
O leitor António Campos enviou-nos este seu artigo que publicamos de bom grado e sem qualquer comentário ou emenda:
"Putin não tem muitas razões para celebrar a queda do muro de Berlim. Quando a vaga da história se desenrolava para lá da janela do seu escritório do KGB em Dresden, o actual primeiro-ministro russo percebeu que o sistema perfeito e rígido do qual era cliente se estava a desmoronar subitamente perante os seus olhos, no que, segundo as suas próprias palavras, foi a “maior catástrofe geopolítica do século”.
Por seu lado, Medvedev, herdeiro de Sobchak, legalista e alheio ao clã dos siloviki, tenta, face às circunstâncias, desempenhar o papel de reformista, apadrinhando a modernização como tema central da sua presidência e definindo estratégias ambiciosas de desenvolvimento para pescar o país do abismo. Mas uma análise cuidada ao orçamento para 2010 revela que a prioridade são os gastos militares e o aumento das pensões, sendo que apenas 1,4% dos financiamentos são destinados à inovação. O presidente, que não se atreve a murmurar uma palavra crítica contra o primeiro-ministro, faz umas afirmações tímidas sobre a criação de equipas de “modernizadores” que possa fazer com que pelo menos alguns desenvolvimentos se materializem e, mais importante, tenta fazer passar a mensagem de que o niilismo legal é coisa do passado e que a história estalinista não deverá, afinal, ser reescrita.
Estes factos, uma espécie de cocktail de “quase-liberalismo” presidencial e tendências nacionalistas e populistas promovidas pelo primeiro-ministro, têm dois efeitos: dão credo à percepção popular de que se vive num período de mudança, e ao mesmo tempo, passam a ideia de que existe uma clivagem quanto ao caminho a seguir para sair da crise. Tal parece estar a gerar uma onda de pânico nas elites do poder. Quererá Medvedev seguir os passos de Gorbachov de remodelar o sistema, mantendo a sua essência inalterada? É esse o grande ponto de interrogação a pairar nas cabeças dos siloviki.
Estes sabem que o ímpeto reformista de Gorbachov, que (tal como Medvedev pretende) quis reduzir a dependência energética e modernizar a decrépita indústria soviética sem mudar o regime, deu origem a um colapso revolucionário que arrasou com o seu poder e privilégios. A promoção do empreendedorismo cria centros de poder que ameaçam a hegemonia estatal e o seu parasitismo sobre as rendas da venda de matérias-primas.
Assim, os poderes vigentes não querem correr o risco de uma nova Perestroika e muito dificilmente Medvedev conseguirá o apoio de cima para os seus devaneios reformistas. Enquanto a conversa não passar de conversa, Medvedev será tolerado.
Mas conseguirão o “duo dinâmico” e os seus clientes manter o status-quo à frente de uma economia cujos problemas vão muito para além da simples dependência energética, tal como demonstra a anémica recuperação da economia, mau grado o aumento dos preços dos hidrocarbonetos, e a incapacidade crónica de resolver os problemas da população em geral? E não será a “abertura liberal” de Medvedev um catalisador de um colapso do sistema vindo não de cima, mas de baixo?
O actual clima social na Rússia, tal como descreve (genialmente, pelo que transcrevo o comentário na íntegra) um comentador anónimo russo de um blog semelhante a este, tem contornos de “pré-revolucionário”. Diz ele: “Nós, que vivemos na Rússia, sentimos a mesma espécie de histeria oficial ocorrida nos anos 80. Assistimos a uma espécie de frenético apertar do cerco com contornos cada vez mais absurdos. Um historiador a estudar o tratamento dos prisioneiros alemães nas décadas de 40 e 50 é preso por violar leis de privacidade. A agência contra os narcóticos publica uma lista de obras clássicas a retirar das bibliotecas por “propagandearem o uso de estupefacientes”. Os deputados querem retirar a cidadania russa ao ministro dos negócios estrangeiros georgiano, ainda que a constituição não o permita. Funcionários governamentais acusam um polícia que usou a internet para condenar a corrupção de estar a soldo da USAID. Uma agência noticiosa escreve que a Ucrânia pediu ajuda à Rússia para combater a gripe suína, citando um comunicado à imprensa do presidente ucraniano (só que esse comunicado não diz uma palavra acerca da Rússia). Famílias de acolhimento devem apresentar recibos de todos os gastos dos subsídios estatais. Os estrangeiros contratados ao abrigo de vistos de trabalho têm agora que apresentar diplomas apostilhados. Uma universidade em São Petersburgo está a obrigar os seus professores a submeter os seus artigos a escrutínio antes de serem enviados para jornais internacionais. Outra universidade tem uma lista de estudantes “extremistas”, que inclui apoiantes do Yabloko.
Vemos acções destas por todo o lado, mas não me parece que obedeçam estritamente a uma ordem de cima. Ficamos com a impressão de que os tipos no poder (a todos os níveis) sentem que o jogo está no fim, que o grandioso contrato social está a desfazer-se e que eles estão a espernear com tentativas de controlar o incontrolável. O resultado é um conjunto surreal de realidades sobrepostas. Uma realidade é a dos grandes desígnios de Medvedev escritos no seu blog e discursos. Há a realidade da TV, encalhada no modelo de Putin de culpar o Ocidente (especialmente os EUA) por tudo e mais alguma coisa, ao mesmo tempo que pinta um quadro que descreve uns poucos problemas locais mas um sistema basicamente sólido, embora as suas acusações sobre a intervenção maligna ocidental comecem a ficar verdadeiramente cómicas. Há a terceira realidade da vida real, na qual a corrupção está totalmente fora de controlo e algumas regiões e cidades estão mergulhadas na mais abjecta pobreza.
Os poderes vigentes não querem mexer no sistema, pois compreendem que a situação mais perigosa para um regime corrupto é tentar repará-lo superficialmente. Mas não me parece que o modelo de Putin venha a funcionar por muito mais tempo. Tal como todos os governos corruptos, este não soube quando parar, e a paciência da população está a esgotar-se. Por enquanto, assistimos a pequenas repressões aqui e acolá. Mas não vai resultar por muito tempo, pelo que eles terão ou que reprimir em grande ou sofrer mudanças profundas. Seja qual for o caso, será o seu fim. Daí que não admira que lá em cima reine o pânico.”
Aconteça o que acontecer, o futuro imediato da Rússia promete ser interessante."








