domingo, outubro 18, 2009

Reflexões em Domingo de Outono

Estamos em meados de Outubro, o aquecimento central já está ligado, mas o Inverno ainda não chegou. Pelo contrário, as altas temperaturas para a época fazem espantar. Num dos dias da semana passada, registou-se a temperatura de 15 graus positivos. Porém à noite, o mercúrio começa a descer abaixo do zero.
Mas não é disso que quero falar. Não posso deixar de voltar aos resultados das eleições municipais e regionais na Rússia que se realizaram no Domingo passado. Como é sabido, o Partido Rússia Unida obteve vitórias em praticamente todos os escrutínios, enquanto que a oposição, parlamentar e extra-parlamentar, fala de falsificações em massa.
Na segunda-feira, quando a oposição já falava em batota, o primeiro-ministro Vladimir Putin e o Presidente Dmitri Medvedev reconheceram a vitória do Partido Rússia Unida e Putin aconselhou a oposição a recorrer aos tribunais para contestar os resultados dos escrutínios.
Quem conhece o funcionamento dos tribunais russos, sabe que é preciso ter uma paciência de Job para apresentar queixa e vencer um processo contra o poder vigente. O Partido Comunista da Federação da Rússia ainda não desistiu de contestar os resultados das eleições presidenciais de 2008 e a queixa está no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, pois os tribunais russos deram sempre razão ao poder. Isto não obstante, na República da Mordóvia, um dos membros da Federação da Rússia, Medvedev ter vencido o escrutínio com mais de 100% dos votos!
Na passada terça-feira, os três partidos da oposição parlamentar: Partido Comunista, Partido Liberal-Democrático e Partido Rússia Justa abandonaram a sala de sessões da Duma Estatal (Câmara Baixa do Parlamento russo), exigindo um encontro com o Presidente Medvedev enquanto garante da Constituição para falarem sobre as falsificações dos resultados eleitorais.
Há factos de falsificação de bradam aos céus, que mostram que as autoridades já nem cuidam de apresentar uma fachada respeitável. Por exemplo, Serguei Mitrokhin, dirigente do partido liberal Iabloko, deputado da Duma de Moscovo, e a sua família votaram no local de residência. Segundo ele, o seu voto foi para o Partido Iabloko e acredita que outros membros da sua família o apoiaram na sua escolha. Mas qual não é o espanto dele quando, nos resultados, não há sequer um voto no seu próprio Partido!
Não obstante estes casos aberrantes, não espero que Dmitri Medvedev ceda à oposição parlamentar, visto que isso significará desautorizar as suas palavras e as de Vladimir Putin sobre a vitória da Rússia Unida.
E se assim for, teremos mais uma prova de que não vale a pena acreditar nas promessas de Medvedev de democratizar o regime e, por conseguinte, de combater a corrupção, modernizar a Rússia, etc., etc.
Já afirmei várias vezes que, tendo em conta o que vejo, admito que o Partido Rússia Unida possa vencer as eleições de forma mais limpa, mas os dirigentes nacionais e regionais não acreditam no eleitorado e fabricam votações para agradar aos chefes, mesmo que para isso tenham de ordenar, por exemplo, aos directores das escolas "garantirem" a afluência às urnas dos professores e pais dos alunos.
A continuar assim, não é provável a formação de uma sociedade civil na Rússia nos anos mais próximos. Sem um sistema realmente democrático e aberto, sem tribunais independentes, sem o respeito pelas leis por todos, desde o mais simples cidadão até ao Presidente, não se pode esperar uma verdadeira modernização do país.
E se tal não acontecer, a Rússia poderá perder talvez a única possibilidade de dar um salto para a modernidade. Eu penso assim...

9 comentários:

MSantos disse...

"Quem conhece o funcionamento dos tribunais russos, sabe que é preciso ter uma paciência de Job para apresentar queixa "

Curioso! Lembra-me algo mas não me estou a recordar agora.

;)

Mas concordo consigo José Milhazes.

E o facto dos actuais líderes russos não confiarem em eleições livres significa que apesar da sua popularidade, estão inseguros no que concerne à sua solidez política.

Seria mais honesto não fazerem eleições ou então que defenissem dentro do espectro político, quais os trâmites em que os partidos políticos podiam participar.

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

Sendo tão moderno, democrata e promissor, que espera o PR para se demitir da direcção de tão corrupta sociedade?

Cristina disse...

JM
Plenamente de acordo com a tua análise da situação. Sem uma democratização de toda a sociedade, seja a nível político, seja económico (a Rússia tem índices muito baixos de liberdade económica, ao contrário de outros países de Leste), o progresso será muito mais difícil, porque o poder não tem o "feed back" da sociedade, tão necessário para ir corrigindo as políticas. Sem a população se poder exprimir abertamente, o poder faz o que quer, limitando-se a defender os interesses das elites.

Ao anónimo das 12:51
Nunca na Rússia ninguém se demitiu do poder por sua livre vontade. Há quem diga que até no caso de Ieltsin, o único que aparentemente cedeu o poder a Putin, esta cedência não teria sido assim tão
"voluntária".
Actualmente, não são as eleições que mudam o poder na Rússia, estas apenas legitimam os vencedores que conquistam o poder nos intervalos das eleições.
Cristina Mestre

FG disse...

Por cá, ainda (penso eu...!) não chegámos a esse ponto; no tempo do Salazar é que até os mortos votavam, mas existem muitas formas de se vencerem eleições sem ter de recorrer a esses métodos dignos de regimes autoritários, fascistas, embora querendo mostrar ao Mundo que são democratas, métodos esses mais sofisticados e com o apoio dos poderes instalados. Basta constatar o que foi elaborado nas últimas eleições em Portugal e não estaremos longe de tais artimanhas! Quanto à "paciência de Job" para apresentar queixa nos tribunais, parece que neste rectângulo a paciência q.b. é para ver os processos andarem e serem resolvidos! :)
Cumpts

Cristina disse...

Eu tive a oportunidade de acompanhar eleições na Rússia no tempo da presidência de Putin e de recentemente participar nas eleições portuguesas. Afianço que a situação em Portugal e na Rússia não tem comparação. A envergadura dos atropelos à democracia nesta última é infinitamente maior. A própria campanha eleitoral na Rússia é mais um manual prático de "como não deixar que ninguém ganhe as eleições".
A Rússia é um grande país, em todos os sentidos. Será bom para a Europa que a Rússia continue unida, pois isso evitará guerras no nosso continente. A grande dificuldade é que as elites russas não confiam na utilização da liberdade por parte da sua população e, logo, preferem que esta não participe na governação. É um dilema difícil de resolver: como dar mais liberdade, evitando que a liberdade cause danos à unidade do país.

MSantos disse...

100% de acordo, Cristina Mestre.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

Ainda sobre os problemas inerentes a uma eventual fragmentação da federação russa, recordo-me de um debate, há alguns anos na CNN salvo erro, em que participou o general norte-americano Wesley Clark (alguém que muito admiro, devo referir) e ao focar os conflitos dos Balcãs, este afirmou que havia muita gente nos EUA que desejavam o desmembramento da Rússia sem saberem os gravíssimos problemas a nível internacional que isso iria causar, nomeadamente em assistirmos a uma imensidão de conflitos como na Juguslávia, estendidos por toda aquela dimensão euro-asiática com armas nucleares à mistura.

No fim lembro de ele ter referido que esse hipotético desmembramento faria com que o fim da URSS parecesse uma brincadeira de crianças que em termos de segurança, foi uma enorme dor de cabeça (ainda o é).

Exactamente como aquela falácia tão nossa conhecida de haverem muitos portugueses a apostar na desfragmentação espanhola a pensar que isso iria guindar a nossa nação como líder ibérica quando provavelmente assistiríamos ao fragmentar do nosso território para não falar das hordas de eventuais refugiados, etc.

Com isto não estou a desculpar os tiques ditatoriais e absolutistas dos actuais líderes russos mas infelizmente terá de haver um ponto de equilíbrio que impedirá ainda por muitos anos uma democracia e liberdade plenas tal como as conhecemos no Ocidente.

...ou conhecíamos, sei lá!

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

Cristina Mestre:
Mas então onde está a diferença entre este PR e o resto? Se é tão superior, mostre, demita-se, denuncie, vá viver para a China. Ou deixe de se armar em santo, que já enjoa.

Ítalo Tavares disse...

Concordo com vc, Milhazes.