fazê-lo através da página Via Milhazes no Facebook