quarta-feira, setembro 21, 2016

Já não acredito em fórmulas mágicas



O Doutor Francisco Louçã, num dos seus textos num dos blogs do Público (http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/09/20/afinal-a-diaba-sempre-chegou-em-setembro/) não deixou passar despercebida uma das frases escritas por mim em relação a Mariana Mortágua no Facebook: “Não se trata de um diagnóstico, mas de um caso clínico… O Conde Ferreira no Porto voltou a receber pacientes”. Neste caso, ele tem toda a razão (digo isto sem qualquer tipo de ironia), pois excedi-me claramente nos termos utilizados, principalmente quando se trata de uma mulher. Porém, eu não pretendia propor o encerramento de dissidentes em hospitais psiquiátricos, como aconteceu na URSS e continua a acontecer na China, na Coreia do Norte e em Cuba, mas manifestar surpresa e espanto face a frases como "do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro".
Esta declaração de Mariana Mortágua, as palavras categóricas de Catarina Martins de que é preciso acabar com os Comandos depois de dois soldados terem morrido durante um treino, etc. convencem-me que o Bloco de Esquerda, tal como o Partido Comunista Português, gosta de fazer propostas simples e populistas, sem pensar nas consequências, o principal é ganhar visibilidade e votos.
Isto não é novo no mundo e obriga a analisar experiências anteriores.
O escritor russo Mikhail Bulgakov escreveu a genial obra “O Coração de Cão” na alvorada do poder comunista na União Soviética, em 1926, mas esteve proibida durante décadas. Para os que não a leram, digo apenas que o personagem principal é um cão (Charik), transformado em ser humano por um conhecido cirurgião durante a revolução comunista de 1917. À medida que o cão ia evoluindo, absorvia como uma esponja as palavras de ordem revolucionárias, mas não perdia os seus instintos animais, por exemplo, caçar gatos.
Quando já se tinha transformado em homem, ele teve a seguinte conversa com o cirurgião Filipp Filipovitch Preobrajenski:
“Filipp Filippovitch pousou o cotovelo na mesa, olhou para Charikov e perguntou:
- Permita-me saber o que pode dizer sobre o que leu”.
O novo ser humano, que dizia estar a ler a correspondência de Engels com Kautski, encolheu os ombros e disse:
“- Eu não estou de acordo.
- Com quem? Com Engels ou com Kautski?
- Com ambos – respondeu Charikov.
- Fantástico, juro por Deus… E o que propõe da sua parte?
- Mas que propor? Escrevem, escrevem… Congresso… Uns alemães quaisquer… A cabeça fica cheia. É pegar em tudo e dividir”.
Como se veio a revelar no livro, era um tal Chvonder, revolucionário de tendência trotskista, que fornecia literatura do género a Charikov e o tentava converter à revolução proletária.
O cirurgião, vendo o monstro que criou, volta a transformar o ser humano em cão. Na realidade, o monstro foi criado e chamou-se “homem soviético”.
O Doutor Francisco Louçã pode dizer que não foi Trotski, mas Estaline que criou o novo ser, mas, se o primeiro não tivesse perdido a contenda pelo puder com o segundo, os resultados não seriam melhores. Basta recordar a crueldade com que Lev Trotski reprimiu a revolta de Kronstadt, realizada por marinheiros anarquistas e comunistas de esquerda descontentes com a política do poder soviético.
Depois de estudar a História da URSS e de viver nesse país nos seus últimos 14 anos, concluo que não é séria a proposta de voltar a tentar “construir o socialismo”, tanto mais que uma das forças políticas nisso interessadas tenha no seu programa publicado o “centralismo democrático” e, nas suas bases ideológicas, a “ditadura do proletariado”.
Com isto não quero dizer que estou contente com o estado em que se encontra o nosso país, com o aumento da pobreza e do emprego, com a erosão da classe média, com o aumento da dívida externa portuguesa, com a corrupção e o nepotismo. Considero que o actual capitalismo é um sistema injusto, desequilibrado, necessita de reformas profundas, mas, mesmo assim, não penso que a alternativa seja confiscar e repartir.
Dr. Francisco Louçã, obrigado por me desejar delicadamente “as melhoras”, mas há receios de que talvez nunca me libertarei até ao fim da vida. Talvez até seja uma fobia sem fundamento, mas…



P.S. Sublinho que, ao utilizar o livro “O Coração de Cão” neste artigo, não viso insultar ninguém. A minha intenção foi uma: mostrar que há experiências que parecem ser fáceis e com resultados rápidos, mas tal não acontece na vida real.

    

segunda-feira, setembro 19, 2016

“Estrondosa vitória” de Putin e declínio dos comunistas






Praticamente não se registaram surpresas nas eleições parlamentares na Rússia, à excepção de uma nova perda de eleitorado por parte do Partido Comunista, que quase se viu desalojado do segundo lugar pelo partido populista de Vladimir Jirinovski.

O Partido “Rússia Unida” venceu com 54% dos votos, o que constitui o segundo melhor resultado desta força, criada pelo Presidente Vladimir Putin, nas eleições para a Duma Estatal, Câmara Baixa do Parlamento Russo. Juntando esse resultado nos círculos maioritários ao dos círculos uninominais, o partido do Kremlin terá uma maioria constitucional nesse órgão legislativo.

As sondagens davam uma vitória mais pequena ao “Rússia Unida”, mas ela teria sido ainda maior do que a obtida se o partido do Kremlin tivesse tido em toda a Rússia resultados como os alcançados no Cáucaso do Norte, onde tiranetes não olham a meios para satisfazer e ultrapassar os desejos do dono. Na Chechénia, por exemplo, o candidato oficial conquistou 92,99% dos votos nos círculos uninominais e o Rússia Unida 96% nos restantes! 

Guennadi Ziuganov, presidente do Partido Comunista da Federação Rússia (PCFR), apressou-se a acusar o Kremlin de “violações em massa” da votação quando as sondagens à boca das urnas lhe davam uma descida significativa de votos, o que veio a verificar-se após a contagem. Se, em 2011, o PCFR obteve 19,19% dos votos, desta vez, o resultado desceu para 13,45%.

Claro que não se pode deixar de concordar com Guennadi Ziuganov neste ponto, mas o facto é que estas declarações não passam de retórica demagógica. Como vem sendo tradição, esta força política ameaça recorrer aos tribunais para impugnar os resultados eleitorais, mas não deverá ter mais êxito do que nas vezes anterior, acabando por aceitar os lugares e as respectivas benezes que o Kremlin lhe oferece na Duma Estatal.

Além das falsificações, que afectam todos os partidos à excepção da Rússia Unida, os comunistas russos perdem votos pois dedicam mais tempo à reabilitação de Estaline e de outros carrascos do regime soviético, à instalação de bustos do ditador comunista em várias cidades russas, do que a defender os interesses dos trabalhadores ou conquistar jovens para as suas fileiras. É difícil compreender, por exemplo, que num país com um partido comunista tão numeroso não exista um movimento sindical minimamente crítico. É verdade que existe um, controlado pelo Kremlin, e que faz mais lembrar o sistema corporativo criado por Salazar em Portugal.

Quanto à oposição real, ela vai continuar a ser extraparlamentar e pouco eficaz. A campanha eleitoral não lhe deu grandes possibilidades de fazer chegar a sua mensagem aos eleitores, porque os órgãos de informação são praticamente todos controlados pelo Kremlin e não olharam a meios para denegrir essa oposição e os seus dirigentes.

Além disso, a própria oposição apresentou-se muito dividida e com alguns dirigentes comprometidos. Além da fama de corrupto, Mikhail Kassianov, antigo-primeiro ministro russo, por exemplo, foi apanhado literalmente sem calças na mão na companhia de uma conselheira sua. A NTV, um dos canais de televisão centrais do país, não se limitou a contar as “andanças amorosas” desse político, mas mostrou imagens só exibíveis em filmes para adultos, feitas provavelmente pelos serviços secretos de Vladimir Putin.  Enquanto despia e vestia as calças, Kassianov criticava outros conhecidos dirigentes da oposição. Talvez por essa e outras razões, o seu partido “PARNAS” teve menos de 1% dos votos. 

É importante assinalar que a abstenção é cada vez maior, tendo a afluência às urnas sido de 47,81% dos inscritos.

Os opositores de Vladimir Putin interpretam isso como forma de protesto. O escritos Victor Chenderovitch considerou que “o povo não quis perder tempo numa clara palhaçada.

Porém, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, considera que “a afluência não pode ser considerada baixa”, frisando que “é evidente que a esmagadora maioria dos votos apoiou de facto o Presidente. Ele recebeu uma vez mais um voto impressionante de confiança do povo”.

Isto parece significar que, dentro de dois anos, Vladimir Putin será pela quarta vez candidato ao cargo de Presidente da Rússia, a não ser que algo de extraordinário venha estragar os planos do Kremlin. Para uns, a isto chama-se “estabilidade”, mas outros consideram “estagnação” este longo “reinado”.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Afinal quem é que Putin quer ver na Casa Branca?




 Donald Trump parece ser aquele que mais agrada ao Presidente russo, mas a figura de Trump é tão odiosa, que o Kremlin tenta não se comprometer na disputa e prefere esperar para ver.
As declarações do candidato republicano não podiam ser melhores para Vladimir Putin. Donald Trump está disposto a aceitar a violação de fronteiras pela Rússia na Europa ao afirmar que: "O povo da Crimeia, pelo que eu ouvi, preferiu ficar com a Rússia do que onde eles estavam [Ucrânia]".
O candidato promete também que “espero ter relações muito, muito boas com Putin, com a Rússia”, sublinhando que Vladimir Putin “é um melhor líder para a Rússia do que Barack Obama para os Estados Unidos”.
Do ponto de vista da tradição das relações soviético-russas com os Estados Unidos, é verdade que os dirigentes soviéticos/russos sempre se deram melhor com os presidentes americanos saídos do Partido Republicano do que do Democrata. Uma das razões do maior distanciamento em relação a este último tem a ver com o respeito dos direitos humanos na URSS/Rússia. Os democratas norte-americanos sempre prestaram maior atenção a esse problema nas relações com a URSS e a Rússia, criando sérias fricções diplomáticas com Moscovo.
Porém, não se pode esquecer que, quando o candidato republicano Ronald Reagan foi eleito Presidente dos Estados Unidos em 1981, praticamente ninguém imaginava as consequências da sua política externa, nomeadamente o fim da União Soviética dez anos depois.
É de sublinhar que, então, eram muitos aqueles que na URSS e no mundo olharam para a eleição de Reagan como para uma espécie de farsa, pois ele não passava de “um actor de segunda categoria”. Porém rodeou-se de uma equipa que conseguiu destruir o seu principal adversário na cena internacional.
Alguns analistas próximos do Kremlin gostariam de ver Donald Trump na Casa Branca, considerando que a eleição de um político tão extravagante para Presidente da maior superpotência mundial poderá não só prejudicar a imagem dos Estados Unidos no mundo, como realçar as “qualidades políticas e diplomáticas” de Vladimir Putin.
Oficialmente, não obstante os elogios de Trump, o Kremlin tenta não se comprometer com nenhum dos dois candidatos. Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, declara: “Claro que nós nos orientamos principalmente não pelas declarações de candidatos, mas pelas declarações do Presidente, e, por isso, será importante o que irá dizer o Presidente dos Estados Unidos que for eleito”.

Porém, o Kremlin espera também que Trump possa vir a cumprir as ameaças de enfraquecer a presença norte-americana na Europa e o seu papel na NATO. Afinal foi ele que disse: “A Ucrânia é um país que influencia muito menos em nós do que nos outros países da NATO, mas porque é que temos de suportar todo o fardo… porque é que a Alemanha não trabalha com a NATO na questão da Ucrânia? Porque é que os países que são vizinhos da Ucrânia nada fazem? Porque é que devemos desempenhar sempre o papel principal, tanto mais agora, quando é possível uma terceira guerra mundial com a Rússia?” 

domingo, setembro 04, 2016

Lançamento do meu livro em Fátima



Notícia sobre o lançamento do meu livro na página do Apostolado Mundial de Fátima (http://www.worldfatima.com/pt):
"Um novo livro, por enquanto publicado somente em Português, será apresentado na Capela Bizantina da Domus Pacis, no dia 8 de setembro de 2016, festa da Natividade de Nossa Senhora.
"O livro, escrito pelo autor português José Milhazes, historiador e jornalista que viveu muitos anos na Rússia, é uma importante fonte de informação sobre a história da Rússia no século XX e a sua relação com o acontecimento de Fátima. As referências ao Exército Azul (agora Apostolado Mundial de Fátima) e ao Ícone de Nossa Senhora de Kazan, presentes no livro justificam a escolha da Domus Pacis como o local para a sua apresentação oficial. A encomenda do livro poderá ser feita aqui".

sexta-feira, setembro 02, 2016

Notícia oficial: faleceu Islam Karimov, Presidente do Uzbequistão.

Chavkat Mersieev

Ele deverá ter já falecido no dia 29 de Agosto, mas a notícia só foi divulgada hoje para não estragar a festa da independência, 1 de Setembro, (Nesse dia, um jornalista leu a mensagem de felicitações de Karimov aos seus súbditos, mas ela deve ter sido obra de outra pessoa que não o Presidente).

Será sepultado amanhã, 3 de Setembro, na cidade natal de Samarcanda. Trata-se de um acontecimento importante porque se trata de um dos maiores países da Ásia Central e vizinha com o Afeganistão. Rússia, China e Estados Unidos seguiam e seguem com atenção a situação nesse país, pois ninguém parece estar interessado na desestabilização da situação no país.
Karimov tinha 79 anos e dirigiu o país com mão de ferro durante 25 anos. Não deixou herdeiro, mas se tudo correr como o previsto, o seu lugar irá ser ocupado por Chavkat Mersieev, actual primeiro-ministro, (na foto) membro do clã do falecido Presidente. É familiar de um dos maiores magnatas russos de oriem uzbeque: Alicher Usmanov.
Não existe oposição legal ao regime, mas apenas grupos de islamitas que, até agora, Karimov soube controlar.
Se a luta pela sucessão se transformar numa luta de lacraus numa lata, as consequências poderão ser funestas para o país e a região em geral. Moscovo está atento e não hesitará em empregar a força militar se vir que aquela região está a fugir ao seu controlo.
A China tem fortes interesses económicos na região, já maiores do que os russos, e também não querem problemas. Além disso, a destabilização no Uzbequistão poder-se-á alargar ao território chinês com numerosa população muçulmana.
Como diz um personagem de um famoso filme soviético: "O Oriente é matéria delicada". 

sexta-feira, agosto 26, 2016

Nem os paralímpicos russos escapam a jogos políticos sujos



Infelizmente, o emprego de doping já se entranhou de tal forma no desporto, olímpico e não só, que parece ter chegado a hora de liberalizar o seu consumo em prol de medalhas, dinheiro ou “patriotismo”. Se o principal não é participar, mas vencer, então os atletas que desejarem subir ao pódio que arrisquem as suas vidas consumindo drogas que os transformam em super-heróis.
Mas a imoralidade de certos dirigentes e políticos desportivos parece não ter limites, pois não poupam sequer atletas paralímpicos, pessoas com deficiências físicas cujos resultados desportivos também servem para mostrar que “a Rússia se está a levantar” (palavra de ordem da actual propaganda russa).
O Comité Paralímpico Internacional (CPI) decidiu afastar todos os atletas russos dos Jogos do Rio de Janeiro, a realizarem-se em Setembro, devido à política do Kremlin face ao emprego do doping no desporto.
Segundo o CPI, durante os Jogos Paralímpicos de Inverno de Sotchi 2012, onde a Rússia não podia deixar de ganhar para mostrar os cuidados depositados pelo Presidente Putin no desporto, 21 análises de sete desportistas russos foram falsificadas.
Além disso, Philip Craven, presidente do CPI, revelou que “nas tampas de 18 contentores com análises foram encontrados riscos. Isso prova que eles foram abertos e reutilizados”.
O Comité Paralímpico Russo recorreu dessa decisão para o Tribunal Arbitral Desportivo, mas as suas queixas foram recusadas, determinando o afastamento dos atletas paralímpicos russos da maior competição mundial do género.
No lugar de reflectir sobre essas decisões e tomar medidas para limpar o desporto russo do doping, demitindo, por exemplo, Viktor Mutko, ministro do Desporto altamente responsável por essas ilegalidades, o Presidente Putin faz figura de ofendido e considera que “a decisão de desclassificar os paralímpicos russos está fora do direito e da moral. É cínico vingar-se e descarregar a raiva naqueles para quem o desporto se tornou no sentido da vida. Tenho pena de quem toma semelhantes decisões. Eles não podem compreender que isso próprio é humilhante para eles”.
Ou seja, Putin repete a mesma habitual mantra de que tudo não passa de uma cabala para atingir e humilhar a Rússia. É mesmo caso para citar o ditado russo: “Não se deve culpar o espelho se se tem a cara torta”, mas o Presidente russo insiste em acusar o espelho, ou seja, todos os outros, menos “nós”, dos problemas não só no desporto russo, mas em todos os outros campos. A julgar pelos discursos dele, pode-se pensar que a Rússia é um país que só tem dificuldades e problemas é por culpa alheia.
Afinal, quem estará além do direito e da moral? Parece estarmos a assistir uma vez mais à história do “apanha que é ladrão!”
Claro que o “czar Vladimir II” não pode abandonar os seus súbditos e, num encontro com os campeões olímpicos russos no Kremlin, ordenou organizar “competições especiais, cujos resultados serão recompensados com as mesmas condecorações como se participassem nos Jogos Paralímpicos no Rio”.  Significa que ele irá mandar cunhar medalhas iguais às dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro e, depois, presenteará os vencedores com ouro, prata e bronze, bem com automóveis BMW X-6, X-5 e X-3, como fez com os vencedores olímpicos russos?
No mesmo dia, um dos tribunais de Moscovo, talvez por “mera coincidência”, decidiu arrestar um terreno pertencente a Grigori Rodtchenkov, o especialista russo que denunciou que dezenas de desportistas russos se doparam durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Além disso, ele está a ser alvo de um processo-crime por ter “adquirido ilegalmente substâncias nos Estados Unidos por ordem de algum dos dirigentes do WADA [Agência Mundial Antidoping]”.
Será que a paranoia, típica de tempos passados como a ditadura estalinista, volta a imperar em relação ao bom-senso na política dos dirigentes russos? Ou existe realmente uma cabala contra a Rússia que os tão famosos serviços secretos de Putin não conseguem desmascarar?

Para mim, trata-se de mais um conto de Polichinelo em vésperas de eleições parlamentares na Rússia, onde antecipadamente se sabe quem irá ganhar o “ouro”, a “prata” e o “bronze”. E para isso não é preciso doping, chega a propaganda.

sexta-feira, agosto 19, 2016

Comunismo e mutilação genital feminina



O mufti ao lado do "grande chefe"


A mutilação genital feminina não acontece apenas em distantes países pobres, mas também ao nosso lado, com o apoio de dirigentes religiosos muçulmanos e com a tolerância das autoridades civis. É assim na Rússia, país cujos líderes acusam o Ocidente de hipocrisia e degradação moral, que quer ser o “modelo moral” da humanidade.
No dia 15 de Agosto, a Fundação “Pravovaia initsiativa” (Iniciativa Jurídica) publicou um relatório onde denunciava a prática da mutilação genital feminina (circuncisão feminina) em aldeias do Daguestão, república do Cáucaso do Norte russo onde a maioria da população é muçulmana.
Segundo esse documento, este costume continua a ser praticado em meninas até aos três anos e, em casos raros, até aos 12. A operação raramente é feita nos hospitais e as que são feitas clandestinamente provocam muitas vezes infecções e hemorragias.
O relatório sublinha que, não obstante as mulheres que se sujeitaram à mutilação genital justificarem essa prática e a sua continuação, reconhecem que essa prática deixou nelas uma forte marca psicológica.
O documento provocou forte discussão na Internet russa, numerosas condenações desta cruel violação dos direitos da mulher, o que levou à reacção do mufti Ismail Berdiev, presidente do Centro de Coordenação dos Muçulmanos do Norte do Cáucaso.
Tendo em conta que estes cargos são ocupados apenas por pessoas previamente autorizadas pelo Kremlin de Moscovo, podia-se esperar uma condenação de tal prática, mas tal não aconteceu: Berdiev considerou que a mutilação genital feminina não vai contra os princípios do Islão, não faz mal à saúde e é feita para “acalmar as mulheres” no Daguestão.
Estas declarações provocaram numerosos comentários indignados e o mufti respondeu com o “alargamento geográfico” da circuncisão feminina.
“É preciso circuncisar todas as mulheres para que não haja depravação no mundo, para que a sexualidade diminua”, declarou Berdiev à agência noticiosa Interfax, acrescentando: Se isso fosse feito a relação a todas as mulheres, isso seria muito bom. O Omnipotente criou a mulher para ter filhos e educa-los… As mulheres não deixarão de dar à luz [após a mutilação genital], mas a depravação seria menor.
Na era soviética (1917-1919), criou-se a lenda de que na URSS existia a igualdade total entre homens e mulheres, mas a verdade é que isso não passou mesmo de uma lenda, principalmente nas regiões onde a maioria da população era muçulmana. É verdade que as mulheres foram obrigadas a deixar de usar burkas, foi proibido o pagamento de dote pelas noivas e o seu rapto antes do casamento (Os leitores que viram a comédia “O Sol Branco do Deserto” compreendem do que estou a falar). É verdade que o Islão foi alvo das mesmas perseguições que as restantes religiões, mas também é verdade que as autoridades comunistas locais não só fechavam os olhos a muitas dessas tradições, como até as seguiam à regra (processo bem retratado na comédia soviética “A Prisioneira do Cáucaso) e, logo após o fim da URSS, tudo voltou depressa ao antigamente e de forma aberta. 
Falámos da mutilação genital feminina, mas podíamos falar da poligamia, defendida, por exemplo, por Ramzan Kadirov, o “ditadorzinho” que representa o Presidente Putin na Chechénia.

“Muitos consideram que isso [poligamia] é terrível. Mas eu digo: mostrem-me um homem que não tem várias amantes. Não existe. E todos mentem às suas esposas, mas eu não posso mentir à minha. Por isso, a poligamia é muito boa e muito mau é ter muitas amantes. Se eu for contra a poligamia, não sou muçulmano”, declarou ele.