quinta-feira, abril 21, 2016

Ciclo de aulas na UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA pelo Doutor José Milhazes

Ciclo de aulas na UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA pelo Doutor José Milhazes.
Calendário: Início a 11 de Maio de 2016 e fim a 14 de Junho de 2016.
Horário: às 3ªas e 5as feiras das 18h30 às 20h30
A região do Mar Báltico sempre foi uma das regiões estratégicas do Velho Continente, onde, em diferentes épocas, se defrontaram vários impérios. Sem o conhecimento pormenorizado da história desta região, será muito difícil compreender, por exemplo, o estado actual das relações entre a União Europeia e a Rússia, entre esta e a NATO.
O Mar Báltico foi também uma via que ligou Portugal ao Norte da Europa durante séculos. Daqui era exportado vinho, azeite e sal, em troca recebíamos mel, cera e peles. Mas nessa região ilustres portugueses deixaram marcas: a Universidade de Vilnius foi fundada por um português e outro nosso conterrâneo construiu o Porto de Tallinn.
São estes e outros temas que irei abordar num ciclo de 10 aulas abertas (20 horas) na Universidade Autónoma de Lisboa. Calendário: Início a 11 de Maio de 2016 e fim a 14 de Junho de 2016.
Horário: às 3ªas e 5as feiras das 18h30 às 20h30
Pagamento Único: 65 euros
Curso grátis para actuais alunos da UAL e desconto de 10% de desconto para antigos alunos.
No final do ciclo de aulas, os participantes receberão um certificado de participação.
N.B. A inscrição é obrigatória, sendo para isso necessário apenas o Cartão de Cidadão e pode ser feita aqui: http://autonoma.pt/academy/…  

segunda-feira, abril 18, 2016

Andará Vladimir Putin assim tal mal informado?


Durante a sua longa conversa com o povo russo, o Presidente Vladimir esteve igual a si mesmo, mas, desta vez, foi apanhado a mentir ao comentar sobre o caso dos Papéis do Panamá. Como não se tratou de uma mentira para consumo interno, foi obrigado a mandar o seu porta-voz pedir desculpas.
Quando abordou essa questão, o Presidente russo não só defendeu os seus amigos, como até fez uma “revelação bombástica”. Segundo ele, por detrás da publicação dos Papéis do Panamá estaria o banco norte-americano Goldman Sachs, que alegadamente é o proprietário do jornal alemão Sueddeutsche Zeitung.
“Em toda a parte se vê as orelhas dos encomendadores”, frisou Putin no seu estilo “popular”.
Além disso, Vladimir Putin sublinhou que a publicação dos Papéis do Panamá visa desestabilizar a situação política interna na Rússia na véspera das eleições parlamentares, marcadas para Setembro, acrescentando que é de esperar novas “publicações”.
Saídas da boca do dirigente de um país que tem fama de ter uns activos e eficazes serviços secretos, essas declarações pareciam ter como base provas irrefutáveis, mas, neste caso, a montanha nem sequer pariu um rato, mas apenas mais uma mentira.
Na sexta-feira, Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, veio declarar que a informação sobre o proprietário do jornal alemão tinha sido levada ao conhecimento do Presidente “simplesmente não confirmada”.
Porém, Peskov, como mandam as normas do Kremlin, chamou a si a grave imprecisão do seu chefe: “Aqui talvez o erro tenha sido meu, dos que prepararam as informações para o Presidente”.
Os organizadores do talk-show pré-ensaiado consideraram normal que uma criança de 12 anos, Varia Kuznetsova, perguntasse: “Se, neste momento, Petro Poroshenko e Erdogan se estivessem a afogar, quem tentava ajudar primeiro?”
Putin hesitou em responder e mostrou-se sobretudo admirado ao perceber a idade da autora da questão, mas, mesmo assim, respondeu: “Se uma pessoa decide afogar-se, é impossível salvá-la. Mas nós estamos sempre prontos a dar uma mão e oferecer ajuda aos nossos parceiros sempre que eles a desejem.”
A maior parte da sua longa conversa de quase quatro horas foi dedicada aos problemas internos. Resumindo, as coisas vão avançando, os telespectadores, na sua maioria, agradeceram ao Presidente pelo seu trabalho, mostraram-se dispostos a enfrentar dificuldades. Uma criança dispôs-se mesmo a comer papas sem doce de fruta para “economizar”. Alguns trabalhadores conseguiram fazer chegar a Putin a mensagem de que tinham salários em atraso, problema que começou a ser resolvido ainda antes do fim do programa.
Este espectáculo anual visa mostrar a proximidade entre o Presidente e o povo russo, tal como o amor entre o Partido Comunista da União Soviética e os soviéticos no passado, mas algumas acções de Putin fazem lembrar uma frase atribuída a Lev Trotski: “Acredita, mas volta a verificar”. O Parlamento russo não para de aprovar leis para combater a oposição extraparlamentar e porque será que Putin teve a ideia de criar a Guarda Nacional, constituída por cerca de 400 mil polícias?
Certamente que essa guarda pretoriana não foi formada para defender o Kremlin das “tentativas de desestabilização” lançadas a partir de fora. Putin não respondeu se iria ou não recandidatar-se e 2018 ao cargo de Presidente da Rússia, mas essa é uma das medidas que apontam para que ele tenciona ocupar o cargo durante muitos anos.


Não será o Brasil de hoje um grande espelho do Portugal de amanhã?


Caros amigos, deixai arrefecer as emoções e olhai para o Brasil com a cabeça fria. Esse país é a imagem de Portugal dentro de alguns anos se o regime político continuar a apodrecer a alta velocidade no nosso país. No Brasil, tal como já em Portugal, é inútil falar de esquerda e direita, em corrupção de direita e honestidade de esquerda. Isso são histórias da Carochinha.
Espero que os meus irmãos e amigos brasileiros saibam limpar o seu país da corrupção, da politiquice, da palhaçada em que foi transformada a democracia, mas sem recorrer à violência. As armas não resolvem problemas, apenas os complicam. Não me esqueço que, em Outubro de 1993, quando o Presidente russo Boris Ieltsin resolveu a tiro de canhão o seu diferendo com o Parlamento, sob os aplausos das democracias ocidentais, ele contribuiu para esmagar à nascença os rebentos da democracia no país. E todos conhecemos o resultado: hoje a Rússia é dirigida por um bando de políticos que não são menos corruptos do que os brasileiros, mas sentem-se mais seguros porque esmagaram a oposição.
Não há Sebastião que valha a russos, brasileiros e portugueses, etc. Por isso saibamos tirar as devidas lições da crise brasileira, não deixemos que em Portugal as coisas cheguem ao ponto em que chegaram no Brasil. Preocupemo-nos menos com cartões de cidadonas e propostas afins e olhemos, por exemplo, para o estado da justiça no nosso país. Não há dia que passe sem notícias de detenções e de abertura de mega-processos, mas quais as consequências?
E deixo aqui uma mensagem para os corruptos: "a ganância é a perdição do ladrão" (provérbio russo).

segunda-feira, abril 04, 2016

A sombra de Putin na corrupção russa




Corrupto, eu?

Mais vale ser amigo de Putin do que ter cem rublos, dólares e euros na carteira. Será possível que o líder russo desconhece quem são os seus amigos e o país que dirige? A minha opinião no Observador.

http://observador.pt/opiniao/sombra-putin-na-corrupcao-russa/

terça-feira, março 29, 2016

Como se cria um partido"liberal" na Rússia



Com o aproximar das eleições parlamentares, marcadas para Setembro, o Kremlin criou um partido que visa tirar terreno à oposição liberal extraparlamentar e, desse modo, não perder o actual controlo total da Duma Estatal (Câmara Baixa) do Parlamento.
Nesta Duma, Vladimir Putin já controlava os Partidos Rússia Unida, Rússia Justa, Liberal Democrático e Comunista, mas as eleições estão à porta e é preciso fazer com que a oposição extraparlamentar não supere a barreira dos 5% e fique à porta da nova Câmara Baixa.
Para isso, o Kremlin pegou numa força política outrora criada pela oposição liberal: Causa Justa (Pravoe Delo), mudou-lhe o nome para Partido do Crescimento e já está.
O dirigente do velho e novo partido é Boris Titov, homem que até agora tem “representado” os interesses do mundo dos negócios junto de Vladimir Putin.
Para dar mais credibilidade ao projecto, recrutou-se uns artistas e intelectuais conhecidos.
E tudo isto é feito às claras. O próprio Boris Titov reconheceu publicamente que este projecto é acompanhado por Viatcheslav Volodin, vice-chefe da Administração do Presidente da Rússia.
Mas porque será que, num país onde as sondagens mostram que a popularidade de Putin ronda os 80%, é preciso o Kremlin preocupar-se com uma oposição que ele apresenta como insignificante?
Porque Vladimir Putin está perfeitamente convencido de que a “quinta coluna” e os “nacional-traidores” (nomes por ele dado à oposição extraparlamentar), apoiados por “forças externas”, o querem expulsar do poder através de mais uma “revolução colorida”.
Embora sem grandes razões para isso, mas o dirigente russo deverá estar a acompanhar com muita preocupação a crise política no Brasil, tanto mais que os seus serviços secretos já o devem ter informado que alguns dos adversários de Dilma e Lula gritam nas ruas que querem imitar a Ucrânia. O sputniknews, órgão de propaganda criado pelo Kremlin para denunciar as maldades do mundo ocidental e onde é proibido escrever-se sobre os problemas na Rússia, informava no passado dia 17: “Espectros da Maidan. Manifestantes pedem golpe à la Ucrânia no Brasil”.
Cenário muito pouco provável na Rússia, mas um antigo coronel do KGB como Putin tem de prever, tal como um xadrezista experiente, as jogadas seguintes do adversário e, por isso, tenta tapar todos os buracos.

Parece-me que está a exagerar bastante, porque, além de todas as medidas antecipadamente tomadas para evitar surpresas, a oposição extraparlamentar russa continua extremamente dividida e mergulhada em disputas mesquinhas. A Comissão Eleitoral da Rússia deverá autorizar a participar no escrutínio vários partidos da oposição extraparlamentar e nenhum conseguirá superar a barreira dos 5%, que permite a eleição de deputados. Alguns opositores poderão ter alguma possibilidade de eleição nos círculos uninominais, onde serão eleitos 225 dos 450 parlamentares, mas nada que faça assustar o Kremlin.

quarta-feira, março 23, 2016

Moscovo e a política de padrões duplos



Sou daqueles que defendem que o problema do terrorismo jihadista não pode ser resolvido sem a participação da Rússia neste combate. Porém, não se pode fazer acordos com políticos que, criticando a política de padrões duplos do Ocidente, actuam a seu bel prazer, reivindicando para si um papel exclusivo e que não pode ser alvo de qualquer crítica.
O último exemplo. Quantas vezes o Presidente Vladimir Putin repetiu que o seu país não tinha nem tencionava ter tropas terrestres no território da Síria? E a sua corte que mais não faz do que repetir as palavras do dono e senhor como “mantras”? Talvez dezenas de vezes.
Mas, afinal, estavam a mentir, pois o general Alexandre Dvornikov, chefe do destacamento militar russo na Síria, reconheceu hoje que há destacamentos especiais russos que actuam em território sírio.
“Não vou esconder que no território da Síria actuam também destacamentos das nossas forças de operações especiais. Eles realizam reconhecimento de alvos para os ataques da aviação russa, orientam os aviões para os alvos nas regiões, realizam outras operações especiais”, precisou ele, acrescentando que existem também “conselheiros militares”.
Claro que, do ponto de vista militar, isso até se justifica, mas para quê enganar a opinião pública quando já todo o mundo sabia que para a Síria tinham sido enviados não só pilotos militares?
Porque Putin e os seus conselheiros funcionam segundo o princípio de que uma mentira mil vezes repetida acaba por ser aceite por verdade. Só que se esqueceram que isso, na maior parte dos casos, tem o mesmo efeito da propaganda soviética. A determinada altura, quando os dirigentes comunistas afirmavam uma coisa, as pessoas compreendiam-na de forma completamente contrária. Por exemplo, se os mídias oficiais diziam que o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética estava de “boa saúde”, isso significava que estava a ser preparado mais um funeral.
Esta tradição passou para a época de Boris Ieltsin. Quando todo o mundo já sabia que o Presidente russo estava gravemente doente, o seu porta-voz veio afirmar que ele tinha “um apertar de mão forte”. Passado uns dias, teve de ser operado com urgência ao coração.
Aquando da invasão da Crimeia, Putin usou e abusou deste tipo de propaganda. Quando já era evidente que parte do território ucraniano estava inundado de “homenzinhos verdes” e “homenzinhos bem-educados”, o dirigente russo jurava que não tinha enviado para lá tropas especiais. Claro que depois se veio gabar deste seu “grande feito estratégico”.
O seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, emita o chefe, mas de forma menos diplomática. Ainda hoje afirmou que a Rússia não tem tropas na Ucrânia! Isto até pode ser verdade se retirarmos as que lá estão sob a capa de “voluntários” (como se ainda estivéssemos na época da Guerra Civil em Espanha) ou de “militares que tiraram férias para ir em ajuda dos russófonos”. A levar isto a sério, concluímos que os terroristas do DAESH podem ser também “militantes jihadistas que decidem ir passar férias à Síria ou ao Iraque par ajudar os seus irmãos”.
Neste sentido, também é difícil acreditar na justiça do tribunal russo que condenou a piloto ucraniana Nadejda Savtchenko a 22 anos de prisão alegadamente por ter participado no assassinato de dois jornalistas russos e de ter ilegalmente atravessado a fronteira russo-ucraniana. Ela, por sua vez, alega que não participou nessa operação e que foi raptada em território ucraniano.
Numerosas ONG’s e governos estrangeiros apelaram a Putin para libertar a piloto, mas este responde que não se ingere na justiça russa. Assim como não se “ingere” quando livra da prisão corruptos como o antigo ministro da Defesa da Rússia e os recoloca em novos cargos importantes. À beira disto, a entrada de Lula para o governo de Dilma Roussef no Brasil é uma brincadeira de crianças.
Depois disto, acreditem que a política externa russa se distingue da ocidental pelo facto de “não ter padrões duplos”.
Quando do atentado em Bruxelas, Moscovo parece que estava mesmo à espera que isso acontecesse para gritar em uníssono: “isso aconteceu porque os europeus não se querem juntar à Rússia na luta contra o terrorismo”. Que foi precisamente o que ocorreu. Recordo que Moscovo só reconheceu que a queda do avião comercial russo na Península do Sinai foi um acto terrorista depois da “matança de Paris”.
Considerando que a Rússia é fundamental no combate ao terrorismo internacional, não nos devemos esquecer que o Kremlin é habitado por políticos que seguem “numerosos padrões” e diversos objectivos, estando entre eles o enfraquecimento e divisão da União Europeia, o reconhecimento por esta de “coutadas russas” no antigo espaço soviético e no Médio Oriente. Depois, se tiverem algum êxito, os apetites irão aumentar.
Mas é preciso também ter em conta nas relações com Putin que este tem mais olhos do que barriga.

Infelizmente, a União Europeia continua à deriva, o que nada promete de bom. 

terça-feira, março 22, 2016

Terroristas escarraram-nos na cara


E isto ainda não é guerra?


Se se vier a confirmar a versão de que as explosões em Bruxelas são atentados terroristas, o que é altamente provável, devemos pôr de lado o politicamente correcto e analisar friamente este caso para que se tirem conclusões sérias e se tomem medidas reais para combater esta praga.
Num comentário à SIC Notícias, Nuno Rogeiro afirmou que  “este ataque na capital belga é como um balde de agua fria para a Europa, poucos dias depois da detenção bem sucedida de Salam Abdeslam em Bruxelas”.
Estando de acordo com esta análise, apenas gostaria de dizer que não se tratou de um “balde de água fria”, mas de um escarro na cara da Europa e dos seus valores. Bruxelas não foi apenas o lugar onde foi capturado um dos autores dos atentados de Paris, mas é também a capital da União Europeia, que se encontra com um nível alto de prevenção contra possíveis ataques terroristas.
Por isso, a principal mensagem dos terroristas é clara: “actuaremos onde e quando quisermos”, o que significa que os cidadãos da Europa deixaram de estar seguros dentro da sua própria casa, estejam na sala, casa de banho ou quarto de dormir.
Depois de tão grande ousadia e descaramento da parte dos terroristas, os dirigentes europeus irão voltar a prometer-nos que “tudo faremos para defender a nossa casa, os nossos princípios, etc., etc.”, milhares de cidadãos sairão para as ruas em sinal de condenação do terrorismo, mas, depois, tudo volta a acalmar-se até ao próximo atentado terrorista. E assim se vai andando…
Não duvido que os dirigentes dos países europeus até tomem medidas adicionais de combate ao terrorismo, mas o problema é que elas não têm resultados visíveis. Claro que nos podem dizer, mas nós, com as medidas que tomámos, fizemos gorar um maior número de atentados terroristas do que antes.
Fraca consolação para os cidadãos da Europa. Estamos a viver uma guerra de novo tipo, sem frentes de combate, com o inimigo invisível ou escondido, mas temos de ter consciência que se trata realmente de uma guerra e, para a ganhar, temos também de procurar novos meios de combate. Aqui, claramente, os bombardeamentos aéreos não são o melhor meio, é necessário repensar a táctica e estratégia.
É importante assinalar que os atentados terroristas acontecem com mais frequência nos países e cidades europeias onde vivem numerosas comunidades muçulmanas e isso deve ser levado em conta na organização do combate ao terrorismo.
Foi um erro crasso concentrar essas comunidades em ghettos nos arredores das grandes cidades, pouco se fez para integrá-los. Agora, resta fazer um longo e dispendioso trabalho junto delas a fim de arrancar o joio nelas existentes para que o trigo possa crescer e sentir-se em casa, e não em território hostil. Aqui tem grande importância o papel de figuras públicas saídas desses meios na difusão da mensagem de que o confronto com outras comunidades e o terrorismo apenas deterioram a já difícil vida dos muçulmanos mais desfavorecidos.
Neste campo, é também necessário deixar de citar frases que Voltaire não pronunciou e impedir que os radicais utilizem as mesquitas, a Internet e outros meios de propaganda para propagarem as suas ideias. A liberdade de expressão tem limites e a segurança dos cidadãos, além do respeito pela liberdade dos outros, é um desses limites.  
No plano global, as grandes potências têm sérias responsabilidades nessa matéria, pois são responsáveis pela destruição de estruturas estatais que, mesmo que arcaicas, serviam de contenção ao terrorismo e pela criação de vácuos que foram rapidamente ocupados por forças radicais. Recordo apenas a invasão do Afeganistão pela União Soviética em 1979 ou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003.
Além disso, as grandes potências nunca se preocuparam com o apoio e desenvolvimento de regimes muçulmanos moderados. Para a URSS, o principal era que os seus dirigentes dissessem que queriam construir o socialismo e, para os Estados Unidos e Europa, que os hidrocarbonetos chegassem a tempo e horas. Ou seja, a guerra fria deixou fortes marcas. Se esta política continuar (e esta política está a ser seguida por todas as forças externas envolvidas no conflito), a situação com o terrorismo, principalmente na Europa, irá agravar-se.
Esse problema está estreitamente ligado à onda de refugiados na Europa. Além das medidas políticas e humanitárias urgentes, é necessário também contribuir para a solução dos conflitos que provocam essas ondas de deslocados. Sem o mínimo de estabilidade no Médio Oriente, e o facto é que as coisas andam em sentido contrário, será impossível sarar essa ferida. Ora, neste campo, a União Europeia tem dado provas de quase total incapacidade.
Por isso, é de primordial importância tomar sérias medidas conjuntas para combater o inimigo comum. Uma das mais eficazes é cortar os canais de financiamento do terrorismo. A criação deste tipo de redes não fica barato e só é possível quando alimentada por sério apoio financeiro. Ora se o Ocidente controla a parte mais significativa desses capitais, devem utilizar-se os mecanismos legais existentes para fazer secar essa fonte.
E aqui volta a surgir a importância do combate à corrupção a nível global. Muitos desses fluxos financeiros só acontecem porque existem banqueiros, homens de negócios, políticos, etc. corruptos, que são capazes de pôr em perigo a segurança dos seus países a troco de uns milhões. Eles não se podem sentir impunes, nem pensar que só acontece aos outros ou que são os senhores disto tudo.
O combate à corrupção deve abarcar todos os níveis: falsificação de documentos, permissão de movimentações de criminosos a coberto de Vistos Gold, autorizações de residência, etc., concedidos de forma pouco clara e às vezes apenas por sede de dinheiro.
E ainda a níveis mais abaixo. Por exemplo, seria de extrema importância saber como os terroristas entram com bombas e armas nos aeroportos, no metropolitano, etc. Isto numa cidade que está em estado de sítio há várias semanas.
Claro que se torna cada vez mais urgente reforçar os serviços de segurança e informação nacionais e internacionais. É um crime economizar meios financeiros na segurança dos cidadãos, devendo os serviços de segurança possuir pessoal e equipamentos à altura de combater um dos maiores flagelos do século XXI. Não se pode combater o actual terrorismo se nos serviços de segurança não existirem, por exemplo, agentes que dominem línguas como o árabe, persa, etc., e que conheçam bem a situação no terreno. O tempo do amadorismo e da teoria passou irremediavelmente.  

Penso que a este rol de propostas se podem acrescentar muitas outras, mas o principal é que os cidadãos europeus tenham consciência de que enfrentam o maior período de insegurança depois da Segunda Guerra Mundial e de que as desgraças não só acontecem ao vizinho. Não, são os nossos princípios, o nosso modo de vida, a nossa liberdade que estão a ser atacados. E isto é válido tanto para a direita, como para a esquerda. 

sábado, março 19, 2016

Corrupção não tem cor política



A corrupção, tal como a radioactividade, não tem cor nem cheiro, mas corrói e destrói sociedades e Estados quando ultrapassa determinados níveis.  E aqui é indiferente se corrompem e se se deixam corromper em regimes de direita ou de esquerda.
A grave crise política que atravessa o Brasil volta a trazer para a ordem do dia o problema do aumento da corrupção, fenómeno transversal aos regimes de qualquer matiz política.
Os apoiantes de Lula da Silva até podem reconhecer que o ex-Presidente brasileiro se deixou corromper, mas contrapõem que, durante os seus mandatos, ele “tirou três milhões de pessoas da pobreza”, argumento pouco convincente, pois nada impedia que ele combatesse realmente a corrupção e, dessa forma, acabasse com mais uns milhões de pobres.
Alguns sectores da esquerda acusam “forças externas” de estarem por detrás dos protestos contra Lula da Silva e Dilma Roussef a fim de mudarem o regime político no país, através de uma “revolução colorida”, e enfraquecerem os BRICS, organização que reúne países como o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas não querem ver aquilo que os seus ideólogos defenderam: não se pode fazer “revoluções” se não existirem condições para isso.
Ora, neste caso, dirigentes de países como, por exemplo, o Brasil e a Rússia, dão bons motivos para protestos e convulsões sociais quando pilham os seus países. Em época de fartura, quando há muito para roubar e até para distribuir umas “migalhas” através da política social, os ânimos andam calmos, mas, no momento em que a crise bate à porta, em casa onde não há pão, todos ralham e todos dizem ter razão.
Mas há diferenças substanciais entre o Brasil e a Rússia. No primeiro país existe um sistema democrático que, não obstante todas as insuficiências, funciona. Por exemplo, os brasileiros podem orgulhar-se de terem um sistema judicial independente do poder político, coisa que não acontece no regime liderado por Vladimir Putin. No sistema parlamentar do Brasil não existe a “unanimidade dos cemitérios” reinante nas duas câmaras do Parlamento da Rússia.
Não é de somenos importância o facto de no Brasil existir órgãos de comunicação social não controlados pelo poder político, principalmente a televisão. Além disso, a sociedade civil no Brasil está melhor organizada e é bem mais activa do que na Rússia.
Estas diferenças permitem alimentar uma pequena esperança de que os brasileiros consigam sair desta crise com a ajuda dos mecanismos constitucionais existentes e os seus políticos tirem as devidas conclusões.

Mas esta crise no Brasil também deveria fazer pensar os políticos e a sociedade portuguesa. A corrupção está presente nos mais perfeitos regimes sociais e só nas imaginações mais utópicas ela pode não existir. Porém, sendo uma “doença crónica”, pode ser controlada ao mais baixo nível. Caso contrário, transforma-se num cancro incontrolável com as consequências mais funestas.
O Partido Comunista Português considera que o que está a acontecer no Brasil não passa de "uma operação de desestabilização" e de "cariz golpista". O mesmo diz em relação à Venezuela, Angola ou China. Isto não é miopia política, mas um sinal de que age da mesma forma, como se a corrupção de esquerda fosse uma bênção

P.S. Aconselho vivamente a leitura dos materiais que o Expresso está a publicar sobre os Arquivos de Mitrokhin e cruzem com outros livros. Descobrem-se coisas cada vez mais curiosas, embora muita gente continue a assobiar para o lado.