sábado, janeiro 31, 2015

Rússia reconhece que tem militares seus a combater na Ucrânia? Elogio dos serviços secretos russos...





Embora de forma estranha, o Kremlin acaba por reconhecer que militares seus combatem ao lado dos separatistas no Leste da Ucrânia.
A cidadã russa, Svetlana Davidova, mãe de sete crianças, a mais nova das quais tem dois meses, foi detida pelo Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, antigo KGB) e acusada de traição à pátria, podendo incorrer numa pena de prisão de 12 a 20 anos.
Segundo os serviços secretos russos, Svetlana telefonou à embaixada da Ucrânia em Moscovo para informar que unidades militares aquarteladas em Viazma, terra onde ela vive, estavam a ser enviadas para combater no Leste da Ucrânia. A senhora teria recolhido essa informação enquanto seguia de autocarro e ouviu ocasionalmente uma conversa telefónica de um homem com aspecto de militar.
Ora, em conformidade com o artigo 275 do Código Penal da Rússia, “traição da pátria” é a transmissão de dados secretos a um estado estrangeiro. Ao acusar a mulher desse crime, o FSB confirmou que as tropas russas combatem na Ucrânia.
Além disso, os serviços secretos russos estão muito atentos pelo menos aos telefonemas que os cidadãos russos fazem para a representação diplomática ucraniana na capital russa.
A chamada de Svetlana para a embaixada da Ucrânia teria sido feito, em Abril de 2014, mas o FSB só a veio prender no passado 21 de Janeiro.
Organizações não governamentais russas têm denunciado numerosos casos de soldados russos que morreram em combate no Leste da Ucrânia e que são sepultados quase clandestinamente no seu país.
As autoridades de Moscovo desmentem a presença de militares russos no país vizinho, bem como o fornecimento de armas aos separatistas, declarações cada vez mais postas em causa pelo facto de os separatistas empregarem nos combates equipamentos militares mais modernos do que aqueles de que dispõem as forças armadas ucranianas.
Aquando da anexação da Crimeia pela Rússia, o Presidente Vladimir Putin jurava que não tinha enviado tropas especiais e que os “homenzinhos verdes” armados até aos dentes não passavam de membros de grupos de autodefesa dos russófonos. Depois, Moscovo acabou por reconhecer que se tratava de soldados de tropas especiais russas.
A detenção de Svetlana Davidova parece estar ligada à campanha de pressão psicológica sobre a opinião pública russa, semelhante às “caças aos espiões” lançadas na era do ditador comunista José Estaline.
A psicose aumenta à medida que a situação económica na Rússia se vai deteriorando. A fim de impedir a organização de manifestações de protesto contra a política de Vladimir Putin, os órgãos de informação controlados pelo Kremlin não se cansam de acusar o Ocidente e dos seus agentes na Rússia de serem culpados das dificuldades que o país enfrenta.








quinta-feira, janeiro 29, 2015

Heróis infantis russos evitam “subjugação” do povo russo



A associação de motoqueiros russos “Lobos Nocturnos”, dirigida por Alexandre Zolostanov, amigo do Presidente Putin, decidiu recorrer à ajuda dos heróis dos contos infantis russos para derrotar os inimigos ocidentais e “libertar” a Crimeia.
Num espectáculo organizado para os filhos de famílias numerosas russas e dos ucranianos que procuram refúgio em Moscovo, três personagens más: NAT (NATO), NEG (Negócio) e a Estrela Estrangeira (que faz lembrar a Estátua da Liberdade em Nova Iorque) querem subjugar o povo russo, roubam a chave do tempo para reescrever a história de 2014 e impedir a reunificação da Crimeia e da Rússia. Porém, esse plano é travado por heróis dos contos tradicionais russos: Pai Gelo, Branca da Neve e os “três gigantes”, bem como pelos “lobos nocturnos”. 
“O principal no conto é que os seus heróis vencem na vida real. Os heróis dos nossos contos lutaram por Sevastopol [cidade da Crimeia] duram seis anos e venceram. E, este ano, o conto é triunfal: até o Koschei Imortal [personagem negativa nos contos russos] se junta às forças do bem, defende a sua terra, as suas raízes, a sua história e combate contra o inimigo comum da Rússia”, frisou Zolostanov, citado pela agência de propaganda russa Ria-Novosti.
Zolostanov e o seu clube “Lobos Nocturnos” tornaram-se conhecidos depois do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, ter desfilado com eles, montado numa moto de quatro rodas em Sevastopol, em Julho de 2012, quando essa cidade e a Crimeia ainda faziam parte da Ucrânia.
Os dirigentes russos esforçam-se por justificar a invasão do Estado vizinho com os mais diversos argumentos. Por exemplo, Valentina Matvienko, dirigente da Câmara Alta do Parlamento russo, comparou, na quarta-feira, a anexação da Crimeia ao Baptismo da Rússia, contrapondo à decadência ocidental a espiritualidade russa.
“Nós vemos como, no caso da crise da Ucrânia, em muitos dos acontecimentos na Europa Ocidental conceitos do bem são substituídos pelo mal, são postos em causas os principais fundamentos morais e tradicionais da família, aumenta a intolerância religiosa. Só o suporte na nossa espiritualidade e na nossa experiência histórica nos ajudarão a superar esses desafios, esse ataque”, afirmou ela.
A Rússia assiste a uma revisão da sua história não menos profunda do que aquela que ocorreu depois da revolução comunista de 1917 e só pode existir uma versão e interpretação dela, a escolhida pelo Kremlin. Quem se desviar da “linha mestre” é traidor, passa a fazer parte da “quinta coluna”. A discussão em torno do filme “Leviatã”, nomeado para um “Oscar”, é prova disso. O ministro da Cultura da Rússia, Vladimir Medinsky, considera tratar-se de uma imagem deturpada e negra do país, mas, como diz a sabedoria popular russa, “não acuses o espelho se tens a cara torta”. 

quarta-feira, janeiro 28, 2015

O cúmulo do cinismo


Serguei Narichkin, presidente da Duma Estatal da Rússia, encarregou o Comité para Assuntos Internacionais da câmara baixa do Parlamento de estudar a possibilidade da aprovação de um documento que condene a reunificação da Alemanha em 1989-1990.

Segundo ele, a Alemanha Ocidental anexou a Oriental, pois não foi feito referendo!
Claro que Narichkin não disse que a reunificação se realizou depois da vitória da Aliança pela Alemanha nas últimas eleições realizadas na RDA e que o principal ponto no programa eleitoral desse partido era precisamente a reunificação do país.
Pelos vistos, no Kremlin vale tudo para justificar o seu acto de agressão em relação ao país vizinho.
Na Ucrânia, os parlamentares parece também não pensarem muito antes de tomar decisões. Ontem, aprovaram um documento onde se afirma que a Rússia é um “país agressor” e que os separatistas são “terroristas”. As afirmações até podem ser verdadeiras, mas, neste momento, apenas dificultam a solução do conflito no Leste e Sul da Ucrânia, pois vai ser muito mais difícil o diálogo entre o governo de Kiev e os “terroristas”.

Não haveria grande problema se os combates ocorressem ao nível das palavras, mas eles têm lugar na realidade, alargam-se a novas regiões e matam e ferem milhares de civis. Por isso, parece mesmo que caminhamos para um guerra de grandes dimensões no centro da Europa, mas os europeus parecem distraídos ou demasiadamente concentrados na Grécia. Temos de acordar e rápido, todos, europeus, russos, etc.

terça-feira, janeiro 27, 2015

A propósito da libertação de Auschwitz

Hoje, faz 70 anos que as tropas soviéticas, sublinho, os soldados soviéticos das mais diversas nacionalidades, libertaram os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, uma das maiores máquinas de extermínio dos judeus criadas pelos nazis alemães.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Grzegorz Juliusz Schetyna, declarou, na semana passada, que: "talvez seja melhor dizer que foram a Primeira Frente Ucraniana e os ucranianos que libertaram o campo de concentração. Porque foram precisamente os ucranianos que, nesses dias de Janeiro abriram os portões e libertaram o campo de concentração".
Claro que estas declarações pecam por crassa ignorância ou deturpação consciente da história da Segunda Guerra Mundial. É verdade que os presos de Auschwitz foram libertados pela Primeira Frente Ucraniana, mas este era formada por soldados de dezenas de nacionalidades. 
Não obstante a evidência do erro, Schetyna insiste, sublinhando que o primeiro a derrubar os portões do campo da morte foi o tanquista ucraniano Igor Pobirtchenko. Sim, mas os libertadores foram os soldados soviéticos e ninguém se deve esquecer disto. Se alguém tem de ajustar contas com Estaline ou o regime comunista, que as faça (e os polacos, tais como outros povos do Leste da Europa têm muitas razões para isso), mas isso não pode ser motivo para reescrever a história.
Tendo como pano de fundo a invasão da Ucrânia pelas tropas russas, o Kremlin ficou indignado com as declarações do ministro polaco e respondeu de uma forma no mínimo curiosa: tornar públicos documentos secretos relativos à libertação do campo de concentração. 
E que documentos? O Ministério da Defesa da Rússia publicou hoje, por exemplo, informações do comando da Primeira Frente da Ucrânia sobre esses acontecimentos, bem como relatórios de jornalistas do Pravda e Komsomolskaia Pravda sobre as primeiras impressões deles quando entraram em Auschwitz.
Além disso, e cito a página do mesmo ministério "relatos fidedignos sobre como os polacos receberam com alegria e admiração os combatentes do Exército Vermelho nos territórios libertados, considerando-os sinceramente seus libertadores e salvadores do jugo hitleriano".
Coloca-se aqui uma pergunta importante: que segredos contêm os documentos publicados para terem sido guardados a sete chaves durante 70 anos? Eu, enquanto pessoa, historiador e jornalista, não compreendo, mas já estou habituado a que tudo na URSS e na Rússia de hoje é secreto. 
Já se sabia que, na sua maioria, os povos da Europa de Leste que foram libertados pelo Exército Vermelho viram nos seus soldados os salvadores, libertadores. E isto é indiscutível.
História diferente é que Estaline, depois, transformou esse exército numa força de ocupação, e isto também deve ser estudado e dito. Como se deve dizer também que muitos dos prisioneiros soviéticos de campos de concentração nazis, logo a seguir à libertação, foram enviados para o GULAG soviético, porque não deviam ter sobrevivido aos horrores nazis.
E só mais uma nota. Vladimir Putin decidiu convidar, entre outros, o ditador da Coreia do Norte para participar nas comemorações da vitória da URSS na Grande Guerra Pátria (1941-1945) a 9 de Maio. Pergunto: quem quererá ficar ao lado do líder supremo Jim Jong-un? Será este o melhor representante do povo coreano que lutou contra a agressão nipónica ou estamos perante mais uma birra de Putin: quero, mando e posso?





sábado, janeiro 24, 2015

Neo-nazis brasileiros combatem ao lado de separatistas russos na Ucrânia


                                             Rafael Lusvarghi, o "cossaco" brasileiro



Neo-nazis brasileiros combatem no Leste da Ucrânia, mas de que lado? Aqui fica a minha investigação no Observador: 
http://observador.pt/opiniao/quem-combate-ao-lado-dos-separatistas-russos-na-ucrania/ 

Separatistas pró-russos lançam ofensiva contra Mariupol


Na foto: o embaixador da morte do Kremlin no Leste da Ucrânia. 

Em Mariupol, cidade do Sul da Ucrânia, um ataque de artilharia, matou pelo menos 21 pessoas e 86 ficaram feridas. Dneis Puchilin, vice-presidente do Parlamento da região separatista de Donetsk, veio outra vez com a história de que o ataque foi feito pelas tropas ucranianas como "mais uma provocação", mas Alexandre Zakhartchenko, dirigente dessa mesma "república", acaba de afirmar (cita pela agência de propaganda do Kremlin Ria-Novosti) que afinal os separatistas pró-russos "lançaram uma ofensiva contra Mariupol". 
Os separatistas pró-russos estão a utilizar artilharia pesada, dezenas de tanques e o Kremlin continua a afirmar que não está envolvido, nem tem nada a ver com o conflito. Volta a colocar-se a pergunta: onde é que os separatistas compram material de guerra tão sofisticado? 
Claro que alguns virão dizer que se trata de material capturado às tropas ucranianas, mas não queiram fazer de todos nós estúpidos. Repito, os separatistas combatem porque o Kremlin quer, o resto é propaganda.
O deputado russo Konstantin Kosatchov, dirigente do Comité de Assuntos Internacionais da Duma da Rússia, já veio dizer que a Rússia não abandonará os habitantes da Transdnístria, enclave separatista pró-russo na Moldávia. Basta olhar para o mapa para compreender que o objectivo de Vladimir Putin é separar da Ucrânia os territórios que permitirão à Rússia ter um corredor terrestre com a Crimeia e a Transdnistria. 

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Leviatã, filme que continua as melhores tradições intelectuais russas


De forma geral, gosto de me deitar cedo, principalmente no Inverno, mas, ontem, deitei-me às 3 horas  da manhã. Podem não acreditar, mas era grande o desejo de ver o filme "Leviatã", que tem feito correr tanta tinta na Rússia. Uma amiga de Novossibirsk, terra-natal do realizador Zvyaguintsev, enviou-me uma cópia e foi só preciso carregar no teclado do computador.
Pode-se gostar ou não do filme, mas eu considero-o essencial para compreender determinados aspectos da vida na chamada "Rússia profunda". Trata-se de uma obra que vale mais do que muitas análises feitas sobre este país por académicos que não sabem russo, nem estiveram na Rússia o tempo suficiente para compreendê-la.
Não vou contar o enredo, mas apenas digo que um homem simples tenta defender a sua casa dos projectos megalómanos do dirigente de uma localidade algures no Norte da Rússia. Muita vodka, palavrões em farta quantidade, corrupção total dos órgãos do poder, bispos ortodoxos vendidos, bandidos, traições passionais...
Ora foi disto que os "patriotas russos", incluindo o ministro da Cultura, Vladimir Medinski, não gostaram e apressaram-se a acusar o realizador de denegrir a Rússia, a Igreja Ortodoxa, o regime do Presidente Putin, cujo retrato pendurado na parede do gabinete do dirigente local lança um ar sério. E, como não podia deixar de ser, "conjuntural" para ganhar o "Oscar", etc., etc.
Depois de ter visto e filme e tendo em conta as minhas andanças pela província russa, principalmente ligadas ao destino da menina Alexandra Zarubina, posso constatar que "Leviatã" é um retrato feio, cruel, duro, mas verdadeiro de grande parte da Rússia. Aqui incluo Moscovo, embora na capital as coisas tenham dimensões maiores e os acontecimentos aconteçam em ambientes "mais higiénicos".  
O realismo do filme é a principal causa do ódio dos "patriotas" para com ele. Estes querem mostrar uma Rússia que não existe: religiosa, sem corrupção, com dirigentes devotados à causa pública e um povo feliz, que pode beber vodka, mas em doses moderadas e de felicidade. Estes "patriotas" que tentam provar que na Rússia existe a "espiritualidade" perdida no Ocidente, que conserva a Ortodoxia, que o Catolicismo e o Protestantismo deixaram afundar na heresia, etc.
Mas, como diz um provérbio russo, "não se queixe do espelho aquele que tem a cara torta". É doloroso para qualquer povo reconhecer que vive num país onde reina a corrupção, onde dirigem líderes incompetentes, onde a justiça não passa de uma prostituta porca e barata e onde o poder do dinheiro, da riqueza é absoluto. (Isto não diz apenas respeito à Rússia, mas também ao meu país: Portugal, e a muitos outros).
Claro que nas estruturas do Poder, da Justiça, da Igreja há pessoas honestas, sinceras, mas não são elas que, actualmente, dirigem os destinos do mundo.  
Este não é o primeiro filme de Zvyaguintsev, já deu provas noutras fitas como "Regresso" que é um grande realizador, continuador das melhores tradições do cinema soviético e russo. Depois de ver o filme, cheguei à conclusão de que Zvyaguintsev continua a nobre tarefa iniciada pelos clássicos da literatura russa: Tchekhov, Tolstoi, etc., de defesa do "homem simples", desprotegido e quase sempre esmagado pelos poderosos.
Poderão acusar Zvyaguintsev de pessimismo excessivo, pois o filme termina com a condenação do herói a uma pena de 15 anos de prisão de alta segurança. Eu olho para o fim da película de forma diferente: talvez ele tenha uma nova oportunidade depois de sair da prisão. No fim de contas, nada é eterno neste mundo.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Algumas explicações sobre a Crimeia



Nos últimos dias, tenho recebido algumas mensagens que me chamam a atenção para a “tontice” de eu considerar que um dos objectivos da Rússia no conflito no Leste da Ucrânia é conseguir um corredor terrestre que a ligue à Península da Crimeia. Com mais ou menos insultos pelo meio, mandam-me olhar para o mapa e notam que a Rússia, na região de Krasnodar, está separada da Crimeia apenas por “4,5 quilómetros de mar”.
Não tenho nada contra as críticas, principalmente quando são feitas de forma correcta, mas os insultos merecem resposta, tanto mais quando são fruto da ignorância.
Realmente, é verdade que a Crimeia não fica muito longe da Rússia do ponto de vista geográfico, mas o problema é que a distância geográfica é insuficiente para explicar todas as dificuldades dessa ligação. É preciso ter em conta os sérios problemas logísticos.
Neste momento, a Crimeia está ligada à Rússia por via aérea e por um sistema de ferry-boats que estão longe de satisfazer todas as necessidades da península. São frequentes as longas filas de automóveis e de passageiros, pois basta que a ondulação no mar seja um pouco mais intensa para obrigar os ferry-boats a não saírem dos portos.
Além disso, é conhecido o facto de a Crimeia necessitar de fornecimentos externos de água. Esta península não utiliza todas as potencialidades agrícolas precisamente por causa da falta desse bem essencial. Até à anexação desse território pela Rússia, o problema era resolvido porque a Ucrânia desviava parte do caudal do Dniepre, através de um canal, para fornecer água à península. Mesmo assim, nos anos mais quentes, o problema com o abastecimento de água fazia-se sentir com alguma agudeza.
A Crimeia precisa também de importar praticamente 100% da energia eléctrica que consome. (Há uma empresa portuguesa que construiu moinhos de vento na Crimeia, mas a produção é insignificante).
A electricidade pode ser fornecida pela Rússia, mas as linhas eléctricas terão de passar obrigatoriamente pelo território ucraniano e, por conseguinte, os habitantes da península só poderão receber electricidade com a autorização de Kiev.
Podem dizer-me que a Rússia poderá resolver esses problemas sem necessitar de ocupar ou de apoiar os separatistas a conquistar um corredor terrestre com a Crimeia, mas para isso são necessários vários anos.
Ainda não saiu do processo de discussão a necessidade de construir uma ponte rodoviária e ferroviária entre a Rússia e a Crimeia. Segundo o projecto mais provável, essa ligação, nada fácil do ponto de vista da engenharia, deverá ter um comprimento de 19,5 quilómetros. Esta obra não será barata e, na actual situação económica da Rússia, exigirá grandes esforços financeiros.
Poderão ser também instalados cabos de alta tensão entre a Rússia e a Crimeia através do mar, mas trata-se de mais uma obra dispendiosa. Quanto à água, aí a única forma de solucionar o problema é mesmo a normalização de relações entre a Rússia e a Ucrânia.

Resumindo, a manutenção da Crimeia no seio da Rússia constitui um fardo muito pesado para a já fraca economia russa. Se Moscovo se tivesse ficado pela anexação da península, o Ocidente já estaria resignado, mas o Kremlin decidiu esticar ainda mais a corda...

Russos e chineses – irmãos para sempre?



Na era de Estaline e Mao foi lançada a palavra de ordem “russos e chineses – irmãos para sempre” e Moscovo tenta apresentar uma aliança sino-russa como uma panaceia contra o seu isolamento face ao Ocidente, não obstante o utopismo da ideia.
Efectivamente é verdade que, nos últimos anos, as trocas comerciais e os contactos políticos entre Moscovo e Pequim têm registado avanços significativos. Por exemplo, segundo a agência noticiosa russa TASS, entre 2000 e 2013, o comércio bilateral conheceu um aumento de mais de dez vezes, crescendo de 8 para 89,2 mil milhões de dólares.
Além disso, e principalmente depois do início das sanções ocidentais contra a Rússia devido à anexação da Crimeia por ela e ao apoio dos separatistas pró-russos no Leste da Ucrânia, o Kremlin assinou com Pequim uma série de acordos que pretendem mostrar que a Rússia se pode dar ao luxo de virar as costas ao Ocidente e irar para o Oriente. O mais relevante prevê o fornecimento de 38 mil milhões de metros cúbicos de gás russo à China durante 30 anos.
Porém, nem todos os analistas políticos e economistas russos embarcam nessa euforia, sublinhando que esses projectos dificilmente poderão ser realizados e, se o forem, poderão colocar a Rússia numa total dependência da China.
O combustível será transportado por um novo gasoduto “Força da Sibéria”, cuja construção, que será financiada pela Rússia, irá custar 55 mil milhões de dólares e, tendo em conta a instabilidade nos mercados internacionais de hidrocarbonetos, é difícil prever a que preço esse gás será vendido em 2018, ano em que se prevê o início dos fornecimentos.
Outro dos grandes projectos é a substituição do dólar pelas moedas nacionais no comércio bilateral.
As contas em moedas nacionais, em todo o caso entre parceiros como a China e a Rússia, são uma direcção com muita perspetiva na nossa interacção. Isso permite alargar as nossas possibilidades no comércio bilateral e incluir subatancialmente nos mercados mundiais: financeiro e energético”, declarou Vladimir Putin , em Novembro do ano passado, depois de um encontro com o seu homólogo chinês. Porém, a brusca desvalorização do rublo russo que se seguiu atirou por terra, pelo menos nos tempos mais próximos, essa ideia. Segundo a agência chinesa Xinhua (21.10.14), a queda do rublo cria riscos para a economia chinesa pois as reservas do Banco Central da Rússia são insuficientes para cobrir as dívidas russas e as perspectivas da própria economia russa estão longe de ser optimistas.
Além disso, não se pode deixar de salientar que a Rússia e a China nem sempre têm interesses coincidentes na política externa. Por isso, Pequim iniciou o projecto de criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestruturas, medida que provoca desconfiança em Moscovo, não obstante necessitar de grandes investimentos na criação ou renovação das suas infraestruturas.
Um dos objectivos é a criação de uma nova “Rota da Seda”, ou seja, a formação de uma zona económica que engloba a China, Ásia Central e a Europa. Até à anexação da Crimeia, a Rússia não tinha lugar nesse plano, mas apenas alguns portos dessa península estavam nele presentes. Como esse novo projecto engloba países como o Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, Moscovo receia que a rota se transforme numa concorrente da União Alfandegária, nomeadamente na Ásia Central. Quanto aos portos da Crimeia, os chineses encontrarão certamente alternativas.
E não nos podemos esquecer que alianças sólidas só podem ser concluídas em pé de igualdade se entre os Estados membros não existirem grandes diferenças no desenvolvimento económico e influência internacional real. No caso, é de salientar que o PIB da China é cinco vezes superior ao russo e que o crescimento económico anual deste país é ainda maior do que o da Rússia.
Queimamos pontos nas relações com o Ocidente e, por outro lado, começamos relações diversas com a China em ramos estratégicos. Não gostaria que a Rússia nas relações com a China se transformasse numa potência profundamente dependente do financiamento, dos créditos e do sistema de pagamento chineses, que ceda posições estratégicas fulcrais às empresas chinesas. A África fez isso, mas eu não quero viver em África”, considera Vladimir Milov, presidente do Instituto de Política Energética.
Como é sabido da história, o Império do Meio nunca foi muito dado a acordos de amizade e cooperação eternos, e o caso da “eterna amizade” entre a China maoista e a URSS estalinista terminou logo após a morte do ditador soviético José Estaline com uma guerra por fronteiras entre os dois “países socialistas irmãos”. Pequim é conhecido pelo seu pragmatismo nas relações internacionais, que não deixa qualquer espaço ao sentimento. Por isso, a Rússia é para a China um dos muitos instrumentos que poderão ser aproveitados na disputa com os Estados Unidos e que pode ser sacrificado se os interesses supremos chineses assim o exigirem.

Se Vladimir Putin não encontrar forma de retirar o seu país do beco em que o meteu com a sua política externa e a Rússia continuar na queda económica, os chineses poderão lembrar-se dos velhos mapas onde as fronteiras eram muito mais favoráveis ao Império Celeste.