sábado, janeiro 05, 2019

Nasceu a independente Igreja Ortodoxa da Ucrânia


Bartolomeu, o Patriarca de Constantinopla da Igreja Ortodoxa assinou hoje o tomos (bula) que concede a autocefalia à Igreja Ortodoxa da Ucrânia. O documento foi entregue ao Metropolita Epifânio, que passará a dirigir esta nova Igreja Ortodoxa.
A decisão foi tomada da véspera do Natal Ortodoxo, que se celebra na noite de 6 para 7 de Janeiro.
O Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa já tinha condenado essa decisão de Bartolomeu quando foi anunciada, não reconhecendo a esse Patriarca o direito de se ingerir nesta questão.
Agora falta fazer o mais difícil: evitar confrontos entre os crentes que irão continuar fiéis a Moscovo e os que passaram para a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, principalmente devido à divisão de templos.
Há muito que na Ucrânia se defendia a independência religiosa de Kiev em relação a Moscovo, mas o processo acelerou-se depois de Vladimir Putin ter anexado a Península da Crimeia em 2014 e ocupado parte do Leste do país vizinho.
Em época de campanha eleitoral (as presidenciais realizam-se em Março próximo), o actual Presidente ucraniano está a utilizar este processo para elevar o grau da sua popularidade entre o eleitorado, mas a questão da propriedade das duas igrejas deverá ser tratada com muito cuidado. Em caso de conflito, Vladimir Putin pode alargar a sua zona de influência na Ucrânia a pretexto da protecção dos russófonos que vivem no país vizinho.

P.S. Aproveito a oportunidade para desejar um Santo Feliz Natal aos meus leitores e amigos ortodoxos, sem excepção. Espero que resolvam todos os problemas pacificamente.

terça-feira, janeiro 01, 2019

O cómico que quer ser Presidente da Ucrânia


31 de Março de 2019, data marcada para a realização das eleições presidenciais na Ucrânia, aproxima-se a passos largos e a luta começa a aumentar de intensidade. 
Uma das "surpresas" teve lugar na véspera de Ano Novo, quando o cómico e produtor de televisão, Volodimir Zelenski, anunciou que se irá candidatar ao cargo de Presidente da Ucrânia. Há muito que se falava desta possibilidade, mas só se concretizou perto da meia-noite de 31 de Dezembro. Segundo a empresa de sondagens Rating, um estudo realizado ainda antes dele anúncio mostra corrida é dirigida Iúlia Timochenko com 20% das intenções de voto, seguida de Zelenski com 13,4 %. O actual Presidente ucraniano aparece em terceiro lugar com 11,1%.
Volodimir Zelenski considera que cada ucraniano tem três oportunidades: viver como vive e deixar-se levar pela corrente, partir para o estrangeiro em busca de trabalho ou escolher a via pela qual ele próprio enveredou: "tentar mudar alguma coisa no país".
"Ao contrário dos nossos "grandes" políticos, não gostaria de fazer promessas vãs. E agora, a poucos minutos do Ano Novo, prometo uma coisa e cumpro-a. Caros ucranianos, promete-vos que serei candidato a Presidente da Ucrânia e cumpro imediatamente: vou lutar pelo cargo de Presidente da Ucrânia", declarou este popular cómico. 
É de salientar que o canal televisivo "1+1", onde Zelenski apresenta um dos seus mais populares programas "Kvartal 95", atrasou a transmissão da mensagem de Ano Novo do Presidente Petro Porochenko para permitir que o cómico fizesse a sua comunicação.
Esse canal de televisão é propriedade do oligarca ucraniano Igor Kolomoysky, que, segundo alguns comentadores, irá apoiar Zelinski contra o seu adversário político orochenko.
A campanha eleitoral começou no dia 31 de Dezembro e até 8 de Fevereiro poderão surgir novos candidatos. 
A Ucrânia atravessa uma profunda crise económica e política, que tem desacreditado o actual Presidente do país. As promessas de reformas económicas e de combate à corrupção não passam disso mesmo.
A guerra com a Rússia no Leste da Ucrânia também contribui para a desestabilização da situação no país.

P.S. Hoje, alguns ucranianos celebram o 110º aniversário do nascimento de Stepan Bandera, personagem histórica muito controversa. Os nacionalistas vêm nele um herói da luta pela independência da Ucrânia e organizam no dia 1 de Janeiro marchas em memória desse acontecimento. Todavia, é difícil aceitar que ele possa ser uma figura que represente a unidade do país. Entre outras coisas, foi acusado de colaborar com os nazis na repressão contra polacos e judeus. Ainda hoje não existe uma biografia ponderada e equilibrada deste líder nacionalista. 





domingo, dezembro 30, 2018

Moscovo e Constantinopla lutam pelas almas a nível universal



As Igrejas Ortodoxas dos patriarcados de Moscovo e Constantinopla viram definitivamente as costas depois da criação da Igreja Ortodoxa da Ucrânia independente, processo muito contestado pelo primeiro e apoiado pelo segundo. 
Tratou-se, pelo menos por enquanto, de uma dura derrota para o Patriarcado de Moscovo, mas este responde agora noutras áreas, nomeadamente em Portugal. 
Quando surgiram notícias de que o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, tencionavam acabar com o Arcebispado das Igrejas Ortodoxas Russas na Europa Ocidental, o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa criou dois arcebispados: na Europa Ocidental e no Sudeste Asiático. 
"De forma alguma aceitaremos... e não podemos aceitar que Constantinopla tenha o direito exclusivo de acompanhamento espiritual da diáspora", declarou o metropolitano Ilarion, chefe do Departamento de Relações Internacionais do Patriarcado de Moscovo ao canal televisivo Rossya 24,  acrescentando que: "agora iremos criar as nossas paróquias, dioceses e estruturas no estrangeiro distante (termo que define os países que não fizeram parte da URSS) sem olhar de forma alguma para Constantinopla".
O primeiro arcebispado será constituído por: Andorra, Bélgica, Grã-Bretanha, Irlanda, Espanha, Itália, Lichtenstein,  Luxemburgo, Mónaco, Holanda, Portugal, França e Suíça. Ivan Bogorodski recebeu o título de arcebispo de Korsun e da Europa Ocidental, e irá dirigir esta nova estrutura.
O Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa decidiu também criar a Diocese de Espanha e Portugal, que terá o centro na capital espanhola e será dirigida por Nestor, que recebeu o título de "Bispo de Madrid e de Lisboa".
No fundo, trata-se de uma tentativa do Patriarcado de Moscovo conquistar terreno onde a diáspora ortodoxa, que formalmente depende de Bartolomeu, tem algum significado e tentar enfraquecer o Patriarca de Constantinopla e substitui-lo no plano internacional. Resta saber se as paróquias irão seguir o conselho do metropolitano Ilarion e juntar-se à Igreja Ortodoxa Russa. Em Portugal, a comunidade russa deverá maioritariamente responder a esse apelo, o mesmo já não se podendo dizer em relação aos ucranianos e moldados. 
O principal é que o processo de separação dos crentes e da propriedade religiosa não provoque conflitos. Isto está a provocar alguns conflitos na Ucrânia, mas, por enquanto, pouco significativos.



sábado, dezembro 29, 2018

Caçada "real" pode levar a demissão de governador comunista na Sibéria


O governador da Região de Irkutsk, Serguei Levtchenko, decidiu ir à caça e matou um urso a tiro, o que, por si só, constitui  um crime. O Serviço Federal de Segurança da Rússia considera o urso um "animal estratégico". 
Além disso, o governador, militante do Partido Comunista da Federação da Rússia e eleito com o apoio desta força política, abateu o animal quando este hibernava, o que torna essa acção ainda mais execrável. 
Serguei Levtchenko considera que o urso não dormia e que tudo foi realizado segundo a lei. O seu serviço de imprensa informa que a  caçada aconteceu em Novembro de 2016 e que as autoridades já investigaram o caso e não encontraram qualquer ilegalidade.
Todavia, os canais de televisão centrais da Rússia começaram  agora a fazer um grande alarido. O objectivo disso está longe de ser o amor à natureza, aproximam-se as eleições para o Parlamento regional. Esta será uma excelente oportunidade para substituir o comunista por um representante da "Rússia Unida", de Vladimir Putin no cargo de governador da região siberiana onde se situa o Lago Baical. 

Recordo que o urso é o símbolo do Partido "Rússia Unida", mas não sei se este factor pesará nas investigações e na pena a aplicar ao "caçador vermelho".
N.B. O Partido "Verdes" que pense bem nas alianças que faz!
P.S. Previno que as imagens do vídeo não são nada agradáveis. 

sexta-feira, dezembro 28, 2018

A moda dos muros está a ganhar terreno


Onde fica este muro? Entre os Estados Unidos e o México? Não, esta construção separa a Crimeia ocupada pela Rússia do território da Ucrânia. 
O Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) justifica: a construção do muro visa evitar a “infiltração de sabotadores” e combater a entrada de armas, drogas e outro tipo de contrabando por parte da Ucrânia no país. 
“A estrutura é composta por um muro com mais de 60 quilómetros de comprimento e inclui algumas centenas de sensores de vários tipos, incluindo sensores de vibração e de raios X. Está também equipado com sistemas de circuito fechado de televisão para garantir um controlo mais eficaz da área durante a noite e em condições de má visibilidade”, informam as agências russas citando fonte do FSB.
Gostaria de lembrar que, quando Vladimir Putin ordenou a invasão da Crimeia, alegou a protecção dos russos aí residentes, embora não tenha sido derramado sangue. Até hoje, desconhece-se quantos actos de sabotagem realizaram os "ucranianos" nessa sua região ocupada.
Quanto ao vergonhoso muro em construção por Donald Trump, os protestos soaram logo que começou a ser edificado, e agora? Também irão haver protestos ou trata-se de mais um facto consumado?
Será que este muro irá durar mais do que o famigerado Muro de Berlim, que dividiu a Europa entre 1961 e 1989? Não gosto de fazer prognósticos... 

Da Rússia: Na União Soviética não havia Natal, mas havia a ár...

Da Rússia: Na União Soviética não havia Natal, mas havia a ár...: A ditadura comunista nunca gostou da festa de Natal, mas era necessário substituí-la, tal era a sua popularidade. Os ideólogos soviéticos ...

Na União Soviética não havia Natal, mas havia a árvore "marxista-leninista"

A ditadura comunista nunca gostou da festa de Natal, mas era necessário substituí-la, tal era a sua popularidade. Os ideólogos soviéticos decidiram manter a árvore e os enfeites, concentraram as atenções no Ano Novo e não se esqueceram de dar um toque "marxista-leninista" aos festejos.





A estrela manteve-se no cimo da árvore, mas deixou de ser a de Belém para ser a vermelha.



Os anjinhos foram substituídos por cosmonautas, soldados do Exército Vermelho, ou personagens de contos populares.


E a Sagrada Família? Não fiquem preocupados pois esse problema também foi resolvido. O seu lugar passou a ser ocupado pelos camaradas Lénine e Estaline. Claro que nas bolas e não na manjedoura.


Mais toscos ou menos toscos...


E todas as crianças deviam saber que os líderes se preocupavam muito com elas. Lénine e Estaline gostavam muito das crianças, podiam era não gostar dos pais delas, mas isso é outra história. 







quinta-feira, dezembro 27, 2018

Em memória de Mandelshtam


No dia 27 de Dezembro de 1938, ou seja, à precisamente 80 anos, morria num dos campos de concentração estalinista Ossip Mandelshtam, um dos maiores poetas do século XX. Faleceu a poucas semanas de fazer 48 anos.
A acusação, naquela altura, era das mais comuns: propaganda ou agitação que encerram apelos ao derrube ou enfraquecimento do poder soviético (Art. 58, parágrafo 10), crime castigado com 10 anos de campo de trabalhos forçados.
E que crime tão grave cometeu este poeta para ser condenado ao degredo?..  Escreveu um poema em que os carrascos viram uma caricatura do ditador Estaline. 
Sem pretender a uma tradução poética ou até mesmo muito precisa, arrisco-me a traduzi-lo, pois até talvez algum dos meus amigos e leitores possa enviar uma tradução mais poética e exacta:

Vivemos sem sentir o país por debaixo dos pés,
Nossas vozes não se ouvem a dez passos,
Mas basta apenas um meio-falador,
Para se lembrarem do montanhês do Kremlin.
Seus dedos gordos, como vermes, são sebosos,
E verdadeiras as palavras, como halteres pesados.
Como os das baratas, seus bigodes riem-se,
E brilham os canos das suas botas.

Rodeado de uma ralé de cabeças finas,
Joga com os serviços de semi-homens:
Uns assobiam, outros miam e outros choramingam,
Mas apenas ele apenas manda e ordena.
Como ferraduras, produz decreto atrás de decreto.

Atinge a virilha, a testa ou o olhos.
Qualquer castigo dele é mel,
O osseta tem peito largo.

Alguns dizem que Estaline até gostou deste epigrama, mas o facto é que ele foi preso pouco tempo depois de o recitar entre "amigos".
Não lhe salvou a "Ode" que depois escreveu a cantar os feitos do ditador soviético. 
"Fugi dos vermelhos para a Crimeia. Aqui fui detido pelos brancos alegadamente por ser bolchevique. Da Crimeia fugi para a Geórgia, e aqui foi considerado branco. Mas que branco sou eu? Que fazer? Agora nem sei de que cor sou: branco, vermelho ou de outra cor qualquer. Sou poeta, escrevo poemas e mais do que as cores ocupam-me Tibúlio, Cátulo e a decadência romana", afirmou ele. 
Os comunistas soviéticos tinham outra opinião...





quarta-feira, dezembro 26, 2018

Não conheço nenhum povo que se alimente de mísseis e armas nucleares



Agora é que vai ser... Esta expressão vem-me à cabeça sempre que leio notícias deste género: Rússia testa míssil capaz de superar escudo anti-mísseis norte-americano. Basta dar uma vista de olhos por páginas como a da Suptnik em português e de algumas agências de informação russa para pensar que se trata de publicidade de uma loja de fabrico e venda de armas compreender. Vamos acreditar na propaganda oficial e considerar que está garantida a defesa do inimigo externo. Eu, e escrevo isto sem ironia, acredito nessa propaganda pois desde a era soviética, com o aparecimento de armas nucleares e mísseis de médio e longo alcance, que não passará pela cabeça de ninguém atacar a Rússia. Pelo menos desde 1941 que ninguém tentou fazer isso, pelo contrário, foram as tropas soviéticas/russas que invadiram outros países.
Pois bem, anulada a ameaça externa, agora é que vai chegar o tempo de Putin se lembrar dos seus cidadãos, mas tal não acontece, porque, actualmente, a capacidade de influência e até a força de um país não se mede pela quantidade de armas. Já ficou bem provado o que acontece aos países que enveredam na corrida aos armamentos sem bases económicas fortes. Lembro o melhor exemplo: URSS.
Como o regime russo teima em sacrificar os mais elementares direitos dos cidadãos à corrupção desenfreada das elites, a ideias falsas como a da superioridade moral de um povo em relação a outros, como a da "via original" para não se sabe bem onde, os cidadãos começam a ficar impacientes.
Segundo o centro de estudos sociais "Levada", no último ano, a popularidade de Putin de 59-60% para 39%. A queda da popularidade do ministro da Defesa, Serguei Choigu, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, sofreram a mesma queda. Chamo a atenção para a quebra de popularidade de Lavrov e Choigu, que alguns no Ocidente consideram ser dois grandes ministros, embora não façam mais do que transmitir as ordens do dono, porque é cada vez maior o número de russos que consideram que a política externa agressiva dos seus dirigentes podem ter consequências trágicas. A euforia da ocupação da Crimeia em 2014 está a ceder lugar ao medo da guerra, do confronto com a NATO e os Estados Unidos. 
O estudo revela que, se ainda recentemente, apenas 45-50% queriam o estabelecimento da paz e cooperação com o  Ocidente, hoje, esse número chega aos 79%. Os russos já estão cansados e fartos da verborreia militarista.
Os russos estão mais preocupados com o aumento da idade da reforma (90% contra), com os filhos (80%), com o perigo de uma guerra mundial 57%, com o aumento do poder Arbitrário da polícia e com o regresso às repressões em massa (40%). Estes medos são maiores do que os receios face ao desemprego (32%) e pobreza (45%). 
Este estudo refere outra tendência importante: é cada vez maior o número dos que afirmam que estão dispostos a sair à rua para defender os seus direitos, coisa que já não acontecia há alguns anos.
Resumindo, os habitantes da Rússia querem uma vida normal, sem histerias militaristas e confrontos com os vizinhos, com o nível de vida digno de um país com as suas potencialidades. Se o poder continuar a não dar ouvidos aos cidadãos, depois não se queixe. 

P.S. chamo a atenção para o preço do petróleo nos mercados internacionais. Se as turbulências continuarem, vários países, entre eles a Rússia, poderão ter problemas.


Подробнее: https://www.newsru.com/russia/26dec2018/gudkov.html