terça-feira, novembro 17, 2009

Contributo para História de Portugal (parte 2)

"Durante esta parte da conversa, sentiam-se as fortes simpatias de Salazar para com a Inglaterra. Salazar afirma que, por enquanto, não há quaisquer atritos entre a Alemanha e Itália, por um lado, e a França, por outro. A Inglaterra e França, segundo Salazar, tentam fazer com que ambas as partes combatentes sintam a “fome de armas”, esperando desse modo obrigá-los a reconciliar-se. Franco aceitaria o controlo internacional, visto que para ele seria importante, antes de tudo, fechar a fronteira franco-espanhola, que lhe provoca a maior das preocupações; porém esse controlo pode mostrar-se perigoso para ele caso a situação se prolongue.
Depois, passámos às nossas relações com a Alemanha. Eu expliquei a Salazar as fontes do pacto de não-agressão e assinalei que ele influiu na tranquilização da atmosfera, por exemplo, na questão do chamado “corredor”, que era constantemente apresentado como o principal perigo de conflito armado na Europa. Eu sublinhei que o nosso acordo com a Alemanha não prejudica em nada a nossa união militar com França. Da parte da nossa conversa dedicada à Alemanha, era evidente que Salazar, até ao presente, estava unilateralmente informado pelos alemães no sentido de que o “corridor”dividide o Estado alemão em duas partes que não têm possibilidade de manter livremente ligações uma com a outra. Ele nada sabia sobre as facilidades aduaneiras e sobre as convenções que praticamente dão aos alemãos possibilidades ilimitadas de comunicação, não excluindo o transporte de tropas.
Depois passámos ao tema de França. Segundo Salazar, a França irá pagar caro pelo seu “flirt” com a União Soviética. Ele afirma que as reformas sociais podem ser realizadas a um preço mais baixo e o pior é que os círculos comunistas não perderam a oportunidade de utilizar o momento para convencer as massas de que elas devem os melhoramentes subjectivos da sua situação (porque, objectivamente, não) não ao governo francês, mas à influência da URSS na França. Salazar constatou que Paris constitui o centro da Comintern, que realiza o seu trabalho na Europa Ocidental, e o foco de epidemia e de acção subversiva, realizada a partir de Paris noutros Estados. Ele sublinhou que a propaganda comunista toma dimensões cada mais ameaçadoras nas colónias, particularmente na África do Norte. Aí, é verdade, é difícil distinguir a actividade provocadora dos órgãos de segurança e da administração, mas a situação, além disso, é bastante séria, visto que uma manobra policialmuito bem pensada dá, por vezes, resultados inesperados. Os franceses esperam que as suas massas sejam pouco permeáveis à propaganda comunista, porque são fundamentalmente constituídas por pequenos proprietários. O primeiro-ministro exprimiu a opinião de que essa convicção pode ser falsa, quando os instintos se tornam desenfreados e quando os contrastes dsempenham um papel fundamental. Além disso, ele é da opinião que se em França ocorrerem acontecimentos apenas análogos aos que vemos em Espanha, a Alemanha irá reagir activamente a isso sob a forma de envio de tropas para França, motivando as suas acções com o receio perante o alastramento da epidemia comunista.
Para concluir, Salazar, por iniciativa própria, repetiu-me que ele recorrerá com agrado à ajuda da Polónia, enquanto Estado que pretende à conservação da paz e da ordem em todo o mundo, na luta contra os agentes da Cominyern no território de Portugal.
Ele caracterizou resumidamente a situação política no seu Estado e, vendo uma certa analogia entre a Polónia e Portugal, constatou com um sorriso que, com base na experiência e no estudo, nós, não obstante a distância que nos separa e outras condições locais, chegamos a conclusões e métodos semelhantes de direcção do Estado. Trata-se de que a ditadura em Portugal é caracterizada como a luta contra o comunismo, a exclusão dos partidos políticos como um momento da vida estatal e o desejo de evitar os métodos empregues nos Estados com um regime “total”, onde tudo se submete ao Estado, não excluindo a ética.
Como se pode ver das questões abordadas, a nossa conversa, do ponto de vista político, foi muito interessante e espero que me dê possibilidade de realizar posteriormente com Salazar conversas de trabalho”.
Fim

9 comentários:

antónio m p disse...

E quem quizer saber o autor do texto, que vá à procura do texto 1, não é, seu maroto?!

MSantos disse...

Está-me cá a parcer um 2º livro na forja ou posso estar enganado, hein José Milhazes?

;)

Cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Caro António, o texto 1 está muito perto do 2, não dá muito trabalho...

Jose Milhazes disse...

Caro MSantos, não posso publicar livros todos os dias, mas vai-se juntando material. Apenas falta tempo e às vezes inspiração

Anónimo disse...

Salazar tudo o que fez foi “A Bem da Nação”.
Será isso que quer dizer

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo, você deve ter entendido mal o que leu. Trata-se de um documento histórico e eu não quero dizer nada, apenas quis que os meus leitores soubesse da existência desse documento. Ou acha que sou salazarista por publicar um documento sobre Salazar?

Anónimo disse...

Não foi esse o sentido da afirmação. Fazer conexões ou atribuir simpatias!
É pôr em duvida com que interesse publicar um facto, que a historia já desmentiu. Está provado que as motivações de Salazar foram outras e a sua actuação foi num sentido diferente daquilo que esse Sr. Dubic-Penter afirmou.
Se os mais velhos conhecem em parte essa realidade, as gerações mais novas, muitos ignoram-no. Por essa razão é preciso ter cuidado ao desenterrar uma falácia que há muito devia estar reduzida a cinzas.
Salazar não perseguiu este ou aquele agrupamento politico e social em particular. Persegui-os todos. Agiu com a mesma brutalidade em toda parte que estava sobre o seu domínio.
Portanto desculpe; tentar reduzir o Salazarismo ao combate preventivo de uma determinada ideologia ou força politica , é subtrair da historia o seu principio mais elementar, que é a divulgação da verdade.
Carlos TR
Obrigado
Cumprimentos

Jose Milhazes disse...

Carlo leitor Carlos, estou de acordo com a sua nota, mas gostaria de sublinhar que, naquela altura, Salazar via na Comintern o principal perigo, pois é preciso ter em conta que Portugal vizinha com Espanha, onde ocorria uma guerra civil.
Mas, em geral, claro que Salazar desconfiava de tudo e todos, como +e próprio de qualquer ditador.

Maquiavel disse...

A Constituiçäo de 1933 definia-se anti-democrática e corporativista.
Tudo o resto é branqueamento da História.
Aliás, a Amnistia Internacional nasceu porque dois turistas em Lisboa viram o tratamento dado a um "criminoso de pensamento" pelos esbirros da PIDE-DGS.
Se o regime fascista português foi mais brando que os outros é porque os portugueses säo SEMPRE brandos em tudo...