sábado, março 09, 2019

Opinião do Professor Jose Viriato Soromenho Marques no DN sobre o livro "Os Blumthal"



O mais recente livro de José Milhazes (Os Blumthal, Oficina do Livro) conta-nos uma dolorosa viagem pessoal ao trágico passado da família de sua mulher, Siiri, nascida na Estónia, quando este atual Estado membro da União Europeia era ainda uma parcela do império soviético. Através de uma árdua reconstituição documental do percurso biográfico de existências concretas, marcadas pela tragédia, este livro consegue focar criticamente uma época inteira. O período temporal considerado na obra concentra-se especialmente no período iniciado em 1918, com a independência da Estónia, conquistada depois da fragmentação do império czarista russo na sequência da revolução de novembro de 1917 e da paz unilateral assinada pelo governo bolchevique com o império alemão em Brest-Litovsk, em março de 1918. Embora vários sejam os esboços biográficos de antepassados de sua mulher, desenhados por José Milhazes, o núcleo da narrativa situa-se em torno da figura de Leida Holm (1901-1983), avó paterna de Siiri, e também do seu marido, prematuramente desaparecido (Erich Sóerd, 1901-1942). Leida, conhecida pela neta através da terna alcunha de Mamma, constitui-se como uma involuntária e amarga heroína, representando as vítimas anónimas desse tempo de chumbo. O verdadeiro nome da família de Leida, Blumthal e não Holm, revela uma perigosa origem judaica. Durante os primeiros 22 anos de independência da Estónia (1918-1940), Leida e vários membros da sua família militam, com risco e sacrifício, no partido comunista estónio. Com o pacto germano-soviético de agosto de 1939, Hitler invade a Polónia, dando em troca a Estaline a anexação dos três estados bálticos. Desde 1940 até 1992, a Estónia permanecerá subjugada. Primeiro pelos soviéticos, depois pelos alemães (1941-1945). Com a vitória sobre Hitler, Estaline consolida o seu domínio sobre o Báltico. A Estónia só recuperará a sua independência em 1992, no mesmo ano em que se extingue oficialmente a URSS.
A vida de Leida foi uma corrida permanente pela sobrevivência e contra a violência de uma época onde os indivíduos são sacrificados no altar de crenças falsamente libertadoras. Leida enfrentou o calvário do nazismo, mas também do estalinismo, com os seus processos kafkianos que lançavam para a prisão e a morte os militantes mais generosos, sem acusação formal nem julgamento. Na Estónia soviética pós-Estaline, o pânico não desapareceu. Leida habita uma terra-de-ninguém. Encurralada entre o seu passado de martírio nos campos de concentração e o desprezo latente dos seus compatriotas ansiando pela independência, que não lhe perdoavam a pertença a um partido estónio colaboracionista com as novas forças de ocupação do velho império russo, agora sob estandarte rubro. Este livro resgata duma mortal amnésia toda uma geração que viu as suas esperanças destruídas pelas tempestades de uma história brutal. Gente que sobreviveu fisicamente às piores barbaridades, mas que sofreu até ao fim o absurdo do terror no silêncio das suas almas mutiladas.
Professor universitário
In: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-mar-2019/interior/um-combate-pela-memoria-10649463.html

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