quarta-feira, julho 23, 2008

Afinal, o que quer o Presidente Chavez?


A visita do Presidente da Venezuela a Moscovo ficou marcada por polémica em torno do que ele disse e do que não disse. Publico aqui um artigo que ontem escrevi para a Lusa. Cada um que tire as conclusões.


O Presidente da Venezuela, Hugo Chavez, propôs aos “amigos russos” que pensem na possibilidade de instalar bases militares no território do seu país.
“A Rússia tem possibilidades suficientes para garantir a sua presença em diferentes partes do mundo. Se as forças armadas russas quiserem estar presentes na Venezuela, serão recebidas calorosamente” – declarou o dirigente venezuelano antes de abandonar a capital russa rumo à Bielorrrússia.
Segundo ele, “içaremos bandeiras, iremos tocar tambores e cantar canções, porque chegarão os nossos aliados, com os quais temos uma visão comum do mundo”.
Chavez confirmou os planos de aumentar a cooperação militar com a Venezuela.
“Já fechámos a questão do fornecimento de aviões SU-30, trabalhamos no sistema integral anti-aéreo, que irá garantir a segurança a curto, médio e longo alcance. A Rússia continuará a fornecer elementos para esse sistema” – afirmou o Presidente da Venezuela.
Porém, ele considerou “exagerado” o valor de 30 mil milhões de dólares, que alguns órgãos de informação anunciaram que Caracas poderia gastar em quatro anos na aquisição de armas russas.
Ruslan Pukhov, director do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias da Rússia, considera que a Venezuela poderá gastar cinco mil milhões de dólares em armamentos russos.
“Qualquer que seja a conjuntura no mercado mundial de material bélico, Hugo Chavez continuará a comprar armamento na Rússia e poderá gastar até cinco mil milhões de dólares nos próximos dez anos” – calcula o perito.
Segundo Pukhov, “o mercado europeu de armas é praticamente inacessível para Caracas, primeiro, porque é muito caro e, segundo, porque vários componentes produzidos nos Estados Unidos, que proíbe vender esse material à Venezuela”.
Segundo analistas militares russos, a cooperação militar entre Caracas e Moscovo está a preocupar cada vez mais os Estados Unidos, porque, no fundo, Chavez propôs aos dirigentes russos uma forma de responder à instalação de elementos do sistema antimíssil norte-americano na Polónia e na República Checa.
Alguns dias antes, o jornal russo noticiou a possibilidade de Moscovo voltar a instalar bases militares em Cuba, o que mereceu uma reacção negativa e nervosa de Washington.
Essa notícia despertou o interesse dos analistas militares russos, que têm opiniões diferentes face a essa possibilidade da Rússia responder à intenção dos Estados Unidos de instalar um radar na República Checa e dez mísseis interceptores na Polónia.
O general na reserva Leonid Ivachov, antigo dirigente do departamento de cooperação internacional do Ministério da Defesa da Rússia, considera que Moscovo não necessita de bases aéreas permanentes em Cuba, mas de “aeródromos para reabastecimento”.
Segundo ele, “os cubanos estão prontos a aceitar que a Rússia volte a instalar os postos de reconhecimento rádio-técnico na base de Lurdez, encerrada em 2001”.
Ivachov recordou que, na era soviética, essa base fazia parte do sistema de prevenção de um ataque nuclear.
“Se esses planos avançarem, será uma boa resposta à tentativa da NATO de instalar bases próximo das fronteiras russas. Do ponto de vista da execução de semelhantes intenções, não há dúvida que os aviões e tripulações da aviação de longo alcance são capazes de voar e instalar-se em Cuba” – declarou o general Piotr Deineikin, antigo comandante da Força Aérea da Rússia.
“Não vejo nada de condenável nisso, porque não têm em conta a nossa opinião quando instalam bases aéreas e postos de reconhecimento rádio-técnico nos territórios dos nossos vizinhos” – sublinhou.
Porém, um dos peritos citados pelo Izvestia duvida que os aviões militares russos já aterram em Cuba.
“Os Estados Unidos têm em Cuba os seus “olhos e ouvidos” na própria ilha: a base de Guantanamo. Por isso, se os aviões da aviação estratégica russa realmente aterrassem em Cuba, o escândalo já teria rebentado” – declarou.
Os aviões soviéticos de longo alcance Tu-95MC começaram a sobrevoar as costas do Continente Americano no início dos anos 80 do século passado, como resposta à instalação pelos Estados Unidos de mísseis de cruzeiro no Sul de Inglaterra, Norte de Itália e Alemanha Ocidental.
Em 1992, a Rússia suspendeu esses voos por falta de meios, mas, a 17 de Agosto de 2007, Vladimir Putin, então Presidente da Rússia, anunciou o reinício dos voos da aviação estratégica de longo alcance.
Alexei Makarkin, vice-director do Centro de Tecnologias Políticas, responsabiliza o Ocidente desta aproximação entre Moscovo e Caracas.
“A Venezuela está fortemente interessada na aproximação com a Rússia, para ela é uma oportunidade única de enfraquecer o isolamento internacional”.
Porém, Makarkin considera que a aliança russo-venezuelana não provocará a deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente.
“A atitude dos Estados Unidos para com Chavez é semelhante à atitude do Kremlin para com Saakachvili (Presidente da Geórgia), mas dificilmente essa “picadela” de Moscovo será dolorosa para os países ocidentais, porque estes sabem que a Rússia não irá demasiadamente longe nessa aproximação” – defende ele.
“Os Estados Unidos e a Europa olham calmamente para semelhantes relações, só os orgãos de informação ocidentais irão atacar uma vez mais a Rússia, por apoiar o regime autoritário” - concluiu.
“Há países da União Europeia como Portugal ou Espanha que têm excelentes relações com o regime de Hugo Chavez. Por isso, não há grandes razões para criticar a Rússia por fazer o mesmo” – declarou à Lusa uma fonte diplomática em Moscovo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro Milhazes:

Como já deve saber, Chavez disse que era uma calúnia lançada por alguém (insinuou que eram os americanos) essa história das bases russas na Venezuela...

Será que houve erros de interpretação?

www.rouxinoldebernardim.blogspot.com

Jose Milhazes disse...

Caro leitor, eu citei as palavras de Chavez. Cada um pode entendê-las como quiser. Claro que se pode entender que ele está disposto a receber delegações militares russas de braços abertos, mas, no contexto do que Chavez declarou, as palavras dele podem ser interpretadas como um convite à criação de bases militares russas no seu país.
Na imprensa russa há muitas notícias de que a Rússia pretende voltar a criar bases militares na América Latina, nomeadamente, e, como se costuma dizer, não há fumo sem fogo.