segunda-feira, agosto 07, 2017

Putin já está preocupado com o funeral?







Dizem que o regime político russo é um regime presidencialista tão centralizado que é difícil compreender como é que ele consegue dirigir a Rússia e ainda ter tempo para nadar, pescar e dormir.

Desta vez, o dirigente russo, reza o jornal Kommersant, decidiu pôr ordem no sector funerário, onde - e parece que não só na Rússia - tem uma forte vertente mafiosa. As autoridades russas calculam que, na economia paralela ligada aos funerais, circulam de 120 a 150 mil milhões de rublos (qualquer coisa como 18 a 20  milhões de euros)

Segundo o dito diário, o Presidente considera que não existem padrões únicos, as leis são caducas e há descoordenação na actividade dos órgãos do poder.

Actualmente, o subsídio pago pelo Estado para um funeral é de cerca de 100 euros. E as formas de ajuda na hora da despedida não são iguais em todas as regiões da Rússia. A direcção de controlo da Administração do Presidente russo constata: “na República dos Komi, nos distritos de Syktyvkar, Sosnogorsk e Ukhta, [as autoridades locais] dão um caixão de madeira sem forro de tecido, enquanto que nas regiões de Priluzki e Ust-Kulomskii dão um caixão de madeira forrado de tecido”.

Claro que iniciativas destas deviam partir do governo ou do primeiro-ministro Dmitri Medvedev, mas este é notícia cada vez mais raramente.

Isto tem uma explicação. Segundo a maioria dos analistas, Vladimir Putin voltará a ser reeleito Presidente nas próximas eleições de Março de 2018 [antecipadas para coincidirem com a data da ocupação da Crimeia pelas tropas russas], mas é preciso excluir surpresas, por isso esta "preocupação permanente" pelo povo.

Mas, por outro lado, os anos vão passando e os cidadãos da Federação da Rússia devem ver que o tempo e a intensa actividade presidencial não deixam sequer marcas na preparação física do Presidente Putin. Por isso, é necessário renovar as imagens do “macho eslavo” à pesca em tronco nu ou os mergulhos nas frias águas da Sibéria para pescar lúcios e outros peixes de pequena e média dimensão: várias câmaras de televisão e máquinas fotográficas não podiam deixar escapar este momento “histórico”.

Alguns defensores de Putin afirmam que, desse modo, o Presidente faz publicidade do turismo interno. Verdade seja dita, a imensa Rússia tem belezas para todos os gostos, mas não é esse o objectivo. Os russos optam a viajar para países exóticos porque os voos de avião e os hotéis são bem mais baratos. Por muita publicidade que se faça a favor do turismo russo para a Cimeia, são mais os que optam pela Turquia ou Montenegro. Os preços e serviços são mais apelativos.

Ninguém duvida do patriotismo dos russos, mas também ele tem limites. É por isso que muitos russos preferem descansar no estrangeiro ou ficar-se pelas suas datchas nos arredores das cidades onde vivem.

quarta-feira, agosto 02, 2017

Afinal ainda há “Lobos do Mar” (conto real)




Quando me dirigia para Sesimbra, a fim de falar dos meus livros na Feira do Livro, trazia dentro de mim dois sentimentos muito especiais: o de que iria a uma terra de pescadores, algo muito especial devido à minha ascendência, e o de que me poderia cruzar com o Desterrado, barco que pertenceu ao meu tio David, mas que depois foi vendido para Sesimbra.

Este gasoleiro tem um significado especial para mim, pois, como conto no livro “As minhas aventuras do País dos Sovietes”, foi uma das causas que levou a virar-me de costas para o mar e a não seguir o mester dos meus antepassados. Bastou uma pequena viagem nele num mar fortemente ondulado…

Fui eu que pedi ao meu tio que “baptizasse” o seu barco com o nome de Desterrado, porque eu tinha visto e ficado deslumbrado com a obra-prima do escultor Soares dos Reis num dos livros da escola primária, não me recordo se no da terceira ou quarta classe.

Terminada a sessão de conversa e de autógrafos com os leitores, a quem agradeço a sua presença, aproximou-se de mim um homem baixo, forte e de pele queimada pelo Sol.

- Boa noite, ia a passar por aqui e conheci-o pela voz. Fui eu que comprei o Desterrado aos seus tios: David e Ludovina. Já o vendi há 10 anos atrás, mas continua a pescar- disse-me o desconhecido, que, pelo aspecto, me fez lembrar os pescadores da Póvoa de Varzim ou das Caxinas, neste caso, o mestre de uma embarcação.









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Fiquei tão surpreendido que até me esqueci de lhe perguntar o nome, por isso lhe chamo “Lobo do Mar”, mas tomado por uma felicidade imensa com tão inesperado encontro.


Mais surpreendido fiquei ainda quando ele chamou a atenção para as suas pernas, pois vestia calções: parte de uma tratava-se de uma prótese, pois fora ferido na guerra colonial. Na outra perna tinha tatuadas a palavra Desterrado e uma sigla que faz lembrar as siglas poveiras, com as quais as famílias de pescadores marcavam os seus apetrechos.

-  Sabe, diz-me ele, fui eu que criei esta sigla à imagem das poveiras, pois nos nossos lados não são comuns.

Numa noite amena, o “Lobo do Mar” contou-me como comprou o Desterrado, como fez a escritura com os meus tios David e Ludovina, e não mostrou surpresa que o meu tio ainda seja pescador não obstante os seus cerca de 80 anos.

Durante a conversa, ele insinuou que o facto de eu tanto querer dar o nome de Desterrado ao barco se tenha transformado numa maldição para mim e o meu destino.

- Não, porque o desterrado vai contra a sua própria vontade, forçado, e eu parti um dia de livre vontade, respondi-lhe.

terça-feira, agosto 01, 2017

"Grande Terror" começou há 80 anos


Iajov e Estaline


No dia 30 de Julho de 1937 foi assinada a ordem Nº 00447 do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos(Cheka), que deu origem ao "Grande Terror" na União Soviético. Segundo os planos do comissário Nikolai Iajov (ou seja, de Estaline), foi programado reprimir 269 mil membros do Partido Comunista e cidadão comuns.
Porém, as famigeradas "troikas" do NKVD, entre 1 de Agosto de 1937 e 1 de Novembro de 1938, ou seja, em pouco mais de um ano, ordenaram, baseando-se no citado decreto, a prisão de mais de 700 000 pessoas, mas, no total, foram detidas mais de 1,5 milhões de pessoas. 
As "troikas" condenaram, por vários graus de actividade anti-soviética, mais de 1,33 milhões de soviéticos. Mais de 660 mil foram condenados à morte e fuzilados. Os restantes foram enviados para prisões e campos de concentração, onde sofreram 10 anos e mais de prisão.
Sublinho que este banho de sangue foi realizado em apenas uma ano (!!!), ou seja, mais de 1,5 mil pessoas apanhavam diariamente um tiro na nuca. Depois a mortandade continuou com maior ou menor intensidade na URSS, na China, Cuba, etc., etc.
Depois disto, quem terá a coragem de não equiparar o comunismo e o nazismo? 
O Partido Comunista Português, que continua a guiar-se por essa ideologia assassina, não pode deixar de apoiar um aprendiz de Estaline: Nicolas Maduro. Como irão justificar alguns jornalistas ligados ao PCP, como Pedro Tadeu, o dirigente venezuelano apenas matou mais de uma centena de opositores ao serviço do imperialismo norte-americano.
Aos artistas e espectadores da Festa do Avante, peço apenas que imaginem por um segundo que a Quinta da Atalaia é apenas uma pequena área cercada, mas que poderá ser transformada, se os "revolucionários líricos" vencerem, num enorme campo de concentração ou cemitério.
Pensam que estou louco? Talvez. Quando a esquerda europeia (com particulares responsabilidades para a intelectualidade) fechava os olhos ou elogiava a política tenebrosa de Estaline, havia gente que chamava "os bois pelos nomes", e eram acusados de "calúnias loucas", etc.


quinta-feira, julho 27, 2017

Venezuela: a inferioridade moral dos comunistas







A guerra civil na Venezuela e a posição do Partido Comunista Português face a ela mostram que a degradação moral e política dessa seita totalitária não tem limites. Apoiam um regime que começa a provocar uma catástrofe humanitária semelhante ou pior à da onda de retornados das ex-colónias em 1975.

No caso dos retornados, a explicação da sua expulsão de Moçambique e Angola foi a reacção das forças locais de libertação contra o imperialismo e os seus representantes. Os movimentos de libertação nacional Frelimo e MPLA tomaram o poder e o que aconteceu depois foram “danos colaterais”. Afinal, segundo dizia o PCP e outras forças de extrema-esquerda de então, os retornados não passavam de um bando de reaccionários.

E hoje quem são os milhares de portugueses ou luso-descendentes que fogem ou se preparam para abandonar a Venezuela? Depois de lermos o Avante ou lermos, nas redes sociais, os comentários dos apoiantes portugueses de Nicólas Maduro em Portugal, concluímos que os refugiados madeirenses que eu vi na reportagem da SIC, bem como os que continuam na Venezuela a lutar contra a ditadura e a violência, não passam de um “bando de fachos”! Além disso - e onde é que eu já ouvi esse discurso, a soldo da CIA, etc., etc.?

O “bando de fachos” inclui mulheres, crianças e doentes que não têm praticamente qualquer assistência médica na Venezuela?

O Bloco de Esquerda, que tanto defendeu o regime criado por Hugo Chavez, decidiu publicamente “mudar de disco” quando se tornou evidente a política repressiva e desastrosa de Maduro, mas, lá dentro, também acham que a oposição venezuelana não passa de um bando de fascistas.

Mas todos nós sabemos que o PCP é considerado por muitos um “partido consequente”, embora eu considere que se trata de uma força política sem o mínimo de princípios, ou mais precisamente, com dois princípios: “os fins justificam os meios” e “quanto pior, melhor”. Mas a acreditar que se trata de um partido consequente, irá continuar a apoiar o regime de Maduro, que já está bem podre, até ao fim, mesmo já se sabendo que as forças repressivas mataram mais de uma centena de venezuelanos e o número de vítimas não parará de aumentar.

E quando a fuga de portugueses atingir dimensões críticas (o que parece estar para breve) e a Madeira, de onde são originários a maioria dos refugiados, os não puder albergar a todos, o PCP irá pôr o seu imobiliário ao serviço do apoio a pessoas que vêm de mãos vazias, ou irá contribuir com os fundos ganhos com a Festa do Avante para aliviar os sofrimentos dessas pessoas?

E por falar em Festa do Avante, gostaria de deixar aqui uma pergunta: os artistas que nela participam e os espectadores que pagam bilhete ainda não compreenderam quem estão a financiar? A explicação de que se trata da “maior iniciativa cultural” do país já está esfarrapada e não aguenta remendos. As festas do “Humanite” e do “Unita” desapareceram e as culturas francesa e italiana não deixaram de existir.

Não querendo dar aulas de moral a ninguém, pergunto a artistas como Rui Veloso, Clã, Paulo de Carvalho, António Azambujo, Gisela João, etc. se estariam dispostos a participar na Venezuela numa festa de apoio ao regime sangrento de Maduro? Claro que responderiam com uma negativa cheia de indignação.

Mas não sentirão nada na consciência quando forem tocar numa festa onde serão enumeradas todas as “virtudes”, “êxitos” e “conquistas” do regime corrupto da Venezuela; e onde irão actuar, certamente, perante “representantes legítimos” desses regimes, invariavelmente acompanhados de barraquinhas de recordações: fotos de Hugo Chavez, de Maduro, porta-chaves e esqueiros com as mesmas figuras, bandeirinhas, obras completas de Chavez, etc.?

Rui Veloso, não acredito que faças isso por dinheiro, não acredito. Assim como Paulo de Carvalho ou António Zambujo. Mas também não imagino o “Chico Fininho” a apoiar a morte de pessoas nas ruas de Caracas. Paulo de Carvalho, não chegou a hora de “saber quem sou e o que faço aqui”? Trata-se de uma questão de consciência e cada um decide o que fazer.

P.S. Sublinho a forma cuidadosa como o governo está a gerir este difícil processo da Venezuela. Aqui não pode haver precipitações para não dificultar ainda mais a vida dos portugueses e luso-venezuelanos. Cuidado com as sanções, para que a vida dos venezuelanos não se deteriore ainda mais e Maduro não continue a engordar.

quinta-feira, julho 06, 2017

Putin-Trump: Primeiro encontro de namorados?  


O menos provável dos cenários
                                       



O encontro dos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, que se ira realizar no dia 7 à margem da cimeira do G 20, poderá ser comparado ao primeiro encontro entre dois namorados: ou o namoro termina aí, ou dá origem a uma relação mais ou menos atribulada, na melhor das hipóteses,  pois será demais esperar casamento.

Nem a Casa Branca, nem o Kremlin têm altas expectativas, mesmo quando as relações entre Moscovo e Washington estão no nível tão deplorável como o actual. Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, espera apenas “o estabelecimento de um diálogo de trabalho que será certamente vital para todo o mundo no plano do aumento da eficácia da solução da massa crítica dos conflitos e problemas que aumenta de dia para dia”.

Não está previsto que o encontro seja longo, mas o facto de se realizar sentado poderá significar que se prolongue mais além do planeado. Os homens do Kremlin certamente estarão com um cronómetro na mão para medir se Trump dará mais tempo a Putin do que o concedido a Petro Poroshenko, durante a sua visita recente à Casa Branca.

A propósito, a Ucrânia irá ser um dos temas centrais das conversações, numa altura de grande tensão no Leste desse país. Na véspera, a Rússia e os representantes das regiões separatistas russófonas de Lugansk e Donetsk abandonaram as conversações com as autoridades de Kiev sobre a troca de prisioneiros. A Ucrânia está disposta a falar do tema apenas “com a OCSE e a Rússia agressora”. Nos últimos tempos, assistimos a uma escalada deste conflito na Europa que já provocou, segundo dados ucranianos, mais de 2700 soldados ucranianos mortos e mais de 10 mil feridos. Desde o início do ano que morreram 120 soldados e 47 civis ucranianos devido aos confrontos com os separatistas. As Nações Unidas falam de mais de 9 mil mortos e 20 mil feridos desde 2015.

Até agora os Estados Unidos não participam no “Quarteto da Normandia” (Alemanha, França, Rússia e Ucrânia) que tenta encontrar, sem qualquer resultado real além do congelamento parcial do conflito, uma saída para este grave confronto na Europa e tanto Kiev como Moscovo esperam que Washington dê um novo impulso a este processo de paz. Porém, Dmitri Peskov receia que Putin não tenha tempo e possibilidade de apresentar a sua “opinião sobre os antecedentes e causas da guerra civil na Ucrânia”.

O segundo tema será a Síria, onde o mínimo incidente poderá provocar sérios confrontos entre as forças militares russas que apoiam o dirigente sírio Bashar Assad e tropas da coligação ocidental que apoiam a oposição. Isto é cada vez mais possível à medida que os terroristas do Estado Islâmico forem desalojados da Síria e do Iraque e caso aumente a intervenção militar internacional.

Porém, as divergências entre os Estados Unidos e a Rússia na região são tão grandes que não se pode esperar resultados muito concretos do encontro.

Em relação à Coreia do Norte, Trump certamente irá pedir a Putin que pressione mais Kim Jong-un com vista a travar o programa nuclear militar e o fabrico de mísseis. Moscovo tem algum poder de pressão económica sobre Pyongyang, mas nada será conseguido sem a colaboração da China.

À difícil solução dos graves problemas internacionais citados vem juntar-se o facto de tanto Trump e Putin estarem de “mãos atadas” nos seus próprios países. A mínima cedência do Presidente norte-americano a Putin irá aumentar o fantasma da ingerência do Kremlin na política interna dos Estados Unidos, da dependência de Trump em relação a Putin, mas na Rússia também não ficarão contentes se o seu dirigente se afastar muito da retórica anti-americana constantemente transmitida pelos órgãos de informação russos.

Donald Trump e Vladimir Putin são mestres em “fazer surpresas”, mas parece que ainda não será agora na Alemanha que consigam “tirar o coelho da cartola”. Por isso não é de esperar resultados palpáveis deste encontro, mas apenas promessas de cooperação na solução dos graves problemas do mundo.

Numa época em que a situação internacional se agrava a olhos vistos, em que o perigo de novas guerras e conflitos aumenta (por exemplo, o confronto potencial entre o Qatar, por um lado, e outros países do Golfo Pérsico; o endurecimento retórico nos discursos de Washington e Teerão), o diálogo entre Washington e Moscovo, entre a Rússia e a União Europeia deveria ser mais intenso e frutuoso, mas os interesses de cada um destes grandes jogadores no xadrez internacional continuam acima das reais necessidades da Humanidade.

Por isso, já será bom se o primeiro “encontro de namorados” der origem a uma relação mais ou menos estável, pois é difícil acreditar que daí saia casamento.

Na URSS, todos os caminhos levavam ao mesmo sítio (pequenos ensaios)


Mikhail Bulgakov é, talvez, um dos autores russo/soviéticos mais enigmáticos. Autor de obras imortais como "Mestre e Margarida" ou "Coração de Cão", foi dos poucos que ousou desafiar Estaline e a ditadura por este criada.  
Em 21de Julho de 1924, quando José Estaline começava a alargar e reforçar a teia da sua sangrenta ditadura, Bulgakov escreveu no seu diário: "I. e O. chegaram de Samara [cidade do sul da URSS].Lá, há dois eléctricos. Um tem a inscrição "Praça da Revolução - Prisão", e o outro ""Praça dos Sovietes - Prisão. Qualquer coisa deste género. Numa palavra, todos os caminhos vão dar a Roma".
O diário deste visionário foi confiscado pelo OGPU (polícia secreta soviética), mas, depois de muita insistência do autor, foi-lhe devolvido. Ele, tal como o Mestre do seu famoso romance - terminado em 1940 e só publicado após a morte do ditador - apressou-se a queimá-lo.
Talvez o tivesse feito como o fez o Mestre: "Partindo as unhas, rasgava os meus cadernos, punha-os de pé entre as achas de lenha e batia nas folhas com um atiçador. Por vezes, as cinzas vinham para cima e apagavam a chama, mas eu combatia-as... Dançavam à minha frente as palavras familiares, o amarelo invadia irresistivelmente as páginas, de baixo para cima, mas as palavras transpareciam. apesar de tudo. Só desapareciam quando o papel enegrecia e eu lhes vibrava furiosamente o último golpe com o atiçador..."
Mas se Mikhail Bulgakov queimou o diário, como é que ele chegou até nós?
Aqui também existe algo de místico. No seu romance "Mestre e Margarida", a figura diabólica de Voland pede ao Mestre para lhe deixar ver o diário, ao que este lhe respondeu: "- Infelizmente, não posso... queimei-o no fogão da sala. - Desculpe, mas não acredito, replicou Voland. Não é possível. Os manuscritos não ardem."
E assim aconteceu, ou mais precisamente, Bulgakov queimou o diário, mas a polícia política tinha feito uma cópia dactilografada desses escritos, que chegaram até aos nossos dias.  
Era assim a vida na ditadura comunista, instaurada pela força há 100 anos atrás. 

sexta-feira, junho 23, 2017

País arde porque está podre


Enquanto não se olhar de frente e resolver problemas graves da sociedade portuguesa como corrupção, compadrio, carreirismo, incompetência política, Portugal continuará a ser devorado não só pelas chamas dos terríveis incêndios que consomem o nosso país todos os anos, independentemente da cor política dos nossos dirigentes.
Pedem-nos para não tirarmos conclusões apressadas sobre as causas do incêndio de Pedrógão Grande até que sejam apuradas as responsabilidades, mas quando é que isso será feito se durante anos e anos nunca o foi? Estão à espera que a época dos incêndios termine ou que a selecção portuguesa vença a Taça das Confederações, para voltarmos a pensar que somos os melhores?
Pode-se e deve-se começar já pois há razões que são endémicas. Uma delas é a corrupção. O Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), que dizem ter falhado no início da tragédia, custou muito mais do que aquilo que valia na realidade, mas ninguém respondeu por isso ( https://www.publico.pt/2017/06/22/politica/noticia/siresp-a-historia-de-uma-parceria-publica-privada-de-transparencia-1776439).
A história da aquisição dos helicópteros Kamov seria surrealista se não fosse tão triste. Durante a memorável visita de José Sócrates a Moscovo em 2007, quando não se sabe graças a que favores ficou instalado no Kremlin e teve honras de joging na Praça Vermelha, eu assisti à ida do então primeiro-português a um aeródromo nos arredores russos para ver os famosos Kamov e ainda o avião gigante Beriev 200.  Segundo a Agência Lusa, Portugal adquiriu seis novos helicópteros pesados Kamov-32 (http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/6+11S9nvyfblb4F0Cb0H0A.html). Quando ao Beriev 200, só se voltou a falar nele quando precisámos de o alugar à Rússia para combater os incêndios. No que respeita aos Kamov, os fumos de corrupção acompanharam sempre a presença desses aparelhos em Portugal (https://ionline.sapo.pt/481711?source=social).
Os helicópteros comprados à Rússia em 2006 tornaram-se polémicos desde o início. E em vez de servirem para poupar, serviram para gastar. São os helicópteros ...


Coincidência ou não, as empresas russas têm um certo “azar” no que diz respeito aos investimentos no combate aos incêndios em Portugal. A NGCR – Tecnologias Químicas e Inovações, SA, é um bom exemplo disso. A 18-09-2013, os seus responsáveis russos prometeram investir cerca de 2 milhões de euros em Oleiros, em Castelo Branco, e criar cerca de 100 postos de trabalho para fabrico de «equipamentos de combate a incêndios, máquinas para obter poupança de energia em termos industriais e aparelhos para o tratamento de águas residuais».
Porém, no ano seguinte, o investidor russo desiste do investimento alegando alguns argumentos puramente inventados. Fernando Marques Jorge, presidente da Câmara de Oleiros, justificava o fracasso:  “a empresa não conseguiu trazer os equipamentos necessários para Portugal por causa do boicote da União Europeia (UE) à Rússia devido ao conflito na Ucrânia”. A primeira parte da explicação até pode ser verdade, mas é falsa a afirmação de Fernando Marques Jorge de que uma das fábricas que produzia os componentes que vinham para Oleiros se encontrava junto à fronteira com a Ucrânia e foi destruída (https://beiranews.pt/2015/04/oleiros-procura-novos-investidores-depois-de-gorada-instalacao-de-empresa-russa/). O autarca deve ter sido mal informado pela parte russa pois, quando da anexação da Crimeia e da invasão do Leste da Ucrânia,  não foi noticiada a destruição de qualquer edifício industrial no território russo.
Não se limitando ao “negócio aos incêndios”, a corrupção abrange praticamente todas as esferas políticas e sociais portuguesas, pondo cada vez mais em causa a própria segurança do Estado. E isto é ainda mais preocupante quando olhamos para o funcionamento da Justiça em Portugal. É difícil compreender como é que banqueiros, políticos e outros acusados do desvio de milhões de euros continuem em liberdade. As desgraças acontecem, mas continua tudo na mesma.
Porém, quando se fala da corrupção, não podemos fechar os olhos ao facto de muitos dos cidadãos consentirem e incentivarem essa praga. Nas próximas eleições autárquicas arriscamo-nos a ver o regresso ao poder local de políticos manchados pela corrupção.
E, para aumentar as dimensões da tragédia, surgem notícias que nos deviam deixar envergonhados: casas evacuadas que são pilhadas por "animais humanos" e "pessoas" que tentam ganhar dinheiro com a solidariedade dos portugueses. Não quero apelar a linchamentos, mas o ateamento de incêndios e as pilhagens deveriam ser equiparadas ao terrorismo.
Se a situação não mudar radicalmente, se muitos dos políticos continuarem a servir-se da nação e não a servi-la, se chagas como a corrupção, o compadrio continuarem a aumentar, Portugal apodrecerá ainda mais e arderá ainda mais rapidamente.
Não devo ter dito nada de novo, mas é o que eu penso. 

N.B. Para que não me chamem russófobo e outras coisas semelhantes a que já me habituei, explico que peguei nos casos de possível corrupção que melhor conheço.