quinta-feira, novembro 27, 2014

“Guilhotina” europeia como tratamento para a “caspa” ucraniana


Herman Van Rompuy, que está de saída do cargo de Presidente do Conselho Europeu, vem propôr agora a “federalização” da Ucrânia, ou seja, o tratamento da “caspa” ucraniana com a “guilhotina” europeia, como se não soubesse que isso será o princípio da balcanização completa do maior país europeu.
Num discurso pronunciado no Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po), o dirigente europeu declarou:
É necessário procurar uma solução global. Deve encontrar-se uma maneira para que a Ucrânia se torne um país descentralizado (ou federalizado) e inclusivo. É preciso definir o lugar da Ucrânia na Europa”.
Mas será que este senhor, ainda por cima político belga, não compreende que, no caso da Ucrânia, descentralização e federalização são coisas completamente diferentes? Não ouve e não lê que não é por acaso que os dirigentes ucranianos defendem a descentralização e recusam terminantemente a federalização, enquanto que Moscovo, o patrão dos separatistas no leste da Ucrânia, defende precisamente o contrário?
Depois da sangrenta guerra civil que decorre na Ucrânia e que já ceifou mais de 4000 vidas, a política de federalização da Ucrânia será equivalente à sua balcanização. E não será só o Kremlin que participará na partilha do bolo. Alguns setores políticos da Hungria, Roménia e Polónia não estão contra esse cenário.
Claro que poderão dizer aos ucranianos que, caso aceitem a federalização, eles receberão garantias internacionais da integridade territorial do seu país, mas os ucranianos já sentiram na pele o valor dessas garantias. Em 1994, o Tratado de Budapeste garantia a integridade territorial da Ucrânia em troca da entrega por esta das armas nucleares. Esse documento foi assinado pelas potências nucleares (Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França), mas, dez anos depois, o Kremlin atirou-o para o caixote do lixo.
Não é segredo para ninguém que a União Europeia não teve nem tem uma política pensada, consolidada e coerente face ao antigo espaço soviético, sendo ela, por isso, mais reativa do que preventiva.
Essa falta de política é particularmente evidente durante toda a crise na Ucrânia, que já dura há quase um ano. Ou mais exactamente, já dura desde pelo menos 2004, quando em Kiev teve lugar a “revolução laranja”. Bruxelas teve, depois, numerosas oportunidades de aproximar a Ucrânia da União Europeia, mas não foi além das palavras e da elaboração de um Acordo de Parceria com Victor Ianukovitch, presidente cleptocrata, corrupto e que, há última da hora, decidiu revender-se uma vez mais à Rússia a troco da renúncia da assinatura do citado acordo.
Bruxelas sabia desde há muito que Ianukovitch não iria assinar o acordo, mas continuou a fazer de conta que a assinatura iria ocorrer na data marcada.
Quando começaram os confrontos na Praça da Independência de Kiev, a UE tentou mediar as conversações entre Ianukovitch e a oposição e, aqui, comete mais um erro imperdoável ao tornar-se garante desse acordo que não era para cumprir. Segundo o documento, Ianukovitch comprometia-se a antecipar as eleições presidenciais e parlamentares, enquanto que a oposição e o poder se responsabilizavam pela instauração da ordem em Kiev. No dia seguinte, o Presidente ucraniano teve de fugir da capital.
A continuação da história já é bem conhecida, sendo de sublinhar que a Ucrânia perdeu parte significativa do seu território, algum dele de recupeação praticamente impossível num futuro próximo.
O que Herman Van Rompuy faz é aconselhar a tratar da caspa com a guilhotina, mas esperemos que a nova Comissão Europeia seja mais sensata a tratar crises tão graves como a da Ucrânia.




quarta-feira, novembro 05, 2014

Leitura recomendada


"A mística de Putin" - Quetzal

Anna Arutunyan faz, neste livro, uma abordagem original da personalidade do Presidente russo, Vladimir Putin, tentando explicar a sua grande popularidade no país. Putin é mais do que um chefe de Estado, é czar, pai, protetor, é tudo.
A jornalista recorre à antropologia, sociologia e jornalismo de reportagem para nos mostrar um Putin, cujas acções poderão parecer estranhas numa democracia europeia, mas que tem fortes raízes na história da Rússia. Ela mostra-nos um sistema com uma cadeia de poder feudal, medieval, a que Putin chamou de “vertical de poder”, e que, agora, se torna cada vez mais obsoleto.
Recomendo este livro a todos os que se interessam pela Rússia actual e pelo seu futuro.



terça-feira, novembro 04, 2014

A Ucrânia ainda está viva?

Os separatistas pró-russos, e os seus ideólogos em Moscovo, não escondem os seus planos de alargar os seus territórios, admitindo mesmo a possibilidade de chegarem a Kiev e não só.

O Hino da Ucrânia, escrito num momento difícil da sua história, começa com as palavras: “Ainda está viva a Ucrânia”, mas parece cada vez mais moribunda. Depois da perda da Crimeia em março, ontem viu separarem-se mais dois pedaços significativos do seu território: as regiões de Donetsk e Lugansk.
É verdade que poucos serão as organizações internacionais ou os países, além da Rússia, que reconheçam a legitimidade das eleições realizadas nas auto-proclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. Porém,  isso já não tem importância. Como não teve importância na Crimeia, em março passado. Entraram uns “homenzinhos verdes” e “simpáticos” nessa península ucraniana, foi organizado rapidamente um referendo e a maioria decidiu-se pela adesão à Rússia. Ponto final.
No caso de Donetsk e Lugansk, a anexação pela Rússia poderá não ser a opção imediata do Kremlin, pois isso já ultrapassaria todos os precedentes, nomeadamente o do Kosovo, que o Presidente Vladimir Putin tanto gosta de repetir. O principal é controlar a maior parte possível do território ucraniano, mesmo que indiretamente, para ter uma alavanca de pressão sobre Kiev.
Segundo os dirigentes dos separatistas, que se consideram agora legitimados pelo apoio da maioria, numas eleições em que não participou qualquer força política pró-ucraniana, o escrutínio mostrou a vontade da população cortar definitivamente com o governo de Kiev.
Os dirigentes ucranianos consideraram as eleições uma “farsa”, mas pouco ou nada podem fazer. Se se lançarem numa nova campanha militar para reconquistarem os territórios perdidos, não é certo que vençam, bem pelo contrário. Segundo fontes nacionais e internacionais, a Rússia voltou a concentrar um forte contingente militar na fronteira com a Ucrânia e muitos dos seus homens já se encontram do outro lado da fronteira.
Além do mais, as forças políticas ucranianas tardam em criar uma coligação governamental sólida que permita arrancar o país da pesada crise económica, social e política em que se encontra.
A continuar assim, os separatistas pró-russos, e os seus ideólogos em Moscovo, não escondem os seus planos de alargar os seus territórios, admitindo mesmo a possibilidade de chegarem a Kiev e não só. Konstantin Dolgov, coo-presidente da Frente Popular da Novorrossya, declarou à televisão russa: “Infelizmente, a desgraça consiste em que a guerra no território da antiga Ucrânia será longa. A guerra terminará com a nossa vitória. Chegaremos a Kiev e enforcaremos todos os criminosos de guerra: Poroshenko, Kolomonsky, Avakov, Lyachko, etc.”
Este dirigente separatista não podia ser mais claro. E, por enquanto, tudo parece correr à sua maneira.

segunda-feira, novembro 03, 2014

Tim Cook reconheceu que era gay, mas, na Rússia, quem paga é Steve Jobs


Tim Cook, director executivo da empresa Apple, decidiu reconhecer publicamente a sua orientação sexual não tradicional. Nos nossos dias, nada de extraordinário, mas não na Rússia.  Aqui, semelhante "ousadia" não poderia ficar sem consequências.
Porém, o mais extraordinário é quem paga a "factura" desse reconhecimento é, em primeiro lugar, o defunto Steve Jobs, ou melhor, um monumento que tinha sido erigido em honra do fundador da Apple em São Petersburgo. 
Depois de Steve Jobs falecer, no pátio do parque tecnológico da Universidade de Tecnologias de Informação e Óptica de São Petersburgo, foi decidido instalar um iPhone-4 de dois metros com um ecrã onde se podia ler a biografia de Jobs ou ver vídeos com as suas intervenções e discursos. Agora, "em cumprimento da lei da proibição da propaganda do homossexualismo entre menores", o holding "Zapadno-evropeisky finansovy soyuz", dono do dito parque, decidiu retirá-lo.
Segundo as palavras do chefe dessa empresa, Maxim Dolgopolov, "depois do reconhecimento de Tim Cook, o monumento ganhou um sentido ambíguo, inimigo da nossa cultura russa", é "propaganda pública da sodomia".
Além disso, Dolgopolov acrescentou que, quando decidiu levantar o monumento, não sabia que a Apple era "uma cobertura para operações da Agência Nacional de Segurança" norte-americana.
Vitali Milonov, deputado municipal de São Petersburgo e conhecido adversário ferrenho dos gays, apelou às empresas russas que fabriquem telemóveis, acrescentando que "limpo da sujidade do homossexualismo, o espírito da ciência russa arrancará as ervas daninhas que querem crescer no corpo alvo da moral social".
Quanto à possibilidade de Tim Cook visitar a Rússia, o deputado é ainda mais categórico:  "Que nos pode trazer ele? O vírus ebola, a SIDA, gonorréia? Na terra deles, eles têm todas relações promíscuas. Proibir eternamente a entrada".
"Agora todos sabem que o Apple é fabricado por pederastas e a consciênciade cada um começa a mudar, ele [Tim Cook] tem talento. Trata-se de uma jogada política inteligente", frisa o deputado. 


Só agora é que deram conta dos aviões russos?

Se alguém tem dúvidas das intenções do Presidente russo preste atenção ao facto de 25% do Orçamento de Estado da Rússia ir para “fins secretos”, ou seja, despesas militares.

Num comunicado ontem publicado pela Nato, esta organizou alertou para as “manobras aéreas incomuns” e de “grande escala”, mas Portugal só acordou para este problema quando dois bombardeiros russos se aproximaram das águas territoriais portuguesas. Se as notícias fossem apenas relativas a incidentes semelhantes nos mares Negro ou Báltico, que acontecem regularmente, talvez não merecessem destaque.

Mas ainda bem que isso aconteceu connosco, pois talvez só assim despertemos para o que realmente está a acontecer na Europa, e compreendamos que a “guerra fria” já é uma realidade pelo menos desde o segundo mandato presidencial de Vladimir Putin na Rússia (2004-2008). Desde então ficou claro que Moscovo iria passar das palavras aos actos para manter o seu poder de influência no chamado “estrangeiro próximo”, ou seja, no antigo espaço soviético.
Quando da guerra entre a Rússia e a Geórgia (2008), esta perdeu parte significativa do seu território, mas a União Europeia não fez mais do que se apressar a congelar o problema, segundo o princípio: o fundamental é pôr fim aos combates e depois veremos o resto. Nicolas Sarkozy, então Presidente de França, veio a Moscovo para acordar o cessar de fogo e estava com tanta pressa que se esqueceu de definir para onde iriam os observadores da OCSE. O Kremlin decidiu que eles só poderiam estar do lado georgiano da fronteira, Bruxelas protestou um pouco e calou-se.
Talvez os dirigentes da NATO e da UE tenham decidido que Vladimir Putin se ficaria por aí, mas enganaram-se. O dirigente russo, aproveitando-se de uma crise interna na Ucrânia, ocupou silenciosamente a Crimeia, justificando-se com o antecedente do Kosovo, o que não corresponde à verdade. O antecedente seria equivalente se a Crimeia passasse a ser formalmente independente como o Kosovo, mas o Kremlin deixou-se de cerimónias e simplesmente transformou esse território em mais uma república sua.
Logo a seguir ateou o fogo do separatismo no Leste da Ucrânia e a explicação também foi encontrada: se os EUA têm direito, porque é que nós não temos? Mas os dirigentes do Kremlin continuam a falar de respeito pelo Direito Internacional com uma superioridade tal como se fossem anjinhos. E aqui a história volta a repetir-se: quando os EUA enviavam tropas para algum território, isso significava invasão. A União Soviética fazia exactamente o mesmo mas chamava-lhe “internacionalismo proletário”. Hoje, o Kremlin encontrou outra fórmula: “defesa do mundo russo”, ou, como afirmou recentemente Vladimir Putin, “o urso não vai pedir autorização a ninguém” na defesa da sua taiga. É verdade que o dirigente russo prometeu que esse animal “não tenciona ir para outras zonas climatéricas”, mas a Ucrânia já não é propriamente taiga.
E se alguém tem dúvidas das intenções do Presidente russo preste atenção ao facto de 25% do Orçamento de Estado da Rússia ir para “fins secretos”, ou seja, despesas militares. Aliás, o Kremlin não faz muita questão de esconder que está a gastar enormes meios financeiros para modernizar as suas forças armadas.
Os países da NATO, até há bem pouco tempo, decidiram relaxar-se e poupar nos orçamentos militares talvez considerando que as boas relações com a Rússia se iriam prolongar eternamente e, agora, irão ter de fazer esforços que países como Portugal e outros não conseguirão fazer.
Além disso, e isto parece-me ser o mais importante, a UE e a NATO parecem não saber como travar a expansão russa no antigo espaço soviético, criando esse desconhecimento um clima de insegurança nas populações dos países que são vizinhos da Rússia. Se falarem com estónios, por exemplo, verão que a maioria está convencida de que o Kremlin irá criar problemas nos países do Báltico sem que a UE ou a NATO venham em sua defesa. Eles foram abandonados aos caprichos de Hitler e Estaline e a história, como é sabido, tende a repetir-se.
Posso estar a exagerar? Talvez, mas dentro em breve terá lugar ou não um acontecimento que responderá a essa pergunta. Dmitri Rogozin, vice-primeiro-ministro russo encarregado do sector militar-industrial, anunciou que a França irá entregar o primeiro porta-helicópteros “Mistral” ao seu país e começar a construir o segundo a 14 de Novembro. Paris diz não existirem condições para isso. Vamos ver em que vai acabar este braço de ferro e o que vale a solidariedade europeia.

quarta-feira, outubro 29, 2014

Diferentes leituras de Acordo de Minsk vão deteriorar situação na Ucrânia

Moscovo, ao apoiar o escrutínio dns auto-proclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, incita os separatistas a continuarem o desmembramento do país vizinho.


O acordo de Minsk, assinado a 5 de setembro de 2014 entre o governo de Kiev e os separatistas do leste da Ucrânia, tendo a União Europeia e a Rússia como garantes do seu cumprimento, conseguiu parcialmente um dos seus objetivos principais: um cessar de fogo relativo entre as partes do conflito, mas a sua leitura diferente pelas partes do confronto e pelos garantes poderá levar o processo de paz a um beco sem saída.
Os separatistas das auto-proclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk decidiram realizar eleições presidenciais e parlamentares nos territórios por eles controlados no próximo dia 2 de Novembro.
Kiev e a União Europeia já vieram disser que não irão reconhecer os resultados do escrutínio, considerando que a sua realização uma violação do acordo alcançado na capital da Bielorrússia. Além disso, manifestam preocupação pelo facto de Moscovo já ter revelado que irá aceitar os seus resultados.
“Estamos preocupados com o facto de a Rússia tencionar reconhecer as eleições nas regiões de Lugansk e Donetsk e enviar observadores para lá”, declarou Vygaudas Ušackas, representante da UE em Moscovo.
O Kremlin, através do seu porta-voz Dmitri Peskov, considera que “a realização de eleições é uma decisão tomada pela direção dessas repúblicas”, querendo passar a ideia de que a Rússia não controla os separatistas: “A Rússia não tem alavancas de pressão ilimitadas e não vale apenas exagerá-las. Neste caso, o fator principal não é a influência da Rússia, mas a decisão da direção dessas repúblicas e do seu povo”.
Tendo em conta que os candidatos à presidência das auto-proclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk não escondem que o seu objectivo é a criação da república da Novorrossya, independente da Ucrânia, Moscovo, ao apoiar o escrutínio, incita os separatistas a continuarem o desmembramento do país vizinho. E mesmo que o conflito seja congelado no estado em que se encontra actualmente, o Kremlin ficará sempre com uma forte alavanca de pressão que lhe permitirá limitar a soberania da Ucrânia na política externa.
P.S. Entretanto, na Rússia, a situação continua a deteriorar-se: o rublo cai face ao dólar e os preços dos produtos essenciais não param de aumentar. A desestabilização da Ucrânia continuará a ser um bom pretexto para afastar a atenção dos russos dos seus problemas internos.

Ucrânia deu mais um passo em direção à Europa?

As forças da Praça Maidan, que derrubaram o Presidente Victor Ianukovitch em fevereiro, venceram claramente o escrutínio, mas os eleitores deixaram vários recados aos novos dirigentes ucranianos.

Não obstante as eleições parlamentares na Ucrânia se terem realizado num clima de guerra e instabilidade política e económica, elas mostraram que a maioria dos eleitores apoiou as forças políticas pró-europeias e quer uma renovação do sistema político do país.
As forças da Praça Maidan (Independência), que derrubaram o Presidente Victor Ianukovitch em fevereiro passado, venceram claramente o escrutínio, mas os eleitores deixaram vários recados aos novos dirigentes ucranianos.
Primeiro, os ucranianos decidiram não “colocar todos os ovos no mesmo cesto”. O Bloco do Presidente Petro Poroshenko não conseguiu a maioria na Rada Suprema (Parlamento) da Ucrânia e terá de coligar-se para ter uma maioria sólida. Para surpresa de muitos, a Frente Popular, do primeiro-ministro Arseny Yatzenyuk e de Alexandre Turchinov, presidente do Parlamento, aparece em segundo lugar, transformando-se assim na força mais real a participar na nova coligação governamental. Porém, o Partido “Samopomitch” (Auto-ajuda), que surpreendentemente aparece em terceiro lugar, poderá também participar na futura coligação parlamentar.
Depois, as eleições mostraram também que a quase mítica ex-primeira-ministra da Ucrânia, Iúlia Timochenko, começa a passar à história. O seu partido “Pátria” supera com dificuldade a barreira dos 5%, mais um sinal de que os ucranianos querem a renovação da política. Além disso, e tendo em conta que Partido Radical e o Partido Svoboda tiveram também um resultado bem aquém do esperado, isto mostra que os ucranianos se demarcam dos partidos que apoiam abertamente a continuação da guerra no leste da Ucrânia.
O “Bloco da Oposição”, que reúne os dissidentes do Partido das Regiões, força política do ex-Presidente Ianukovitch e que não participou neste escrutínio, superou a barreira dos 5% e deverá ser  o centro de atração da oposição na Rada.
O Partido Comunista da Ucrânia, pela primeira vez nos últimos 96 anos, não elege deputados nos círculos maioritários. Isto deve-se, em parte, ao facto de as eleições não se terem realizado nas zonas ocupadas pelos separatistas e de os comunistas os apoiarem e estarem entre os seus dirigentes.
Piotr Poroshenko e a futura coligação governamental certamente não terão uma vida fácil, pois os problemas a resolver são muito grandes e delicados: no plano interno, é necessário fazer reformas económicas e políticas de forma a arrancar o país da crise em que se encontra, reduzir o poder dos oligarcas e combater a corrupção, mostrar que a Ucrânia é um país viável e não um mero acidente da história, como afirmam muitos dos ideólogos russos.
No plano externo, a tarefa titânica a resolver é normalizar as relações com a vizinha russa. Mais difícil do que a solução do pagamento do gás russo pelos ucranianos (problema que Piotr Poroshenko promete resolver em breve), será a travagem do separatismo no sudeste do país. E, aqui, o papel da Rússia é fulcral.
A reação do Kremlin aos resultados das eleições ucranianas é muito ambígua. Gregori Karassin, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, comentou: “as eleições, não obstante a campanha eleitoral bastante dura e suja, realizaram-se. A disposição de forças que se vislumbra talvez permita à direção da Ucrânia ocupar-se seriamente dos problemas fundamentais da sua sociedade”.
Quanto aos separatistas de Donetsk e Lugansk, estes consideram que as eleições na Ucrânia foram uma “farsa” e preparam-se para realizar os seus próprios escrutínios no próximo domingo, não escondendo que se trata de mais um passo para a separação desses territórios. Vladimir Putin diz ser pela integridade do país vizinho, mas dá horas de antena aos separatistas nos canais de televisão russos. Tantas que, por vezes, se fica com a impressão de que na Rússia já foram resolvidos todos os problemas internos, restando apenas “solucionar” os dos vizinhos.
Por isso, será precipitado esperar resultados positivos rápidos do escrutínio na Ucrânia

quinta-feira, outubro 23, 2014

As verdades do Presidente da Bielorrússia

    
É fácil não se gostar do Presidente da Bielorrússia, Alexandre Lukachenko, mas convém estar atento ao que ele diz relativamente às relações entre os estados do antigo espaço soviético.
Sábado, numa conferência de imprensa para jornalistas russos, o homem que dirige o seu país com mão de ferro e levou o seu país para a União Alfandegária, que engloba também a Rússia e Cazaquistão, fez algumas declarações que se fossem pronunciadas por um político russo, este seria imediatamente rotulado de “traidor”.
Lukachenko, por exemplo, considerou que Victor Ianukovitch, antigo Presidente da Ucrânia, foi derrubado por culpa própria. “Ele e os seus companheiros financiaram o “Sector de Direita”, porque este era alegadamente contra Iúlia [Timochenko]. Perdeu a orientação… e criou uma força que o destruiu depois”, afirmou ele.
O “Sector de Direita” é uma organização política de extrema-direita que participou nos distúrbios que levaram à queda de Ianukovitch. A sua participação nos acontecimentos foi um dos argumentos que levou à intervenção da Rússia na Crimeia e no Leste da Ucrânia a pretexto de defender as “populações russófonas” dos “fascistas” e “nazis”.
As sondagens apontam para que os partidos de extrema direita não elejam deputados nos círculos maioritários, mas a propaganda de Moscovo continua a colocar toda a população do centro e ocidente da Ucrânia entre os “fascistas”.
“Não acreditem que no Ocidente da Ucrânia vivem fascistas e nazis” e, no Oriente, os “nossos”. Em toda a parte há pessoas normais, mas em ambas as partes não há famílias sem abortos”, frisou Lukachenko.
É importante assinalar que Lukachenko acusa também Victor Ianukovitch, que diz ser “antigo grande amigo”, que ele e a sua corte foram os iniciadores do ódio dos ucranianos para com os russos.
“Foi criada uma terrível posição anti-russa no interior do país. Devido aos altos preços do gás, passaram a odiar os russos e o Presidente. E no Leste havia disposições semelhantes. Isso foi criado pelo poder”, acrescentou.
Claro que o Presidente bielorrusso considera que o derrube de Ianukovitch foi um “golpe anticonstitucional”, mas reconhece uma coisa que Moscovo continua a negar contra todas as evidências: “sem o apoio da Rússia as “repúblicas” auto-proclamadas não existiriam no leste da Europa. “Sejamos honestos, sem a Rússia, essas repúblicas teriam já os dias contados”, precisou.
Ao terminar a sua intervenção, Lukachenko manifestou a opinião de alguns analistas de que o Kremlin se deixou cair numa ratoeira ao atacar a Ucrânia: “Aí [no Leste da Ucrânia], ninguém além da Rússia, vai lutar de um lado. Do outro lado, nenhum dos jogadores globais irá combater. Por exemplo, a América jamais avançará para um confronto direto. Mas alguns estados e blocos estão muito interessados em que nos matemos uns aos outros com as próprias mãos”.
A Crimeia e o Leste da Ucrânia tornam-se num fardo insuportável para a economia russa, tanto mais que a desvalorização do rublo é diária, o preço do petróleo continua a descer nos mercados internacionais, a fuga de capitais aumenta, começam a ser reduzidos os investidos nas esferas social e educativa, sendo só aumentados os gastos militares.
Mas será que a Rússia irá repetir a história da URSS? São cada vez mais os que receiam que isso aconteça, o que nada trará de bom para a Europa e o mundo.

quinta-feira, outubro 16, 2014

Um Camões mais russo



Luís de Camões, o maior dos poetas portugueses, e Mikhail Travtchetov, tradutor russo de Leninegrado/ São Petersburgo. O que une estas duas figuras de países tão distantes? O seu fim trágico e a publicação dos Lusíadas em russo.
A sala da Biblioteca de Línguas Estrangeiras de Moscovo foi pequena para receber tanta gente, principalmente jovens, que quis participar na cerimónia de lançamento da primeira tradução poética para russo dos Lusíadas.
Esta foi a primeira tradução integral do poema épico de Camões para russo, mas não foi a primeira edição dessa obra em russo por motivos trágicos. A primeira edição dos Lusíadas, traduzidos por Olga Ovtcherenko, foi publicada nos anos de 1980, enquanto que a tradução de Mikhail Travtchetov foi feita nos anos de 1920 e 1930, mas só chegou aos leitores na terça-feira.
Este grande atraso deveu-se ao facto de o tradutor ter entregue à editora Gossizdat o manuscrito em 1940 e o livro não ter sido publicado devido ao Bloqueio de Leninegrado. As tropas de Hitler cercaram a cidade que só não se rendeu graças ao heroísmo dos seus habitantes.
Mikhail Travtchetov teve possibilidade de abandonar a cidade antes do cerco se fechar, mas não o fez, tendo falecido em Leninegrado em Dezembro de 1941, não se sabendo se de fome ou em combate. O fim do poeta português, como é sabido, também foi trágico, porque morreu pobre e esquecido pelo povo que ele cantou.
Depois da Segunda Guerra Mundial (1941-1945), Sofia Dubrovskaia, irmã do tradutor russo, lutou durante 20 anos para que os Lusíadas fossem publicados, mas sem êxito.
Em 2011, quando fazia uma busca na Internet sobre Camões na Rússia, deparei com informações sobre Travtchetov e a sua tradução dos Lusíadas para russo. Alertados para este facto, o Instituto Camões, a Embaixada de Portugal na Rússia e o Centro de Língua e Cultura Portuguesa de Moscovo juntaram esforços e conseguiram esta proeza de publicar, com grande qualidade gráfica, a maior das obras literárias escritas em português.

A julgar pela forma como os excertos do poema recitados em português e russo foram recebidos pelo público, pode-se concluir que esta edição valeu a pena, tanto mais que foi prometido fazer chegar exemplares dos Lusíadas às bibliotecas de outras regiões e cidades da Rússia.

Kremlin dá sinais de não estar saciado




Quanto mais a União Europeia recua perante a Rússia na sua política face à Ucrânia, maiores são as exigências do Kremlin, pois Bruxelas parece ainda não ter compreendido o objectivo final de Vladimir Putin.
A fim de acalmar os receios de Moscovo, a União Europeia acedeu à exigência do Kremlin de adiar para 1 de Janeiro de 2016 a entrada em vigor da parte económica do Acordo de Associação entre a UE e a Ucrânia. Além disso, Bruxelas dispôs-se a ter em conta os interesses económicos russos que, segundo o Kremlin, irão ser fortemente prejudicados por esse acordo.
Porém, na sexta-feira, Putin veio exigir que sejam feitas “correções substanciais” na parte económica do Acordo de Parceria, frisando, por exemplo, que qualquer mudança das leis ucranianas com vista à sua adaptação às normas da UE será considerada uma violação dos acordos com a Rússia e exigirão a tomada de medidas de resposta por parte de Moscovo.
Durão Barroso, ainda Presidente da Comissão Europeia, respondeu que o Acordo de Parceria “é bilateral e não trilateral”, mas o erro reside no facto de Bruxelas ter permitido, pela primeira vez na história da UE, que um terceiro país se tenha ingerido nas suas relações bilaterais.
Na lógica do Kremlin é simples, se a Rússia teve o direito de ditar o calendário de aproximação da Ucrânia à UE, também pode, agora, impor novas condições.
Agora surgiu a possibilidade de corrigir os parágrafos do citado acordo, cuja realização poderá causar considerável prejuízo à União Aduaneira e às nossas tradicionais relações comerciais com a Ucrânia”, frisou Putin, numa reunião com os dirigentes da Bielorrússia e Cazaquistão, países que também fazem parte dessa união.
No mesmo discurso, ele afirmou querer “convencer os parceiros [UE] a renunciarem ao confronto das integrações europeia e eurasiática a favor do contacto dos dois projetos”.
Porém, e Moscovo não esconde isso, que esse contacto só é possível no momento em que a UE reconhecer o antigo território soviético - à excepção das três repúblicas do Báltico, pelo menos por enquanto – zona dos seus interesses e domínio exclusivos.
Até agora, Putin vai levando a melhor: conquistou parte do território à Geórgia, controla parte do território da Moldávia, ocupou a Crimeia e prepara-se para controlar o leste da Ucrânia com o congelamento do conflito nessa região. Por isso, parece não querer ficar por aqui.
O conflito na Ucrânia ainda está muito longe do fim e é difícil prever o que irá restar desse estado no centro da Europa, mas afigura-se já uma nova vítima da política russa do “estrangeiro próximo”: o Cazaquistão.
O Presidente cazaque Nussultan Nazarbaev tem feito arriscados malabarismo para se aproximar da UE e, ao mesmo tempo, não irritar Moscovo. Astana anunciou a assinatura de um novo “acordo de parceria e cooperação com a UE”, mas trata-se de um documento mais suave do que aquele que foi assinado entre Bruxelas e Kiev.
Mesmo assim, os políticos russos vão lembrando ao Presidente Nazarbaev que o Cazaquistão nunca existiu como estado independente até ao fim da União Soviética, que cerca de um quarto do seu território foi retirado à Rússia pelos dirigentes soviéticos e oferecido ao Cazaquistão e que cerca de 25% da população desse país são russos ou russófonos.
As semelhanças com a Crimeia podem ser pura coincidência, mas poderão servir caso o Presidente Nazarbaev decida mudar de ideias.
Nesta situação, um factor apenas parece ser capaz de travar a ofensiva política externa russa: a situação económica na própria Rússia. O rublo desce rapidamente face ao dólar e ao euro, o preço do petróleo cai nos mercados internacionais, a economia russa está estagnada e a inflação tende a crescer acima de todas as previsões. Novas aventuras no campo da política externa poderão ser fatais para o regime de Vladimir Putin.



P.S. Chegado a Moscovo, constatei que as sanções que Putin impôs ao seu próprio povo ao proibir a importação de bens alimentares ocidentais já estão a dar efeito: a variedade de produtos nas prateleiras é muito menor, a qualidade desceu e os preços aumentaram em flecha. Porém, a onda e a propaganda ultra-patrióticas continuam em alta...