quinta-feira, novembro 14, 2019

Olhar da Rússia para o Mundo - 10


Uma terceira pergunta colocada questiona como vê o papel de Kaliningrado e a preocupação constante da Rússia com esta região especifica, e as constantes acusações dos países bálticos relativamente às várias intervenções da Rússia nesses territórios. 
O enclave de Kaliningrado é um assunto muito curioso e vai depender do futuro da Alemanha e de outras questões. A Rússia tem problemas fronteiriços com todos os seus vizinhos, Estónia, Lituânia, Ucrânia, etc, etc, etc… e com Kaliningrado… mas que é um dos perigos que pode acontecer no futuro. Com o enfraquecimento da Rússia e um desmembramento da Rússia, toda a gente vai apresentar contas. A Finlândia perdeu um terço do seu território na II Guerra Mundial. 
E neste precedente, considero que a Finlândia é o país mais pacífico do mundo! Conheço Finlandeses que são descendes daqueles que foram expulsos da Carélia, que continuam a sonhar com aquele território. 
Kaliningrado poderá, eventualmente, transformar-se numa zona de disputa nesse caso. Nós tivemos o acordo de Helsínquia que era fundamental em relação às fronteiras europeias, mas a Jugoslávia, a Ucrânia, a Moldávia, etc… e é muito difícil adivinhar onde vão mexer na próxima vez, como é que a situação vai evoluir em termos internacionais e que tipo de conflitos poderão surgir que possam levar a novas mudanças no mapa europeu. 
E existem muitas incógnitas às quais é difícil responder. 

Uma nova questão colocada leva à reflexão sobre a relação da Rússia com a Turquia que pertence à NATO? 
A relação parece um bocado anti natura. Esta aliança é muito pontual, porque, neste momento, Erdoğan está a aproveitar a Rússia para conseguir determinados objetivos, mas sabe que a Rússia não é aliado, quando se trata da questão da Síria. A Turquia e a Rússia não estão no mesmo lado da barricada, e é por isso que se pode tratar de uma aliança pontual e que não vá dar a tal rutura de modo a originar que a Turquia saia da NATO, o que seria grave… mas, por outro lado, tudo é uma possível. Porque a situação na Síria é tão volátil, a guerra não acabou, há numerosíssimos países com interesses ali, e há também a questão do Irão que ainda não se sabe como vai ser resolvida. 
Eu acredito que será resolvida à semelhança do que aconteceu entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, através de uma reunião entre Trump e o presidente do Irão e depois não dá em nada… 
Por exemplo, a Rússia aproximou-se da Turquia porque a Turquia é um parceiro comercial muito importante e fundamental, principalmente no trânsito do gás pela chamada linha Sul do Cáspio, que passa pela Turquia e entra pelo sul da Europa, daí que neste momento falar em termos de aliança é arriscado… há pontos de contacto e cooperação que a qualquer momento podem mudar.

terça-feira, outubro 29, 2019

Olhar da Rússia para o mundo - 9

Continuação da publicação do texto da minha palestra no EMGFA

Na sequência de uma nova questão é abordada a ambição do senhor Putin, em particular, no desenvolvimento económico-social incapaz de sustentar a evolução pretendida... Aquilo que vemos da Rússia hoje, não será o que já aconteceu com a União Soviética. 
Esta intervenção será sustentável a médio prazo? 
Não. Os políticos geralmente não estudam história, eles recebem dos conselheiros normalmente a história que os conselheiros lhes querem contar porque a Rússia está a cometer precisamente os mesmos erros que cometeu a União Soviética que é ter uma política externa que não se coaduna com o poderio económico. Este, representa apenas 1% da produção mundial, o orçamento militar é 10% do orçamento militar americano, o PIB é equivalente ao de Espanha, a questão da demografia é problemática em comparação com a China… 
Aliás, num artigo que já escrevi sobre este tema, e estou perfeitamente convencido que Putin vai ser “o coveiro da Rússia”, se ele não a levar ao mesmo tempo que ele, não vai demorar muito tempo a que a Rússia siga o mesmo destino, porque apesar de eu não ser Deus, tenho a certeza de que a morte existe, e o reino de Putin algum dia vai acabar, é inevitável! 
E considero que quando esse dia chegar, ele vai deixar uma Rússia Instável e uma Rússia onde existe uma possibilidade real de desintegração. Neste momento o país já se está a partir aos pedaços. A Sibéria e o Extremo Oriente olham para o lado, os russos dessas regiões vão estudar para Tóquio e para Pequim, e esquecem Moscovo, porque Moscovo também se esqueceu deles. 
Daí que receio muito que a Rússia não consiga aguentar este tipo de política que está a realizar em termos internacionais. 
Para mim o período mais interessante para se estudar sobre a Rússia e se compreender a forma da Rússia poder sair deste buraco em que se colocou, é estudar a guerra da Crimeia, em meados do século XIX e ver a politica feita pelo Czar Alexandre II, depois da derrota na guerra da Crimeia, que meteu de lado as aspirações imperialistas e decidiu reorganizar e reformar a Rússia nomeadamente acabando com a servidão da gleba, o que em Portugal desapareceu no século XII/XIII e na Rússia só desapareceu em 1861, para além de reformas jurídicas importantíssimas, que veio abrir fortes perspetivas à Rússia e que só terminaram como terminaram devido à incompetência do último imperador russo e da gente que o cercava.
Continua...

segunda-feira, outubro 07, 2019

Olhar da Rússia para o Mundo - 8

Na sequência de uma questão colocada é abordada a questão da “centralidade da Alemanha” e da política externa da Rússia. 

A questão da Alemanha vai depender muito da evolução da União Europeia. O futuro da União Europeia vai ditar o papel da Alemanha nas relações com a Rússia e mesmo com a própria União Europeia. 
O Brexit é um desastre, e o futuro da União Europeia está por um fio, e se a União Europeia se começa a desintegrar, vamos assistir ao aparecimento de blocos dentro do continente, como já aconteceu no passado e, nesse sentido, podemos até pensar, Berlim-Moscovo um bloco, dando a Rússia à Alemanha o papel principal dentro da sua zona de influência europeia e a Alemanha reconhecendo a Rússia, porque efetivamente neste bloco há grandes interesses económicos, como a questão do gás. Claro que a Alemanha quer que seja acabado de construir o norte stream 2, porque a Alemanha renunciou à energia atómica, e por isso tem grandes necessidades de gás natural e a Rússia vê na Alemanha um forte parceiro em termos de fornecimento de tecnologia, e as empresas alemãs também estão interessadas nisso, claro que agora há sanções e as coisas são mais complicadas. Mas eu penso que as relações entre a Alemanha e a Rússia vão depender, muito, da evolução da própria União Europeia. 
O que vai ser quando a Frente Nacional chegar ao poder em França? …por exemplo ou… O que vai ser com o aumento das chamadas forças de extrema-direita noutros países? 
Tudo isto é que vai ditar o tipo de relações. 
Antes da Crimeia, nós tínhamos as tais relações de que estava tudo a melhorar e cada um, à sua maneira, aproveitava a oportunidade para fazer negócio. No caso da Alemanha havia grandes possibilidades, porque tinha políticos como o senhor Schroden… que ainda ontem veio defender a reintegração da Crimeia, porque é um dos dirigentes da Gazprom, ou seja, a Rússia também tem os seus agendes de influência na Europa. 
Efetivamente para muitas empresas europeias as sanções também prejudicam… e alguns países europeus, nomeadamente a Alemanha, tiveram que deixar de vender tecnologia para a Rússia. 
Ou seja, a Alemanha e a evolução da política externa e das relações com a Rússia irá depender muito da situação da União Europeia. 
Se a União Europeia se desintegrar, nós podemos começar a desenhar todo o tipo de eixos, possíveis e imaginários, que se começarão a formar em todo o continente. Não se sabe se se manterá a NATO, pode ser que se recue até ao ano de 1949 e acaba-se com o projeto europeu, mas mantém-se a NATO.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Olhar da Rússia para o Mundo - 7

Faço um parêntesis para referir uma área muito interessante mas muito complexa que é a Ásia Central… o problema do Afeganistão está por resolver, está por saber se o problema do Afeganistão vai saltar do Afeganistão cá para fora ou não, e se saltar, a área da Ásia Central é uma zona vital para a Rússia do ponto de vista estratégico, e o desenvolvimento da situação na Ásia Central eventualmente, poderá trazer novidades, não só para a Rússia, mas também no norte e nordeste da China e a desestabilização da Ásia Central criaria graves problemas para estes dois países. 
Daí que, eu considero, que devemos estar atentos à política do senhor Putin, mas sermos racionais e pragmáticos. Por exemplo, os russos fornecem gás à Europa, e alguns dizem “a Europa depende dos combustíveis russos, do gás russo”, isso pode ser e não ser verdade: primeiro, os russos constroem e estão a construir em quantidades significativas, gasodutos e oleodutos, e lá dentro tem que correr alguma coisa, e para que lá dentro corra alguma coisa, alguém tem que comprar e se não comprar aquilo enferruja, ou seja, a Europa precisa de gás, mas a Rússia também precisa vender gás. E precisa de outra coisa a Europa, que é diversificar as fontes de fornecimento de combustíveis. Finalmente está a ser construído o gasoduto entre a França e Espanha, que durante muitos anos não havia, e se esse gasoduto existisse em 2009 a crise do gás russo seria muito menor porque o gás podia entrar por Portugal e Espanha e ser transportado por esse gasoduto… que agora vai, finalmente, juntar todos os países da União Europeia. 
Claro que os Estado Unidos querem vender o gás deles, e até lhes desejamos êxitos, porque só se formos “lorpas” é que não aproveitaremos a situação estratégica do porto de Sines. O porto de Sines vai-se transformar num dos portos de entrada do gás liquefeito na Europa e isto para nós é importante e estarmos atentos a estas situações. 
Ou seja, resumindo, considero que em relação à Rússia temos (a União Europeia e a NATO) que ter uma política clara, seria bom se tivéssemos uma política comum, seria ideal, uma política externa e de segurança comum em relação à Rússia, seria muito bom, e falar de igual para igual, aproveitando as fraquezas uns dos outros, nós as deles e eles certamente irão aproveitar as nossas. 
Como sabem os hackers russos são bons, mas computadores não são russos, são ocidentais… nunca vi nenhum computador russo.

terça-feira, agosto 20, 2019

OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO - 6

Palestra proferida no EMGFA (continuação)

A política de dois padrões ou de vários padrões continua a ser a política atual e é ela que funciona. O que temos hoje? 
Putin e Trump, na Cimeira de Osaca do G20, encontraram-se, mas sem qualquer resultado palpável. 
Mas em termos de desarmamento, não se antevê nada de positivo ou a ocorrer será muito pouco, porque o senhor Trump “jogou” uma carta importante em cima da mesa que foi “nós agora de desarmamento não vamos falar a dois, vamos falar a três” e acrescentou a China, e a China responde “mas isso não é nada connosco, nós não fazemos parte desse clube”… e este vai ser outro grande problema se se começar um novo desanuviamento e uma nova etapa de desarmamento. 
Há problemas gravíssimos, a questão da Síria e do Irão que poderão, de um modo ou de outro, fazer mudar bruscamente ou fortemente as relações entre os EUA e a Rússia, mas na minha opinião, penso que vamos continuar a ter tempos de guerra-fria, ou seja, a guerra-fria nunca acabou, só que havia altos e baixos e neste momento estamos numa situação em que a guerra-fria está a subir de tom. 
Em relação à Europa e à Rússia, tendo em conta que a Europa faz parte da NATO, e esperamos que a NATO esteja atenta ao que se passa à sua volta, acho que chegou a hora de existir uma coordenação muito maior entre as Forças Armadas dos países europeus, não de Forças Armadas únicas mas quase de… ou seja, a Europa tem que estar pronta a enfrentar determinados desafios e a ter uma politica de defesa e de segurança, própria. 
Em conversa com o senhor Almirante, antes de entrarmos, foi abordada uma questão/problema que a meu ver é fundamental, que é… há muita gente que não entende porque é que os Polacos, os Estónios ou os Lituanos, ficam aterrorizados com a Rússia… não entendem porque não leem a História, porque se lessem, entendiam rapidamente, se a Europa não entender estes povos e não for ao encontro deles, estes povos vão diretamente aos Estados Unidos, como faz agora a Polónia e dizem “mandem mais gente para cá”… Porque a senhora Merkel até pode dizer, ela sabe muito bem russo, conhece muito bem os russos, conhece o senhor Putin… - eu conheço bem os russos e falo bem russo, mas não conheço o senhor Putin só o vi ao longe, mas posso dizer que estou de acordo com a senhora Merkel ao dizer que os russos são pessoas simpáticas, são simpatiquíssimas, não há dúvida absolutamente nenhuma-, mas isso não é política externa. 
A política externa é uma coisa muito mais complicada, a política externa tem uma carga histórica enormíssima, daí que nós temos que dar aos nossos amigos da Europa de Leste garantias de que não vamos fazer acordos abstractos, sem a intenção de os cumprir… 
Outra coisa muito importante é que só prestamos atenção quando a casa já está a arder, quando já funcionam as formas de influência que a Rússia leva a cabo para atingir os seus objetivos no estrangeiro. 
Estimados, nós já sabemos há muito tempo, não é segredo para ninguém, que a União Soviética fazia, e a Rússia continua a fazer, como faz qualquer potência que tenha interesses: comprar pessoas, infiltrar agentes, minar o território do potencial adversário. 
Por exemplo, agora há pouco tempo veio-se a saber que a filha do porta voz de Putin, trabalhava como secretária de uma deputada do Parlamento Europeu da extrema direita francesa, e que tinha acesso a documentos classificados. 
Ora, estimados amigos, depois disto, só apetece rir… isto são coisas elementares. Dou-vos outro exemplo… se Inglaterra não fosse tão invejosa quando entrava o dinheiro sujo dos oligarcas russos, e não foi investigar mortes estranhas em Inglaterra, nomeadamente, de alguns oligarcas russos, que até se conseguiram “matar” a si próprios sozinhos com um cinto, quando acordou com Skripal (o espião russo que foi envenenado no Reino Unido), já a casa estava a arder… não sabemos se vão levar a investigação até ao fim das consequências ou se vão considerar que é um acontecimento passageiro e que vai passar e vai voltar tudo ao normal, como acontece maioritariamente… 
Ou seja, nós estamos efetivamente perante uma política externa revisionista com interesses claros na zona da antiga influência Soviética.

domingo, agosto 11, 2019

Olhar da Rússia para o mundo - 5

Palestra no EMGFA (continuação)

Assim estamos a assistir à Rússia com uma nova política Africana, que nas palavras de Putin significa que “desta vez a política africana tem que dar dinheiro”, não será como as políticas da União Soviética que exportavam aquelas maquinetas que não funcionavam em África e construíram umas centrais hidroelétricas, mas fundamentalmente o que enviavam eram armas. Hoje a Rússia tem uma política diferente. A Rússia tenta entrar nos países onde são extraídos metais ou matérias primas que concorrem com a Rússia no mercado internacional. Diamantes em Angola, ou ouro no Zimbabué ou outros metais. Na República Centro-Africana, também existe essa política. Na Líbia, o petróleo porque a Rússia tem fortes interesses no petróleo líbio, e por isso a Rússia tenta ocupar estes lugares deixados vagos, pelo Ocidente, principalmente em situações de conflito, onde há guerras entre numerosos grupos e tenta, dessa forma, entrar e mexer-se para garantir alguns dos seus interesses. 
Se falarmos da América Latina, temos dois vectores contraditórios. 
Por um lado, a Venezuela, onde a Rússia tem grandes interesses e de onde só sairá se esses interesses ficarem seriamente guardados e garantidos, porque a Rússia já está farta de assinar papeis, sem efeitos práticos. Neste caso, julgo que não se trata de a Rússia pôr em causa a influência de Monroe ou pôr em causa a influência Norte Americana na América Latina, mas sim uma forma de a Rússia ganhar força para discutir questões noutros lugares, nomeadamente na Ucrânia ou em outras zonas da antiga União Soviética. 
Quero chamar a atenção para um acontecimento ocorrido há poucos dias… Por incrível que pareça os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia, na pequena Moldávia, conseguiram chegar a acordo e fazer um milagre… conseguiram destituir os corruptos que lá estavam no poder e restabelecer o regime democrático naquele país. Claro que a Moldávia é um país pequenino, é um país muito pobre, mas isto é um bom sinal! É sinal que nem sempre é obrigatório estarmos todos em conflito, tanto mais em zonas sensíveis, tanto para a Rússia como para a NATO, como é a Moldávia, que é junto à Roménia, que tem uma série de problemas complicados... 

Na América Latina, temos a questão do Brasil, porque o senhor Bolsonaro não promete nada de bom em relação ao projeto dos BRICS. Alguns apresentaram o projeto dos BRICS como o aparecimento de uma daquelas super-organizações, que agora é que vai ser, que os Estados Unidos vão ficar para trás, mas ao que tudo indica, o senhor Bolsonaro não está muito disposto a prejudicar as suas relações com o Trump em nome da integração nos BRICS. Por isso, neste momento, o projeto é uma organização que está congelada, ou seja, existe, mas não funciona de forma visível e ativa. 
Quanto à relação com os Estados Unidos e com a Europa, aqui as questões são complicadas porque muito vai depender da política de Donald Trump em relação à Rússia, à Europa e a outros países. Se esta política que ele tenta, pelo menos publicamente mostrar, que a política internacional para ele é uma espécie de grande empresa em que ele é o sócio maioritário, e que está disposto a falar com os outros sócios e a assinar acordos com eles, mas nas condições dele. Se assim é, e parece que foi o que aconteceu com o México, ele conseguiu pelo menos aparentemente ganhar a batalha com o México, se conseguir chegar a um acordo com a China, isso será de extrema importância porque permitirá ao Senhor Trump continuar, ou não, com essa política. 
Os russos estão extremamente preocupados com esse eventual acordo… Na minha opinião, os russos já se arrependeram de ter apoiado e se congratulado com a eleição de Donald Trump, porque as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, neste momento, não podiam estar piores do que o que estão. 
Não poderão ficar melhor, no próximo ano, se acabarem com o último Tratado do período de desanuviamento, que é o tratado de limitação dos mísseis de longo e médio alcance. Se os Estados Unidos e a Rússia saírem desse acordo, o mundo ficará sem qualquer tipo de acordo nesse campo. 
Com o Direito Internacional que hoje temos, e a forma como é cumprido, não sei se os acordos têm alguma validade… porque, hoje, o Direito Internacional só serve quando é aceite por “alguém”. E recordando tempos mais atrás, a Rússia não teve problema em esmagar completamente a resistência nacionalista da Tchetchénia, defendendo a sua integridade territorial… Mas, agora, acha que a Ucrânia não tem direito a fazer o mesmo, e isto dá origem a que muita gente acredite que o senhor Putin é a salvação, é um anti-imperialista que trouxe às relações internacionais uma nova etapa…

(continua)

quarta-feira, julho 31, 2019

OLHAR DA RÚSSIA PARA O MUNDO -4

O Báltico não faz parte dos planos russos, em termos de zona de influência, por enquanto, e não faz porque o Báltico já faz parte da NATO. 
E a partir dessa altura os russos, as Forças Armadas russas, que sofreram um longo processo de modernização realizado por Putin, e de rearmamento, apesar de não ser totalmente convincente a existência dos mísseis invisíveis, a verdade é que as Forças Armadas russas são, hoje, incomparavelmente mais fortes que as Forças Armadas russas de há 10 ou até 20 anos atrás. 
Nesta situação, a Rússia viu-se debaixo de sanções. Na minha opinião, se essas sanções duríssimas, tivessem sido tomadas em 2008, nós talvez não estivéssemos agora a falar da invasão da Crimeia, mas como na História não há lugar a Ses, o que está feito, está feito. 
Com consciência desta capacidade (mais fortes que há 10 ou até 20 anos atrás) a Rússia começa a tentar entrar nos pontos mais vulneráveis em termos internacionais, e a aproveitar-se das contradições entre os Estados Unidos e a Europa, ou entre os Estados Unidos a Europa e outros aliados em termos locais, para fazer uma nova política internacional. Nova para os russos. 
Antes de continuar quero realçar algumas questões importantes, uma questão sobre o Extremo Oriente, o Japão vai-se manter a ver as quatro ilhas Curilhas por um canudo, porque apesar dos russos terem andado muito tempo a “vender” ao Japão a ideia de que até poderia chegar a um acordo, a verdade é que não vai haver acordo nenhum ali, porque a Rússia não vai ceder nada ao Japão; a questão da Coreia do Norte e do Sul, que é uma questão que tem muita importância na diplomacia Russa, porque como sabemos a Rússia tem fronteira com a Coreia do Norte e é uma fronteira vital, até para a própria Coreia do Norte. A questão é que todos dizem que querem a reunificação da Coreia, mas a verdade é que há poucos os que realmente querem a reunificação da Coreia… Claro que a Rússia é daqueles que não quer a reunificação da Coreia, a China também não, e o Japão “idem, idem, aspas, aspas”. 
Ou seja, na reunificação da Coreia estarão interessados os EUA e a própria Coreia do Sul. De resto ninguém quer ver uma Coreia poderosa, ao nível de que se acontecer alguma coisa, certamente ninguém quer que aconteça na Coreia o que aconteceu na Alemanha, ou seja, quem vence é a República Federal Alemã e nunca a República Democrática Alemã, porque são duas economias completamente desequilibradas e não havia possibilidade de equidade, e na Coreia também não há, não pode haver uma integração entre iguais. 
Aliás, pessoalmente até gostaria de assistir a essa “matrioska”, mas já não deve acontecer “nos meus dias”, que é colar o socialismo coreano com o capitalismo coreano, que deveria ser um acontecimento histórico absolutamente impressionante. 
Depois, naquela zona temos a famosa, nos dias de hoje, “aliança” entre a Rússia e a China, o que considero ser uma espécie de “história da carochinha”, e assim o é porque se for uma aliança é uma aliança entre uma potencia gigantesca do ponto de vista económico e militar, e uma potencia militar com pés de barro, que não é potencia económica, não pode haver uma aliança igual entre a Rússia e a China. Claro que a China pode utilizar o trunfo da aliança com a Rússia nas suas relações com os Estados Unidos, o que é normal, mas se Donald Trump tiver a capacidade de chegar a um acordo com a China, esta não vai fazer nenhuma aliança com a Rússia, tendo em conta os interesses norte-americanos na China e os interesses chineses na América do Norte. Essa aliança poderá, eventualmente, ter lugar se se comportarem com a China de tal forma que os chineses fiquem encurralados. Há acordos pontuais entre Moscovo e Pequim. A China tem garantido por parte da Rússia combustíveis e, mais tarde, poderá tê-los até a preços mais favoráveis, quando os gasodutos estiverem construídos e o gás começar a correr para a China, esta terá alguma capacidade de ditar à Rússia o preço do combustível que compra.
(Continua)