sexta-feira, março 24, 2017

"Grande antifascista" Putin recebe a "ultra democrata" Marine Le Pen

NÃO SERÁ ISTO FALTA DE VERGONHA NA CARA OU PUTIN PENSA MESMO QUE TODOS SOMOS IDIOTAS.
Vladimir Putin, Presidente da Rússia e conhecido lutador contra o fascismo em todo o mundo, principalmente na Ucrânia, recebeu Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa. Atenção às justificações para tal acontecimento: "tentamos manter relações iguais tanto com representantes do poder vigente, como com representantes da oposição". Além disso, frisou: "Nós não queremos influir de forma... alguma nos acontecimentos correntes, mas chamamos a nós o direito de conversar com todos os representantes de todas as forças políticas do país, como fazem os nossos parceiros na Europa, nos Estados Unidos".
Será preciso mais algum comentário? Se a Europa e os EUA decidirem que o mundo é quadrado, Putin fará o mesmo.
P.S. Um conselho: senhores dirigentes do PNR, BE, PCP, etc., etc. inscrevam-se para uma recepção no Kremlin.








segunda-feira, março 06, 2017

As crianças não são feitas para a guerra




A educação do patriotismo é um dever de cada sociedade, mas nada de patriótico tem alimentar nas crianças o ódio contra os outros baseando-se em povos concretos.

Serguei Choigu, ministro da Defesa da Rússia anunciou, no final do mês passado, que o seu ministério tenciona construir nos arredores de Moscovo uma maquete do Reichstag para treinar os activistas do movimento “Iunarmia” (Exército Jovem), uma espécie de Putinjugend.

“Nós, no parque “Patriota” estamos a construir o Reichstag. Não em tamanho real. Para que os nossos jovens militares possam tomar de assalto um edifício concreto”, explicou o ministro.

Como é sabido, o Reichstag, edifício imponente no centro de Berlim, foi tomado pelas tropas soviéticas a 9 de Maio de 1945, e é considerado um dos mais importantes símbolos da vitória do Exército Vermelho sobre os nazis.

Mas o problema é que Serguei Choigu, talvez porque esteja mais ocupado com as guerras na Síria e na Ucrânia, se esqueceu que esse edifício alberga hoje o Parlamento da Alemanha reunificada.

As autoridades alemãs, perante tal “esquecimento”, chamaram a atenção do ministro russo para esse pormenor. Patricia Flor, funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemã, considerou o plano “estranho” e acrescentou que “esta ideia parece-me muito estranha, até porque, hoje, no Reischtag, reúne-se o Parlamento Alemão”. 

Até o politólogo alemão Alexandre Rahr, conhecido pelas boas relações com o Kremlin, considerou a ideia da tomada do Reischtag “estranha e inadequada”, frisando que “aí se reúne o Parlamento da Alemanha Democrática, que se demarcou do passado nazi”.

Não obstante, o Ministério da Defesa da Rússia, face a essa onda de indignação, manifestou perplexidade. O general-major Igor Konachenkov, porta-voz militar, aquele que nas conferências de imprensa comenta os êxitos da aviação russa na Síria, mesmo quando os pilotos erram o alvo, reagiu da seguinte forma: “os ataques a este propósito dos políticos alemães não só provocam perplexidade extrema, como nos obrigam a reflectir sobre quais as suas convicções reais sobre os “construtores” do Terceiro Reich em 1933-1945”.

Ou seja, os críticos da posição russa, no fundo, escondem as suas verdadeiras ideias em relação a Hitler e ao nazismo. Mas o mais estranho é que o Kremlin não utiliza a mesma linha de raciocínio para condenar aqueles que abertamente defendem posições políticas extremas. A reacção do general russo mais parece ser uma das formas para desviar a atenção da política de Putin de financiamento e apoio a grupos de extrema-direita e neo-nazis estrangeiros.

Desconhece-se, por enquanto, que outras maquetes irão ser instaladas no citado parque, mas certamente que lá não irá estar a sede do Partido da Frente Nacional de Marine Le Pen, conhecida “combatente” contra o fascismo e pela democracia.

Suponho também que, pelo menos por enquanto, não haverá uma maquete da Trump Tower, e, a julgar pela quantidade crescente de revelações sobre os contactos pouco transparentes entre os homens de Donald Trump e serviços secretos e diplomatas russos, esse edifício em miniatura não deverá ser erigido. A não ser que…  As coisas mudam com tanta rapidez que vou deixar os prognósticos para mais tarde.

Poderia não valer a pena comentar esta afirmação do general russo se não se soubesse que o Kremlin revê descaradamente a história para justificar a sua política interna e externa. A cerca de um ano de eleições presidenciais, Vladimir Putin prepara mais uma vitória através de métodos tradicionais, populistas e demagogos: muito foi feito no plano interno, mas não fizemos mais porque os inimigos externos e a quinta coluna nos criam problemas com sanções, etc., mas tivemos grandes êxitos na política externa, pois mais de meio mundo tem medo de nós. 



P.S. Não ficarei surpreendido se alguém vier defender a ideia de Choigu dizendo que é melhor que as crianças “façam” guerras ao ar livre, para que pratiquem exercício físico, do que nos computadores. Acho as duas formas de treino desumanas, cruéis e anti-pedagógicas.

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Em memória de uma tragédia


As “lições” das tragédias

Não deve haver na Póvoa de Varzim qualquer família piscatória que não tenha perdido alguns dos seus entes queridos no terrível naufrágio de 27 de Fevereiro de 1892.
Quando passo por detrás da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, quase nunca esqueço de olhar uma vez mais e ler a "Supplica" gravada em azulejos pela alma das dezenas de homens do mar que partiram e não regressaram vivos. Foram 105 (cento e cinco pescadores) engolidos pelas ondas.

Deixo aqui aquilo que foi escrito por um dos mais ilustres estudiosos poveiros. António dos Santos Graça, na obra “Epopeia dos Humildes: para a história trágico-marítima dos poveiros” escreveu:

“ A tragédia de 27 de Fevereiro de 1892 fez mergulhar em negro o garrido trajar poveiro. Não houve lar onde não entrasse o luto. Heroicidade, abnegação, de tudo houve nesse dia de angústia! A tempestade surpreendeu as lanchas no mar da Cartola a sudoeste de Aveiro. Duas lanchas, a do tio Praga e a do tio Jéque, caminhavam a par, apenas com uma latina, a caminho do norte. Tinham que seguir como Deus fosse servido, porque não havia força humana que as pudesse desviar do seu curso tempestuoso. Sem um minuto de descanso, os homens das companhas esforçavam-se para deitar fora a água, que as vagas alterosas teimavam em atirar para dentro das embarcações. Os mestres eram compadres e amigos. As companhas afoitavam-se mutuamente para não esmorecerem. Mas uma – a do mestre Jéque – pelas alturas de Esposende, encheu-se de água e soçobra; a outra tenta, mas não pode acudir-lhe. É o mestre da que naufraga que grita:

– ‘Não tentes o socorro, compadre, que morreis todos. Deus te guie e leve a salvamento! Leva o último adeus para as nossas mulheres e nossos filhos! Até à eternidade, compadre!’

O velho mestre João Praga levantou a mão num gesto de despedida mas não respondeu. Duas lágrimas rolaram-lhe pela face – mas ninguém mais lhe ouviu uma palavra. Leme bem firme, todo o dia e toda a noite até ao alvorecer do dia seguinte, em que entrou em Vila Garcia, na Espanha. Salvou a companha. Dois dias depois chegava à Póvoa, de comboio. Após a tragédia nunca mais comeu, nunca mais falou. Oito dias depois da sua chegada – morria! A grande dor de não poder salvar – matou-o!...”





Como acontece depois de catástrofes de grandes dimensões, as autoridades prometem resolver todos os problemas e, dessa vez, anunciam o início da construção de um porto de abrigo na Póvoa de Varzim, mas prometer é fácil, custa a cumprir. 33 anos depois da tragédia, o sociólogo poveiro Vasques Calafate inicia uma intensa campanha em favor da construção do porto de pesca, apoiando a proposta do deputado Santos Graça para que se contraísse um empréstimo para a obra e sugerindo que se cativasse 50 por cento do rendimento do pescado e se impusesse um imposto progressivo de 5 a 100 escudos sobre prédios rústicos e urbanos para a amortizaçãoo do empréstiino. Nada feito, viva-se tempos difíceis e os políticos estavam mais virados para a luta pelo poder.

Em 1928 , graças ao grande trabalho do incansável Santos Graça, foi criada a Junta Autónoma do Porto da Póvoa de Varziin que nesse ano entrou em funcionamento. Pela denominada " Lei dos Portos”, este porto foi classificado de 2" classe e a Comissão de Obras Portuárias colocou-o em primeiro lugar, na zona norte, para ser construído.

O início das obras (imaginem!) teve lugar em 1935 e a construção, feita a conta gotas, terminou apenas em 1973. Primeiro foi o molhe norte, depois o molhe sul. Mas, mesmo assim, o porto parece inacabado. Ou melhor, as obras terminaram, mas a manutenção deixa muito a desejar. Em comparação com a imagem que guardo da minha infância, o porto de pesca da Póvoa parece ser uma pequena marina cada vez mais assoreada. Por isso, nos últimos anos, os pescadores morrem não por falta de portos de abrigo, mas por falta de condições seguras de entrada nas barras. A incúria continua a pagar-se cara e as tragédias não param de suceder.

domingo, fevereiro 19, 2017

Será possível discutir sem insultos em Portugal?

Foto do Arquivo do Jornal Público

A propósito da publicação do meu novo livro: "As minhas aventuras no País dos Sovietes", cabe deixar aqui algumas considerações. Nas críticas e insultos publicados ou enviados, notam-se duas claras abordagens: a dos que já tiveram oportunidade de ler e a dos que já decidiram não lê-lo, mas que não perdem a oportunidade para opinar.
Aceito e estou disposto a dialogar e a discutir, aqui ou em qualquer lugar público, com aqueles que já tiveram a paciência de o ler. Essa discussão será particularmente importante com pessoas que passaram por experiências de vida semelhantes à minha, porque, como escrevo no título do livro, são as "minhas aventuras" a forma como vi e vivi. Por conseguinte, o meu livro poderá ser um desafio, por exemplo, para que pessoas que tiveram outras vivências na URSS, Rússia, China, etc. etc.
Porém, há uma série de "comentadores" que, ainda antes do livro chegar às livrarias, já escrevem, gritam e insultam não o conteúdo do livro, mas a figura do autor.
Isto por várias razões:
1) Se o autor foi um dia do Partido Comunista e decidiu abandoná-lo, só pode ser traidor, renegado, etc. Isto faz-me lembrar a lógica do KGB soviético/FSB russo, de onde se sai apenas em posição horizontal e com os pés virados para a porta (na tradição russa, assim se faz com o transporte dos mortos).
2) Quando eu saí do seminário comboniano e aderi à União dos Estudantes Comunistas, ninguém me chamou traidor ou vira casacas, embora, ideologicamente, eu tenha feito uma mudança radical. Mas se alguém faz o contrário, duvida de verdades absolutas, cai o Carmo e a Trindade. O ódio e a raiva vêm à tona.
4) Continuam a destilar ódio e raiva aqueles que ouviram falar do meu livro "Brejnev, Cunhal e 25 de Abril" (não o leram mas ouviram dizer), onde publiquei documentos que provam que o PCP se vendia por dinheiro, era e é um partido servil a quem paga, mesmo que sejam tarefas tão sujas como o desvio de parte do arquivo da PIDE para Moscovo.
3) Há pessoas que estudaram na URSS e, quando chegaram a Portugal, conseguiram arranjar emprego nas autarquias comunistas, onde dizem que não há boys. Compreendo que esses estejam entre os mais ferrenhos críticos, porque têm um emprego a defender e uma família para alimentar.
4) Há outros que têm simplesmente dor de cotovelo.
Um conselho a todos, independentemente de ideologias e crenças, não cometem sobre o que não sabem ou não lerem. Isso não é sinal de inteligência, mas de ignorância.
Desejo a todos (e não só aos meus leitores) boas leituras e tolerância.
Quando eu vivia na URSS/Rússia, notava que o meu país: Portugal, avançava, tornava-se mais moderno. Porém, quando cá cheguei, constatei que nenhuma modernização conseguiu diminuir (não digo acabar porque não acredito em milagres) a mesquinhez, a tacanhez e a inveja. Recentemente, voltei a reler os "Maias" e a constatar que alguns portugueses se estão nas tintas para a sabedoria e os conselhos de Eça de Queirós. Isto porque ele continua a ter razão. Já diz o ditado russo: se tens a cara torta, não culpes o espelho.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Uma visão pessoal


As minhas vivências e reflexões sobre o mundo que me rodeia e rodeia. Uma visão pessoal e sem pretensões a verdade absoluta.


sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Quem deve pedir desculpa ao Kremlin: Trump ou Bill O’Reilly?



O jornalista da Fox News Bill O'Reilly chamou ao Presidente da Rússia “assassino” e, numa das suas derrapagens verbais, Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, não desmentiu tal acusação, pelo contrário. No entanto, o Kremlin exige um pedido de desculpas ao entrevistador e recusa-se a comentar as palavras do entrevistado.
É de salientar que o mais surpreendente constitui a “cortesia” e a “singeleza” com que o Kremlin está a gerir esta questão.
Se fosse Barack Obama ou outro dirigente mundial a chamar “assassino” a Putin, a propaganda russa já estaria, a esta hora, a disparar todas as “baterias ideológicas” contra os “inimigos da Rússia”, “russófobos”, etc., mas, com Trump, a reacção do Kremlin faz lembrar o provérbio português “é pior a ementa que o soneto”. Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, decidiu exigir da Fox News e do jornalista um pedido de desculpas, ao mesmo tempo, que afirmou que não iria comentar as declarações do novo Presidente norte-americano.
O jornal Washington Post recorda que não é a primeira vez que Trump admite que irá negociar com um “assassino”. Em 2015, à afirmação do jornalista JOE SCARBOROUGH: “He [Putin] kills journalists that don't agree with him,””, o então candidato a Presidente respondeu: ““Well, I think that our country does plenty of killing, too, Joe”, mas também não houve reacção. Verdade seja dita, também ao jornalista não foi exigido um pedido de desculpas. 
No primeiro caso, Bill O'Reilly respondeu: “Apparently the Putin administration in Moscow is demanding that I, your humble correspondent, apologize for saying old Vlad is a killer. So I’m working on that apology but it may take a little time. You might
want to check in with me around… 2023”.
Peskov reagiu com uma “amabilidade” muito rara: “Temos uma compreensão do bom tom e das regressas de boa-educação diferente das desse gentleman. Somos muito bondosos e pacientes. Colocamos um sinal no calendário de 2023 e voltaremos a esta questão”. 
A propaganda russa entrou em acção total e lembra à Fox News todos os “erros” e “lapsos” cometidos em relação ao regime de Putin, defendendo Trump como este fosse Vladimir Putin. Um dos comentadores da rádio Sputnik, herdeira da soviética Rádio Moscovo, escreve: “Trata-se de um sintoma que dá esperança. Trump tenta cumprir as suas promessas eleitorais… Durante a campanha, ele afirmou que iria tentar estabelecer relações com o
Presidente russo, que olha para ele com simpatia. E a sua resposta (ao entrevistador da Fox News) deixou claro que isso não é apenas retórica eleitoral. Trump respondeu de uma forma bastante dura e inesperada. Poucos são aqueles que pode responder dessa forma”. 
Estou plenamente de acordo com o comentador de um dos órgãos de propaganda russa no que respeita à última frase, mas, nesta polémica, estou do lado do jornalista norte-americano e apenas por uma razão: num país onde Vladimir Putin concentrou todo o poder nas suas mãos, ele é responsável pelas dezenas e dezenas de milhares de civis inocentes que morreram na Chechénia, durante a invasão da Geórgia e da Ucrânia, pelas mortes de jornalistas como Pavel Khlebnikov, da revista Forbes, de Anna Politkovskaia ou de políticos como Boris Nemtsov.
 Quanto ao silêncio do Kremlin em relação a Donald Trump, trata-se de um sinal de que Putin está a fazer tudo para evitar irritá-lo, preferindo aproveitar a indefinição e a confusão reinantes na política externa norte-americana para conquistar terreno na Ucrânia e na Síria, bem como para enfraquecer a União Europeia. 
(Para aqueles que recorrem ao argumento utilizando por Trump para defender Putin, respondo: os crimes de uns não justificam os crimes de outros).
E Putin está a conseguir os seus objectivos, não só com intervenções militares e com uma forte ajuda de forças da extrema-direita e extrema-esquerda na Europa, mas também com o contributo de alguns governos europeus e da burocracia europeia em geral. 
A Roménia é o último exemplo do que foi dito. Como será possível que Bruxelas não reaja com firmeza à tentativa de legalizar a corrupção e o enriquecimento ilícito nesse país? A corrupção é uma das pragas mais perigosas para o projecto europeu e a tolerância para com ela deve ser nenhuma, zero. Caso contrário,
depois não fiquem surpreendidos com o voto dos franceses, holandeses ou alemães.

P.S. Infelizmente, não podemos dizer que Portugal está livre dessa praga, bem pelo contrário. Mas são diferentes as reacções de portugueses e romenos. Se os últimos vêm para a rua protestar, os primeiros assistem calmamente à morte “por velhice” de processos judiciais contra os corruptos.