quinta-feira, maio 17, 2007

Igrejas Ortodoxas russas assinaram a Acta da União Canónica



A Igreja Ortodoxa Russa do Patriarcado de Moscovo e a Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro assinaram hoje a Acta de União Canónica, pondo assim fim a um dos mais importantes cismas no seio dos cristãos ortodoxos russos.

A acta foi assinada por Alexei II, Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa (IOR), e pelo metropolita Lavr, arcebispo de Nova Iorque e chefe da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro (IORE), no Templo de Cristo Salvador de Moscovo. Vladimir Putin, Presidente da Rússia, esteve presente na cerimónia.

O Templo de Cristo Salvador, destruído a dinamite pelas autoridades comunistas em 1933 e reconstruído nos anos 90 do século passado, é o símbolo do renascimento da religião ortodoxa na Rússia.

“Depois de décadas de divisão, podemos afirmar que nesse conflito religioso-político não houve vencedores, mas todos perderam: a Igreja, os crentes que foram obrigados a viver durante muitos anos numa atmosfera de vácuo e de desconfiança mútua, perdeu a sociedade russa em geral” – declarou Putin durante a cerimónia, acrescentando: “a reunificação da Igreja tem significado nacional, envergadura histórica e grande importância moral”

Após a leitura da Acta, Alexei II e Lavr deram três beijos (como é tradição entre os cristãos ortodoxos russos) e proclamaram: “Cristo está entre nós! Está e estará sempre!”.

Deste modo, os ortodoxos russos consideram ter posto fim a uma separação de mais de 80 anos.

O cisma entre as duas Igrejas ortodoxas ocorreu depois da revolução comunista de Outubro de 1917 da Rússia, quando as autoridades soviéticas declararam o ateísmo como ideologia oficial e desencadearam uma perseguição implacável contra as religiões existentes no país.

Esta reunificação dos ortodoxos russos será, talvez, o maior êxito do pontificado do Patriarca de Moscovo, Alexei II. Tendo herdado da era comunista uma igreja enfraquecida, o chefe da IOR conseguiu fazer esta Igreja a mais importante força religiosa da Rússia. Além disso, a IOR pretende mesmo ao lugar de “religião oficial” do país.

Parte significativa do clero ortodoxo abandonou a Rússia e criou, em 1924, a Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro (IORE), que excomungou o regime comunista. Os padres e metropolitas que ficaram no interior do país ou optaram por jurar fidelidade ao novo regime, considerando o novo poder “emanente de Deus” ou passaram à clandestinidade, criando a chamada Igreja Ortodoxa das Catacumbas.

As duas Igrejas estiveram de “costas viradas” até à chegada de Vladimir Putin ao Kremlin, no ano 2000. Porém, o actual Presidente russo deu um forte contributo para a sua aproximação, pois entrará na história como aquele que uniu os numerosos russos dispersos pelo mundo em torno da nova Rússia.

“Desse modo serão simbolicamente superadas as consequências da Guerra Civil de 1918-1921, que dividiu o povo russo (e a Igreja Ortodoxa com ele) em “vermelhos” e “brancos”, nos que ficaram na URSS e nos que emigraram”- considera Pavel Krug, analista religioso do diário Nezavissimaia Gazeta, acrescentando: “Tudo isso se inscreve no “post-modernismo ideológico” da Rússia da época de Vladimir Putin, onde as estrelas vermelhas vizinham pacificamente com as águias bicéfalas imperiais no Kremlin”.

“Sem dúvida que a união se realizaria de uma forma ou outra. Mas quando Vladimir Putin se envolveu neste processo, a sua atitude bondosa tornou-se uma espécie de garantia. Ela contribuiu para eliminar a tensão, garantiu uma série de condições externas para um diálogo fértil, sem se imiscuir nele” – declarou Mark, arcebispo de Berlim e da Alemanha da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro.

Porém, esta união não está a ser bem recebida por todos os sectores da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro, tanto mais que não foram eliminadas todas as divergências com Moscovo. Por exemplo, a IORE exige que o Patriarcado de Moscovo abandone o Conselho Mundial das Igrejas, movimento ecuménico internacional, considerando o ecumenismo uma “heresia”.

Além disso, alguns sectores da IORE exigem que a Igreja Ortodoxa Russa faça um “acto de contrição público” pela “colaboração com o regime comunista ateu”.

Porém, a maioria dos analistas religiosos consideram que a assinatura da Acta da União Canónica constituirá mais um passo para o reforço da Igreja Ortodoxa na sociedade russa.

8 comentários:

A. Stáritsin. disse...

Em primeiro queria dar os parabéns ao autor do blogue, meu conhecido de há muito, desde os tempos da Universidade de Moscovo, pelo magnífico trabalho.
Permitam-me um comentário sobre este post.
Em primeiro lugar, sobre as datas:
Os comunistas e os seus órgãos repressivos, ou seja a Tcheka (e, respectivamente, o NKVD, o KGB, o FSB) foram anatematizados ainda no tempo do Patriarca Tikhon, na sua mensagem pastoral de 19 de Dezembro de 1918, que os apelidou de “verdugos do género humano”.
A primeira sessão da Alta Administração da Igreja Russa fora das fronteiras da Rússia teve lugar a 6 de Novembro de 1920 em Constantinopla. A 9 de Junho de 1921 foi realizada a sessão da Alta Administração na cidade de Sremski Karlovtsy, no então Reino Sérvio-Croata-Esloveno. A 13 de Setembro de 1922, o Concílio de Bispos no estrangeiro, de acordo com o decreto do Patriarca Tikhon, extinguiu a Alta Administração da Igreja Russa fora das fronteiras e criou o Sínodo de Bispos da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro (IORE).
O Patriarcado de Moscovo é um fruto do regime soviético e muitos dos seus bispos pertenceram (e, sem qualquer dúvida, pertencem) ao KGB/FSB. O Patriarcado de Moscovo precisa da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro para confirmar a sua legitimidade, que não possui e que depende não do reconhecimento ou não-reconhecimento por parte de outras igrejas mas sim dos cânones da Igreja e da correcta continuidade apostólica.
O Patriarcado de Moscovo nasceu ideologicamente depois da declaração do metropolita Sergui Stragorotski de 1927 mas “legalmente” só começou a existir depois da autorização-ordem de Estaline de 4 de Setembro de 1943, tendo sido organizada pelo NKVD no prazo de duas semanas de “concílio”, no qual o metropolita Sergui foi elevado a “patriarca”. O Patriarcado de Moscovo foi criado por Estaline neste “concílio” formado por um grupelho de três renegados da Igreja leais ao regime soviético: o metropolita Sergui Stragorotski, o metropolita Alexei Simanski e o metropolita Nikolai Iaruchevitch. Este grupo cresceu, como se costuma dizer, como cogumelos depois da chuva, atingindo uma dimensão mundial. O Patriarcado de Moscovo é um filho ilegítimo, nascido da relação ilegítima entre o metropolita Sergui e o ditador ateu Estaline, que este utilizou para fins de propaganda.
Passo a citar uma carta de Konstantin Preobrajenski, antigo agente do KGB refugiado actualmente nos EUA, ao padre Viktor Potapov, um dos padres que, por ingenuidade ou conscientemente, escolheram a traição à IORE, oferecendo a sua igreja ao Patriarcado de Moscovo, ou melhor, à filial do KGB/FSB.
«Uma excessiva aproximação à Rússia soviética nunca trouxe felicidade aos ortodoxos que vivem nos EUA.
De facto, é difícil imaginar uma prenda pior para os adeptos da união da IORE com a ’igreja vermelha’. Acontece que nós unimo-nos ao KGB não só como serviço secreto, ao que já estamos habituados, mas como um bando de assassinos, facto que os representantes oficiais americanos encaram com grande suspeita.
O momento não é o melhor. Recentemente, os serviços secretos de Putin levaram a cabo uma série de assassínios políticos e atentados, nomeadamente em Londres e Washington. Muitos dos paroquianos ficaram na dúvida: será que vale a pena unirmo-nos a um país tão perigoso?
Para dizer a verdade, entre os seus conhecidos há uma pessoa a quem o título de ‘agente do KGB’ assenta como uma luva. Trata-se do patriarca Alexei Ridiguer. Porque é que não se afasta dele com repulsão? Peço-lhe que se afaste! Ele não é digno da sua amizade. Ele trair-vos-á na primeira oportunidade…. Melhor será irmos os dois ao Congresso americano e apresentar um relatório sobre como a KGB se infiltra nos EUA a coberto do Patriarcado de Moscovo. Acredito que os dois teremos muito que contar!
Afinal com que se “reunifica” a Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro – com o Patriarcado de Moscovo ou com Putin? Com Putin, precisamente com ele, a figura principal do império do KGB por ele criado. Então reconheçamos que esta operação não é da Igreja mas sim do Estado, é uma operação estratégica. Reconheçamos que o Patriarcado de Moscovo desempenha aqui o papel de ‘cortina de fumo’, papel que sempre exerceu para o poder soviético.
Aliás, a própria parte russa o reconhece, às vezes inadvertidamente. Por exemplo, a ‘União de Cidadãos Ortodoxos”, depois de uma das minhas publicações, acusou-me de minar os interesses estratégicos da Rússia, interesses que não são de maneira nenhuma da Igreja. Pela lógica deles, o senhor, pelo contrário, reforça os seus interesses na América. Sendo o senhor um cidadão americano, como se coaduna tal com o seu patriotismo?» Fim de citação.
Podemos afirmar que os bispos, sacerdotes e leigos traidores da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro que passaram a sujeitar-se ao Patriarcado de Moscovo, sem o arrependimento deste último, já não são membros da IORE. A antiga Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro continuará a existir e a testemunhar a verdade até ao total arrependimento dos dirigentes do Patriarcado de Moscovo pelas arbitrariedades passadas e presentes. É esta a sua profética missão. Uma coisa é certa: a actual assinatura da Acta de União Canónica irá afastar ainda mais no tempo o arrependimento do Patriarcado de Moscovo, se não for até ao dia do Juízo Final. É pena.
Podemos, no entanto, felicitar os serviços secretos pela vitória sobre a “Igreja branca”, embora não seja uma vitória definitiva porque não conseguirão comprar todos nem enganar todos.
A. Stáritsin.

Jose Milhazes disse...

É com especial prazer que recebo esta mensagem de A. Staritsin, conhecido de longa data e, hoje, sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro.
Esta missiva é importante porque coloca questões que não ficaram esclarecidas na história do Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa e que fazem com que muitos dos seguidores da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro não aceitem a Acta hoje assinada em Moscovo.
Isto pode ser uma discussão muito abstracta para os portugueses, mas recordo que no nosso país vivem muitos crentes ortodoxos.
Aproveito para enviar um forte abraço ao padre Staritsin e à sua família.

A. Stáritsin. disse...

Obrigado Zé Milhazes.
De facto, à primeira vista, o tema e os detalhes do comentário poderão parecer para os portugueses pouco familiares e algo estranhos. Mas não é bem assim.
Repara, o que significa a abertura de paróquias do Patriarcado de Moscovo fora da Rússia e, em particular, em Portugal?
Tal significa o seguinte: uma paróquia do Patriarcado de Moscovo equivale a um novo ponto de influência, onde o bispo, o padre e os leigos irão, conscientemente ou por ingenuidade, ser enredados numa actividade que não tem nada a ver com os objectivos de uma paróquia cristã. Valerá a pena explicar que actividade é essa?
Depois da integração de algumas paróquias da IORE no Patriarcado de Moscovo, organização ligada aos serviços secretos, a quantidade de potenciais centros de “informação” e de informadores aumenta significativamente. Na Rússia e em diversos países onde há diásporas russas, há muito que os meios de informação independentes falam sobre isto. Desta forma, aqueles que são a favor da reunificação com esta organização para-eclesiástica, no fundo soviética, (embora tenha grande amplitude), ou são ingénuos ou são destruidores conscientes da Igreja. Muito gostaria que eles se arrependessem e regressassem, do cismático Patriarcado de Moscovo, à Igreja que sempre existiu.
A Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro nunca praticou este tipo de actividade, ocupando-se apenas da acção estritamente pastoral. Ela nunca esteve ligada a nenhumas entidades do Estado de quaisquer países. Agora, depois da união com o Patriarcado de Moscovo, parte da IORE torna-se juridicamente parte deste, ou seja, nem sequer parte mas transforma-se no próprio Patriarcado, com as suas paróquias fora da Federação Russa (e numa das estruturas estatais da Rússia). A nossa comunidade permanece na Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro mas, no que se refere a nós e aos bispos da antiga IORE, não aceitaremos a subordinação ao Patriarcado de Moscovo.
Padre Alexei S.

A. Stáritsin. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jose Milhazes disse...

Caro, compreendo perfeitamente os vossos receios. A história deve trazer ensinamentos a todos para que as coisas não se repitam.

Ralf Wokan disse...

Prezado José
Prezado Padre Alexei,

muito obrigado pelas informações.
Para sejam conhecidas também no mundo da lingua alemã fiz uma tradução.
http://briefeankonrad.tripod.com/Lebenssinn
(18.5.)

Peço um grande favor.
Tenho dificuldades em criar links por causa da orthografia.
Exemplo: Tikhun = Tichon(Wiki)
Mas IORE é ROKA(Wiki) na Alemanha ?
Os outros nomes não têm referencias no Google.
grande abraço
Ralf

Jose Milhazes disse...

Caro Ralf, trata-se de uma boa ideia traduzir para alemão até porque na Alemanha vivem milhares de ortodoxos e esta discussão também está a ter lugar aí. Tanto mais que um dos mais conhecidos dirigentes da Igreja Ortodoxa Russa no Estrangeiro é o arcebispo de Berlim e da Alemanha, Mark.
Cumprimentos

Dilermando Freitas de Lima disse...

Reverendo Padre Staritsin, muito me orgulho do seu esclarecimento. Diante dos fatos, em que o mundo aprendeu aquilo que não reza em certos livros de história e que portanto desconhece, fica aqui um pedido. O Reverendo Padre de posse de tão importante conhecimento poderia publicar um livro tratando a história da Igreja Russa desde São Tikon mostrando os dois caminhos, a verdade dos fatos e a ironia do destino que permitiu um falso ecumenismo e a aceitação de um patriarcado legitimado pelo Estado Russo, porém renegado pelos cânones. Como estrangeiro, tenho enorme interesse em conhecer esta história.