sábado, fevereiro 21, 2009

O médico dos "males de amor"


A fim de recordar uma vez mais o meu saudoso amigo Rachid Kaplanov, reproduzo aqui um artigo que escrevemos para o jornal Público e que foi publicado a 07 de Março de 1999.


"Portugal e a Rússia foram as suas duas pátrias, mesmo se fugiu delas e aceitou o asilo francês em Paris. Em Portugal, escapou-se da vigilância da Santa Inquisição e, na Rússia, às intrigas da corte czarista. Nos dois casos, poderes absolutos que intelectualmente execrava e de que foi unicamente vítima, pois a política não era a sua esfera de intervenção. Foi graças a ele que estes dois países, colocados nos extremos opostos da Europa, estabeleceram ligações culturais, para lá dos regimes políticos que neles vigoraram.

António Nunes Ribeiro Sanches, por indicação de Boerhaave, seu mestre holandês e um dos mais eminentes médicos do seu tempo, foi trabalhar para a Rússia, onde passou dezassete anos (1731-1749). Aí deixou um rasto relevante na ciência e na cultura deste longínquo país.

Ribeiro Sanches deixou as melhores recordações na Rússia principalmente graças à sua actividade no campo da medicina. Quando já exercia as funções de médico da corte de São Petersburgo, o iluminista luso salvou da morte a noiva do grão-príncipe Pedro e futura imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande. Por isso, em 1782, o seu filho e sucessor no trono, Pavel I, exprimiu-lhe publicamente gratidão em Paris. Isso valeu-lhe também uma pensão vitalícia da corte russa.

Já depois de ter abandonado a Rússia, por ter sido acusado de não ter renunciado ao judaísmo, ele nunca se recusou a prestar assistência médica aos nobres russos que o procuravam na capital francesa.

É de sublinhar que Ribeiro Sanches era, na época, considerado um mestre incomparável no tratamento de doenças venéreas, o que vinha muito a propósito: os jovens nobres russos (e não só jovens) que visitavam Paris sofriam frequentemente desses "males do amor".

O cientista luso continuou a corresponder-se com colegas seus na Rússia, bem como a dar por correspondência consultas a altos dignatários russos. Mas claro que, tanto na Rússia como em França, os contactos entre Ribeiro Sanches e os russos não se limitavam a temas de medicina. Por exemplo, quando se encontrava a viver em São Petersburgo, ele não só tratava da família real, como também fornecia livros para leitura aos seus membros, incluindo a duquesa Ana de Macklenburgo, futura regente do trono russo.

O enciclopedista português mantinha contactos estreitos com o mundo científico russo, contribuindo para o estabelecimento de relações entre cientistas russos e sábios de outros países da Europa e do mundo. Por sua iniciativa, em 1735, dá-se início à troca de cartas e de livros entre a Academia de Ciências de São Petersburgo (de que Ribeiro Sanches se tornou mais tarde membro) e a Academia Portuguesa de História.

É também ele que está na origem dos contactos entre São Petersburgo e Pequim, onde as sociedades científicas eram dirigidas por jesuítas portugueses. A propósito, é curioso assinalar que a troca de cartas entre os orientalistas russos e os missionários portugueses na China continuaram até meados do séc. XIX, o que fez com que várias dezenas de livros, incluindo alguns em língua portuguesa, transitassem das missões católicas na China para diversas bibliotecas russas, entre elas a Biblioteca Universitária de Irkutsk, na Sibéria, e a Biblioteca da Universidade Estatal de Moscovo.

Outros estrangeirados portugueses, que haviam fugido da Inquisição e se instalaram noutras capitais estrangeiras, estabeleceram também contactos científicos - e não só - com a Rússia. O exemplo mais relevante é o de Jacob de Castro Sarmento, médico judeu de origem portuguesa que residia em Londres. Alguns meses antes da morte de Ribeiro Sanches, João Jacinto de Magalhães, outro estrangeirado português residente também em Londres, físico e popularizador da ciência, torna-se, tal como o seu amigo Sanches, membro correspondente da Academia de Ciências de São Petersburgo.

Os contactos de Ribeiro Sanches não se restringiram a Portugal e à diáspora portuguesa no estrangeiro. Quando se encontrava na Rússia e mesmo depois de partir para Paris, correspondeu-se com cientistas de quase todo o mundo civilizado de então. Entre os seus interlocutores havia ingleses, holandeses, espanhóis, italianos, suíços, latino-americanos, etc.

Respondia com prazer e saber aos seus colegas europeus a perguntas que lhes interessavam da história da Rússia. Por exemplo, as informações sobre os peixes da Rússia por ele concedidas ao famoso naturalista francês Buffon foram por este incluídas nas suas obras.

Os dirigentes da Academia de Ciências de São Petersburgo tinham em linha de conta a opinião de Sanches quando da eleição de novos membros estrangeiros.

O iluminista português dava a conhecer aos seus interlocutores a situação sócio-política e económica na Rússia. Nos anos 70 do séc. XVIII, informava-os das reformas da imperatriz Catarina II, a Grande. Por outro lado, ele comunicava de Paris para a capital russa as transformações que ocorriam nos vários Estados europeus. Da pena deste ilustre sábio luso saíram numerosas obras sobre a Rússia, muitas das quais continuam nos arquivos à espera de publicação. Alguns manuscritos de Ribeiro Sanches sobre este tema eram considerados perdidos e só foram descobertos em Moscovo, São Petersburgo e Lisboa nos anos 80 do nosso século.

É impressionante a amplitude de interesses científicos de Ribeiro Sanches. Entre os seus tratados e cartas manuscritas, há escritos etnográficos sobre alguns povos do Sul da Rússia, que ele conheceu durante a campanha militar da Crimeia (anos 30 do séc. XVIII), onde exercia funções de médico militar. Nomeadamente, redigiu em manuscrito o único dicionário da língua dos tártaros de Kuban, povo hoje desaparecido.

Ribeiro Sanches deixou igualmente escritos sobre os cossacos, ucranianos, povos do Báltico, etc. Todavia, ele dedicou maior atenção aos russos, suas tradições, costumes, vida económica e agricultura. Na sua conhecida obra "Dos banhos a vapor russos", a única traduzida do francês para russo durante a vida do autor, Ribeiro Sanches analisa o tema não só enquanto médico, mas também como economista. Ele via nos populares banhos russos um meio universal de tratamento de doenças quando não era possível o acesso a outros tratamentos e recomendou-o aos seus leitores ocidentais.

Quando se encontrava já há vários anos na capital francesa, Ribeiro Sanches tornou-se conselheiro de vários estadistas russos, principalmente no campo da pedagogia e da economia. Ivan Betskoi, um dos grandes reformadores russos do sistema de ensino no reino de Catarina II, reconheceu que frequentemente se orientava pelas recomendações enviadas pelo sábio luso.

Nos seus conselhos aos altos dignitários russos, Ribeiro Sanches não poupava críticas à Igreja Católica, embora fosse muito cauteloso ao abordar temas religiosos. Por exemplo, recomendava não exagerar no ensino do latim nas escolas da Igreja Ortodoxa Russa, considerando que isso poderia conduzir ao aumento da influência do papado romano na Rússia, que transportava em si uma ameaça constante à independência política do país.

Pondo de parte semelhantes exageros ideológicos, raros em Ribeiro Sanches, as suas recomendações são de um saudável realismo. Ao abordar, por exemplo, as reformas no campo agrário na Rússia, ele não ia ao ponto de proibir a liquidação da servidão da gleba neste país (que só ocorreu em Fevereiro de 1861), mas defendia mudanças significativas nesse sistema. Baseando-se nas reformas do czar Pedro I, "o Grande", o ilustre estrangeirado português aconselhou o marquês de Pombal na sua tarefa de modernização de Portugal.

Ribeiro Sanches, que fez parte dos enciclopedistas franceses, tinha uma visão filosófica das ciências sociais e considerava que a auto-subsistência agrícola era fundamental para qualquer país, insistindo, para isso, no incremento das culturas cerealíferas. Nesse aspecto tinha uma visão proteccionista e gostava de discorrer sobre os problemas da agricultura, mesmo quando lhe colocavam questões completamente diferentes. Quando um seu interlocutor russo lhe perguntou: "Como introduzir as belas-artes na Rússia?", ele respondeu que, primeiramente, era preciso ter camponeses minimamente alimentados e com algum nível de autonomia na sua actividade económica. As belas artes vinham depois.

As recomendações no campo agrário feitas pelo cientista português foram entusiasticamente recebidas pelo seu jovem amigo e admirador, príncipe Dimitri Golitsin, encarregado de negócios da Rússia em Paris, mas, infelizmente, rejeitadas pela imperatriz Catarina II.

Convém dizer que depois de 200 anos de reformas e revoluções, o problema agrário continua por resolver. Mas Ribeiro Sanches enganou-se numa previsão: não obstante a permanente crise agrária, as belas-artes floresceram na Rússia.

8 comentários:

Pippo disse...

JM, nunca teve desejos de providenciar a publicação das tais "obras perdidas"?

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, e apoios? Só se faz vinho com uvas.

Pippo disse...

Já fez propostas a alguém?
Na Rússia publica-se imenso, quem sabe se poderão estar interessados (A Academia de Ciências, por exemplo).
E em Portugal, felizmente, já estamos a publicar, muito mais do que há 3 anos, por exemplo. A Biblioteca Nacional até publica obras facsimiladas, se calhar poderia publicar obras do Ribeiro Sanches as quam, sem qualeur sombra de dúvida, devem ser muito interessantes.

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, fiz a proposta em Portugal e não obtive resposta, ainda quando Rachid Kaplanov estava vivo. Agora que ele faleceu, a publicação dos muitos documentos que ele encontrou em vários arquivos europeus poderá ser feita pelo cidadão português que se apoderou individamente desse trabalho, mas isso é uma longa história, que talvez um dia irei contar.
Entretanto, quando tiver tempo, irei publicar alguma coisa que guardo.

ABC/KREMLINO disse...

Males de amor...dos verdadeiros, não destes, como dizia Panoramix: Para isso não tenho poção.

Anónimo disse...

José Milhazes fala algures da correspondência do célebre médico com o "mundo civilizado" de então. Então, como hoje, haveria alguma parte do mundo sem civilização (ou, até, incivilizada)? É que, à excepção da Antárctida, não estou a ver.

AM

Francisco disse...

Existe já uma extensa bibliografia de Ribeiro Sanches, onde narra a sua passagem como médico por vários pontos de Portugal, a sua fuga precipitada a estadia nos vários países da Europa, como professor em Inglaterra, os conctatos que manteve. não sei se essa bibliografia está completa!
cin.naroda

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo, "mundo civilizado" era uma expressão utilizada na época.
Leitor Francisco, o meu artigo, escrito em 1997, centrou-se na passagem de Ribeiro Sanches pela Rússia. Não pretendia abordar a passagem dele por outras paragens, sobre que já existe uma extensa literatura.