quarta-feira, julho 29, 2015

Qual a razão do veto russo no CS da ONU?



A Rússia vetou, no Conselho de Segurança da ONU, a proposta de criação de um tribunal para investigar e julgar os autores da destruição do Boeing malásio nos céus do Leste da Ucrânia. 11 membros do CS da ONU votaram a favor da criação desse tribunal, três abstiveram-se e a Rússia vetou. Mas qual será a razão? O crime, que matou 298 pessoas, não teve lugar na Rússia e Moscovo afirma nada a ter a ver com o assunto...

Chamo a atenção para o facto de até a China se ter abstido. Quanto aos dois restantes países que se abstiveram: Venezuela e Angola,que dizer? Mais dois grandes "regimes democráticos"?

domingo, julho 26, 2015

Os “amigos europeus” da Rússia



A Crimeia parece que se vai transformar num lugar de peregrinação dos deputados europeus que apoiaram a anexação dessa península ucraniana, havendo na lista de inscrições um deputado europeu português.
Os primeiros “peregrinos” que lá desembarcaram no dia 23 de Julho foram 8 deputados e dois senadores da Assembleia Francesa, a maioria dos quais membros do partido dirigido por Nicolas Zarkozy.
A oposição da diplomacia francesa a essa viagem transformou os parlamentares em autênticos heróis na Rússia, onde estão a ser recebidos entre uma enchurrada de elogios.
Num encontro com os deputados franceses, Serguei Narichkin, dirigente da Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento Russo, considerou a decisão deles de “passo decidido e ousado”, e explicou de forma original (mais um versão a juntar às muitas que os dirigentes russos apresentaram para justificar a violação do Direito Internacional) a história da Crimeia depois da desintegração da União Soviética.
Conheço os vossos planos de passarem dia e meio na Crimeia, tinham planeado isso com antecedência. Conversem com os habitantes simples da península. Estou convencido de que eles falarão honestamente do que sentiram e como viveram duram 23 anos (1991-1994) quando, devido a uma série de circunstâncias, a Crimeia foi, no fundo, pacificamente, mas anexada pela Ucrânia”, declarou Narichkin.
Ora, como é sabido, a Ucrânia não anexou qualquer território em 1991, mas a Crimeia tinha-lhe sido entregue em 1954.
Narichkin explicou também que as autoridades ucranianas “mentem e dizem asneiras” quando afirmam que tem lugar uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia, pois, se isso fosse verdade, as tropas de Moscovo resolveriam o caso em “três, quatro, num máximo de cinco dias”.
Esperemos que as actuais autoridades russas não decidam concretizar o famoso mito das “aldeias de Potemkine”. Diziam as más línguas da época (acusação que os historiadores não conseguiram confirmar) que esse marechal e amante da Catarina II, a Grande, preocupado com o que a czarina, na sua viagem à Crimeia (1787), iria ver ao olhar para vilas, lugarejos e aldeias, de bordo do seu barco real ao longo das marges do rio Dniepre, resolveu construir fachadas de casas novas e pintadas, vestir os camponeses com trajes novos e limpos.
Até porque as “aldeias de Potemkine” irão servir mais vezes. O deputado russo Vassili Likhatchov anunciou que, no Outono, 15 dos 751 deputados do Parlamento Europeu tencionam visitar a Crimeia. Segundo ele, trata-se de deputados europeus que fazem parte do grupo “Amigos da Rússia”. Entre eles estão Elisabetta Gardini, do partido Força Itália, Nandi Morano, do partido dirigido por Sarkozy, bem como representantes da Inglaterra, Alemanha e Portugal.
Não consegui até agora confirmar o nome do deputado ou deputados portugueses que irão ajudar a legitimar a ocupação da Crimeia, mas, a julgar pelos comentários do jornal Avante e as posições do Partido Comunista, poderão ser deputados europeus desta força política.
Como é sabido, a Rússia não se esquece dos amigos. Helmut Schroeder, antigo chanceler alemão, trabalha hoje para a gazífera russa Gazprom; Silvio Berlusconi, antigo primeiro-ministro italiano, revelou ter recebido de Vladimir Putin, Presidente russo e seu amigo, a proposta de cidadania russa e o cargo de ministro do Desenvolvimento Económica da Rússia.
Bem diz o ditado português: "diz-me com quem andas e eu digo-te quem és".




terça-feira, julho 21, 2015

Fragmentos da Memória-2 (Gil Eanes)



Aproveitando uma rápida passagem pela bela cidade de Viana do Castelo, não pude deixar de visitar com a minha família o Navio-Hospital Gil Eanes, hoje museu atracado num dos cais. Isto porque foi o seu pessoal médico que salvou a vida do meu pai no final dos anos de 1960.
Nessa altura, o meu defunto pai, José Marques Pinto, era tripulante do navio bacalhoeiro “Vaz”, que pescava perto da Terra Nova. Durante a faina, em alto mar, rebentaram-lhe duas úlceras no estômago e ele teve de ser urgentemente transportado para St. John's (São João da Terra Nova). Foi precisamente o corpo médico do Hospital Gil Eanes que lhe prestou os primeiros socorros e o conseguiu transportar para um hospital canadiano, onde foi operado com êxito.
                                       Sala de Operações
Naquela altura, as comunicações não eram tão rápidas como hoje. A notícia da doença do meu pai chegou-nos através de uma carta, o que nos deixou bastante preocupados e angustiantes durante algumas semanas. Mas, um dia, inesperadamente, chegou a casa são e salvo.
Não sei se existe ou não alguma obra publicada sobre a história do “Gil Eanes” e sobre os homens que nele trabalharam, mas mereciam muito. Salvaram muitas vidas, aliviaram as dores de muitos dos pescadores do bacalhau.
                                 Enfermaria

Antes do 25 de Abril de 1974, o pescador de bacalhau era das profissões mais ingratas, tratava-se de autênticos escravos. Recordo muitas histórias que o meu avô materno, pai, tios, primos e irmão contavam sobre esse trabalho, relatos inacreditáveis sobre seis meses no mar sem as mais elementares condições sanitárias, com uma alimentação extremamente pobre e um horário de trabalho que podia ir até às 16 ou 18 horas de trabalho.
O salário vinha apenas no fim da viagem, por isso, as mães e mulheres tinham que frequentemente de recorrer “ao prego” para conseguir algum dinheiro para sustentar a casa.
                            Para recordar mais tarde
Por esta e outras razões não compreendo aqueles que defendem que se vivia melhor antes da “Revolução dos Cravos”. Alguns, muito poucos, até podiam viver. Enquanto hoje, muitos dos netos e bisnetos dos pescadores de bacalhau são médicos, enfermeiros, biólogos, engenheiros, jornalistas, etc. Basta visitar a Póvoa de Varzim, Caxinas, Matosinhos, Aveiro, Ílhavo e muitos outros lugares de onde eram originários os pescadores do bacalhau para se compreender que Portugal deu um salto civilizacional depois de 1974.
Aqui fica o meu tributo ao Navio-Hospital “Gil Eanes”.


P.S. Recentemente, visitei o Museu do Bacalhau em Ílhavo e não gostei. Os espaços estão mal aproveitados, a exposição, à excepção do aquário com bacalhaus, é pouco viva, pouco interessante.  

segunda-feira, julho 20, 2015

Um sonho em Santiago de Compostela



Ao visitar Santiago de Compostela, não pude deixar de contactar com aqueles patriotas galegos que sonham com a adesão da Galiza a Portugal. Fiquem tão impressionado com esses encontros e conversas que até tive um sonho: "os irmãos galegos, que vivem há séculos sob o domínio imperialista castelhano, pediram-me para que eu trouxesse uma mensagem para o Presidente Aníbal Cavaco Silva, missão imediatamente por mim aceite.
Nela, o povo galego oprimido pedia que o Palácio de Belém enviasse tropas para o defender e proteger, sublinhando que fosse realizado o sonho secular de adesão da Galiza a Portugal. 
Nessa missiva evocava-se o mais recente precedente da Crimeia : o direito dos povos à autodeterminação, e a coragem do Presidente russo, Vladimir Putin,de desafiar a comunidade internacional enviando tropas russas para lá. Frisava-se o facto de os militares portugueses puderem entrar na Galiza disfarçados de peregrinos a Santiago". 
De súbito, tocou o despertador. Só é verdadeiro o facto de que eu estive  na Galiza, o que ficou documentado com esta fotografia tirada durante o sonho.

quinta-feira, julho 16, 2015

EUA trocam Ucrânia por Irão e Síria



Como é sabido, em política externa não há amigos, mas interesses concretos, tanto mais quando se trata de super-potências como os Estados Unidos.
Andrei Ilarionov, antigo conselheiro do Presidente russo Vladimir Putin, avança uma tese com a qual não posso deixar de concordar. Para receber o apoio da Rússia nos casos do Irão e da Síria, os EUA estão dispostos a entregar a Ucrânia a Moscovo.
O Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, tinha feito a proposta de uma nova Constituição que previa a descentralização de poderes, mas sem qualquer concessão de “estatutos especiais” às chamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. Porém, agora, foi publicado o mesmo documento, mas que concede estatutos especiais aos territórios controlados por separatistas pró-russos. Esta mudança foi feita sob pressão dos Estados Unidos, na pessoa da Sra. Victoria Nuland, figura influente na política externa de Barack Obama.  O Presidente norte-americano quer terminar o seu mandato com êxitos no campo da diplomacia e a Ucrânia pode ser perfeitamente uma boa moeda de troca. Hoje, 16-07-2015, Nuland e representantes da União Europeia estiveram presentes na sessão do Parlamento ucraniano, mas a maioria dos deputados não apoiou a decisão de Poroshenko e decidiu enviar para o Tribunal Constitucional as alterações por ele propostas.
Se às regiões separatistas pró-russas for concedido “estatuto especial”, o Kremlin ficará com uma alavanca decisiva sobre a política interna e externa do governo de Kiev. Caso este dê um passo que não agrade Moscovo, os separatistas lá estarão para o neutralizar. No fundo, deverá significar o fim da Ucrânia como Estado e a sua desagregação.
Em troca, a Rússia fez sérias cedências no dossier nuclear iraniano. Se o acordo que foi assinado em Viena for avante, Moscovo pouco irá ganhar. Pelo contrário, quando as sanções internacionais forem levantadas, o petróleo iraniano irá entrar no mercado internacional e provocar a queda do preço desse combustível (o que já está a acontecer ainda sem o fim das sanções). Ora, isto é extremamente prejudicial para a economia russa, que se mergulha numa crise cada vez maior.
Além disso, Moscovo não viu aprovada a exigência do Irão de levantamento das sanções à venda de armas num prazo de seis meses. O Kremlin terá de esperar alguns anos antes de poder vender armas a Teerão.
Quanto à Síria, Moscovo parece disposto a deixar cair o regime do Presidente Assad ou a reservar para este um papel insignificante no futuro daquele país do Médio Oriente.
Esperemos que o problema da autoria do derrube do Boeing 777 malásio não seja incluído neste “pacote de acordos” e que a sua revelação não seja mais uma vez adiada. Os Estados Unidos podem possuir dados precisos sobre os autores da tragédia e utilizá-los nos seus interesses próprios. Ou vice-versa.

Enquanto isso, a União Europeia continua afogada no “problema grego”, revelando uma incapacidade total de resolver os seus problemas internos. Pelos vistos, o problema da Grécia não será resolvido antes de uma intervenção séria dos Estados Unidos, o que constituirá mais uma vergonha para a UE.
No que respeita à Ucrânia, a desestabilização provocada por manobras externas e internas aumenta, não se prevendo nada de bom. 

quarta-feira, julho 15, 2015

MH17: Há tribunais e tribunais

No dia 17 de Julho de 2014, um avião civil malaio foi abatido no Leste da Ucrânia. Um ano depois, a Malásia propõe a criação de um Tribunal Internacional da ONU, mas a Rússia promete vetar essa decisão. Será que quem deve, teme? O meu comentário no OBSERVADOR.

http://observador.pt/opiniao/mh17-ha-tribunais-e-tribunais/

terça-feira, julho 14, 2015

Fragmentos da memória: "Vinho do Porto" no País dos Sovietes

O "Portwein" foi talvez o "vinho" mais utilizado na era comunista na União Soviética (1917-1991) para não fazer pensar a classe operária, o campesinato e a intelectualidade. Não obstante o nome, esse veneno feito a martelo nada a tinha a ver com o vinho originário das encostas do Rio Douro, que só começou a chegar à URSS depois do 25 de Abril de 1974 graças aos esforços com vista a reforçar as finanças do Partido Comunista Português, embora, verdade seja dita, contribuiu também para o aumento das exportações portuguesas.

Não obstante a chegada do verdadeiro Porto da Real Companhia Velha à União Soviética (recordo-me bem do D. José- Ruby), ele não substituiu o "porto amartelado", porque o primeiro era bem mais caro. As massas continuaram a gostar da "bomba" "777" (também conhecido por três martelos), não obstante os seus efeitos. Por exemplo, provocava tais dores de cabeça no dia seguinte que só uma nova dose do mesmo veneno podia "curar". 
Frequentemente, o poder comunista não perdia tempo a engarrafar o "vinho" e este era vendido em cisternas.
Inscrição na cisterna "Portwein"


Claro que quando chegavam as cisternas, não se podia perder a oportunidade.

O que pensaria Lénine, cujo perfil se vê ao fundo, se estivesse vivo?