terça-feira, agosto 17, 2010

Metade do PIB vai parar às mãos de funcionários públicos corruptos

Metade do Produto Interno Bruto da Rússia vai parar às mãos dos funcionários corruptos, afirma a organização não governamental Associação de Advogados pelos Direitos Humanos num relatório hoje publicado.
Esta organização, citando dados do Departamento da Segurança Económica do Ministério do Interior da Rússia, escreve que o “suborno médio” na Rússia, na primeira metade de 2010, constituiu 44 mil rublos (cerca de 1 500 euros), o que é o dobro do registado no ano passado.
A compra de um cargo na polícia de trânsito pode custar 40 000 euros e uma decisão favorável da justiça favorável 26 mil, lê-se no relatório realizado entre 02 de Julho de 2009 e 30 de Julho de 2010 com base em 6 589 queixas.
“Segundo os nossos cálculos, cerca de 50 por cento da economia da Rússia está sob o domínio da corrupção, ou seja, ela constitui cerca de metade do PIB. Os nossos dados coincidem com os do Banco Mundial, que calcula que 48 por cento do PIB da Rússia está sob o domínio da corrupção”, considera a ONG.
“A fusão do mundo do crime e das forças da ordem tem um caráter universal”, constata-se no relatório.
Na Rússia, onde o salário médio mensal é inferior a 600 euros, o cargo de assistente de procurador distrital custa 10 mil dólares (7 800 euros) e um  posto na polícia de trânsito pelo menos 50 mil dólares (40 mil euros).
A ONG sublinha que “as profissões mais prestigiosas são aquelas onde a corrupção é estável”.
Os responsáveis dos departamentos da polícia encarregados de lutar contra o crime organizado e que asseguram a proteção a negócios criminosos ganham até 20 mil dólares por mês e os procuradores 10 mil pelos mesmos serviços, informa a mesma fonte.

14 comentários:

Anónimo disse...

Privatizem tudo e acabem com os funcionários públicos

Cristina disse...

A Rússia, aliás, como Portugal, não pode viver sem Estado. Foram demasiados séculos a cultivá-lo.
Isso obrigaria as pessoas a trabalhar verdadeiramente e não a "fazer de conta". É muito mais confortável ter ordenado certo ao fim do mês e depender do Estado do que viver só em função da qualidade do trabalho efectuado numa empresa privada.
Enfim, mais um exemplo da permanente ilusão socialista de que o Estado é melhor a resolver tudo, uma ilusão que nos tem saído muito cara.
Já agora, aos que podem obstar que os privados na Rússia também não são melhores e também fazem asneira, recorde-se que uma mentalidade educada durante séculos para roubar o Estado não consegue de um dia para o outro tornar-se civilizada. Para além disso, com o constante vaivém russo de "privatizações- nacionalizações-reprivatizações" conforme mudam os presidentes, não há desejo civilizacional que resista.
A Rússia vai continuar numa encruzilhada nos próximos anos. Com Putin à frente do país, o desejo de fortalecer o Estado e de ter um poder forte, de forma a garantir a unidade do país (caso contrário, as repúblicas desatariam a "fugir") entra em flagrante contradição com o desígnio de modernização. É verdade que existem na Ásia países autoritários com forte crescimento económico, mas não creio que na Rússia tal venha a acontecer. A população é demasiado passiva do ponto de vista económico, com poucas tradições de empreendedorismo e com outras "tradições" adversas.
Por isso, o dilema é: ou autoritarismo, fraco crescimento e manutenção da Federação ou
democratização, crescimento e dissolução da Federação.
Acho que a população não quer e não está preparada para a segunda hipótese. Por isso, nas próximas décadas, vamos continuar a viver com a primeira.
Só espero que os meus amigos russos e os "leitores" da Embaixada russa não fiquem muito irritados com tais vaticínios. Não é que eu lhes queira ensinar nada, mas, como se costuma dizer, quem está de fora costuma ver melhor.

MSantos disse...

Cara Cristina

Concordo consigo quando afirma que tanto a Rússia como Portugal, no geral, precisam de se libertar mais do Estado.

Mesmo aqui, há algumas áreas onde o Estado deveria ser reforçado como é o caso das fiscalizações e as acções de regulamentação.

Não concordo de todo com a ideia feita, que agora é moda propagar aos quatro ventos de que o Estado tem forçosamente de ser ineficiente e o sector privado o exemplo suprasumo da eficiência.

Toda a minha vida trabalhei para multinacionais privadas. Posso-lhe garantir que nestas empresas há legiões de parasitas bem espaldados que exactamente por o terem seguro ao fim do mês fazem de conta. Tive um superior hierárquico que afirmava que numa multinacional, o esforço vinha de cerca de menos de 40% dos empregados, dos restantes 60% talvez 30% pudessem ser úteis se instigados a isso, os restantes não estavam lá a fazer nada.

Fui uma vez a uma entrevista de emprego para um grupo cujo dono é daquelas vozes públicas agressivas contra os "calões" do sector público. Nessa entrevista, fui informado que havia muita gente da família do dito senhor que lá trabalhava e que o seu desempenho era, como direi..."excêntrico".

Isso do sector privado ser o exemplo da eficiência aliados a pretensos socialismos que não existem mais é um mito, uma escalabrosa mentira que só por ser repetida diariamente minuto a minuto até à exaustão não deixa de ser mentira. Mais, é uma ofensa a todos que dependentes do seu trabalho e seu mérito próprio, sem Tios Cunhas, sem "amigos", ou correlegionários de corporação ou família dependem disso para sobreviver e têm de se sujeitar a muitos desaforos e injustiças. É comer e calar.

O estado também tem muita gente competente e trabalhadora e dedicada.

O problema das empresas do Estado é tão só a sua politização ou seja, dever-se-ia retirar cargos políticos das empresas.

Qualquer país que se empenhe em zelar pelos seus interesses e dos seus cidadãos tem de conservar o nicho estratégico mínimo de serviços e infraestruturas.

Sobre o dilema russo que muito bem refere também já o afirmei no passado.

A Rússia é um país que almeja a economia de mercado mas sem qualquer cultura empreendedora, aspira a liberdade mas com o imenso pesadelo da desintegração, o que lhe estreita em muito os horizontes.

Cumpts
Manuel Santos

Pippo disse...

Mais uma vez, MSantos, tira-me as palavras da boca.

Resta-me acrescentar que a indeficiência do sector público deve-se na maior parte das vezes à desorganização dos serviços, à falta de um rumo, às directrizes contraditórias e às leis a que o sector público impreterivelmente se submete que, na maior parte das vezes, lhe minam a actuação. Veja-se, por exemplo, nas Finanças, onde uma dívida de uma empresa proveniente de uma coima não pode ser revertida contra os responsáveis subsidiários por causa de um Acórdão do TCA considerar que coimas não são revertíveis.
Em compensação, um singular tem de as pagar!

Já agora, JM, importa-se de clarificar a frase "A ONG sublinha que “as profissões mais prestigiosas são aquelas onde a corrupção é estável”."?

António disse...

Caríssimos,

Não sei de onde veio a ideia que a Rússia tem uma fraca cultura de empreendedorismo. Existe gente para dar e vender a fazer negócios e com vontade de os criar. Aliás, se olharmos para os Estados Unidos, o exemplo perfeito de uma economia empurrada pelas pequenas e médias empresas, o número de empresários constitui uma minoria da população activa. Talvez um décimo, ou menos. E são suficientes para criar a riqueza que permite ao país ser a maior potência económica mundial.
Se nos lembrarmos dos primórdios da experiência de mercado nos anos 90 na Rússia, após a liberalização dos preços, o empreendedorismo apareceu espontaneamente por todos os lados. Onde há oportunidades, nunca haverá falta de gente com vontade de arriscar um negócio, seja na Rússia, nos Estados Unidos ou em Portugal.

O grande cancro do empreendedorismo na Rússia não são as pessoas em geral. É o estado. E rigorosamente mais nada. Para que a economia floresça, mais ainda do que o desejável estabelecimento de uma sociedade aberta, é imprescindível criar condições para que os empresários se sintam confiantes em arriscar investindo. E voltamos à velha história de um sistema judicial funcional, de um nível pelo menos tolerável de corrupção e do respeito pelos direitos de propriedade e uma legislação expedita, justa e que não permita que os burocratas se aproveitem dela para se encherem.

Nada disto existe na Rússia, porque o estado e os seus parasitas são os principais beneficiários deste estado das coisas, não estando de todos interessados em mudá-lo.

Só quando a Rússia tiver um governo que esteja verdadeiramente interessado em desenvolver o país é que haverá alguma hipótese de mudança. Apesar das conversas de chacha sobre modernização, o que lá está agora anda obviamente preocupado com outras coisas.

António Campos

António disse...

...e outra coisa: mesmo na absurda situação de não existirem empreendedores na Rússia, há gente em todos os cantos do mundo que, se se sentisse confiante de que o seu investimento seria protegido, tal como em qualquer outro país civilizado (a Polónia é mais uma vez um excelente exemplo da criação de um clima favorável ao investimento), investiria de bom grado no colossal mercado que é a Rússia. Até eu.

Em vez disso, dado o clima vigente, os investidores estrangeiros fogem da Rússia a sete pés.

A proósito, recomendo a leitura de um livro que acabou de sair e que já tem tradução em russo. Chama-se "Despite Absurdity: How I conquered Russia While It Conquered Me" e foi escrito por Lennart Dahlgren, um executivo da IKEA. Retrata, como é óbvio, as aventuras surreais da multinacional sueca na sua luta contra os burocratas russos.

Não encontro melhor acompanhamento para este post.

António Campos

António disse...

A cadeia de televisão NTV acaba de reportar que a Anna Shavenkova, filha da presidente do comité eleitoral local e funcionária do partido Rússia Unida, que ganhou notoriedade na internet pelo seu comportamento após ter atropelado com o seu carro duas pessoas (uma mortalmente), em Irkutsk alguns meses atrás, foi julgada e libertada após o pagamento de uma quantia de valor pouco significativo.

ну что сказать?

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, as profissões que têm mais prestígio, que gozam de maior procura, são aquelas que dão acesso estável à corrupção.

Maquiavel disse...

Concordo com o "privatizem tudo e acabem com os funcionários públicos", que é o único modo dos ingénuos deixaram de acreditar nessa mentira que, embora repetida biliöes de vezes näo deixa de ser mentira. Com a agravante que finalmente se apercebem que nos privado também há corrupçäo (oh se há!) mas que esses ingénuos já näo têm guito para pagar os preços inflacionados do sector privado.

Com efeito, a eficiência e o combate à corrupçäo parte SEMPRE, mas SEMPRE, do sector público. O privado faz por arrasto, faz um catuchinho mais eficiente, mas nunca tenta chegar por moto próprio ao supra-sumo da eficiência.
Veja-se o caso do Norte da Europa, onde o sector público é "um milhäo de vezes" mais eficiente que qualquer empresa privada do Sul da Europa. E é só por isso que o sector privado nórdico tenta fazer melhor, ou entäo näo vende.

E porque é que o sector público nórdico é eficiente? Porque os governos fazem questäo de balançar o défice, tentando até ter superavites, porque näo têm petróleo para vender. Näo se cortam serviços, mas fazem-nos eficientes para poupar recursos.
Näo é bem visto roubar ao Estado, porque a *consciência cívica* deles entende que isso é roubar A TODOS.

Interessante como só desde há 5 anos (já antes da "crise"), e com governos assumidos *de direita*, é que suecos e finlandeses começaram a ouvir falar em défice orçamental!

A Rússia continua no mesmo esquema de corrupçäo que vem de há pelo menos 500 anos, porque os maiores corruptos suportam os seus governos, logo näo säo perseguidos. Como em Portugal, diga-se.
A diferença é que a Rússia tem hidrocarbunetos, cuja venda vai disfarçando a tensäo social... enquanto durar!

MSantos disse...

Pippo

É por conta das vezes que me faz o mesmo!

:o)

Abraço
Manuel Santos

MSantos disse...

Maquiavel

Como muito bem afirmou, os nórdicos são o bom exemplo em como o Estado pode funcionar de uma forma eficaz.

No caso da Noruega, têm petrólio e gaz.
Salvo erro estão a desenvolver um consórcio com a Rússia para explorar gaz natural no imenso campo de Shtokman, no Mar de Barents.


Os nórdicos, como referiu, mantêm princípios e ideais de cidadania que os impedem de se sentirem bem consigo próprios quando são negados direitos e oportunidades a camadas de população porque entendem que por cada cidadão marginalizado é um potencial perdido, algo que nunca há-de entrar em determinadas cabecinhas.

E nem digo mais nada.

Cumpts
Manuel Santo

MSantos disse...

Um bocadinho "off the topic" mas talvez não tanto, mais um excelente artigo de João Carlos Barradas sobre a recente ultrapassagem do PIB chinês relativo ao japonês, a desmontar o modelo do império do meio tão defendido pelas correntes em voga.

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=439679

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

Corrupção é uma cultura e tradição na Rússia. Os russos entendem que o capitalismo seja isto mesmo!

Rússia disse...

Nós anos 90 a Rússia sofreu um grande processo de "abrasileiramento" e agora levará decádas para reverter o processo!