quinta-feira, janeiro 29, 2009

Condolências atrasadas


O Presidente russo justificou o silêncio sobre o assassínio de um advogado e de uma jornalista, na passada semana, para não influenciar as investigações, disse o editor do bissemanário Novaia Gazeta, citado hoje pela agência Interfax.
Dmitri Medvedev debateu o duplo assassínio com o último líder soviético Mikhail Gorbatchov, que é também um dos accionistas do Novaia Gazeta, onde trabalhava a jornalista assassinada, Anastassia Baburova. Ao encontro assistiu o editor Dmitri Muratov.
Medvedev e Gorbatchov «discutiram o facto do Presidente russo não ter apresentado as suas condolências por estes dois crimes", disse Muratov, acrescentando que Gorbatchov começou por dizer que "se tratava um erro o facto de o presidente do país não ter apresentado condolências e não ter considerado esse acontecimento uma tragédia".
"Ele (Gorbatchov) tentou discutir com Medvedev, mas este explicou que a apresentação de condolências em nome do Presidente poderia ser recebida como uma ampla declaração com a avaliação do sucedido".

Medvedev acusou o seu homólogo ucraniano, Victor Iuschenko, que apresentou as condolências aos familiares das vítimas, porque a jornalista nasceu na cidade ucraniana de Sebastopol, de "tentar construir imagem no sangue".

O advogado Stanilav Marguelov e a jornalista Anastassia Baburova foram assassinados a tiro no passado 19 de Janeiro, no centro de Moscovo.

Nem o primeiro-ministro Vladimir Putin, nem o Presidente Medvedev pronunciaram uma palavra sobre o facto até hoje. Na reunião com Gorbatchov, o último acabou por dar condolências à família das vítimas.

Quanto ao autor dos disparos, o mais provável é que não o encontrem, assim como não foram detidos os encomendadores e executores contra outros jornalistas da Novaya Gazeta: Anna Politkovskaia, Iúri Tchekhotchikhin, etc.

18 comentários:

DS2 disse...

Eu tenho várias questões mas creio que os "especialistas" acerca da Rússia sejam impotentes para atenderem ás minhas questões:

1) Porque foram todos estes jornalistas assassinados?

2) Quem terá ordenado/saido-beneficiado-com a morte deles?

3) Quem costuma utilizar estes métodos?

4) Teriam estes jornalistas feito "algo" para despertar tanta fúria?

5) É isto comun na Rússia? Se sim, quem poderão ser os responsáveis?

Jose Milhazes disse...

Leitor DS2, eu não sei como responder a quase todas as suas perguntas. Apenas posso dizer que se trata de uma coisa comum na Rússia e os culpados nunca são encontrados. Tudo o resto só pode ser especulação.
Eu não acuso o poder de estar por detrás dos assassinos, mas o poder é responsável por não os encontrar e julgar, por não garantir a segurança dos cidadãos.

Afonso Henriques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

DS2 disse...

DS2, nao sou um especialista no assunto, só posso dizer que os casos de assasínio dos jornalistas sao pouco numerosos, até se pode dizer, muito pouco numerosos. Sé quiser contar todos, veja este blog (eu nao o li todo ainda) Eu acho que devem estar todos aqui (no blog), porque é um dos temas que jornalistas estrangeiros levantam sempre que acontece algum caso destes.
Sim, sr. Milhazes expos ideias sensatas na sua resposta.
DS2, para voce ter uma ideia, um assassinio de jornalistas (supostamente ligado a sua atividade professional) acontece, mais ou menos, 1 vez por ano (nao estou dizendo que isto fosse bom).
Tambem é preciso dizer, que, desta vez, parece, o alvo nao foi a jovem jornalista (estudante ainda), mas o advogado.
P.S.
Na minha opiniao, o poder só perde com os casos semelhantes e entende muito bem isso.
Anónimo russo.

Ninja disse...

Caro Anónimo Russo, não acha que a razão dos homicidios serem pouco numerosos (na sua opinião) é pelo simples facto de existirem? Ou seja, não acha que só o medo da morte mantém grande parte dos jornalistas Russos afastados da investigação a certas pessoas e negócios? O número de ameaças que chegam as redaçoes deve ser astronómico e os jornalistas sabem que correm realmente perigo. Os jornalistas mortos sao autenticos herois, pois poem a verdade acima da propria vida, ha que respeitar isso, mas nem todos se aventuram dessa maneira, senao o numero de mortes seria ainda maior.

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo russo, estou de acordo consigo que o poder russo perde muito com o assassinato de jornalistas, advogados, etc., mas porque é incapaz de deter e condenar os assassinos. Este é que é o principal problema.

Anónimo disse...

Ninja,

Primeiro, a imprensa russa é na minha opiniao, bastante livre.
Segundo, nao acho que haja tanto medo entre os jornalistas como voce diz.
Terceiro, os jornalistas que mais sofrem (estou a falar neste caso da Politcovscaya), representam uma faixa mais radical e nao patriotica, e por isso nao teem grande respeito do lado da sociedade e de maneira nenhuma podem ser uns herois. Confesso que nao me lembro ate´se li alguma vez algum artigo de Politcovscaya, por exemplo, mas ouvi há pouco uma opiniao de uma pessoa a quem estou disposto a confiar, e ele disse que a jornalista mencionada era pouco adequada, nao escolhia palavras e atirava se contra praticamente todos. Há pouco ouvi na radio uma outra jornalista, Latynina, e, pelo pequeno trecho que eu ouvi, (era uma entrevista com um perito norte-americano sobre a politica extrerna da Russia), pareceu-me que aquele perito era mais patrita russo que ela. Nao sei como outros, mas eu, depois do que ouvi, duvído que a respeite. Sim, há tambem entre os jornalistas que se posicionam como os mais independentes e oposicionistas, pessoas razoaveis que eu respeito. Por exemplo, Venedictov. Mas, nao sei porque, duvido que ele alguma vez corra perigo de morte. (Talvez, por ter miolos, simplesmente).
Anónimo russo.

Anónimo disse...

patriota

Anónimo disse...

Tambem, porque ninguem diz, que os assassinos de Politcovscaya (mas, parece, nao encomendadores), foram presos e agora decorre o processo?
Anónimo russo.

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo, o tribunal ainda não decidiu se os arguidos são os criminosos e, segundo, os encomendadores são foram sequer detidos. Seja mais exacto nas observações. Em países onde a justiça funciona, uma pessoa só é considerada criminosa depois da condenação pelo tribunal.
Leitos anónimo anterior, não fale de Politkovskaia se não leu o que ela escreveu. Faz-me lembrar os seus conterrâneos que, na época soviética, diziam "eu não li Pasternak, mas ele é um traidor, etc.,etc.", ou o candidato a rei de Portugal que ficou célebre pela exclamação: "Eu não li o livro de Saramago, mas ele é uma merda!".

Ninja disse...

Pois, parece que para parte dos Russos estar contra o governo é traiçao à patria. E depois se morre alguem, os mafiosos arranjam logo a justificaçao de que nao era patriota, por isso nao faz mal morrer e o povo nao se revolta. Pelas noticias que me chegam os jornalistas que morrem sao os que investigam crimes de guerra na Tchetchenia ou os negocios da Máfia. Mas se calhar é a imprensa Portuguesa que nao é livre e andam a enganar-me.

Anónimo disse...

Sr. Milhazes.
"Leitos anónimo anterior, não fale de Politkovskaia se não leu o que ela escreveu"
Sr. Milhazes, eu nao posso falar que nao li, só que nao me lembro, se li ou nao. Quando leio um jornal, nem sempre olho o nome do autor do artigo.
Mas agora vou procurar na internet de propósito, nao se preocupe. Mas alguma coisa me diz, que nao vou mudar de opiniao, e nao por obstinaçao.

Anónimo disse...

Ninja ,

Estar contra o governo nao é traiçao.
Só que os que morreram nos últimos 2 anos, infelismente, nao tinham grande apoio entre populaçao, e nao porque eram contra o governo.
Quando já há uns 10 anos morreu um jurnalista talentoso, amado pelas pessoas, a revolta era quase geral. Mas morreu nao pelas suas ideias, e, sim, parece, por uma questao de negócios, de comércio.
Tem a certesa de que a imprensa portuguesa relata tudo, e é sempre a verdade? Nao sei. Quanto mais leio, menos certeza tenho.
Anónimo russo.

Anónimo disse...

Ninja ,
Como posso lhe explicar?.. Por exemlo, se morrer Venedictov (deus o livre), ficarei revoltado, mas, se for Latynina (deus me perdoa o cinismo), ficarei muito menos revoltado. Independentemente daquilo o que investigavam ou nao.
Anonimo russo.
Anónimo russo.

Anónimo disse...

P.S. Claro que vou ter muita pena dela, como de uma mulher indefesa e, talvez, (na minha opiniao) tola, mas uma grande revolta civica nao vou sentir.
Anónimo russo.

Anónimo disse...

P.P.S. È a minha opiniao pessoal.
Anónimo russo.

Ninja disse...

"Tem a certesa de que a imprensa portuguesa relata tudo, e é sempre a verdade? Nao sei. Quanto mais leio, menos certeza tenho."

Pois meu caro amigo, talvez tenha alguma razão, mas nesse aspecto Portugal foi abençoado pela existência de uma pessoa, e essa pessoa chama-se José Milhazes.

Mas continuo a acreditar que a imprensa Russa não é tão livre quanto deveria ser e penso que o governo devia fazer mais para combater esse tipo de crimes, pois quando morrem jornalistas devido ao que publicam é muito grave num estado democrático que quer ser respeitado, ainda mais a Rússia pois se há povo que goste de ser respeitado são vocês.

E fique descansado que eu entendi o que quis dizer com não ficar revoltado com a morte de uma pessoa que voce nao goste, eu tambem sou assim, nao vou passar a gostar de uma pessoa so porque ela morreu. Há aqui alguns em Portugal, que tanto mal fizeram ao país, que se morrerem talvez faça uma festa.

Anónimo disse...

Li de propósito alguns dos artigos da Politcovscaya e tenho de dizer, que, sim, eu talvez nao tivesse razao ao culpa-la de nao-patriotismo, porque, á sua maneira, era, pelo que se ve, até certo ponto uma patriota. Mas ainda nao li muito.
Quanto ás criticas do Putin em alguns dos seus artigos, posso ate chama-los de moderados, e, até certo ponto, razoaveis (em comparaçao com aquilo que vejo muitas vezes na imprensa ocidental).
O seu alvo principal, pelo que eu entendi, era o governo atual da Tchetchenia. Aí, sim, acusava muito e, por vezes, sem escolher palavras.Acusava aqueles, que constituem hoje o poder na Tchetchenia, de ligaçoes no passado com os raptores de pessoas e do próprio rapto das pessoas etc, atribuia-lhes outros crimes. (Mas onde voces viram ex-militantes tchetchenos inocentes?) Nao sei o que daquilo que escreveu é verdade e o que nao é.
Falava tambem das vitimas entre a populaçao civil na Tchetchenia durante a segunda guerra, dos erros da aviaçao russa e dos militares russos etc.
Enfim, nao ouvi nada de especial. Nao era uma "lutadora contra o regime" ou o que lá dizem os meios de comunicaçao ocidentais.
Acho até útil para a sociedade e para o estado existirem tais jornalistas. Claro que é pena que morreu. Mas os gritos, levantados no ocidente, aludindo o interesse do Putin nisso acho mais uma propaganda anti-russa. Porque, pelo que vi, posso repetir, acho até as criticas dela quanto ao Putin moderadas.
Anónimo russo.