terça-feira, setembro 28, 2010

Demissão de Presidente da Câmara de Moscovo abre nova página na luta política no país

Лужков отправлен в отставку

Depois do conflito aberto entre o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, e o dirigente da Câmara de Moscovo, Iúri Lujkov, bem como da guerra informativa lançada pelo Kremlin contra o último, poucos eram os que acreditavam que Lujkov se mantivesse à frente de Moscovo, não só capital do país, mas também o membro da Federação da Rússia mais rico.

O conflito entre Medvedev e Lujkov vinha de longe, mas agravou-se no passado mês de Agosto, a pretexto do presidente da Câmara de Moscovo não ter suspendido as férias numa altura em que a capital se via sufocada por uma densa nuvem de fumo. Tratava-se de um sinal claro de que tinha acabado o reinado, quase total e absoluto, de 18 anos de Lujkov em Moscovo, mas este recusou-se a abandonar o cargo voluntariamente, esperando, talvez, que alguém viesse em sua ajuda: o primeiro-ministro Vladimir Putin ou o Partido Rússia Unida, de que era um dos dirigentes.

Seguiu-se uma violenta campanha na imprensa contra Lujkov, e principalmente contra a sua esposa, Elena Baturina, uma das mulheres mais ricas do mundo e que controla negócios importantes em Moscovo. Apenas o canal televisivo TVTs, controlado por Lujkov, tentou vir em sua defesa, mas foi rapidamente silenciado.

O Kremlin voltou-lhe a dar mais uma possibilidade de sair a bem ao conceder-lhe uma semana de férias “para refletir” e suspender, durante esse período, a “guerra informativa”, mas Lujkov ainda ontem reafirmou que não se tencionava demitir.

Medvedev, se deixasse arrastar o caso por mais tempo, correria o risco de perder a popularidade e passar por “dirigente fraco”, qualidade fatal para quem se pretender recandidatar à Presidência da Rússia nas eleições de 2012.

Não obstante a maioria dos observadores políticos considerar que este confronto foi apenas um dos primeiros entre Dmitri Medvedev e Vladimir Putin na luta pelo poder supremo no país, Natália Timakova, porta-voz do Kremlin veio revelar que “o Presidente comunicou ao primeiro-ministro a decisão da demissão de Iúri Lujkov antes de assinar o respetivo decreto”.

Nenhum partido saiu em sua defesa, nem mesmo aquele de quem era um dos dirigentes máximos: Rússia Unida, que atirou as culpas para cima de Lujkov por ter “perdido a confiança do Presidente”. O ex-dirigente de Moscovo respondeu ao seu partido com uma dura carta de demissão.

Agora, as atenções viram-se tanto para o futuro político de Lujkov, como para o seu possível sucessor.

“Se não forem iniciados processos-crime contra Lujkov por corrupção, Medvedev, no futuro, terá um forte adversário político nas presidenciais de 2012”, considera Boris Nemtsov, dirigente da “Coligação Democrática”, organização que reúne as forças liberais extra-parlamentares.

Quanto ao seu futuro sucessor, a lista de candidatos avançada pela imprensa é longa, mas a nomeação dele será um barómetro das relações existentes entre Medvedev e Putin.

Além disso, espera-se que seja um político experiente, porque, caso contrário, a redistribuição da propriedade em Moscovo, nomeadamente a pertencente a Elena Baturina, poderá fazer voltar a capital russa aos anos 90 do séc. XX, quando as armas de fogo eram o principal instrumento na solução dos problemas.

“A mistura dos negócios familiares e do poder em Moscovo atingiu envergaduras inéditas. A situação vai mudar: a nova equipa irá arrancar à corte de Lukov Moscovo bocado a bocado. E claro que ela vai resistir”, considera Ilia Iiachin, dirigente da organização Solidariedade.

16 comentários:

Anónimo disse...

História muito mal contada. Se o Mayor se manteve no poder é porque era homem de Putin. Se o era, porque se daria mal com ele Medvedev? Porquê? Diga lá JM porque se começaram a desentender e quando.Porque essa das férias não dá direito a tal expediente.A coisa não fica por aqui, de certeza.

Maquiavel disse...

Para quem tanto falou que o Pudim e o Ursinho eram iguais...

... nada como criar competiçäo interna dentro do Rússia (pouco) Unida, para näo deixar mais ninguém ser opçäo!

Já era maisoumenos assim na URSS e no império Russo, näo era?

Anónimo disse...

Cheira-me que o velho sabe o que não deve daqueles dois. Que fale, antes que tenha algum acidente.

Jest nas Wielu disse...

Não contava com tanta facilidade com que Dimon conseguiu derrubar Luzhkov. Agora não sei o que disso pensa Vovan, mas pelos vistos em 2012 haverá sangue.

Anónimo disse...

Dimon é o ursinho a comer o pudim
hahaha

António disse...

É espantoso como tanta gente continua a achar que a demissão de Luzhkov é um sinal de uma competição entre Putin e Medvedev, em vez de mais uma manobra no interessante "teatro" político russo. Faz muito mais sentido que esta artimanha tenha sido um sinal de aviso às máfias moscovitas, controladas pelo antigo presidente da câmara e que andavam a demonstrar alguma rebeldia, de que não se pisam os calos ao Kremlin impunemente.

Aliás, Vladimir Resin, o sucessor nomeado que sensatamente não mexeu uma palha em defesa do seu antigo padrinho, é, segundo os meios empresariais moscovitas, um dos políticos mais corruptos da constelação de Luzhkov, pelo que dificilmente esta "medida" terá algum impacto no estado das coisas em Moscovo.

Putin decidiu que Luzkhov deveria sair e mandou Medvedev fazer o trabalho sujo por ele. Com esta manobra, derrubou um poderoso rival potencial e saiu com as mãos limpas do que começava a ser uma escaramuça com contornos desagradáveis.

Tiremos o cavalinho da chuva. Não há luta política nenhuma no país e Medvedev, ao contrário do que muitos desejam ver nas suas acções, continua a não manifestar qualquer réstia de independência. Medvedev e Putin actuaram mais uma vez em tandem e enfiaram o barrete a toda a gente.

É interessante notar que quando Putin (nada menos do que o autor da lei que permite ao presidente demitir os presidentes da câmara com uma simples assinatura) rompeu o seu prudente silêncio, afirmou que "era perfeitamente óbvio que a relação entre o presidente da câmara e o presidente não estava a funcionar", e que "foram dados os passos adequados para normalizar a situação". Pronto.

Adoro estas palhaçadas.

António Campos

Jest nas Wielu disse...

2 António

Por um lado, António tem toda a razão, parcialmente estes tipos de jogos são jogos do tipo “apanha o ladrão”, mas por outro lado isso é Rússia, onde “skazka” ao qualquer momento poderá se transformar em “realidade”, ou seja Dimon poderá numa boa enfrentar o Vovan. Basta lembrar a história, quem em 1929 era Stalin e que Trotski, e onde eles estiveram apenas 10 anos depois.

off top
ecoturismo ucraniano em português:
http://green-ukraine.com

Anónimo disse...

Dimon e Vovan, que mariquice de nomes. Só falta o Bibi...

Gilberto Mucio disse...

António está correto quanto a essa contenda.

Jose Milhazes disse...

Caro António, as coisas são mais complicadas, até porque é impossível manter a Rússia na estagnação em que se encontra. Ou dá o salto tecnológico, ou aguenta mais uns anos à custa de gás e petróleo, mas sem grande futuro entre os países desenvolvidos. Espero para ver.
Uma coisa é certa, a demissão de Lujkov é um factor positivo.

Anónimo disse...

Ora aí está a razão para a demissão:
http://rt.com/Top_News/2010-10-01/russian-gay-community-rally.html

Olhe Milhazes que a Eva com a maçã num blog sobre a Rússia (ver publicidade à direita do leitor) é capaz de não ser muito ilustrativo da realidade cor-de-rosa do país. É melhor pôr o Caim, que matou Abel porque este não gostava dessa cor, se é que nos entendemos...
hahahaha

António disse...

Caro José, a questão da modernização e do desenvolvimento é tão actual agora como o era há dez anos. E o que foi feito desde então? Muito pouco. O problema é que o regime sabe que a sua sobrevivência política é incompatível com o desenvolvimento do país, uma vez que este está dependente da instauração de uma sociedade aberta. "Modernização à força" tem muito poucas probabilidades de resultar, como sabemos.

O problema é que Putin e desenvolvimento são antónimos. O desconto bolsista da Rússia (nada menos do que o maior produtor mundial de hidrocarbonetos) relativamente ao Brasil é de 45%, o que revela claramente as limitações do país relativamente às suas perspectivas de desenvolvimento. De 1999 a 2004 houve efectivamente algum esforço de modernização, quando uma boa parte das grandes empresas eram privadas, registaram-se de facto ganhos de produtividade. Depois do assalto à Yukos tudo retrocedeu. As grandes empresas foram parar às mãos do estado e ficaram atoladas em estagnação e mais corrupção. O poder económico de que Putin se apropriou, para satisfazer as suas ambições internas e externas, é a verdadeira causa do estado actual das coisas. É então fácil perceber que ou temos Putin ou temos desenvolvimento. As duas coisas não dá.

E a verdade é que vamos ter Putin durante muito mais tempo. O primeiro-ministro usa habilmente a táctica de "dividir para reinar", da qual a criação da "facção modernizadora" dentro do Kremlin é um brilhante exemplo. E o caso Luzkhov serviu de forma perfeita para mostrar aos clãs "concorrentes" quem é o patrão. Putin foi o grande vencedor desta contenda. Na minha opinião, se Medvedev tinha algumas ambições de ser "reeleito" para a presidência, o escândalo de Moscovo acabou definitivamente com elas. Caladinho na sombra, Putin deixou Luzhkov humilhar publicamente Mdevedev e depois fê-lo fazer o trabalho sujo de (e público) de retaliar, saindo da escaramuça incólume e mais forte e poderoso do que nunca.

Tal como diz Michael Bohm no seu mais recente editorial no Moscow Times, "os grandes vencedores do despedimento de Luzkhov são Putin e a sua vertical do poder. É agora altamente improvável que os líderes regionais ou outros nomeados arrisquem criticar ou fazer frente a Putin ou a Medvedev. A "operação Luzkhov" terá o mesmo efeito assustador nos políticos do que a "operação Khodorkovsky" teve nos oligarcas".

O que veremos agora é a provável nomeação de um qualquer burocrata próximo de Putin para a presidência da câmara. O resto será business as usual.

Jest, Estaline e Trotsky foram sempre inimigos "equivalentes" na luta da sucessão política e após a morte de Lenine o poder estava lá para quem fosse mais esperto para o apanhar. Medvedev é uma criação de Putin e muito dificilmente aquele terá vontade ou apoio no Kremlin (e muito menos nas bases) para se virar com sucesso contra o seu mentor. Mesmo que tal lhe tenha passado pela cabeça.

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro António, exactamente porque Putin e modernização são incompatíveis é que se pode esperar mexidas nas altas estruturas do poder no país. Além disso, muitas das pessoas que enriqueceram nos anos 90 e 2000 estão fartas da insegurança, de receio de verem os seus bens serem expropriados, querem estabilidade não baseada no medo.
Trata-se de uma camada importante da sociedade russa que pretende ter voz. Calcula-se que na Rússia, presentemente, haja cerca de um milhões de milionários e não duvido que eles queiram viver nas calmas, ao contrário do que acontece até agora, em que vivem como se estivessem a viver o último dia da vida.
Quanto à vertical do poder, ela funciona para afastar dirigentes regionais importantes, como Lujkov em Moscovo ou Rakhimov na Bashquíria, mas não consegue arrancar o país do pântano.
Por conseguinte, há aqui lugar para o aparecimento de novas forças políticas sérias.
Na luta pela demissão de Lujkov, o prestígio de Medvedev foi posto em causa, mas penso ainda ser cedo para o transformar num total joguete nas mãos de Putin. Como sabe, caro António, a política russa é muito bizantina. Passa-se muito rapidamente de herói a vilão.
Lujkov parecia imbatível, e até parece que se convenceu disso, toda a gente em Moscovo lhe dizia amén, e hoje está isolado, sozinho.

António disse...

Caro José, com a obsessão putinista pelo poder, tal pressuporia um golpe de estado. E existe alguém neste momento com poder suficiente para tentar uma aventura dessas e ter hipóteses de sucesso?

E não nos esqueçamos das bases. Devido ao controlo dos meios de comunicação, Putin continua a ser visto como o "salvador da pátria" e o garante da estabilidade. Ao longo deste tempo todo, o primeiro-ministro tem saído incólume de todos os desastres que pautaram o seu reinado. O Kursk, Nord-Ost, Beslan, o descontrolo no Cáucaso, a barragem, os incêndios, a queda drástica do PIB e muitos outros não pareceram fazer-lhe mossa nenhuma. Muito pelo contrário. Putin anda a apagar fogos aos comandos de um avião, a atravessar o país num ovo amarelinho com beldades jornalísticas ao seu lado a dar risadinhas das suas piadas, a humilhar oligarcas frente às câmaras e a distribuir pão e circo ao povo.

Nada me deixaria mais satisfeito que houvesse mesmo lugar ao aparecimento de novas forças políticas sérias. Mas o que temos visto é que novas forças políticas aparecem somente quando Putin quer.
E quem neste momento tem músculo para confrontar um primeiro-ministro que está mais poderoso que nunca? Luzhkov é de facto um exemplo de que NINGUÉM se pode atrever a mostrar os dentes sem sofrer as consequências. Luzkhov é para mim a prova de que o monstro está de pedra e cal.

Caro José, nada me daria mais prazer em ver nestes acontecimentos um sinal de uma luta política com potencial para mudar a situação na Rússia para melhor, demonstrando que estou errado. Mas não estou a ver isso sem um tumulto palaciano bizantino (já que ir para a rua gritar não serve de muito), o que a meu ver tem muito poucas hipóteses de acontecer neste momento.

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro António, pela experiência histórica, acho que na Rússia não há tradições, nem condições para golpes de Estado. As forças armadas não estão suficientemente politizadas para desempenhar esse papel e, além disso, as dimensões do país são tais que o golpe apenas levaria à sua fragmentação.
Não existindo um sistema democrático, com eleições transparentes, restam os golpes palacianos ou constitucionais.
Quer um exemplo de um possível golpe palaciano sem a violação da Constituição? Amanhã, Dmitri Medvedev assina um decreto que demite Vladimir Putin e o seu governo. Do ponto de vista legal, Putin deixará de ter qualquer alavanca de poder.
Quanto ao apelo ao levantamento contra a decisão do Presidente, veja o que aconteceu ao tão "popular" Lujkov.
Volto a repetir em outros termos, na Rússia passa-se rapidamente de filho da mãe a filho da outra...
E mais um exemplo da história, caro António, o comunismo parecia para muitos eterno e, para outros, um regime com uma vida mais longa. Sobreviveu na URSS apenas 74 anos.

Anónimo disse...

Lukhashenko resolveu dizer que sabe qual o motivo da demissão de Luzhkov e que ele se dava muito bem com Medvedev.
Interessante!
Acrescentou ainda uma boa lista de insinuações no respeitante à sua relação com Medvedev, que era também muito próxima e agora azedou.
Interessante!
É tão grave isto que Medvedev acabou de colocar no seu blog pessoal uma declaração de guerra a Lukhashenko, intitulando-o de inimigo numero 1 da Russia.Deixou de ser o Shakaashivili, pelos vistos.
Interessante!
Tanto Luzhkov quanto Lukhashenko sabem de Medvedev o que ele não quer que se saiba. Não duvido que o dirão na altura certa.Putin ri-se pela calada, de certeza.
Interessantissimo!
Que comentário faz a isto, JM?