quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Contributo para a História (Portugal-Rússia) 2


A julgar pelos testemunhos da época e olhando para os retratos dela que chegaram até nós, Idália seria uma das mais belas mulheres nos salões da alta sociedade de São Petersburgo. Os seus olhos azuis, longos cabelos ruivos, rosto meigo, inteligência e vivacidade gozavam de grande sucesso entre os nobres russos. Piotr Barteniov, seu conterrâneo e biógrafo de Puschkin, escreveu: “Ela encarnava o tipo de mulher atraente, não tanto pelo seu rosto meigo, quanto pela constituição da sua brilhante inteligência, alegria e viveza do seu carácter, que lhe davam, em toda a parte, um êxito constante e indiscutível”.
Mas Idália era também conhecida por possuir um carácter extremamente vingativo. O príncipe Alexandre Mecherski recorda: “Ela era conhecida na sociedade como uma mulher inteligente, mas com uma língua bastante maldosa, ao contrário do seu marido, que era conhecido pela alcunha de “Joaninha”.
Posteriormente, a neta da Marquesa de Alorna irá ser apresentada, na historiografia russa e soviética, como a principal causadora de muitos males e desgraças que atingiram Alexandre Puschkin, sendo este representado como um cândido anjo que sucumbiu às intrigas e manhas de um diabo disfarçado de mulher. Ana Akhmatova, uma das maiores poetisas soviéticas do séc. XX, falava dela com desprezo, chamando a atenção para “os ruídos de víbora da bela Idália”.
O escritor Lev Grosman vai ainda mais longe quando desenha, no romance “Notas de Archiak”, o retrato psicológico de Idália: “Ela pertence ao tipo das mulheres vivas, ágeis e faladoras, que se caracterizam, normalmente, por aventuras arriscadas e ousadas intrigas mundanas. O temperamento meridional transformou a sua vida numa rica epopeia erótica e os confrontos pessoais obrigavam a fazer combinações complexas e misteriosas, onde encontravam saída o seu amor próprio, inimizade, ódio e, por vezes, vingança. A este tipo de pessoas pertenceram Catarina Medecis, Elizabete de Inglaterra e Marina Mniszhech...”.
Os estudiosos russos da vida e da obra de Alexandre Puschkin continuam a discutir sobre quais teriam sido as causas da inimizade visceral entre o poeta russo e a neta da Marquesa de Alorna. Tanto mais que Idália era, por parte do pai, terceira prima de Natália Gontcharova (esposa de Puschkin) e, em dada altura, manteve excelentes relações de amizade com Alexandre e Natália.
No Outono de 1833, quando Puschkin se encontrava na sua casa da província, na aldeia de Boldin, Idália enviou-lhe, por intermédio da esposa, um beijo, a que o poeta respondeu: “Diz a Polética que irei pessoalmente buscar o beijo, porque não aceito recebê-lo pelo correio”.
A causa da futura inimizade entre Idália e Alexandre poderia residir no facto de o poeta russo ter ofendido gravemente a neta da Marquesa de Alorna. Baseando-se nas memórias de Vladimir Gortchakov, contemporâneo e próximo de Puschkin, Piotr Cheremetiev, também contemporâneo do poeta, afirmava que Idália teria sido “heroína” de um madrigal com que o poeta prendara uma tal senhora Adelaide Aleksandrovna: “Há uma rosa linda, ela”. A neta da Marquesa de Alorna ter-se-ia sentido ofendida quando viu que o poema estava datado de 1 de Abril de 1829. Também na Rússia o primeiro dia do quarto mês do ano é considerado o dia das mentiras.
Cont.

9 comentários:

ABC disse...

Pois! Está-se mesmo a ver no que isto deu: os homens adoram mentir e que lhes mintam, e então um poeta, que é um fingidor por excelência. E depois a má da fita vai ser a mulher, isto é, a Idália.
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Que gravura é essa, JM? É de um filme?

Jose Milhazes disse...

Caro ABC, é a capa de um dos livros utilizados no meu trabalho.
Espere com os juízos. Puschkin não era um anjo, longe disso e Idália era uma mulher com grande carácter.

ABC / KREMLINO disse...

JM:
grandes novidades, parece. Segundo o que se lê no site da Embaixada de Lisboa, os planos de investimento foram suspensos por causa da crise económica.
Tudo isto é muito estranho, depois de tanto se falar em aviões e helicópteros e sei lá mais o quê. Mas, pronto. Está decidido e quem manda, manda. Assim sendo, claro que Putin não vem a Portugal. E aqui vai uma profecia: depois da história dos ABBA esta é a maior asneira que ele está a fazer. Não distinguir amigos de inimigos é prova de grande burrice.Enfim, todo o santo tem o seu dia e o fim chega a todos.

ABC / KREMLINO disse...

Em relação aos meus juízos anteriores, era o que eu queria dizer, que a Idália é que tinha razão, mas aguardo pelo próximo capítulo.

Jose Milhazes disse...

Caro, o porta-voz do Kremlin veio desmentir a notícia do concerto dos sósias dos Abba.

Anónimo disse...

sr. josé milhazes, gostaria que se possivel me tira-se uma duvida.
Na russia, segundo sei, os russos são 80% da população, mas afinal o que é ser russo?.
Conheço cidadãos do antigo espaço soviético que me disseram que na ex-uRSS existiam muitos casais mistos e que durante o periodo comunista foi destruida a homogeneidade do povo russo.
Francamente não sei se os russos são verdadeiramente descendentes do povo russo original ou se são na maioria um conjunto de povos russificados.
existem dados sobre isso?
será que tem sentido falar de povo russo ou de cidadãos da russia?

grato.

luis f.

Gilberto Mucio disse...

TEm um bem-humorado ditado russo que diz: "Russo não é nação, mas um estado de espírito".

É por aí...;)

ABC/KREMLINO disse...

JM, não percebo o que quer dizer na sua resposta. Noutro post houve acesa discussão sobre o assunto e toda a gente sabe em todo o lado que o concerto aconteceu e em que circunstancias. Claro que o porta voz desmentiu, até escreveu para o Times. E depois?

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Luís, coloca uma questão muito complicada, pois o povo russo é fruto de muitas misturas. O Gilberto diz que ser russo é um estado de espírito, e eu até concordo. Conheço judeus e ucranianos ou tártaros que estão mais integrados, dominam mais a cultura russa do que muitos dos russos. Tanto mais que na era soviética existia claramente uma política de russificação dos outros povos.