quinta-feira, julho 06, 2017

Putin-Trump: Primeiro encontro de namorados?  


O menos provável dos cenários
                                       



O encontro dos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, que se ira realizar no dia 7 à margem da cimeira do G 20, poderá ser comparado ao primeiro encontro entre dois namorados: ou o namoro termina aí, ou dá origem a uma relação mais ou menos atribulada, na melhor das hipóteses,  pois será demais esperar casamento.

Nem a Casa Branca, nem o Kremlin têm altas expectativas, mesmo quando as relações entre Moscovo e Washington estão no nível tão deplorável como o actual. Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, espera apenas “o estabelecimento de um diálogo de trabalho que será certamente vital para todo o mundo no plano do aumento da eficácia da solução da massa crítica dos conflitos e problemas que aumenta de dia para dia”.

Não está previsto que o encontro seja longo, mas o facto de se realizar sentado poderá significar que se prolongue mais além do planeado. Os homens do Kremlin certamente estarão com um cronómetro na mão para medir se Trump dará mais tempo a Putin do que o concedido a Petro Poroshenko, durante a sua visita recente à Casa Branca.

A propósito, a Ucrânia irá ser um dos temas centrais das conversações, numa altura de grande tensão no Leste desse país. Na véspera, a Rússia e os representantes das regiões separatistas russófonas de Lugansk e Donetsk abandonaram as conversações com as autoridades de Kiev sobre a troca de prisioneiros. A Ucrânia está disposta a falar do tema apenas “com a OCSE e a Rússia agressora”. Nos últimos tempos, assistimos a uma escalada deste conflito na Europa que já provocou, segundo dados ucranianos, mais de 2700 soldados ucranianos mortos e mais de 10 mil feridos. Desde o início do ano que morreram 120 soldados e 47 civis ucranianos devido aos confrontos com os separatistas. As Nações Unidas falam de mais de 9 mil mortos e 20 mil feridos desde 2015.

Até agora os Estados Unidos não participam no “Quarteto da Normandia” (Alemanha, França, Rússia e Ucrânia) que tenta encontrar, sem qualquer resultado real além do congelamento parcial do conflito, uma saída para este grave confronto na Europa e tanto Kiev como Moscovo esperam que Washington dê um novo impulso a este processo de paz. Porém, Dmitri Peskov receia que Putin não tenha tempo e possibilidade de apresentar a sua “opinião sobre os antecedentes e causas da guerra civil na Ucrânia”.

O segundo tema será a Síria, onde o mínimo incidente poderá provocar sérios confrontos entre as forças militares russas que apoiam o dirigente sírio Bashar Assad e tropas da coligação ocidental que apoiam a oposição. Isto é cada vez mais possível à medida que os terroristas do Estado Islâmico forem desalojados da Síria e do Iraque e caso aumente a intervenção militar internacional.

Porém, as divergências entre os Estados Unidos e a Rússia na região são tão grandes que não se pode esperar resultados muito concretos do encontro.

Em relação à Coreia do Norte, Trump certamente irá pedir a Putin que pressione mais Kim Jong-un com vista a travar o programa nuclear militar e o fabrico de mísseis. Moscovo tem algum poder de pressão económica sobre Pyongyang, mas nada será conseguido sem a colaboração da China.

À difícil solução dos graves problemas internacionais citados vem juntar-se o facto de tanto Trump e Putin estarem de “mãos atadas” nos seus próprios países. A mínima cedência do Presidente norte-americano a Putin irá aumentar o fantasma da ingerência do Kremlin na política interna dos Estados Unidos, da dependência de Trump em relação a Putin, mas na Rússia também não ficarão contentes se o seu dirigente se afastar muito da retórica anti-americana constantemente transmitida pelos órgãos de informação russos.

Donald Trump e Vladimir Putin são mestres em “fazer surpresas”, mas parece que ainda não será agora na Alemanha que consigam “tirar o coelho da cartola”. Por isso não é de esperar resultados palpáveis deste encontro, mas apenas promessas de cooperação na solução dos graves problemas do mundo.

Numa época em que a situação internacional se agrava a olhos vistos, em que o perigo de novas guerras e conflitos aumenta (por exemplo, o confronto potencial entre o Qatar, por um lado, e outros países do Golfo Pérsico; o endurecimento retórico nos discursos de Washington e Teerão), o diálogo entre Washington e Moscovo, entre a Rússia e a União Europeia deveria ser mais intenso e frutuoso, mas os interesses de cada um destes grandes jogadores no xadrez internacional continuam acima das reais necessidades da Humanidade.

Por isso, já será bom se o primeiro “encontro de namorados” der origem a uma relação mais ou menos estável, pois é difícil acreditar que daí saia casamento.

Na URSS, todos os caminhos levavam ao mesmo sítio (pequenos ensaios)


Mikhail Bulgakov é, talvez, um dos autores russo/soviéticos mais enigmáticos. Autor de obras imortais como "Mestre e Margarida" ou "Coração de Cão", foi dos poucos que ousou desafiar Estaline e a ditadura por este criada.  
Em 21de Julho de 1924, quando José Estaline começava a alargar e reforçar a teia da sua sangrenta ditadura, Bulgakov escreveu no seu diário: "I. e O. chegaram de Samara [cidade do sul da URSS].Lá, há dois eléctricos. Um tem a inscrição "Praça da Revolução - Prisão", e o outro ""Praça dos Sovietes - Prisão. Qualquer coisa deste género. Numa palavra, todos os caminhos vão dar a Roma".
O diário deste visionário foi confiscado pelo OGPU (polícia secreta soviética), mas, depois de muita insistência do autor, foi-lhe devolvido. Ele, tal como o Mestre do seu famoso romance - terminado em 1940 e só publicado após a morte do ditador - apressou-se a queimá-lo.
Talvez o tivesse feito como o fez o Mestre: "Partindo as unhas, rasgava os meus cadernos, punha-os de pé entre as achas de lenha e batia nas folhas com um atiçador. Por vezes, as cinzas vinham para cima e apagavam a chama, mas eu combatia-as... Dançavam à minha frente as palavras familiares, o amarelo invadia irresistivelmente as páginas, de baixo para cima, mas as palavras transpareciam. apesar de tudo. Só desapareciam quando o papel enegrecia e eu lhes vibrava furiosamente o último golpe com o atiçador..."
Mas se Mikhail Bulgakov queimou o diário, como é que ele chegou até nós?
Aqui também existe algo de místico. No seu romance "Mestre e Margarida", a figura diabólica de Voland pede ao Mestre para lhe deixar ver o diário, ao que este lhe respondeu: "- Infelizmente, não posso... queimei-o no fogão da sala. - Desculpe, mas não acredito, replicou Voland. Não é possível. Os manuscritos não ardem."
E assim aconteceu, ou mais precisamente, Bulgakov queimou o diário, mas a polícia política tinha feito uma cópia dactilografada desses escritos, que chegaram até aos nossos dias.  
Era assim a vida na ditadura comunista, instaurada pela força há 100 anos atrás. 

sexta-feira, junho 23, 2017

País arde porque está podre


Enquanto não se olhar de frente e resolver problemas graves da sociedade portuguesa como corrupção, compadrio, carreirismo, incompetência política, Portugal continuará a ser devorado não só pelas chamas dos terríveis incêndios que consomem o nosso país todos os anos, independentemente da cor política dos nossos dirigentes.
Pedem-nos para não tirarmos conclusões apressadas sobre as causas do incêndio de Pedrógão Grande até que sejam apuradas as responsabilidades, mas quando é que isso será feito se durante anos e anos nunca o foi? Estão à espera que a época dos incêndios termine ou que a selecção portuguesa vença a Taça das Confederações, para voltarmos a pensar que somos os melhores?
Pode-se e deve-se começar já pois há razões que são endémicas. Uma delas é a corrupção. O Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), que dizem ter falhado no início da tragédia, custou muito mais do que aquilo que valia na realidade, mas ninguém respondeu por isso ( https://www.publico.pt/2017/06/22/politica/noticia/siresp-a-historia-de-uma-parceria-publica-privada-de-transparencia-1776439).
A história da aquisição dos helicópteros Kamov seria surrealista se não fosse tão triste. Durante a memorável visita de José Sócrates a Moscovo em 2007, quando não se sabe graças a que favores ficou instalado no Kremlin e teve honras de joging na Praça Vermelha, eu assisti à ida do então primeiro-português a um aeródromo nos arredores russos para ver os famosos Kamov e ainda o avião gigante Beriev 200.  Segundo a Agência Lusa, Portugal adquiriu seis novos helicópteros pesados Kamov-32 (http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/6+11S9nvyfblb4F0Cb0H0A.html). Quando ao Beriev 200, só se voltou a falar nele quando precisámos de o alugar à Rússia para combater os incêndios. No que respeita aos Kamov, os fumos de corrupção acompanharam sempre a presença desses aparelhos em Portugal (https://ionline.sapo.pt/481711?source=social).
Os helicópteros comprados à Rússia em 2006 tornaram-se polémicos desde o início. E em vez de servirem para poupar, serviram para gastar. São os helicópteros ...


Coincidência ou não, as empresas russas têm um certo “azar” no que diz respeito aos investimentos no combate aos incêndios em Portugal. A NGCR – Tecnologias Químicas e Inovações, SA, é um bom exemplo disso. A 18-09-2013, os seus responsáveis russos prometeram investir cerca de 2 milhões de euros em Oleiros, em Castelo Branco, e criar cerca de 100 postos de trabalho para fabrico de «equipamentos de combate a incêndios, máquinas para obter poupança de energia em termos industriais e aparelhos para o tratamento de águas residuais».
Porém, no ano seguinte, o investidor russo desiste do investimento alegando alguns argumentos puramente inventados. Fernando Marques Jorge, presidente da Câmara de Oleiros, justificava o fracasso:  “a empresa não conseguiu trazer os equipamentos necessários para Portugal por causa do boicote da União Europeia (UE) à Rússia devido ao conflito na Ucrânia”. A primeira parte da explicação até pode ser verdade, mas é falsa a afirmação de Fernando Marques Jorge de que uma das fábricas que produzia os componentes que vinham para Oleiros se encontrava junto à fronteira com a Ucrânia e foi destruída (https://beiranews.pt/2015/04/oleiros-procura-novos-investidores-depois-de-gorada-instalacao-de-empresa-russa/). O autarca deve ter sido mal informado pela parte russa pois, quando da anexação da Crimeia e da invasão do Leste da Ucrânia,  não foi noticiada a destruição de qualquer edifício industrial no território russo.
Não se limitando ao “negócio aos incêndios”, a corrupção abrange praticamente todas as esferas políticas e sociais portuguesas, pondo cada vez mais em causa a própria segurança do Estado. E isto é ainda mais preocupante quando olhamos para o funcionamento da Justiça em Portugal. É difícil compreender como é que banqueiros, políticos e outros acusados do desvio de milhões de euros continuem em liberdade. As desgraças acontecem, mas continua tudo na mesma.
Porém, quando se fala da corrupção, não podemos fechar os olhos ao facto de muitos dos cidadãos consentirem e incentivarem essa praga. Nas próximas eleições autárquicas arriscamo-nos a ver o regresso ao poder local de políticos manchados pela corrupção.
E, para aumentar as dimensões da tragédia, surgem notícias que nos deviam deixar envergonhados: casas evacuadas que são pilhadas por "animais humanos" e "pessoas" que tentam ganhar dinheiro com a solidariedade dos portugueses. Não quero apelar a linchamentos, mas o ateamento de incêndios e as pilhagens deveriam ser equiparadas ao terrorismo.
Se a situação não mudar radicalmente, se muitos dos políticos continuarem a servir-se da nação e não a servi-la, se chagas como a corrupção, o compadrio continuarem a aumentar, Portugal apodrecerá ainda mais e arderá ainda mais rapidamente.
Não devo ter dito nada de novo, mas é o que eu penso. 

N.B. Para que não me chamem russófobo e outras coisas semelhantes a que já me habituei, explico que peguei nos casos de possível corrupção que melhor conheço.





segunda-feira, maio 29, 2017

"Madeira - O Vinho dos Czares" /"Мадера – царское вино"


É com satisfação de dever cumprido que a Via Milhazes informa os amigos eleitores da publicação do livro "Madeira - O Vinho dos Czares".
Respondendo a um desafio do Instituto de Vinho e Bordados da Madeira, José e Siiri Milhazes escrevemos este livro sobre o Vinho da Madeira na Rússia, onde se encontram documentos e factos inéditos, alguns deles de rara importância.
Não é por acaso que falamos num livro e não em dois. O que está representado na foto são duas capas do mesmo li...vro, pois trata-se de uma edição bilingue: em português e russo.
Nesta obra, os lusófonos poderão encontrar, entre muitas outras coisas, que cocktails os russos fazem com o Vinho da Madeira e os russófonos poderão encontrar receitas de cocktails que se fazem na bela ilha portuguesa.
O livro de 155 páginas, cujo PVP é de 12.90 euros, já pode ser adquirido na Bertrand e em:
www.aletheia.pt. Esta obra estará também à venda no Pavilhão da Aletheia na Feira do Livro de Lisboa, onde estaremos para o autografar nos dias 3, 4, 10 e 17 de Junho.

«Via Milhazes» рада сообщить своим читателям о завершении работы над публикацией книги «Madeira – O Vinho dos Czares» (Мадера – царское вино).
Откликнувшись на призыв Института вина, вышивки и ремесленных изделий острова Мадейра, Жозе и Сийри Мильязеш написали книгу об истории мадеры в России, в которой можно обнаружить ранее не публиковавшиеся документы и факты, в том числе крайне интересные.
Глядя на фотографию, читатель может подумать, что речь идет о двух книгах, а не об
... одной. Но это не так: книга вышла на двух языках – португальском и русском, а фотография демонстрирует две обложки одной книги!
Из книги португалоговорящий читатель узнает немало любопытного: например, в какие коктейли в России добавляют мадеру. А русскоговорящий читатель познакомится с традиционными для этого восхитительного португальского острова рецептами коктейлей.
Книгу на 155 страницах стоимостью 12.90 евро можно прибрести в магазинах сети «Bertrand» и на сайте
http://www.aletheia.pt/. Она также продается в павильонах издательства «Aletheia» на Лиссабонской книжной ярмарке, где 3, 4, 10 и 17 июня будут присутствовать авторы – Жозе и Сийри Мильязеш, чтобы подписать купленную Вами книгу!

terça-feira, abril 25, 2017



Sons de "AS MINHAS AVENTURAS NO PAÍS DOS SOVIETES": "No dia 25 de Abril de 1974, por volta das horas da manhã, encontrávamo-nos numa aula de História, lecionada pelo professor Cunha... De repente, bateram à porta da sala e uma das irmãs que trabalhavam no seminário chamou-o para ir ao telefone...
O mestre regressou à sala de aula com um ar carregado e preocupado, pedindo-nos muita calma e atenção. "Telefonaram-me para me informar que algo de estranho se está a passar em Lisboa e no País. Parece tratar-se de um golpe militar com vista a derrubar a ditadura de Marcelo Caetano"...
Bem é muito difícil descrever a alegria em nós provocada pela notícia. Levantámo-nos, gritámos, abraçámo-nos uns aos outros"
Bem é muito difícil descrever a alegria em nós provocada pela notícia. Levantámo-nos, gritámos, abraçámo-nos uns aos outros".

sexta-feira, abril 21, 2017

SONS DOS MEUS LIVROS "AS MINHAS AVENTURAS NO PAÍS DOS SOVIETES":

SONS DE "AS MINHAS AVENTURAS NO PAÍS DOS SOVIETES":
"Em Moscovo havia duas comunidades portuguesas que estavam proibidas pela direcção do PCP de se cruzarem. Uma era constituída por estudantes de universidades e institutos superiores como eu e da outra faziam parte alunos das escolas do Partido Comunista da União Soviética, da Juventude Comunista (Komsomol) e dos Sindicatos. Mas estes não podiam contactar connosco pois viviam na clandestinidade na “pátria do socialismo”. Quando chegavam à URSS, mudavam de nome para dificultar ou impedir mesmo o trabalho da CIA norte-americana. Aconteciam coisas verdadeiramente ridículas. Num jogo entre o Dínamo de Moscovo e o Boavista, realizado na capital russa em Setembro de 1977 no âmbito da Taça da UEFA, um grupo dos lusos legais estava sentado nas bancadas do Estádio Lénine ao lado de um grupo de “clandestinos”, torcemos todos pelo Boavista, mas não trocámos sequer uma palavra. O mesmo aconteceu em 1983, quando a selecção nacional perdeu frente à congénere soviética por uns humilhantes 5-0.
P.S. Se alguém estiver interessado em receber o livro autografado pelo autor, pode contactar: viamilhazes@gmail. com.

domingo, abril 16, 2017

Sons dos meus livros: "A Mensagem de Fátima na Rússia"


A Páscoa na URSS


"Na noite de Sábado para Domingo de Páscoa, antes do início da missa, os templos cristãos em Moscovo eram cercados por polícias e drujiniki (uma espécie de milícias populares) que identificavam as pessoas antes de as deixarem entrar. No caso de estudantes da Universidade de Moscovo (Lomonossov), onde eu estudei, a ida a uma dessas cerimónias poderia significar a expulsão dessa escola superior....
Além disso, a fim de afastar os cidadãos soviéticos das igrejas, principalmente jovens, a televisão transmitia programas musicais em que participavam cantores nacionais e estrangeiros que só muito raramente podiam ser visto nos ecrãs".

Era assim!