sábado, outubro 20, 2018

Só depois do senhor!


Numa conferência internacional realizada na Rússia: "Mundo em que iremos viver: estabilidade e desenvolvimento no séc. XXI", o Presidente Vladimir Putin prometeu que o seu país não será o primeiro a utilizar armas atómicas, mas, se for atacado com elas, o povo russo morrerá como mártir e irá para o paraíso, enquanto os agressores "simplesmente morrerão".
Falando em nome de todo um povo, ele afirmou: "Nós nada tememos. Um país com um território destes, pronto a dar a vida pela Pátria". Em caso de ataque nuclear, "o agressor deve saber que a vingança será inevitável, que será esmagado. Nós, como vítimas da agressão, seremos mártires e entraremos no paraíso, enquanto que eles simplesmente morrerão, porque não terão tempo de se arrepender". 
"Excelente" forma de ganhar a vida eterna! Se calhar, nem Deus teria pensado em semelhante coisa!
Se eu fosse cidadão russo e como só um pouco mais jovem do que Putin, diria: "não tenho pressa em ir para o paraíso, muito menos dessa forma, e, como respeito os mais adultos, dar-lhe-ia prioridade: "Senhor Presidente, passe para a frente!".
Nos discursos de Vladimir Putin são cada vez mais frequentes ideias religiosas, até escatológicas. Não sei se tal se deve à confusão reinante no seio das igrejas ortodoxas, ou ao facto de ele se sentir cada vez mais o senhor dos destinos do seu povo e da humanidade.  
Alguns dos comentadores até admitiram a possibilidade de Putin ter entrado em campos tão teológicos depois de alguns cálices de vodka. 
Deixo aqui alguns comentários de leitores sobre este "princípio" na política externa:
"Ainda recentemente, Putin, prometia à nação ultrapassar a Europa e agora garante a entrada no paraíso só depois de um ataque aéreo".  
"A partir de agora, as anedotas começarão assim: um russo entra no paraíso e encontra o Presidente Putin".
"Só falta prometer as 72 virgens".
Ainda há dúvidas no que respeita à rápida degradação da elite política a nível mundial?

quinta-feira, outubro 04, 2018

NAVEGADORES RUSSOS E IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS - 3

Por-do-sol em Belém, Ivan Aivazovski


… receber ordens de São Petersburgo e passe a cumprir ordens do conde Tolstoi, embaixador russo em Paris, que funcionaria como uma «correia de transmissão» sua.
A esquadra do almirante Seniavin chegou a Lisboa – escrevia Napoleão a Alexandre a 7 de Dezembro de 1807 – Felizmente, as minhas tropas já se devem encontrar lá. Seria bom se Vossa Alteza incumbisse o conde Tolstoi de ter poder sobre essa esquadra e sobre as suas tropas, para que, em caso de necessidade, possam ser utilizadas sem esperar ordens directas de Petersburgo. Penso também que este poder directo do embaixador de Vossa Alteza teria boa influência no sentido em que poria fim à desconfiança que por vezes revelam os comandantes face aos sentimentos de França12.
A pressão sobre o almirante Seniavin aumenta através da instrução da Corte Russa, enviada no início de 1808 para Andrei Dubatchevski, representante diplomático russo em Lisboa, e dirigida a todos os militares russos: «Em relação ao governo que irá existir em Portugal, é necessário que os vossos actos correspondam em tudo à disposição amiga actualmente existente entre a Rússia e a França»13. E, por fim, a 1 de Março do mesmo ano, Alexandre I envia uma ordem aos três comandantes de armadas russas que se encontravam no estrangeiro, entre as quais estava a comandada por Seniavin: «Reconhecendo como útil para o êxito da causa comum e para que seja feito o maior prejuízo ao inimigo colocar as nossas forças navais que se encontram fora da Rússia à disposição de Sua Alteza, o Imperador dos Franceses, ordeno-vos que, em conformidade com isso… o cumprimento indiscutivelmente mais preciso de todas as ordens que vos forem dadas por Sua Alteza, o Imperador Napoleão»14. As relações entre Seniavin e Junot tornavam-se cada vez mais tensas, pois os franceses necessitavam de mostrar à Europa a solidez da aliança russo-francesa. Tanto mais num momento em que a guerra popular contra Napoleão em Espanha tomava formas cada vez mais abertas e a Áustria se armava. A entrada em acção da armada russa ancorada em Lisboa contra os ingleses seria um sinal para todos aqueles que consideravam a aliança russo-francesa uma utopia. Mas o comandante russo não estava disposto a sacrificar a vida dos seus homens e os seus navios em nome da defesa dos interesses franceses em Portugal e, por isso, recorre a um subterfúgio para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o cumprimento das ordens de Napoleão: alega falta de armamentos e homens. Tendo recebido um relatório enviado por Dmitri Seniavin, datado de 21 de Abril de 1808, Napoleão dá-lhe algumas ordens: estar pronto para sair para o mar a qualquer momento e, para isso, «manter a tripulação em estado de alerta». E vendo que o navio «São Rafael» não se encontrava devidamente equipado, o Imperador francês ordenou ao almirante russo que contactasse Junot para que este recrutasse marinheiros suecos e outros que se encontravam em Lisboa. Além disso, se faltassem munições, pólvora ou quaisquer outros materiais, deveria conseguir tudo isso em Lisboa15. Mas o oficial russo consegue, sob os mais variados pretextos, manter a neutralidade, explicando a sua posição numa missiva enviada ao czar Alexandre I: «Uns dias antes de me encontrar com o duque [Junot], recebi informação segura de que a Espanha se fez inimiga clara da França e as armas espanholas tinham vencido em várias ocasiões, ao mesmo tempo que as províncias setentrionais de Portugal começaram a fugir do poder dos franceses… e a mais insistente exigência do duque para o reforçar com soldados convenceu-me da situação fraca das tropas francesas em Portugal. Eu, encontrando-me em situação tão difícil, considerei: se tomar o lado dos franceses e assim me ver claramente envolvido em medidas hostis contra os portugueses, ingleses e espanhóis, ficarei sem qualquer meio para salvar a esquadra de Vossa Alteza Imperial do poder desses povos unidos…». Junot passa dos pedidos pessoais a exigências formais com vista a obrigar Seniavin a cumprir as ordens vindas de Paris e São Petersburgo. A 3 de Julho de 1808, o general francês escreve ao oficial russo: «Senhor almirante, nas difíceis circunstâncias em que me encontro e que advêm nomeadamente da necessidade de defender a esquadra de Sua Alteza, o Imperador Russo, eu penso que o nosso dever comum, bem como o interesse dos nossos senhores, consiste em chegar a um acordo sobre os meios possíveis de ajuda mútua». O objectivo era conseguir fazer com que Seniavin desembarcasse com as suas tropas na margem esquerda do Tejo para defendê-la dos ingleses: «o efeito colossal dessa medida seria incalculável»16. Dmitri Seniavin responde imediatamente, começando por sublinhar que ele compreende muito bem o seu dever, que consiste em cumprir à risca as ordens de Napoleão, mas arranja nova argumentação para evitar isso. Desta vez, o almirante russo alega que, caso ele desembarcasse na margem esquerda do Tejo, teria de combater não só contra os ingleses, mas também contra os insurrectos portugueses, coisa de que não tinha sido incumbido. Além disso, considerava que era mais útil para os monarcas francês e russo não atacar a esquadra inglesa, mas continuar no mesmo lugar17. Junot ficava cada vez mais furioso e, a 26 de Julho, foi visitar Seniavin ao navio «Tverdii» («Firme») para tentar uma vez mais convencê-lo, mas em vão. Dois dias depois, escreve uma nova carta: «Senhor almirante, visto que a situação em que me encontro se torna dia a dia cada vez mais complicada, considero ser meu dever e uma questão de minha honra conhecer positivamente as vossas intenções e saber se posso esperar receber de Vossa Excelência alguma ajuda. Este é o meu dever, visto que o Imperador, o meu Senhor, considera que a significativa esquadra que o Imperador russo colocou à sua disposição deve, obrigator iamente, em circunstâncias tão críticas, ajudar com todos os meios o seu exército terrestre, tal como o exército terrestre deve ajudar a esquadra». Na mesma missiva, Junot passa para o campo das ameaças: «É necessário que o meu Senhor e o vosso saibam que a esquadra russa não desejou prestar-me a mínima ajuda. É preciso que os militares, que irão analisar a minha situação, saibam que eu não estive apenas cercado por todos os lados de inimigos, mas que a esquadra aliada da França, que se encontra em guerra contra Inglaterra, se declarou neutra no momento mais decisivo perante a esquadra inimiga e no momento do desembarque substancial de tropas inglesas, e que o seu comportamento foi para mim mais prejudicial do que se ela estivesse contra mim». A ira do general Junot é tão grande que começa a referir-se a Seniavin, na mesma carta, na terceira pessoa: «Se o senhor almirante Seniavin se encontra realmente em estado de guerra com os ingleses, como pode ele pensar um só momento que a sua armada não cairá nas mãos deles caso tomem Lisboa? Se o senhor almirante Seniavin tem algum acordo com o almirante inglês, se ele recebeu de alguma forte garantias para a sua armada, será que a honra lhe permitirá abandonar o aliado sem aviso?»18. O almirante russo respondeu à missiva no mesmo dia, reafirmando a sua obediência a Napoleão e negando qualquer acordo com os ingleses. Porém, continua a considerar que é inútil fazer desembarcar os seus homens não só porque são menos de mil, mas também porque os russos não compreendem português!19. Após a derrota das tropas francesas em Vimieiro, a 9 de Agosto de 1808, Junot vê-se obrigado a abandonar Portugal e o almirante Seniavin, que já tinha estabelecido contactos com o comando da armada inglesa que bloqueava Lisboa em meados de Julho, tentou fazer tudo para que a sua armada não fosse apreendida pelas autoridades de Londres, pois a Rússia e a Inglaterra continuavam formalmente em estado de guerra. Argumentando a sua posição numa carta dirigida ao almirante inglês Cotton, Seniavin escreve: «O meu comportamento durante os dez meses de permanência em Lisboa, as minhas recusas constantes de participar mesmo que da forma mais mínima nas medidas hostis que me eram propostas [contra os ingleses]… Todos esses motivos convencem-me firmemente que Vossa Excelência terá em atenção as circunstâncias acima assinaladas e que a situação neutra legal seja observada em relação à minha esquadra, enquanto ele estiver no rio Tejo»20. A armada russa acabou por ser conduzida para o porto inglês de Portsmouth e, em 1809, os oficiais e marinheiros russos regressaram ao seu país, deixando os navios em Inglaterra, tal como exigiram as autoridades de Londres. E não obstante o Governo de Londres ter, em 1812, devolvido alguns dos navios e pago por aqueles que ficaram em Inglaterra, o czar russo acusou o almirante de ter «entregue» a esquadra ao «inimigo». (continua)

13 Архив внешней политики России (АВПР). Ф. Канцелярия МИДа, 1808, д. 6660, л. 2 (Arquivo da Política Externa da Rússia (APER), f. Chancelaria do MNE, 1808, d. 6660, folha 2). 
14 ACEFM, f. Departamento do Ministério da Marinha para a Esquadra de Seniavin, d. 579, f. 52-53.
15 Correspondance de Napoléon, t. XVIII. P., 1865, p. 83-84. 16 APER, f. Chancelaria do MNE, 1808, d. 5191, f. 30-31. 17 Ibidem, f. 25.
18 Ibidem, f. 28-29. 19 Ibidem, f. 30-31. 20 Ibidem, f. 45. B.


segunda-feira, outubro 01, 2018

“Soberania limitada” e “socialismo desenvolvido”


Álvaro Cunhal ouve atentamente a lição




Há 50 anos atrás, após a invasão da Checoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia, o Partido Comunista da União Soviética, então dirigido por Leonid Brejnev, revia a sua política interna e externa. Os países do “bloco socialista” e os partidos comunistas tinham que obedecer a Moscovo, em nome da luta pelo socialismo”, e a chegada do comunismo era substituída por mais uma etapa intermediária: “o socialismo desenvolvido”.

A nova doutrina externa da URSS tinha já sido apresentada por Leonid Brejnev, durante a sua intervenção no V Congresso do Partido Operário Unido da Polónia: “quando as forças internas e externas, inimigas do socialismo, tentam virar para trás o desenvolvimento de qualquer país socialista, no sentido da restauração da ordem capitalista, quando surge a ameaça à causa do socialismo nesse país, a ameaça à segurança da comunidade socialista em geral, isso já é não só um problema do povo desse país, mas um problema comum, uma preocupação de todos os países socialistas”. 

Esta ideia foi desenvolvida num artigo do Pravda, órgão máximo do Partido Comunista da União Soviética, publicado há precisamente meio século: “Não há dúvida de que os povos dos países socialistas e os partidos comunistas têm e devem ter possibilidade de definir a via de desenvolvimento dos seus países. Porém, nenhuma decisão deles deve prejudicar nem o socialismo no seu próprio país, nem os interesses básicos de outros países socialistas, nem o movimento operário internacional que luta pelo socialismo”.

Ou seja, a direcção comunista impunha limitações ideológicas e políticas a todos os partidos comunistas, o que contribuiu para o afastamento entre o PCUS, e partidos comunistas como o de França, Itália e Espanha. O Partido Comunista Português manteve-se fiel à linha soviética.

Esta política externa foi abandonada por Mikhail Gorbatchov, que deu total independência aos países do bloco comunista para seguirem o seu caminho. E estes escapuliram-se rapidamente.

 Chegou a época da política do “My way”, palavras retiradas de uma célebre canção de Frank Sinatra.

Mas ela regressou com Boris Ieltsin e Vladimir Putin em relação ao antigo espaço soviético. A sangrenta guerra na Chechénia, o apoio a movimentos separatistas na Transdnístria (Moldávia), na Ossétia do Sul e na Abkházia (Geórgia) levaram, em 2008, à intervenção militar russa na Geórgia; depois veio a invasão da Crimeia e do Leste da Ucrânia em 2013-2014.

Foi também há 50 anos que os comunistas soviéticos tiveram de “descobrir” uma nova etapa do desenvolvimento da Humanidade: o “socialismo desenvolvido”. Poucos anos antes, Nikita Krutschov, dirigente comunista destronado por Brejnev em 1964, prometera o comunismo para os anos de 1980, mas, quando os ideólogos soviéticos viram que se tratava de mais uma das metas impossíveis, criaram o “socialismo desenvolvido”, uma espécie de antecâmara onde os soviéticos deveriam esperar a entrada no comunismo.

Como é sabido, os soviéticos cansaram-se de esperar, perderam a paciência e, à primeira oportunidade, acabaram com a ditadura comunista.




sábado, setembro 29, 2018

Antologia do Pensamento Russo



Esta obra foi considerada, pelo jornal Expresso, um dos dez melhores livros publicados em Portugal em 2017. Aqui pode ler alguns trechos e ver se essa avaliação foi justa.

https://books.google.pt/books?id=M-I5DwAAQBAJ&lpg=PP1&dq=jos%C3%A9%20milhazes&hl=pt-PT&pg=PP1#v=onepage&q=jos%C3%A9%20milhazes&f=true.







quinta-feira, setembro 27, 2018

A Saga dos Portugueses na Rússia


Normalmente, quando as pessoas vão à livraria adquirir livros, folheiam-nos antes de adquirir. Pode fazer aqui isso com o livro "A Saga dos Portugueses na Rússia", considerada a obra mais completa sobre as relações entre Portugal e a Rússia ao longo dos séculos.

https://books.google.pt/books?id=SkKylltfmv8C&printsec=frontcover&dq=jos%C3%A9+milhazes&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwi7hfn68tvdAhWmxoUKHZvCAcMQ6AEILjAB#v=onepage&q=jos%C3%A9%20milhazes&f=false

Salazar e Putin, irmãos gêmeos?


Ao fazer uma busca na Internet, deparei-me com um artigo num jornal regional russo Karaban+Ia sobre as impressões de um jornalista, Guennady Klimov, que visitou Portugal. O artigo foi publicado a 26 de Setembro de 2018.

Devo já dizer que o artigo está cheio de erros e imprecisões no que diz respeito à nossa História. Por exemplo, eu não sabia que os russos da região norte do país tinham ajudado o Infante Dom Henrique a preparar os descobrimentos!

Mas neste artigo interessou-me a comparação feita entre Salazar e Putin, que já não é nova, mas tem cada vez mais seguidores.

O autor escreve: “Há dez anos atrás, Vladimir Putin prometeu fazer, até 2017, uma vida na Rússia igual à que tem Portugal [Putin fez essa promessa em 2000 e o objectivo deveria ser alcançado em 15 anos – Nota de JN]. A julgar por tudo, Putin desenha a vida a partir do ditador português Salazar. Ele esteve no poder entre 1933 e 1974, mas, verdade seja dita, depois de Salazar ter caído da cadeira e sofrido um derramamento cerebral, a segurança e a criada criaram nele a ilusão de omnipotência, mas o poder real já estava nas mãos deles. Não obstante, Salazar, nos primeiros tempos, foi talvez um fenómeno positivo.

Pôs fim à sucessão de revoluções, criou um Estado corporativo com valores morais tradicionais e patriotismo.

No Portugal de Salazar, só os que sabiam ler e escrever, os homens ricos e mulheres com formação universitária tinham direito a voto. A propósito, os oficiais estavam proibidos de casar com mulheres sem formação universitária. Salazar considerava que os comunistas eram o pior mal, enquanto que via nos fascistas italianos e nazis alemães pagãos, e também lutava contra eles.

Durante a Segunda Guerra Mundial, soube conservar a neutralidade e concedeu refúgio aos judeus”!!!!!

O autor continua: “Hoje, Putin repete a política de Salazar de há 50 anos até nos pormenores. As mesmas correntes, o patriotismo e os valores tradicionais. Uma espécie de fascismo meigo e duro comunismo numa embalagem só.

Salazar tentou conservar traços de uma sociedade oligárquica arcaica, que no século XX ruíam sob os golpes das revoluções anti estratos sociais. A experiência de Salazar falhou: Portugal, pouco tempo depois, tornou-se o mais pobre país com população analfabeta na Europa. No final, o seu governo foi uma tristeza, o seu império marítimo desmoronava-se. Ele foi derrubado por jovens oficiais.

Putin tem mais uma tarefa impossível. Ele tenta criar uma nova aristocracia com base em marginais de São Petersburgo e na potência ortodoxa, não percebendo nada de Cristianismo. A Rússia de Putin é uma repetição de Portugal salazarista”.

A aconselhou Putin a seguir tal via? O autor responde: “Há 17 anos atrás, Igor Setchin, amigo de Putin e tradutor de português, convenceu o novo Presidente a criar um regime como em Portugal”.

Igor Setchin, que foi tradutor e agente da GRU (espionagem militar) em Angola e Moçambique, dirige hoje a empresa Rosneft, a maior petrolífera russa, e é uma das pessoas mais ricas da Rússia. Amigo da angolana Isabel dos Santos, é senhor de uma grande fortuna.

Se alguém estiver interessado em ler todo o artigo, aqui fica o link: http://www.karavan.tver.ru/gazeta/15748?utm_source=yxnews&utm_medium=desktop.




terça-feira, setembro 25, 2018

NAVEGADORES RUSSOS E IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS - 2

Dmitri Seniavin

… O navegador russo assinala um pormenor curioso: «O chefe da guarnição, quando da nossa passagem, era descendente do glorioso Vasco da Gama. Desde que foram aquarteladas aqui tropas que elas, por decisão do governo, são comandadas por um dos membros dessa gloriosa família. Em 1785, ano em que aqui esteve Laperuz, o comandante das tropas era António da Gama»3. Depois de visitarem e explorarem as costas da América do Sul, o Pacífico e os territórios russos no Extremo Oriente, os navios russos passaram por Macau, tendo Kruzenshtern registado importantes aspectos da organização política, comercial e social da colónia portuguesa. Ele ficou surpreendido com a difícil situação dos portugueses face às autoridades chinesas. O almirante russo escreveu: «A situação dos portugueses em Macau é extrema mente delicada, tanto mais difícil é a situação do governador por ter contactos frequentes com o Governo Chinês. Embora os governadores se comportem com extremo cuidado, acont ecem por vezes casos em que eles, sem a perda extrema de respeito para com a sua nação, pouco respeitada também agora pelos chineses, não ousam aceitar as suas exi gências»4. Segundo ele, «se em Macau mandassem os ingleses ou espanhóis, rapidamente poriam fim a essa vergonhosa dependência dos chineses. Essas nações, tendo nas suas mãos importantes países perto da China, poderiam, em Macau, oferecer resistência à força de todo o Estado Chinês»5. Notas importantes sobre as colónias portuguesas do Brasil e de Macau estão contidas no livro «Viagem de circum-navegação no navio Neva em 1803-1806», escrito pelo almirante Iúri Lissianski, que comandava o segundo barco da expedição de Kruzenshtern6. É também de assinalar «Cartas de marinheiros russos do Brasil para o Sr. N. N.», escritas pelo oficial Makar Ratmanov7. Entre 1807 e 1809, o veleiro «Diana», sob o comando do tenente Vassili Golovnin, realizou mais uma viagem à volta do mundo, tendo o oficial russo publicado o diário de bordo com informações interessantes sobre o Brasil8. Mas voltaremos mais abaixo a este oficial da marinha russa, durante a sua segunda viagem, quando passa pelos Açores.
As viagens de circum-navegação iriam continuar após as guerras napoleónicas e, antes de regressarmos a elas, iremos concentrar a atenção num episódio curioso ocorrido durante as invasões francesas da Península Ibérica. A 3 de Novembro de 1807, a esquadra do almirante russo Dmitri Seniavin, que regressava do Medi terâneo onde tinha infligido uma pesada derrota à Armada turca, entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte tempestade no mar, mas ficou aí retida durante quase um ano devido à tempestuosa situação internacional. A 7 de Julho desse ano, a Rússia e a França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade em Tilzit e a Corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. A 17 de Novembro, depois da fuga da família real portuguesa para o Brasil e da ocupação do país pelas tropas francesas, a armada inglesa fechou a barra do Tejo não só aos navios franceses, mas também aos dos aliados de Paris9. O almirante Seniavin viu-se numa situação muito complicada. Por um lado, não podia deixar de cumprir as ordens do czar Alexandre I, mas, por outro lado, as suas simpatias estavam do lado dos ingleses. O historiador soviético Evgueni Tarle escreveu a propósito: «Era necessário ou salvar a esquadra russa da morte inevitável, desobedecer à vontade dos dois imperadores aliados e ser sujeito ao tribunal militar, ou sujeitar-se incondicionalmente à ordem do czar e transformar-se numa arma obediente, cega dos interesses e considerações do imperador francês e do seu representante, general Junot»10. Mas o almirante Seniavin cumprir essa difícil tarefa. Ele compreendeu rapidamente que o general Junot, que havia ocupado Portugal, iria tentar de todas as formas cumprir a vontade de Napoleão, ou seja, provocar a guerra entre a Rússia e Inglaterra pelas mãos do comandante da esquadra russa. Mas o facto é que, não obstante o corte de relações com Londres, o czar Alexandre não pretendia, na realidade, entrar em conflito aberto com os ingleses. Dmitri Seniavin escreveu ao seu comandante supremo depois do primeiro encontro com Junot: «Consegui compreender de algumas palavras por ele ditas que o governo francês não quer perder a oportunidade que lhe dá a permanência da esquadra de Vossa Alteza aqui, para aumentar as dúvidas do governo inglês sobre as intenções de Vossa Majestade Imperial, e numerosos dos oficiais navais franceses que se encontram aqui dizem abertamente que serão nomeados para a esquadra que me foi confiada para o lugar dos oficiais de origem inglesa»11. Alexandre I tarda em enviar instruções, mas Seniavin continua a sua política de evitar o envolvimento dos seus barcos e homens no confronto anglo-francês, o que irrita fortemente o imperador gaulês. Napoleão tenta fazer com que o almirante deixe de… (continua)

2 Ibidem, p. 61. 
3 Ibidem, p. 62.
4 Ibidem, p. 451.
5 Ibidem, p. 460.
6 Юрий Фёдорович, Лисянский. «Путешествие вокруг света на корабле «Нева» в 1803-1806 годах». ОГИЗ, Государственное издательство географической литературы, М., 1947 г. (LISSIANSKI, Fiodor – Viagem de circum-navegação no navio «Neva» em 1803-1806. Ed. OGIZ, M. 1947).
7Ратманов, Макар Иванович. « Письма Рускихъ путешественниковъ изъ Бразиліи къ Госп. N. N.». In: «Вестник Европы». Ч. XVI, n.º 15, 1804. (RATMANOV, Mikhail – Cartas de marinheiros russos do Brasil para o Sr. N. N. In Vestnik Evropi. Parte XVI, n.º 15, 1804).
8 Головнин, Василий Михайлович. «Сочинения». Изд-во Главморпути, M-Л : 1949 г. (GOLOVNIN, V. M. – Obras. M-L. Editora Glavmorputi, 1949).
9Протопов, А. С., Козменко, В. М., Елманова, Н. С. «История международных отношения и Внешная Политика России» (1648-2000). M., 2001г., c. 64-74 (PROTOPOV, A. S.; KOZMENKO, V. M.; ELMANO-VA, N. S. – História das Relações Internacionais e da Política Externa da Rússia (1648-2000). M., 2001, p. 64-74.
 10Тарле Евгений Викторович, Соч.: Соч., т. 1-12, М., 1957-62 г. Т. X, c. 329 (TARLE, E. – Obras em 12 volumes. Vol. 10, p. 329). 
11Российский Государственный архив Военно-морского флота (РГАВМФ). Ф. Департамент Министерства Флота для эскадри Сенявина, д. 579, л. 15-19 (Arquivo Central Estatal da Frota Militar (ACEFM), f. Departamento do Ministério da Marinha para a Esquadra de Seniavin, d. 579, folhas 15-19).

segunda-feira, setembro 24, 2018

Qual o futuro das relações entre Rússia e Israel depois da chegada de novos mísseis à Síria?

A Rússia anunciou que fornecerá dentro de duas semanas um sistema de mísseis anti-aéreos S-300 à Síria, para permitir que as forças do Governo sírio possam defender-se contra ataques aéreos como o lançado na semana passada por Israel.
“As forças armadas sírias receberão dentro de duas semanas um sistema de mísseis anti-aéreos S-300 capaz de interceptar ataques aéreos a uma distância superior a 250 quilómetros e simultaneamente atacar vários alvos”, disse Sergei Shoigu, ministro da Defesa da Rússia, num comunicado divulgado pelo seu gabinete.
Uma resposta esperada (musculada) da Rússia ao abate do avião russo, cujas culpas são atribuídas a Israel, embora o tiro tenha sido disparado pelas tropas de defesa anti-aérea de Bashar Assad. Os militares israelitas afirma que quando o avião militar russo, com 15 homens a bordo, foi abatido, os aparelhos militares israelitas já se encontravam dentro do seu espaço aéreo e que não o utilizaram como escudo.
Moscovo reagiu da maneira a que já nos vem habituando, atirando gasolina para uma fogueira que já atingiu sérias proporções. O aparecimento de sistemas anti-aéreos S-300 nas mãos das tropas sírias aumenta fortemente o risco de novos incidentes num espaço aéreo pequeno para tantos intervenientes. Israel, por sua vez, não irá renunciar à sua política de impedir o aumento da influência na Siiri do Irão e do Hazbollah. 
Até ao derrube do avião russo, as relações entre a Rússia e Israel eram excelentes, mas a situação pode mudar bruscamente, o que será prejudicial para ambas as partes e agravará a situação em todo o Médio Oriente.
Moscovo envolve-se cada vez mais no conflito da Síria e está a conseguir alcançar os seus objectivos, numa altura em que os Estados Unidos e a União Europeia parece terem virado as costas ao conflito. Porém, o confronto está muito longe do fim e isso traz custos pesados ao orçamento russo. 




Putin pode ser batido em eleições transparentes?

Vladimir Jirinovski

Gostaria de acrescentar aqui alguns dados em relação ao meu comentário hoje publicado no Observador: https://observador.pt/opiniao/putin-pode-ser-batido-em-eleicoes-limpas-e-transparentes/.
Ontem, Domingo, o partido do Presidente russo "Rússia Unida" sofreu mais duas pesadas derrotas nas eleições para os governadores das regiões de Khabarovsk e de Vladimir.
Em Khabarovsk, ainda houve tentativa de falsificar resultados, mas a vitória do candidato da oposição ao Kremlin foi tão evidente que Putin teve de reconhecê-la. 
Em Khabarovsk, no Extremo Oriente, o candidato de Putin, Viatcheslav Short, recebeu 27,97% dos votos, enquanto que o candidato do Partido Liberal-Democrático conseguiu 69,57%.
Em Vladimir, a candidata apoiada pelo Kremlin, Svetlana Orlova, recebeu 37,46% dos votos e Vladimir Sipiaguin conquistou 57,03%.
É de assinalar que ambos os vencedores foram candidatos do Partido Liberal-Democrático, dirigido pelo nacional-palhaço e populista Vladimir Jirinovski. A maior vitória deste partido em eleições regionais.
Como foram possíveis essas vitórias? Os candidatos da oposição que chegaram à segunda volta reuniram todo o eleitorado que está cansado da política de Vladimir Putin e da sua corte. É verdade que é muito difícil chamar oposição ao Partido Liberal-democrático ou ao Partido Comunista, pois são completamente controlados pelo Kremlin, mas trata-se, não obstante dum forte sinal para o Presidente russo.
Razões possíveis da derrota do Kremlin:
- Descontentamento com a idade de reforma.
- Baixo nível de salários e de vida da população na província.
- Corrupção e nepotismo generalizados.
- Excessivos gastos militares. Primorie e Khabarovsk foram parte do palco das últimas grandes manobras militares russas.
Por isso, tenho cada vez menos dúvidas do seguinte: se na Rússia forem realizadas eleições presidenciais transparentes, Putin, no melhor dos casos, passa à segunda volta, e no pior é derrotado. Quanto às alternativas políticas, isso é outra história, muito complicada.
https://observador.pt/opiniao/putin-pode-ser-batido-em-eleicoes-limpas-e-transparentes/.