Domingo, Julho 05, 2009

Medvedev e Obama assinarão um acordo sobre armas estratégicas nucleares


Os Presidentes da Rúsia e dos Estados Unidos, Dmitri Medvedev e Barack Obama, assinarão um acordo sobre armas estratégicas nucleares (START) no fim das conversações no Kremlin, declarou hoje Serguei Prikhodko, assessor de Medvedev.
“O documento que assinarão os dirigentes russo e norte-americano não será juridicamente vinculante e só estabelecerá os pontos de referência para a elaboração de um novo tratado de armas ofensivas estratégicas que substitua o Tratado START-1 que expira a 05 de Dezembro de 2009”, explicou.
O Tratado START-1 foi assinado pela URSS e os Estados Unidos a 31 de Julho de 1991. Ele obriga cada uma das partes a limitar até 6.000 unidades o número de ogivas nucleares e até 1.600 o dos vectores. Ele prevê também inspecções recíprocas dos lugares de armazenamento e destruição das armas, trocas de informação.
Em 1993, a Rússia e os Estados Unidos assinaram o Tratado START-2 que previa uma redução importante de mísseis balísticos intercontinentais e de ogivas nucleares, mas a Rússia retirou-se desse tratado em 2002 em sinal de protesto contra o abandono pelos Estados Unidos do Acordo de 1972 que proibia a criação de sistemas de defesa antimíssil.
A 24 de Maio de 2002, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um acordo sobre a redução dos seus potenciais estratégicos ofensivos até 1700-2.200 cargas nucleares de cada parte até 31 de Dezembro de 2012.
A 1 de Abril de 2009, os Presidentes russo e americano acordaram em Londres relançar as negociações sobre um novo Tratado START.
O assessor de Medvedev reconheceu desconhecer os números que podem figurar no acordo-marco, mas assinalou que Moscovo está disposto a aceitar reduções que possam ser controladas eficazmente e sejam mais radicais que as fixadas no START-1.
“Mas a Rússia deseja abordar o tema da redução de armas ofensivas estratégicas em ligação com o plano de defesa antimíssil dos Estados Unidos na Europa e pretende também incluir no documento a proibição de instalar armamento estratégico ofensivo fora dos territórios nacionais”, precisou.
Prikhodko assinalou que, em geral, a Rússia e os Estados Unidos têm divergências que continuam a ser objecto de discussão. Por exemplo, Washington projecta instalar ogivas não nucleares em vectores estratégicos.
“A execução de tais planos incidirá negativamente na segurança e previsibilidade estratégica”, defendeu o assessor de Medvedev.
Os dirigentes russo e norte-americano assinarão também uma declaração sobre a cooperação em matéria nuclear.
“Medvedev e Obama acordarão desenvolver a cooperação bilateral no sector nuclear e também cooperar com terceiros países nesse terreno e fortalecer o regime de não proliferação de armas nucleares”, precisou o assessor do Kremlin.
Segundo ele, Moscovo espera que Washington desenvolva os esforços necessários para que volte a ser apresentado para ratificação no Congresso dos EUA o Acordo de cooperação no uso pacífico da energia nuclear assinado em Maio de 2008.
Neste contexto, os presidentes irão analisar a situação criada em torno da Coreia do Norte e Irão.

Sábado, Julho 04, 2009

Políticos russos indignados com equiparação do estalinismo soviético e nazismo alemão



Políticos russos condenam a resolução da Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa que condena o nazismo e o estalinismo e exigem que a Rússia reaja da forma “mais dura”.
Na véspera, a Assembleia Parlamentar da OSCE, que reúne 320 deputados de 56 países, aprovou uma resolução que condena, em igual medida, o estalinismo e o nazismo.
A resolução, cujo texto foi apresentado pela Lituânia e Eslovénia, recebeu oito votos contra e quatro abstenções, tendo a delegação russa boicotado a votação.
No texto afirma-se, nomeadamente, que “os dois principais regimes totalitários, o nazismo e o estalinismo, trouxeram o genocídio, a violação dos direitos e liberdades do homem, crimes militares e crimes contra a Humanidade”.
A Assembleia Parlamentar da OSCE condena “o elogio de regimes totalitários, incluindo a realização de manifestações públicas que glorifiquem o passado nazi ou estalinista”.
“Consideramos que a resolução, tal como foi aprovada, é um fenómeno vergonhoso para toda a Europa. As tentativas de colocar ... a União Soviética ao mesmo nível da Alemanha fascista são asquerosas quanto à sua essência e destruidoras para a própria Europa”, declarou hoje Guennadi Ziuganov, dirigente do Partido Comunista da Federação da Rússia.
Segundo ele, “a Rússia deve reagir a isso da forma mais dura. De qualquer forma: ou através de uma declaração, ou da ruptura de relações com essa organização”.
Oleg Morozov, vice-presidente da Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento russo, considerou “inaceitáveis” as tentativas de colocar um sinal de igualdade entre o estalinismo e o fascismo.
“Há definições universalmente aceites, rígidas do ponto de vista do Direito Internacional, do que é o fascismo. Há as decisões do Tribunal de Nuremberga. Há os resultados da Segunda Guerra Mundial, que ninguém tem o direito de pôr em dúvida”, declarou Morozov, que é também dirigente do partido Rússia Unida, base de apoio do Kremlin.
“Outra questão completamente diferente é a questão de quem é Estaline, a sua herança, o regime por ele criado. Mas isso são questões completamente diferentes”, sublinhou.
Segundo ele, as tentativas de comparar o estalinismo e o fascismo são “uma forma indirecta de pôr em dúvida as decisões de Tribunal de Nuremberga”.

Moscovo considera inevitável ligação entre redução de armamentos estratégicos e sistema de defesa antimíssil


A Rússia espera um debate sério com os americanos sobre a defesa antimíssil quando da visita do Presidente Barack Obama a Moscovo, anunciou Andrei Nesterenko, porta-voz do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros.
“Contamos com um debate muito sério sobre o problema do sistema de defesa antimíssil que está estreitamente ligado às questões da redução das armas ofensivas estratégicas”, acrescentou o diplomata.
No que respeita à redução de armas ofensivas estratégicas, ele frisou que “a consecução de acordos (START) que permitirão substituir o documento que expira em dezembro próximo (START-1) será objecto de uma atenção especial”.
Segundo o diplomata, “os presidentes farão um balanço do trabalho realizado e darão instruções aos peritos”.
A anterior administração dos Estados Unidos projectava instalar um radar na República Checa e dez mísseis interceptores na Polónia até 2013. A Rússia opõe-se a esse plano, não obstante representantes norte-americanos afirmarem que o escudo de defesa antimíssil visa impedir um ataque balístico da parte do Irão e que a Rússia não deve ver nele uma ameaça à sua segurança nacional.
O Tratado START-1, que expira em dezembro próximo, foi assinado pela URSS e os Estados Unidos a 31 de Julho de 1991. Ele obriga cada uma das partes a limitar até 6.000 unidades o número de ogivas nucleares e até 1.600 o dos vectores. Ele prevê também inspecções recíprocas dos lugares de armazenamento e destruição das armas, trocas de informação.
Em 1993, a Rússia e os Estados Unidos assinaram o Tratado START-2 que previa uma redução importante de mísseis balísticos intercontinentais e de ogivas nucleares, mas a Rússia retirou-se desse tratado em 2002 em sinal de protesto contra o abandono pelos Estados Unidos do Acordo de 1972 que proibia a criação de sistemas de defesa antimíssil.
A 24 de Maio de 2002, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um acordo sobre a redução dos seus potenciais estratégicos ofensivos até 1700-2.200 cargas nucleares de cada parte até 31 de Dezembro de 2012.
A 1 de Abril de 2009, os Presidentes russo e americano acordaram em Londres relançar as negociações sobre um novo Tratado START.
É precisamente neste campo que o Kremlin espera maiores resultados da cimeira Obama-Medvedev, isto se os norte-americanos aceitarem a ligação entre os dois problemas.
“Recordo que a Rússia e os EUA têm, juntos, 95 pc de todo o potencial nuclear mundial, isso é realmente assim. Mas só poderemos descer mais abaixo do que certo nível se a outra parte não estiver total e completamente segura em relação a esse nível mais baixo. Porque, então, a outra parte também não será tentada a ser a primeira a tentar empregar a arma (nuclear)”, considera Konstantin Kossatchov, presidente do Comité para Relações Internacionais da Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento russo.
Segundo ele, “por isso, essa ligação não surgiu nas nossas cabeças, ela existe objectivamente. E se não conseguirmos manter essa ligação, nós, objectivamente, não poderemos descer abaixo de um certo nível de armamentos estratégicos ofensivos”, acrescenta.
A adminnistração americana compreende que uma importante redução de armamentos estratégicos ofensivos poderá exigir no futuro uma ligação estreita com o problema do escudo antimíssil, considera Dmitri Simes, presidente do Centro Nixon (EUA), numa messa redonda dedicada à cimeira russo-americana.
“A administração Obama não considera que esta questão (a ligação das duas questões) implica uma solução absolutamente unívoca. Actualmente, é preciso prorrogar a acção do tratado START e este processo deve estar terminado antes de Dezembro, quando esse tratado expirar. Formalmente, será difícil impor uma relação entre os armamentos estratégicos e a defesa antimíssil, maspenso que a administração Obama compreende que profundas reduções de armamentos ofensivos estratégicos exigirão o estabelecimento de uma relação com a defesa antimíssil. E não penso que essa ideia seja rejeitada pela administração americana”, sublinha o perito norte-americano.

Recordando Anna Akhmatova


Anna AKHMÁTOVA (1889-1966)

Nascida perto de Odessa, passou grande parte da sua vida em Leninegrado. Casada com um oficial branco, fuzilado durante a guerra civil, não aceitou imediatamente a revolução, embora se recusasse a abandonar a Rússia. Se bem que pertencesse à União dos Escritores Soviéticos, os seus livros editavam-se pouco. Praticamente, só a partir dos anos 60 granjeou fama como poeta lírico. Em 1965 foi-lhe atribuído o prémio internacional Etna Taormina, da Academia Italiana, e o título de doutor “honoris causa” pela universidade inglesa de Oxford.
Poeta de um lirismo trágico, tanto pelo modo de sentir como pelas circunstâncias da sua vida, Akhmátova é uma das mais representativas continuadoras da tradição da poesia clássica russa, cujas infinitas possibilidades soube explorar.
A tradução do poema abaixo publicado é do meu saudoso amigo José Sampaio Marinho.

A MULHER DE LOTH

E a mulher de Loth olhou para trás
e transformou-se em estátua de sal.

E ia o justo atrás do enviado divino,
Enorme e claro, pela montanha de pez.
Mas algo à mulher disse num tom cristalino:
Ainda não é tarde, olha mais uma vez

As torres ígneas da tua natal Sodoma,
A praça onde cantaste, o pátio onde fiaste,
As vazias janelas da casa sem dona,
Onde o marido amado com filhos brindaste.

Olhou. Paralisados pela dor mortal,
Seus olhos mais não viram do que a noite escura,
E o seu corpo ficou de transparente sal
E os pés ágeis cravaram-se na terra dura.

Quem entre os homens tal mulher lamentará?
Não será ela a perda menor a chorar?
Só o meu coração jamais esquecerá
A que perdeu a vida por um só olhar.

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Curiosidades de Pretchistoe


A vila de Pretchistoe, onde vive Alexandra, fica situada a 25 quilómetros de outra vila que tem um nome curioso de Liubim (Amado), a 362 quilómetros a norte de Moscovo e 91 da cidade de Vologda.


Não obstante ser pouco visível na foto, posso garantir que a sede local do Partido Rússia Unida, dirigido pelo primeiro-ministro Putin, está instalada na mesma casa de madeira em que se encontra a agência funerária. O letreiro da Rússia Unida pode ser visto parcialmente entre o tronco de uma árvore e a parte de frente da casa, enquando o letreiro da funerária aparece em primeiro plano.

Analistas russos cépticos face ao futuro das relações entre Rússia e Estados Unidos


Os analistas russos olham com algum cepticismo para o futuro das relações entre Moscovo e Washington, considerando que isso se deve ao facto de os Estados Unidos não tencionarem fazer alterações sérias na sua política externa em relação à Rússia.
“Da parte russa (em comparação com as opiniões de analistas norte-americanos), o cepticismo é bem mais evidente, porque na Rússia não vêem mudanças reais na política americana e consideram que elas têm um carácter fundamentalmente cosmético”, considera Serguei Karaganov, presidente do Conselho para a Política Externa e de Defesa.
Karaganov apresenta como exemplos a recusa de Washington a travar o alargamento da NATO (à Ucrânia e Geórgia) e as tentativas de se esquivar à assinatura de um acordo sobre segurança europeia, proposta feita pelo Presidente russo, Dmitri Medvedev.
Segundo este analista, as divergências são também provocadas pelo facto de Washington e Moscovo terem interesses vitais diferentes na arena internacional.
“Os interesses vitais ou se encontram a diferentes níveis, ou têm um peso radicalmente diferente para cada uma das partes”, sublinha.
“Entre os interesses vitalmente importantes dos Estados Unidos estão a saída digna do Iraque, a estabilização no Afeganistão, a conservação do Paquistão e o controlo das suas armas nucleares. E, em primeiro lugar, a não aquisição de armas nucleares pelo Irão, o que ameaça com um colapso as posições da América no Médio Oriente, região fulcral para ela”, explica Karaganov.
“Entre os interesses da Rússia estão o domínio no espaço post-soviético e a não permissão nesta área de alianças de outros países, a criação de uma nova arquitectura da segurança europeia e um sistema mais justo de direcção da economia mundial”, acrescenta.
Porém, Karaganov frisa que nenhuma das partes pode resolver os seus problemas vitais sem a cooperação entre elas.
Victor Kremeniuk, vice-director do Instituto dos EUA e Canadá da Academia das Ciências da Rússia, considera ser importante o que poderá provocar mudanças nas relações entre os dois países, acrescentando que “por enquanto, não vejo nada que possa levar a essas mudanças”.
Por isso, o analista defende que é necessário, no mínimo, elevar as relações russo-americanas ao nível conseguido por Mikhail Gorbatchov e Ronand Reagan, quando as partes realizavam consultas regulares.
“A Rússia receia revelar fraqueza se aceitar coordenar a sua política com os americanos. Os americanos receiam que a Rússia enfraqueça ainda mais e não é preciso aceitar compromissos excessivos”, sublinha Kremeniuk.
Uma sondagem realizada pelo Levada-Tsentr na Rússia mostra que 57 pc dos respondentes consideram que as relações russo-americanas não sofreram alterações depois da eleição de Barack Obama para o cargo de Presidente dos Estados Unidos. Em Janeiro, esse número era de 38pc.
Segundo este estudo, 56 pc dos russos consideram que a Rússia não deve aceitar a proposta de Washington de reduzir significativamente o número de cargas nucleares e dos seus vectores, tendo em conta os planos dos Estadosa Unidos de reforçar o seu sistema de defesa antimíssil.

Natália Zarubina tenciona visitar Portugal ainda este ano


Natália Zarubina, mãe de Alexandra, menina russa que foi retirada a uma família de acolhimento portuguesa pelo Tribunal de Guimarães, mostrou-se disposta a visitar Portugal e constatar no local as propostas que lhe foram feitas de habitação e emprego
“Talvez lá para a época do Natal ou do Ano Novo, quando tiver resolvido aqui questões burocráticas”, declarou Natália à Lusa, numa conversa telefónica.
“Na segunda-feira, a Sandra deverá ir pela primeira vez para o infantário em Pretchistoe (aldeia onde vive a família dos Zarubin), tenho andado estes dias com ela pelos médicos para que lhe dêem o atestado de saúde”, explica ela.
Olga Kuznetsova, jornalista do diário russo Komsomolskaia Pravda que hoje visitou a família dos Zarubin, declarou à Lusa que “Sandra fala cada vez melhor russo, tem bom aspecto e não passa um minuto parada”.
“Depois da menina começar a frequentar o infantário, eu terei tempo para tratar dos passaportes meu, da minha filha mais velha Valéria e do meu irmão, que também pretendem viajar comigo e com a Sandra a Portugal”.
Natália saiu de Portugal há mais de um mês com um passaporte russo caducado, precisando agora de tirar um novo para poder viajar para o estrangeiro.
“A preparação dos documentos demora algum tempo e, por isso, penso que não poderei viajar antes do Natal e do Ano Novo”, precisou.
O Serviço Federal de Imigração da Rússia, órgão que concede aos cidadãos passaportes, fixa um prazo de 30 a 45 dias para esse processo.
A mãe de Alexandra disse à Lusa que já comunicou à filha a possibilidade da viagem a Portugal, notícia que foi recebida com entusiasmo.
“Vou a Portugal para ver o que me propõem, receber garantias de que realmente as promessas são uma realidade e que não se trata de uma armadilha. Depois, tomarei uma decisão”, acrescenta Natália.
Dois presidentes de câmara e dois empresários portugueses comprometeram-se a conceder à família de Natália Zarubina, caso ela aceite voltar a Portugal com Alexandra, um apartamento perto da localidade da família Pinheiro, que acolheu a menina durante quatro anos, bem como um café para explorar e o pagamento das despesas com os transportes da Rússia para Portugal.
Na Rússia, Natália tem recebido visitas de representantes das autoridades, nomeadamente da Câmara Social junto do Presidente da Rússia, mas os apoios não chegam, além de quinze dias de férias numa casa de repouso no Distrito de Iaroslavl e 400 rublos (cerca de 09 euros) por mês de abono de família para as duas filhas.
A mãe e avó de Sandra pediram à Câmara Social para arranjarem uma casa para a família mais perto da cidade de Iaroslavl, onde seria mais fácil a Natália encontrar trabalho, mas não receberam resposta.
A mãe de Alexandra ainda não trabalha e as únicas fontes de rendimento da família são o salário da avó, contabilista num orfanato local, e a reforma do avô.
Segundo a jornalista Orga Kusnetsova, quando os representantes da Câmara Social perguntaram a Alexandra se ela queria voltar a Portugal, ela respondeu: “Claro, tenho lá mais dois cães!”.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Obama irá encontrar-se também com Putin e Gorbatchov


O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reunir-se-á com Vladimir Putin, actual primeiro-ministro russo, e Mikhail Gorbatchov, último Presidente da União Soviética, durante a sua visita à capital russa, escreve hoje a imprensa de Moscovo citando Denis McDonough, assessor do líder norte-americano.

Ambos os encontros decorrerão no próximo dia 07 de Julho, no segundo dia da visita de Barack Obama à Rússia.

“Na manhã de terça-feira, o Presidente terá um pequeno-almoço de trabalho com o primeiro-ministro Vladimir Putin e, mais tarde, reunir-se-á com o último Presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov”, precisou McDonough.

Fonte diplomática em Moscovo declarou à Lusa que a organização do encontro com Vladimir Putin foi um dos pontos mais complicados no acerto da agenda da visita.“Washington compreende que as rédeas do poder na Rússia continuam, em grande parte, nas mãos de Putin, mas é necessário não ferir susceptibilidades, pois o cargo de Presidente é ocupado por Dmitri Medvedev”, precisou a fonte.

“A Rússia é, teoricamente, uma república presidencialista, mas os norte-americanos não podiam deixar de ter em conta a realidade dos factos”, concluiu.

A segunda-feira está reservada para as negociações e encontros informais com o dirigente russo Dmitri Medvedev. À noite, Obama e a mulher jantarão com o casal Medvedev.

O programa da visita de Obama inclui também uma intervenção na Escola Superior de Economia, com um discurso programático que se centrará nas relações russo-norte-americanas, um encontro com empresários russos e uma reunião com representantes de organizações não governamentais.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, não acompanhará Obama a Moscovo por motivos de saúde.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Faleceu a "Amália Rodrigues russa"



Ludmila Zikina, uma das maiores vozes da canças popular russa, faleceu ontem aos 80 anos em Moscovo vítima de problemas cardíacos, informam as agências russas.
Ludmila Gueorguevna faleceu há uma hora atrás. Ela faleceu no hospital. Nos últimos tem, ela sofria de problemas cardíacos”, declarou Ksenia Rubtsova, directora da Fundação Ludmila Zikina.
A Artista do Povo da União Soviética, Ludmila Zikina, começou a sua carreira de intérprete no Coro Popular Russo de Piatnistski em 1947, tendo passado por outro coro importante como o Coro da Canção Russa da Rádio da URSS. Em 1960. iniciou uma carreira a solo, que a ela aos mais distantes recantos da União Soviética e do planeta.
“Amo-te Rússia”, “Corre o rio Volga”, “Vésperas nos arredores de Moscovo” são algumas das canções que fizeram um ícone de Ludmila Zikina, conhecida pela sua voz límpida e penetrante, que fazia chorar plateias.
Zikina, durante a sua carreira, gravou mais de duas mil canções populares russas, obras de compositores soviéticos e russos, bem como romanças russas. Editou discos com uma tiragem total superior a seis milhões de exemplares.
A cantora era, na era soviética, um dos símbolos do seu país, tão conhecida no estrangeiro como as matrioskas ou o caviar russo, tendo actuado em praticamente todos os países europeus, incluindo Portugal, bem como na América do Norte, América Latina, etc.
Além de Artista do Povo da URSS, título máximo que podia ser atribuído no seu país aos intelectuais, Ludmila Zikina foi premiada com a “Ordem da Honra” (1967) e a “Ordem de Lénine” (1979).
A sua popularidade não sofreu com o fim da União Soviética, tendo sido acarinhada e apoiada pelos três presidentes russos. Foi condecorada com as ordens “Pelos Serviços prestados à Pátria” do III, II e I graus, de “Veterana do Trabalho”, “Ordem do Apóstolo Santo André”.
A 20 de Maio de 1999, o Governo da Rússia decidiu chamar “Ludmila Zikina” a um diamante de 55,02 quilates, que se encontra no Fundo de Diamantes do Kremlin.
No passado 10 de Junho, o 80º aniversário de Ludmila Zikina foi festejado com um monumental concerto, organizado por Svetlana Medvedeva, esposa do Presidente russo.
Apoiada por outros artistas, a cantora ainda interpretou alguns dos temas que a imortalizaram.
Para mim, faleceu uma das grandes referências da música soviética e russa, um pouco da minha juventude. Quando me reunia com amigos russos, nos meus anos de estudante, bastava haver uma guitarra (se houvesse um piano, melhor ainda) para passar longas horas a cantar e nunca se passava ao lado das canções interpretadas por Ludmila Zikina.
Cruzei-me uma vez com ela no corredor do edifício onde a cantora viva, pois era vizinha de uma amiga da universidade. Tinha um ar imponente, sempre muito bem apresentada, enfeitada com ricos brincos e anéis, mas sempre muito simples, cumprimentou-nos com um enorme sorriso.
Os que a conheceram mais de perto dizem que Ludmila Zikina era uma mulher muito simples, como as mulheres russas do campo, de onde ela também era originária.
"Corre o rio Volga, Corre o rio longamente, e eu tenho apenas 17 anos. Por entre as neves alvas, corre o rio Volga..."
As comparações nem sempre são fiéis, seguras, mas, no caso de Ludmila Zikina, posso dizer, para os meus leitores que não ouviram a sua voz, que faleceu a "Amália Rodrigues russa".

Jogadores russos são obrigados a seguir o destino de Dostoevski


Vinte anos depois de na URSS ter sido autorizada a abertura do primeiro casino, a Rússia encerrou, às 24 horas de terça-feira, as casas de jogos, atirando os jogadores para os casinos virtuais ou clandestinos em todo o país.
A 01 de Janeiro de 2007, na Rússia entrou em vigor uma lei que ordena o encerramento dos casinos situados fora de quatro “zonas especiais de jogo” até 01 de Julho de 2009. Porém, as autoridades não cumpriram a segunda parte da lei, a criação das “zonas especiais” até à data.
No papel, estas foram criadas no Extremo Oriente e na região das Montanhas de Altai, na fronteira com a China; no distrito de Kalininegrado, enclave russo no Báltico; e na fronteira entre os distritos de Krasnodar e Rostov no Don, no sul do país, mas nada foi feito para construir aí novos casinos.
Segundo os proprietários dos casinos, esta medida lançou para o desemprego cerca de 350 mil trabalhadores, numa altura em que a falta de emprego é cada vez mais aguda na Rússia. Em Moscovo, fecham hoje as portas 29 casinos e 486 salas de jogo.
O Ministério das Finanças da Rússia reconheceu que, em 2008, os “jogos de azar” trouxeram impostos no valor de 26,4 mil milhões de rublos, ou seja, mais de 400 milhões de euros.
A fim de fazer cumprir a lei, as autoridades russas concentraram tropas especiais do Ministrério do Interior nas grandes cidades, onde se encontra o maior número de casinos e salas de máquinas.
Porém, os gerentes dos casinos não têm dúvidas de que os jogos de azar, que fazem movimentar anualmente mais de três milhões de euros, não desaparecerão, mas apenas se adaptarão à nova situação.
Parte significativa dos jogadores passarão a jogar na Internet e algumas das casas de jogo foram transformadas em “clubes de poker”, que não são proibidos pela nova lei. Além disso, muitas das máquinas de jogo foram adaptadas para a venda de bilhetes de lotaria.
As empresas que mantinham casinos e salas de jogo não tencionam mudar para as “zonas especiais”, pois a criação de novos locais requer grandes investimentos, mas admitem mudar-se para países vizinhos da Rússia, onde as leis do jogo são mais liberais.
A Moldávia, Roménia, Bulgária e Montenegro poderão ser alguns países para onde poderão os descendentes das personagens do famoso romance “Jogador”, de Fiodor Dostoevski.
No séc. XIX, o grande escritor russo, viciado no jogo, ia fazer apostas para os casinos na Alemanha, pois os jogos de azar eram proibidos no seu país.
Tatiana Dmitrieva, directora do Centro de Psiquiatria Social e Jurídica de Moscovo, considera que esta proibição irá fazer aumentar o número de pacientes dos psiquiatras.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Rússia aperta o cerco gasífero à UE ao assinar contrato com Azerbaijão


A empresa russa Gazprom assinou hoje um contrato com a Companhia Pública de Petróleo do Azerbaijão (GNKAR) sobre o fornecimento de gás azeri à Rússia, o que é visto como mais uma passo para invavilizar a construção do gasoduto Nabucco.
Segundo as agências russas, “o documento, que fixa as condições fundamentais da aquisição de gás natural azeri, foi assinado pelo director da “Gazprom”, Alexei Miller, e pelo dirigente da GNKAR, Rovnag Abdullaev, depois das conversações entre o Presidente russo, Dmitri Medvedev, e o seu homólogo azeri, Ilkham Aliev”.
O contrato prevê o fornecimento de 500 milhões de metros cúbicos por ano a partir de 01 de Janeiro de 2010, mas os fornecimentos deverão aumentar.
“Planeamos, posteriormente, aumentar os fornecimentos de gás à medida que aumentarmos a extracção de gás azeri”, declarou o Presidente Aliev.
Segundo ele, o volume de extracção de gás no Azerbaijão deverá subir de 27 mil milhões de metros cúbicos em 2009 para 30 mil milhões em 2010.
“Hoje, lançámos uma boa base para a cooperação na esfera gasífera. Penso que será uma cooperação com muito êxito e mutuamente vantajosa”, frisou.
A agência Ria-Novosti sublinha que “até agora, a Gazprom não comprava gás azeri”.
Segundo alguns analistas, este documento é mais uma das tentativas russas de neutralizar o projecto “Nabucco”.
Este gasoduto, que deverá ser financiado pela União Europeia, ligará a Ásia Central e a bacia do Mar Cáspio à Europa, ladeando o território russo.
Alguns analistas consideram que o acordo russo-azeri vem juntar-se ao interesse da Rússia em participar na construção do gasoduto Transsariano, que irá ligar a Nigéria à Europa através do deserto do Saara, como forma de controlar as fontes de fornecimento de combustível azul à União Europeia.
Durante a visita à Nigéria, realizada na semana passada, o Presidente Medvedev declarou que a construção do Transsaariano “é um projecto interessante para a Rússia", sublinhando: “não porque queiramos fechar torneiras e controlar a situação”.
Porém, Boris Tumanov, analista do diário digital gazeta.ru, chama a atenção para as palavras de Alexei Miller, dirigente da Gazprom, durante a mesma visita.
“Tudo isso foi estragado por Alexei Miller, que, quase paralelamente ao Presidente russo, preveniu a Europa das tentativas de diversificar as fontes de fornecimento de gás, porque, como ele explicou, isso pode, pelo contrário, deteriorar a sua segurança energética”, considera o analista.
Segundo o analista, à primeira vista, há uma contradição nas palavras do Presidente russo: "quando Moscovo faz tudo para impedir a construção do gasoduto Nabucco (não foi por acaso que Medvedev foi a Baku para convencer Aliev a vender o gás azeri à Rússia), quando Moscovo “fecha a torneira” na Ucrânia, na Turcoménia e até na Bielorrúsia, tentando “controlar a situação”, o desejo de fornecer permanentemente gás nigeriano à Europa poderia ser um sinal de preocupante bifurcação do pensamento estatal russo”.
Porém, o comentador defende que Moscovo “simplesmente deseja controlar não só os recursos gasíferos turcomenos e azeris, mas também nigerianos”.
Os presidentes russo e azeri analisaram também o problema de Nagorno-Karabakh, enclave no território azeri com maioria da população arménia.
Em 1989, Nagorno-Karabakh proclamou a independência em relação ao Azerbaijão, provocando uma longa guerra entre azeris e arménios. Em 1994, o conflito foi congelado, mas ainda não foi encontrada solução até hoje.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Exército russo dá início a exercícios militares no Cáucaso


As Forças Armadas da Rússia começam hoje manobras estratégicas “Cáucaso 2009”, em que participam também as brigadas russas estacionadas na Abkházia e Ossétia do Sul, informou o general Vladimir Voldirev, comandante do Exército.
“As manobras operativo-estratégicas “Cáucaso-2009”, sob o comando do chefe do Estado Maior das Forças Armadas da Rússia, general Nikolai Makarov, começam hoje em dez províncias do sul da Rússia”, precisou Andrei Bobrun, porta-voz da Região Militar do Cáucaso do Norte.
Entre essas regiões estão as repúblicas do Norte do Cáucaso russo: Ossétia do Norte, Inguchétia, Daguestão, Karatcheaevo-Circásia e Tchetchénia, fazendo esta última fronteira com a Geórgia.
O Ministério do Interior da Rússia informou que nas manobras, que se prolongarão até 06 de Julho, participam 8.500 soldados e oficiais, 200 tanques, 450 veículos blindados e 250 peças de arilharia de diverso calibre.
“Nos exercícios participam unidades da Região Militar do Cáucaso do Norte, bem como estruturas que interagem com elas: Força Aérea e Tropas de Defesa Anti-aérea, Frota do Cáspio, base naval militar de Novorrossisk, direcção regional das Tropas Fronteiriças do Serviço Federal de Segurança, comando regional das Tropas do Ministério do Interior no Cáucaso do Norte e paraquedistas”, acrescentou Andrei Bobrun.
Além disso, nas manobras participam as tropas russas estacionadas na Abkházia e Ossétia do Sul, repúblicas separatistas georgianas que proclamaram a independência com o apoio de Moscovo.
O cenário é muito semelhante àquele seguido no ano passado em manobras idênticas, que antecederam a guerra entre a Rússia e a Geórgia, no mês de Agosto.
“Durante as manobras, iremos experimentar e analisar um amplo leque de medidas adequadas possíveis de carácter militar para garantir a segurança dos cidadãos da Rússia, das comunicações de transporte e energéticas, de alvos estratégicos, bem como medidas com vista à defesa dos interesses económicos da Rússia na região sudoeste”, frisou Bobrun.
Ele acrescentou que as tropas da região militar do Cáucaso do Norte irão ter em conta a experiência adquirida durante a “operação para obrigar a Geórgia à paz”.
A pretexto de defender os seus cidadãos na Ossétia do Sul do ataque das tropas da Geórgia, Moscovo desencadeou, a 08 de Agosto de 2008, uma operação militar que levou à retirada dos militares georgianos dessa região separatista e à ocupação de parte do território do país vizinho.
Em Setembro, o Kremlin reconheceu a independência das repúblicas separatistas georgianas da Abkházia e Ossétia do Sul.

“Eu levo o kochka lá na verkh”










As duas reportagens abaixo publicadas foram escritas para a Agência Lusa, de quem sou correspondente em Moscovo. Na passada sexta-feira, visitei a vila Pritchistoe, onde vive Alexandra e sua mãe Natália.

“Eu levo o kochka lá na verkh”, grita Alexandra numa infantil mistura de línguas russa e portuguesa, enquanto pega num gatinho (kochka em russo) siamês e o leva para cima (na verkh) do forno russo, onde tem instalada a “casa” de seus amigos: gatos, bonecas, livros...
A menina russa que, foi retirada à família de acolhimento portuguesa e partiu para a Rússia há pouco mais de um mês, aumenta diariamente o seu vocabulário russo com grande rapidez, esquecendo aos poucos as palavras equivalentes em português.
“Por enquanto, ainda é Sandra, mas, daqui a pouco tempo, já será Chura (um dos diminuitivos russos de Alexandra)”, declara à Lusa o avô Serguei, ao mesmo tempo que explica a forma como a menina aprende o russo.
“Quando ficámos sozinho, disse-lhe: vai lá cima e traz umas meias. Ela olhou para mim e não entendeu o que eu queria, mas mostrei-lhe umas meias que tinha calçadas e ela rapidamente me trouxe outras”, regozija-se o velho mineiro, hoje reformado.
“Ontem, por telefone, João e Florinda perguntaram-lhe, por telefone, se ela queria voltar a Portugal e a Sandra que respondeu que não, que aqui estava melhor”, acrescentou vitorioso.
“A minha mãe disse-nos ontem que a Sandra disse aos portugueses que não queria regressar, que gostava muito de estar aqui”, corrobora com menor convicção Valéria, acabada de chegar a casa da escola.
“Valéria! Valéria!”, grita Alexandra ao ver a irmã mais velha a entrar no umbral da velha casa de madeira da família Zarubin.
“Adora a irmã mais velha!É a maior amiga da Sandra. Anda sempre atrás da Valéria quando ela está em casa, não a deixa um minuto em paz”, confirma a “mãe Natália”, como lhe chama Alexandra.
“Os portugueses devem viver em Portugal, os russos na Rússia e os alemães na Alemanha. Eu não tenho nada contra outros povos, vivi com gentes de muitas nacionalidades no Cazaquistão, mas a minha posição é esta”, junta-se a avó de Alexandra à conversa.
Porém, as palavras dos membros da família dos Zarubin já não são pronunciadas com a mesma firmeza e convicção de há um mês atrás... O não de Natália à proposta de regresso a Portugal já não é tão categórico.
“Vamos ver, por enquanto, ainda tenho muitos problemas burocráticos a resolver, tenho de me inscrever no fundo desemprego, comprar uma máquina de costura para começar a trabalhar”, declara à Lusa Natália, reconhecendo que não recebeu qualquer ajuda das autoridades russas além de quinze dias de férias numa casa de repouso do Distrito de Iaroslav.
As relações com um dos vizinhos também estão irremediavelmente estragadas.
“Ele estaciona o camião quase em cima da casota da cadela Lúcia e receio que atropele a Sandra, pois ela está sempre a correr para junto da Lúcia e do cachorrinho. Peço-lhe para afastar o camião, mas sou ouço insultos”, queixa-se Natália.
Valerii Dementiev, o vizinho visado, respondeu com acusações à família dos Zurabin e ameaçou recorrer à polícia.
“Vou apresentar queixa à polícia e tenho muitas razões para isso”, deixou ele a ameaça no ar.
Alexandra, aparentemente alheia aos conflitos dos adultos, não pára um minuto, corre pela horta e grita : “babotchka” (borboleta), babuchka (avó), kartochka (batata).

“Na nossa vila há hotel para albergar a família portuguesa”











Natália Zarubina, mãe de Alexandra, olha com alguma incerteza para o futuro, mas não fecha a “porta” à vinda da família Pinheiro à aldeia onde habita.
“Na nossa vila há um hotel com condições e estou disposta a receber o João e a Florinda, eles podem visitar a Sandra quando quiserem”, declarou Natália à Lusa quando confrontada com a pergunta de se admitia a possibilidade de regressar a Portugal.
Um riso céptico surge-lhe no rosto e desvia o rumo da conversa.
“Recebemos ajuda inesperada. Um grupo de russos que vivem nos Emiratos Árabes Unidos enviaram uma piscina de plástico e um telemóvel para a Alexandra. Um anónimo trouxe-nos comida para os cães que deve dar para mais de um ano”, relata a mãe da menina russa que foi retirada à família de acolhimento portuguesa e levada para a Rússia há pouco mais de um mês.
“Mas também recebi um postal com insultos vindo da Espanha, pelo menos trazia selo espanhol. Exigiam que eu devolvesse a criança a Portugal”, acrescentou.
Natália não se queixa, mas constata que pouco apoio tem recebido das autoridades russas, a não ser uma estadia de duas semanas para ela e as filhas numa casa de repouso no Distrito de Iaroslav.
“Da Câmara Social junto do Presidente da Rússia não veio cá ninguém, disseram-me que vou começar a receber um abono de família no início de Julho, mas não sei quanto, vou increver-me no centro de emprego, mas não está fácil”, sublinha.
A crise económica já há muito tempo chegou à vila de Pritchistoe e os empregos não são muitos, tanto mais que desapareceram algumas indústrias.
“Antes, tínhamos uma panificação, uma vacaria, fábrica de leite e queijo, mas já fecharam todas”, reconhece Valéria, a irmã mais velha e a maior amiga de Sandra.
O seu sonho é estudar arquitectura na cidade de Iaroslavl, mas para isso é preciso terminar a escola média, obter notas para conseguir esse objectivo e ter meios financeiros para ir estudar para a capital de distrito.
Quando se aborda a questão da possibilidade de Natália e Alexandra regressarem a Portugal, a primeira reacção de toda a família dos Zarubin é uma negativa, mas já não tão firme como há um mês atrás, quando mãe e filha chegaram à Rússia.
Além das dificuldades económicas evidentes, aumentadas pela entrada em casa de mais duas pessoas, as relações com alguns vizinhos não são nada pacíficas. A família dos Zarubin chegaram do Cazaquistão a Pritchistoe em 2000, são todos russos, mas olhados com alguma desconfiança pelos locais.
Alexandra ainda não tem idade para compreender zangas e problemas de adultos e tenta estabelecer contacto com os locais, aprendendo rapidamente palavras separadas ou frases inteiras em língua russa.
“Quero um morojno (gelado em russo) de chocolate e kartochki (batatas)”, diz Alexandra depois de entrar numa pequena loja local.
A menina fala numa mistura de russo e português, sendo cada vez maior o número de palavras russas nas suas conversas, mas continua a dizer em português: “mãe Natália” e “mãe Florinda”.