sábado, fevereiro 28, 2015

Mais um crime político na Rússia

É com propaganda como esta que o Kremlin atiça o ódio contra os opositores. É cedo para concluir quem matou Boris Nemtsov, mas o Presidente Putin não se livra de responsabilidades morais. Como sempre, prometeu à mãe da vítima encontrar e castigar os criminosos. 
A minha opinião no Observador: 
http://observador.pt/opiniao/receio-que-putin-me-assassine/


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Blogue do leitor (Ucrânia)

Texto enviado pelo leitor ANTÓNIO CAMPOS

"Je suis Maidan
Além de estar a perder uma guerra contra uma agressão no terreno que nunca poderia ganhar sem ajuda, a Ucrânia está a sair derrotada na guerra da informação. E grande parte da culpa deve ser atribuída à União Europeia e aos Estados Unidos. A imposição catastrófica de políticas de austeridade que colocou a União à beira do colapso e mostrou que a Europa de unida não tem nada, o descrédito geral da população europeia em relação a Bruxelas e Berlim, tudo isto aliado à desastrosa política externa dos Estados Unidos na última década, tornaram um significativo segmento da população do Ocidente propenso a engolir sem espírito crítico a propaganda do Kremlin. Aproveitando habilmente a ignorância generalizada sobre os países da antiga URSS e o ressentimento ocidental em relação ao establishment, Putin, com a sua habitual táctica de dividir para reinar, conseguiu instilar nas cabeças de muitos descontentes a fantasia de que a agressão à Ucrânia é um conflito geopolítico de autodefesa contra uma imaginária agressão da NATO da qual ninguém consegue mostrar evidências.
Para lá de ser extremamente perigosa, esta "opinião" mostra contornos ainda mais irracionais quando se percebe que é sustentada numa série de relativismos morais, que são, aliás, habilmente disseminados pela propaganda: Iraque, Kosovo e afins. Ou seja, subitamente, os defensores da agressão de Moscovo consideram justificada uma manobra semelhante às que consideraram reprováveis no passado, convencidos de que um "mau precedente" tem uma equivalência moral aos bons e passa a dar cobertura a agressões e violações do direito internacional. Porque Bush mandou invadir o Iraque sem qualquer justificação, Putin tem agora o "direito moral" de subjugar pela força um país vizinho independente e soberano, ainda por cima porque se opõe a uma "junta judaico-neonazi colocada no poder com o apoio da NATO". A violação do direito internacional e da soberania, bem como as centenas de milhares de vítimas inocentes cujo único crime foi quererem livrar-se de um tirano cleptocrata ao serviço de um país terceiro são integralmente atirados janela fora.
Grotescamente, Putin está a ter um sucesso estrondoso na transformação de milhares de indivíduos que normalmente teriam opiniões morais em paladinos da imoralidade.
Embora existam alguns americanos que ainda continuam a sorver a barragem de propaganda do Kremlin, é na Europa que os seus efeitos continuam a ser mais visíveis. Talvez este facto se deva à crença de que Putin é uma espécie de contrabalanço da hegemonia alemã porque "lhe faz frente", e que uma derrota política do Ocidente nesta matéria trará consigo uma viragem das políticas austeritárias, ou de que um mundo bipolar é mais benéfico do que uma civilização hegemónica. Embora tal possa suceder com diferentes premissas, neste caso, infelizmente, não há nada mais longe da verdade. Quem conhece Putin, sabe que o seu modo de agir é baseado em jogos de soma nula, em que o que ele quer ganhar outros terão de perder. Putin sabe que tem a ganhar com a desunião da Europa e a sua possível desagregação, e as alianças que fomenta são de oportunidade. Servem hoje e são descartadas amanhã. Tal como qualquer psicopata clássico, Putin está-se nas tintas para o resto do mundo. E especialmente para a população que tutela, cujos filhos continua a mandar para a morte para desviar a atenção dos seus próprios fracassos em casa.
Daí que, antes de abandonar a Ucrânia às feras e deixar (e até olhar com agrado) que seja transformada num estado fantoche de um regime ultrafascista nuclear e corrupto às portas da Europa, seria bom que pensássemos que, por mais defeitos que a actual Europa mostre, continua a ser um lugar infinitamente melhor do que o que resultaria de uma possível dominação russa, cuja política se baseia na exportação de corrupção, na agressão militar, na obliteração do pluralismo e numa mentalidade excepcionalista a raiar o hitleriano.
Como alguém escreveu há uns dias, na Ucrânia joga-se hoje a forma como queremos viver o século XXI. Por mais defeitos que exibam, as democracias ocidentais continuam a ter mecanismos para se corrigirem. Abandonar a Ucrânia é dar um passo atrás e voltar ao mundo mortífero dos séculos XIX e XX, atirando esses mecanismos para o lixo da história."

sábado, janeiro 31, 2015

Rússia reconhece que tem militares seus a combater na Ucrânia? Elogio dos serviços secretos russos...





Embora de forma estranha, o Kremlin acaba por reconhecer que militares seus combatem ao lado dos separatistas no Leste da Ucrânia.
A cidadã russa, Svetlana Davidova, mãe de sete crianças, a mais nova das quais tem dois meses, foi detida pelo Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, antigo KGB) e acusada de traição à pátria, podendo incorrer numa pena de prisão de 12 a 20 anos.
Segundo os serviços secretos russos, Svetlana telefonou à embaixada da Ucrânia em Moscovo para informar que unidades militares aquarteladas em Viazma, terra onde ela vive, estavam a ser enviadas para combater no Leste da Ucrânia. A senhora teria recolhido essa informação enquanto seguia de autocarro e ouviu ocasionalmente uma conversa telefónica de um homem com aspecto de militar.
Ora, em conformidade com o artigo 275 do Código Penal da Rússia, “traição da pátria” é a transmissão de dados secretos a um estado estrangeiro. Ao acusar a mulher desse crime, o FSB confirmou que as tropas russas combatem na Ucrânia.
Além disso, os serviços secretos russos estão muito atentos pelo menos aos telefonemas que os cidadãos russos fazem para a representação diplomática ucraniana na capital russa.
A chamada de Svetlana para a embaixada da Ucrânia teria sido feito, em Abril de 2014, mas o FSB só a veio prender no passado 21 de Janeiro.
Organizações não governamentais russas têm denunciado numerosos casos de soldados russos que morreram em combate no Leste da Ucrânia e que são sepultados quase clandestinamente no seu país.
As autoridades de Moscovo desmentem a presença de militares russos no país vizinho, bem como o fornecimento de armas aos separatistas, declarações cada vez mais postas em causa pelo facto de os separatistas empregarem nos combates equipamentos militares mais modernos do que aqueles de que dispõem as forças armadas ucranianas.
Aquando da anexação da Crimeia pela Rússia, o Presidente Vladimir Putin jurava que não tinha enviado tropas especiais e que os “homenzinhos verdes” armados até aos dentes não passavam de membros de grupos de autodefesa dos russófonos. Depois, Moscovo acabou por reconhecer que se tratava de soldados de tropas especiais russas.
A detenção de Svetlana Davidova parece estar ligada à campanha de pressão psicológica sobre a opinião pública russa, semelhante às “caças aos espiões” lançadas na era do ditador comunista José Estaline.
A psicose aumenta à medida que a situação económica na Rússia se vai deteriorando. A fim de impedir a organização de manifestações de protesto contra a política de Vladimir Putin, os órgãos de informação controlados pelo Kremlin não se cansam de acusar o Ocidente e dos seus agentes na Rússia de serem culpados das dificuldades que o país enfrenta.








quinta-feira, janeiro 29, 2015

Heróis infantis russos evitam “subjugação” do povo russo



A associação de motoqueiros russos “Lobos Nocturnos”, dirigida por Alexandre Zolostanov, amigo do Presidente Putin, decidiu recorrer à ajuda dos heróis dos contos infantis russos para derrotar os inimigos ocidentais e “libertar” a Crimeia.
Num espectáculo organizado para os filhos de famílias numerosas russas e dos ucranianos que procuram refúgio em Moscovo, três personagens más: NAT (NATO), NEG (Negócio) e a Estrela Estrangeira (que faz lembrar a Estátua da Liberdade em Nova Iorque) querem subjugar o povo russo, roubam a chave do tempo para reescrever a história de 2014 e impedir a reunificação da Crimeia e da Rússia. Porém, esse plano é travado por heróis dos contos tradicionais russos: Pai Gelo, Branca da Neve e os “três gigantes”, bem como pelos “lobos nocturnos”. 
“O principal no conto é que os seus heróis vencem na vida real. Os heróis dos nossos contos lutaram por Sevastopol [cidade da Crimeia] duram seis anos e venceram. E, este ano, o conto é triunfal: até o Koschei Imortal [personagem negativa nos contos russos] se junta às forças do bem, defende a sua terra, as suas raízes, a sua história e combate contra o inimigo comum da Rússia”, frisou Zolostanov, citado pela agência de propaganda russa Ria-Novosti.
Zolostanov e o seu clube “Lobos Nocturnos” tornaram-se conhecidos depois do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, ter desfilado com eles, montado numa moto de quatro rodas em Sevastopol, em Julho de 2012, quando essa cidade e a Crimeia ainda faziam parte da Ucrânia.
Os dirigentes russos esforçam-se por justificar a invasão do Estado vizinho com os mais diversos argumentos. Por exemplo, Valentina Matvienko, dirigente da Câmara Alta do Parlamento russo, comparou, na quarta-feira, a anexação da Crimeia ao Baptismo da Rússia, contrapondo à decadência ocidental a espiritualidade russa.
“Nós vemos como, no caso da crise da Ucrânia, em muitos dos acontecimentos na Europa Ocidental conceitos do bem são substituídos pelo mal, são postos em causas os principais fundamentos morais e tradicionais da família, aumenta a intolerância religiosa. Só o suporte na nossa espiritualidade e na nossa experiência histórica nos ajudarão a superar esses desafios, esse ataque”, afirmou ela.
A Rússia assiste a uma revisão da sua história não menos profunda do que aquela que ocorreu depois da revolução comunista de 1917 e só pode existir uma versão e interpretação dela, a escolhida pelo Kremlin. Quem se desviar da “linha mestre” é traidor, passa a fazer parte da “quinta coluna”. A discussão em torno do filme “Leviatã”, nomeado para um “Oscar”, é prova disso. O ministro da Cultura da Rússia, Vladimir Medinsky, considera tratar-se de uma imagem deturpada e negra do país, mas, como diz a sabedoria popular russa, “não acuses o espelho se tens a cara torta”. 

quarta-feira, janeiro 28, 2015

O cúmulo do cinismo


Serguei Narichkin, presidente da Duma Estatal da Rússia, encarregou o Comité para Assuntos Internacionais da câmara baixa do Parlamento de estudar a possibilidade da aprovação de um documento que condene a reunificação da Alemanha em 1989-1990.

Segundo ele, a Alemanha Ocidental anexou a Oriental, pois não foi feito referendo!
Claro que Narichkin não disse que a reunificação se realizou depois da vitória da Aliança pela Alemanha nas últimas eleições realizadas na RDA e que o principal ponto no programa eleitoral desse partido era precisamente a reunificação do país.
Pelos vistos, no Kremlin vale tudo para justificar o seu acto de agressão em relação ao país vizinho.
Na Ucrânia, os parlamentares parece também não pensarem muito antes de tomar decisões. Ontem, aprovaram um documento onde se afirma que a Rússia é um “país agressor” e que os separatistas são “terroristas”. As afirmações até podem ser verdadeiras, mas, neste momento, apenas dificultam a solução do conflito no Leste e Sul da Ucrânia, pois vai ser muito mais difícil o diálogo entre o governo de Kiev e os “terroristas”.

Não haveria grande problema se os combates ocorressem ao nível das palavras, mas eles têm lugar na realidade, alargam-se a novas regiões e matam e ferem milhares de civis. Por isso, parece mesmo que caminhamos para um guerra de grandes dimensões no centro da Europa, mas os europeus parecem distraídos ou demasiadamente concentrados na Grécia. Temos de acordar e rápido, todos, europeus, russos, etc.

terça-feira, janeiro 27, 2015

A propósito da libertação de Auschwitz

Hoje, faz 70 anos que as tropas soviéticas, sublinho, os soldados soviéticos das mais diversas nacionalidades, libertaram os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, uma das maiores máquinas de extermínio dos judeus criadas pelos nazis alemães.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Grzegorz Juliusz Schetyna, declarou, na semana passada, que: "talvez seja melhor dizer que foram a Primeira Frente Ucraniana e os ucranianos que libertaram o campo de concentração. Porque foram precisamente os ucranianos que, nesses dias de Janeiro abriram os portões e libertaram o campo de concentração".
Claro que estas declarações pecam por crassa ignorância ou deturpação consciente da história da Segunda Guerra Mundial. É verdade que os presos de Auschwitz foram libertados pela Primeira Frente Ucraniana, mas este era formada por soldados de dezenas de nacionalidades. 
Não obstante a evidência do erro, Schetyna insiste, sublinhando que o primeiro a derrubar os portões do campo da morte foi o tanquista ucraniano Igor Pobirtchenko. Sim, mas os libertadores foram os soldados soviéticos e ninguém se deve esquecer disto. Se alguém tem de ajustar contas com Estaline ou o regime comunista, que as faça (e os polacos, tais como outros povos do Leste da Europa têm muitas razões para isso), mas isso não pode ser motivo para reescrever a história.
Tendo como pano de fundo a invasão da Ucrânia pelas tropas russas, o Kremlin ficou indignado com as declarações do ministro polaco e respondeu de uma forma no mínimo curiosa: tornar públicos documentos secretos relativos à libertação do campo de concentração. 
E que documentos? O Ministério da Defesa da Rússia publicou hoje, por exemplo, informações do comando da Primeira Frente da Ucrânia sobre esses acontecimentos, bem como relatórios de jornalistas do Pravda e Komsomolskaia Pravda sobre as primeiras impressões deles quando entraram em Auschwitz.
Além disso, e cito a página do mesmo ministério "relatos fidedignos sobre como os polacos receberam com alegria e admiração os combatentes do Exército Vermelho nos territórios libertados, considerando-os sinceramente seus libertadores e salvadores do jugo hitleriano".
Coloca-se aqui uma pergunta importante: que segredos contêm os documentos publicados para terem sido guardados a sete chaves durante 70 anos? Eu, enquanto pessoa, historiador e jornalista, não compreendo, mas já estou habituado a que tudo na URSS e na Rússia de hoje é secreto. 
Já se sabia que, na sua maioria, os povos da Europa de Leste que foram libertados pelo Exército Vermelho viram nos seus soldados os salvadores, libertadores. E isto é indiscutível.
História diferente é que Estaline, depois, transformou esse exército numa força de ocupação, e isto também deve ser estudado e dito. Como se deve dizer também que muitos dos prisioneiros soviéticos de campos de concentração nazis, logo a seguir à libertação, foram enviados para o GULAG soviético, porque não deviam ter sobrevivido aos horrores nazis.
E só mais uma nota. Vladimir Putin decidiu convidar, entre outros, o ditador da Coreia do Norte para participar nas comemorações da vitória da URSS na Grande Guerra Pátria (1941-1945) a 9 de Maio. Pergunto: quem quererá ficar ao lado do líder supremo Jim Jong-un? Será este o melhor representante do povo coreano que lutou contra a agressão nipónica ou estamos perante mais uma birra de Putin: quero, mando e posso?





sábado, janeiro 24, 2015

Neo-nazis brasileiros combatem ao lado de separatistas russos na Ucrânia


                                             Rafael Lusvarghi, o "cossaco" brasileiro



Neo-nazis brasileiros combatem no Leste da Ucrânia, mas de que lado? Aqui fica a minha investigação no Observador: 
http://observador.pt/opiniao/quem-combate-ao-lado-dos-separatistas-russos-na-ucrania/ 

Separatistas pró-russos lançam ofensiva contra Mariupol


Na foto: o embaixador da morte do Kremlin no Leste da Ucrânia. 

Em Mariupol, cidade do Sul da Ucrânia, um ataque de artilharia, matou pelo menos 21 pessoas e 86 ficaram feridas. Dneis Puchilin, vice-presidente do Parlamento da região separatista de Donetsk, veio outra vez com a história de que o ataque foi feito pelas tropas ucranianas como "mais uma provocação", mas Alexandre Zakhartchenko, dirigente dessa mesma "república", acaba de afirmar (cita pela agência de propaganda do Kremlin Ria-Novosti) que afinal os separatistas pró-russos "lançaram uma ofensiva contra Mariupol". 
Os separatistas pró-russos estão a utilizar artilharia pesada, dezenas de tanques e o Kremlin continua a afirmar que não está envolvido, nem tem nada a ver com o conflito. Volta a colocar-se a pergunta: onde é que os separatistas compram material de guerra tão sofisticado? 
Claro que alguns virão dizer que se trata de material capturado às tropas ucranianas, mas não queiram fazer de todos nós estúpidos. Repito, os separatistas combatem porque o Kremlin quer, o resto é propaganda.
O deputado russo Konstantin Kosatchov, dirigente do Comité de Assuntos Internacionais da Duma da Rússia, já veio dizer que a Rússia não abandonará os habitantes da Transdnístria, enclave separatista pró-russo na Moldávia. Basta olhar para o mapa para compreender que o objectivo de Vladimir Putin é separar da Ucrânia os territórios que permitirão à Rússia ter um corredor terrestre com a Crimeia e a Transdnistria.