sexta-feira, setembro 13, 2019

Olhar da Rússia para o Mundo - 7

Faço um parêntesis para referir uma área muito interessante mas muito complexa que é a Ásia Central… o problema do Afeganistão está por resolver, está por saber se o problema do Afeganistão vai saltar do Afeganistão cá para fora ou não, e se saltar, a área da Ásia Central é uma zona vital para a Rússia do ponto de vista estratégico, e o desenvolvimento da situação na Ásia Central eventualmente, poderá trazer novidades, não só para a Rússia, mas também no norte e nordeste da China e a desestabilização da Ásia Central criaria graves problemas para estes dois países. 
Daí que, eu considero, que devemos estar atentos à política do senhor Putin, mas sermos racionais e pragmáticos. Por exemplo, os russos fornecem gás à Europa, e alguns dizem “a Europa depende dos combustíveis russos, do gás russo”, isso pode ser e não ser verdade: primeiro, os russos constroem e estão a construir em quantidades significativas, gasodutos e oleodutos, e lá dentro tem que correr alguma coisa, e para que lá dentro corra alguma coisa, alguém tem que comprar e se não comprar aquilo enferruja, ou seja, a Europa precisa de gás, mas a Rússia também precisa vender gás. E precisa de outra coisa a Europa, que é diversificar as fontes de fornecimento de combustíveis. Finalmente está a ser construído o gasoduto entre a França e Espanha, que durante muitos anos não havia, e se esse gasoduto existisse em 2009 a crise do gás russo seria muito menor porque o gás podia entrar por Portugal e Espanha e ser transportado por esse gasoduto… que agora vai, finalmente, juntar todos os países da União Europeia. 
Claro que os Estado Unidos querem vender o gás deles, e até lhes desejamos êxitos, porque só se formos “lorpas” é que não aproveitaremos a situação estratégica do porto de Sines. O porto de Sines vai-se transformar num dos portos de entrada do gás liquefeito na Europa e isto para nós é importante e estarmos atentos a estas situações. 
Ou seja, resumindo, considero que em relação à Rússia temos (a União Europeia e a NATO) que ter uma política clara, seria bom se tivéssemos uma política comum, seria ideal, uma política externa e de segurança comum em relação à Rússia, seria muito bom, e falar de igual para igual, aproveitando as fraquezas uns dos outros, nós as deles e eles certamente irão aproveitar as nossas. 
Como sabem os hackers russos são bons, mas computadores não são russos, são ocidentais… nunca vi nenhum computador russo.

terça-feira, agosto 20, 2019

OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO - 6

Palestra proferida no EMGFA (continuação)

A política de dois padrões ou de vários padrões continua a ser a política atual e é ela que funciona. O que temos hoje? 
Putin e Trump, na Cimeira de Osaca do G20, encontraram-se, mas sem qualquer resultado palpável. 
Mas em termos de desarmamento, não se antevê nada de positivo ou a ocorrer será muito pouco, porque o senhor Trump “jogou” uma carta importante em cima da mesa que foi “nós agora de desarmamento não vamos falar a dois, vamos falar a três” e acrescentou a China, e a China responde “mas isso não é nada connosco, nós não fazemos parte desse clube”… e este vai ser outro grande problema se se começar um novo desanuviamento e uma nova etapa de desarmamento. 
Há problemas gravíssimos, a questão da Síria e do Irão que poderão, de um modo ou de outro, fazer mudar bruscamente ou fortemente as relações entre os EUA e a Rússia, mas na minha opinião, penso que vamos continuar a ter tempos de guerra-fria, ou seja, a guerra-fria nunca acabou, só que havia altos e baixos e neste momento estamos numa situação em que a guerra-fria está a subir de tom. 
Em relação à Europa e à Rússia, tendo em conta que a Europa faz parte da NATO, e esperamos que a NATO esteja atenta ao que se passa à sua volta, acho que chegou a hora de existir uma coordenação muito maior entre as Forças Armadas dos países europeus, não de Forças Armadas únicas mas quase de… ou seja, a Europa tem que estar pronta a enfrentar determinados desafios e a ter uma politica de defesa e de segurança, própria. 
Em conversa com o senhor Almirante, antes de entrarmos, foi abordada uma questão/problema que a meu ver é fundamental, que é… há muita gente que não entende porque é que os Polacos, os Estónios ou os Lituanos, ficam aterrorizados com a Rússia… não entendem porque não leem a História, porque se lessem, entendiam rapidamente, se a Europa não entender estes povos e não for ao encontro deles, estes povos vão diretamente aos Estados Unidos, como faz agora a Polónia e dizem “mandem mais gente para cá”… Porque a senhora Merkel até pode dizer, ela sabe muito bem russo, conhece muito bem os russos, conhece o senhor Putin… - eu conheço bem os russos e falo bem russo, mas não conheço o senhor Putin só o vi ao longe, mas posso dizer que estou de acordo com a senhora Merkel ao dizer que os russos são pessoas simpáticas, são simpatiquíssimas, não há dúvida absolutamente nenhuma-, mas isso não é política externa. 
A política externa é uma coisa muito mais complicada, a política externa tem uma carga histórica enormíssima, daí que nós temos que dar aos nossos amigos da Europa de Leste garantias de que não vamos fazer acordos abstractos, sem a intenção de os cumprir… 
Outra coisa muito importante é que só prestamos atenção quando a casa já está a arder, quando já funcionam as formas de influência que a Rússia leva a cabo para atingir os seus objetivos no estrangeiro. 
Estimados, nós já sabemos há muito tempo, não é segredo para ninguém, que a União Soviética fazia, e a Rússia continua a fazer, como faz qualquer potência que tenha interesses: comprar pessoas, infiltrar agentes, minar o território do potencial adversário. 
Por exemplo, agora há pouco tempo veio-se a saber que a filha do porta voz de Putin, trabalhava como secretária de uma deputada do Parlamento Europeu da extrema direita francesa, e que tinha acesso a documentos classificados. 
Ora, estimados amigos, depois disto, só apetece rir… isto são coisas elementares. Dou-vos outro exemplo… se Inglaterra não fosse tão invejosa quando entrava o dinheiro sujo dos oligarcas russos, e não foi investigar mortes estranhas em Inglaterra, nomeadamente, de alguns oligarcas russos, que até se conseguiram “matar” a si próprios sozinhos com um cinto, quando acordou com Skripal (o espião russo que foi envenenado no Reino Unido), já a casa estava a arder… não sabemos se vão levar a investigação até ao fim das consequências ou se vão considerar que é um acontecimento passageiro e que vai passar e vai voltar tudo ao normal, como acontece maioritariamente… 
Ou seja, nós estamos efetivamente perante uma política externa revisionista com interesses claros na zona da antiga influência Soviética.

domingo, agosto 11, 2019

Olhar da Rússia para o mundo - 5

Palestra no EMGFA (continuação)

Assim estamos a assistir à Rússia com uma nova política Africana, que nas palavras de Putin significa que “desta vez a política africana tem que dar dinheiro”, não será como as políticas da União Soviética que exportavam aquelas maquinetas que não funcionavam em África e construíram umas centrais hidroelétricas, mas fundamentalmente o que enviavam eram armas. Hoje a Rússia tem uma política diferente. A Rússia tenta entrar nos países onde são extraídos metais ou matérias primas que concorrem com a Rússia no mercado internacional. Diamantes em Angola, ou ouro no Zimbabué ou outros metais. Na República Centro-Africana, também existe essa política. Na Líbia, o petróleo porque a Rússia tem fortes interesses no petróleo líbio, e por isso a Rússia tenta ocupar estes lugares deixados vagos, pelo Ocidente, principalmente em situações de conflito, onde há guerras entre numerosos grupos e tenta, dessa forma, entrar e mexer-se para garantir alguns dos seus interesses. 
Se falarmos da América Latina, temos dois vectores contraditórios. 
Por um lado, a Venezuela, onde a Rússia tem grandes interesses e de onde só sairá se esses interesses ficarem seriamente guardados e garantidos, porque a Rússia já está farta de assinar papeis, sem efeitos práticos. Neste caso, julgo que não se trata de a Rússia pôr em causa a influência de Monroe ou pôr em causa a influência Norte Americana na América Latina, mas sim uma forma de a Rússia ganhar força para discutir questões noutros lugares, nomeadamente na Ucrânia ou em outras zonas da antiga União Soviética. 
Quero chamar a atenção para um acontecimento ocorrido há poucos dias… Por incrível que pareça os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia, na pequena Moldávia, conseguiram chegar a acordo e fazer um milagre… conseguiram destituir os corruptos que lá estavam no poder e restabelecer o regime democrático naquele país. Claro que a Moldávia é um país pequenino, é um país muito pobre, mas isto é um bom sinal! É sinal que nem sempre é obrigatório estarmos todos em conflito, tanto mais em zonas sensíveis, tanto para a Rússia como para a NATO, como é a Moldávia, que é junto à Roménia, que tem uma série de problemas complicados... 

Na América Latina, temos a questão do Brasil, porque o senhor Bolsonaro não promete nada de bom em relação ao projeto dos BRICS. Alguns apresentaram o projeto dos BRICS como o aparecimento de uma daquelas super-organizações, que agora é que vai ser, que os Estados Unidos vão ficar para trás, mas ao que tudo indica, o senhor Bolsonaro não está muito disposto a prejudicar as suas relações com o Trump em nome da integração nos BRICS. Por isso, neste momento, o projeto é uma organização que está congelada, ou seja, existe, mas não funciona de forma visível e ativa. 
Quanto à relação com os Estados Unidos e com a Europa, aqui as questões são complicadas porque muito vai depender da política de Donald Trump em relação à Rússia, à Europa e a outros países. Se esta política que ele tenta, pelo menos publicamente mostrar, que a política internacional para ele é uma espécie de grande empresa em que ele é o sócio maioritário, e que está disposto a falar com os outros sócios e a assinar acordos com eles, mas nas condições dele. Se assim é, e parece que foi o que aconteceu com o México, ele conseguiu pelo menos aparentemente ganhar a batalha com o México, se conseguir chegar a um acordo com a China, isso será de extrema importância porque permitirá ao Senhor Trump continuar, ou não, com essa política. 
Os russos estão extremamente preocupados com esse eventual acordo… Na minha opinião, os russos já se arrependeram de ter apoiado e se congratulado com a eleição de Donald Trump, porque as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, neste momento, não podiam estar piores do que o que estão. 
Não poderão ficar melhor, no próximo ano, se acabarem com o último Tratado do período de desanuviamento, que é o tratado de limitação dos mísseis de longo e médio alcance. Se os Estados Unidos e a Rússia saírem desse acordo, o mundo ficará sem qualquer tipo de acordo nesse campo. 
Com o Direito Internacional que hoje temos, e a forma como é cumprido, não sei se os acordos têm alguma validade… porque, hoje, o Direito Internacional só serve quando é aceite por “alguém”. E recordando tempos mais atrás, a Rússia não teve problema em esmagar completamente a resistência nacionalista da Tchetchénia, defendendo a sua integridade territorial… Mas, agora, acha que a Ucrânia não tem direito a fazer o mesmo, e isto dá origem a que muita gente acredite que o senhor Putin é a salvação, é um anti-imperialista que trouxe às relações internacionais uma nova etapa…

(continua)

quarta-feira, julho 31, 2019

OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO -4

O Báltico não faz parte dos planos russos, em termos de zona de influência, por enquanto, e não faz porque o Báltico já faz parte da NATO. 
E a partir dessa altura os russos, as Forças Armadas russas, que sofreram um longo processo de modernização realizado por Putin, e de rearmamento, apesar de não ser totalmente convincente a existência dos mísseis invisíveis, a verdade é que as Forças Armadas russas são, hoje, incomparavelmente mais fortes que as Forças Armadas russas de há 10 ou até 20 anos atrás. 
Nesta situação, a Rússia viu-se debaixo de sanções. Na minha opinião, se essas sanções duríssimas, tivessem sido tomadas em 2008, nós talvez não estivéssemos agora a falar da invasão da Crimeia, mas como na História não há lugar a Ses, o que está feito, está feito. 
Com consciência desta capacidade (mais fortes que há 10 ou até 20 anos atrás) a Rússia começa a tentar entrar nos pontos mais vulneráveis em termos internacionais, e a aproveitar-se das contradições entre os Estados Unidos e a Europa, ou entre os Estados Unidos a Europa e outros aliados em termos locais, para fazer uma nova política internacional. Nova para os russos. 
Antes de continuar quero realçar algumas questões importantes, uma questão sobre o Extremo Oriente, o Japão vai-se manter a ver as quatro ilhas Curilhas por um canudo, porque apesar dos russos terem andado muito tempo a “vender” ao Japão a ideia de que até poderia chegar a um acordo, a verdade é que não vai haver acordo nenhum ali, porque a Rússia não vai ceder nada ao Japão; a questão da Coreia do Norte e do Sul, que é uma questão que tem muita importância na diplomacia Russa, porque como sabemos a Rússia tem fronteira com a Coreia do Norte e é uma fronteira vital, até para a própria Coreia do Norte. A questão é que todos dizem que querem a reunificação da Coreia, mas a verdade é que há poucos os que realmente querem a reunificação da Coreia… Claro que a Rússia é daqueles que não quer a reunificação da Coreia, a China também não, e o Japão “idem, idem, aspas, aspas”. 
Ou seja, na reunificação da Coreia estarão interessados os EUA e a própria Coreia do Sul. De resto ninguém quer ver uma Coreia poderosa, ao nível de que se acontecer alguma coisa, certamente ninguém quer que aconteça na Coreia o que aconteceu na Alemanha, ou seja, quem vence é a República Federal Alemã e nunca a República Democrática Alemã, porque são duas economias completamente desequilibradas e não havia possibilidade de equidade, e na Coreia também não há, não pode haver uma integração entre iguais. 
Aliás, pessoalmente até gostaria de assistir a essa “matrioska”, mas já não deve acontecer “nos meus dias”, que é colar o socialismo coreano com o capitalismo coreano, que deveria ser um acontecimento histórico absolutamente impressionante. 
Depois, naquela zona temos a famosa, nos dias de hoje, “aliança” entre a Rússia e a China, o que considero ser uma espécie de “história da carochinha”, e assim o é porque se for uma aliança é uma aliança entre uma potencia gigantesca do ponto de vista económico e militar, e uma potencia militar com pés de barro, que não é potencia económica, não pode haver uma aliança igual entre a Rússia e a China. Claro que a China pode utilizar o trunfo da aliança com a Rússia nas suas relações com os Estados Unidos, o que é normal, mas se Donald Trump tiver a capacidade de chegar a um acordo com a China, esta não vai fazer nenhuma aliança com a Rússia, tendo em conta os interesses norte-americanos na China e os interesses chineses na América do Norte. Essa aliança poderá, eventualmente, ter lugar se se comportarem com a China de tal forma que os chineses fiquem encurralados. Há acordos pontuais entre Moscovo e Pequim. A China tem garantido por parte da Rússia combustíveis e, mais tarde, poderá tê-los até a preços mais favoráveis, quando os gasodutos estiverem construídos e o gás começar a correr para a China, esta terá alguma capacidade de ditar à Rússia o preço do combustível que compra.
(Continua)

segunda-feira, julho 29, 2019

O OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO - 3

Quando chegam, contentes e felizes, porque acabou a guerra e se vão colocar os capacetes azuis no terreno, os Russos dizem: “não, não. No Tratado está escrito que os observadores da OSCE ficam, mas só do lado da Geórgia, no território da Ossétia do Sul e da Abecásia não há capacetes azuis para ninguém”. 
A Europa, os Estados Unidos e a NATO viram-se obrigados a aceitar, até que, nessa altura,  Vladimir Putin faz, paralelamente , uma política internacional bastante ativa e até virada para uma cooperação com a Europa e a NATO, cooperação essa que se intensifica, com a cimeira da NATO-Rússia, em Portugal em 2010, ou com os acordos que foram assinados e a cooperação especial e particular entre a NATO e a Rússia, para se pensar, naquela altura, que as coisas estavam a avançar no bom sentido. 
E estavam a avançar no bom sentido, estávamos muito perto de suspender o sistema de vistos entre a Rússia e a União Europeia, medida que defendo porque considero que quanto mais russos viajarem melhor é para eles e para a humanidade: Mas dá-se uma coisa, para muitos inesperada, que se chama a Invasão da Crimeia. 
Na minha opinião, a invasão da Crimeia foi uma tentativa da Rússia “esticar a corda sabendo que ela não ia rebentar”, porque a Ucrâni não faz parte da NATO e o artigo quinto não poderia ser acionado. 
Há um momento importante ao longo da História que nos esquecemos quando estamos a tratar com a Rússia, há muitos que pensam que a Rússia é um país normal. Mas a Rússia não é um país normal, a Rússia é um continente, a Rússia é um país gigante, cujos cidadãos e dirigentes têm uma estrutura mental um pouco diferente da nossa, podemos chamar de imperialista, podemos chamar de supremacia espacial (no sentido de espaço), mas isso está no ADN dos russos e é com isso que nós devemos trabalhar. 
Em 2004, deu-se a chamada revolução laranja na Ucrânia. 
Criou-se uma grande “novidade” e “precedente” na democracia ucraniana e mundial, que foi fazer uma terceira volta das eleições presidenciais. E para quem esteve lá e acompanhou esse período, foi um acontecimento completamente surrealista! 
Quando os ucranianos pensaram que a União Europeia e os Estado Unidos os iam apoiar economicamente, etc. enganaram-se redondamente, tal como se tinha enganado a Rússia, uns anos antes. 
E isto levou a uma segunda revolta, em 2013. 
E aqui dá-se um momento muito importante. 
O presidente Víktor Ianukovitch, depois de fortes pressões, nomeadamente da Rússia, assina um acordo com três ministros dos negócios estrangeiros da União Europeia, onde garante que os manifestantes vão para casa e ele vai realizar eleições presidenciais e parlamentares antecipadas, que era o que os manifestantes queriam. 
Assinou o acordo, mas “ainda a tinta não tinha secado”, ou seja, no dia seguinte, Ianukovitch, teve que fugir para não acabar como acabou Kadafi. Ou seja, a União Europeia, os três representantes da União Europeia que assinaram o acordo, não se responsabilizaram pelo seu cumprimento. 
Chega ao poder, na Ucrânia, gente que poderia querer a democracia e a integração europeia, ou aquelas coisas que dizem para aos europeus acreditarem neles, mas não respeitaram o acordado, o que constituiu um verdadeiro insulto à Rússia. E a União Europeia também não garantiu coisa nenhuma. 
E Putin deve ter decidido assim: “ai vocês fazem assim, então eu também posso fazer!”, e leva a cabo a operação de ocupação da Crimeia e, posteriormente o Leste da Ucrânia. E isto, na minha opinião, constitui o momento de ruptura nas relações internacionais, porque a Rússia deixou claro que estava disposta a usar a força na defesa da sua zona de influência.
(Continua)

domingo, julho 21, 2019

O olhar da Rússia para o mundo -2

A União Soviética entra na corrida ao desarmamento, porque foi uma corrida ao desarmamento a que se assistiu… cede onde pode e não pode, mas iriam ter o apoio do ocidente. Neste caso, Gorbatchov foi amaldiçoado pelos russos, exatamente porque confiou em coisas que não se deve confiar… Porque em Relações Internacionais não há amizade, há apenas interesses! 
Isto de “amigos, amigos, negócios à parte”, e foi o que aconteceu a Gorbatchov, que teve azar… claro que agora temos mais facilidade em criticar, porque o tempo dele já passou, mas imaginemos naquele tempo… Gorbatchov pediu um apoio de 100 mil milhões de dólares aos Estados Unidos e ao Ocidente, para o apoiarem nas reformas. O Ocidente naquela altura já tinha em vista a queda de Gorbatchov e a chegada ao poder de Ieltsin, e na sequência disso não achou por bem, continuar a “enterrar dinheiro” para a manutenção do poder e das reformas de Gorbatchov, ou seja, nem a apoiar Gorbatchov, e não lhe deu o apoio pedido. 
E nesta altura, coloca-se uma questão? 
E se, por exemplo, os russos em vez de terem pedido ajuda, tivessem dito à Alemanha “ou vocês põem em cima da mesa 100 mil milhões de marcos ou então as nossas tropas não vão sair da Alemanha oriental e de Berlim”. 
Como sabem a União Soviética, retirou as tropas que tinha no antigo sector de influência soviética praticamente de “forma gratuita”, o que levou a uma grande degradação dentro do corpo militar russo, porque muitos oficiais voltaram para a União Soviética e não tinham onde dormir. Alguns deles dormiam com a família no avião que tinham tripulado, ou no helicóptero ou no tanque, porque não havia mais nada, ou então, alguns viviam em campo aberto. 
Isto criou um grande descontentamento entre os militares e numa grande debanda, principalmente entre os oficias, que começaram a ver que poderiam organizar a sua vida, muito melhor, fora das Forças Armadas. 
Mais tarde, percebemos que muitos dos homens ricos da Rússia são pessoas que estiveram ligados às altas patentes das forças armadas ou dos serviços secretos… 
E entramos nos anos 90 e na queda da União Soviética, e lembro-me, em Portugal de ouvir alguns analistas dizerem que a Rússia estava arrumada e que não tinha qualquer potencial para se transformar numa grande potência, talvez regional, mas a nível mundial, não. 
E digamos que este tipo de política aliada à desilusão dos russos (do povo), nos anos 90, que esperavam ser integrados na tal sociedade ocidental e começaram a ver que estavam a ser enganados… cria um ambiente ideal para que apareça uma figura como Vladimir Putin. 
Claro que Vladimir Putin aparece numa tentativa de a elite Russa encontrar um sucessor para Boris Yeltsin, mas … um sucessor que continuasse a política de Yeltsin, ou seja, que estivesse sobre o controlo daqueles “oligarcas e mafiosos” que dirigiam o país. 
No entanto, saiu-lhes o tiro pela culatra. Apareceu um homem, que veio dos serviços secretos, e que tentou dar aos russos, ou compensar os russos, pelas humilhações que eles tinham sofrido, quer em termos internos, quer em termos internacionais. Em termos internos, quis “acabar” com os oligarcas, que afinal não acabou, apenas os substituiu por amigos. No campo externo, quis fazer com que a Rússia voltasse a ser ouvida, na tomada de decisões. 
O primeiro sinal de Putin nesse sentido, primeiro do ponto de vista militar, para pôr ordem na casa, de uma forma absolutamente brutal e cruel, foi a chamada segunda guerra da Tchetchénia, em que matando centenas de milhares de pessoas, restabelece o poder da Rússia na Tchetchénia. 
Perante estes acontecimentos, o Ocidente teve que aceitar, porque se tratava de território da federação da Rússia, e aparece, mais tarde, um sinal, que para alguns já foi mais preocupante, para outros ainda um pouco vago, que é 2008! 
E é 2008, que é quando se dá a invasão da Geórgia. 
Invasão esta  à qual o Ocidente reagiu mal, porque não entendeu que se tratava claramente do regresso da Rússia à política da subordinação de zonas de influência. 
Vão a correr a Moscovo, Sarkozy e Durão Barroso, no sentido de assinar um tratado de paz, para travar o conflito entre a Geórgia e a Ossétia do sul e Geórgia-Abecásia, que hoje, são países quase independentes, reconhecidos pela Rússia e por outros países mais pequenos. E assim, como os países europeus tinham tanta pressa em acabar com a guerra, quando assinaram o acordo com Medvedev, nem se quer se deram conta de como estava estabelecido esse acordo, sobre a colocação dos capacetes azuis da OSCE no terreno.
(Continua)