segunda-feira, dezembro 27, 2010

Blog do leitor (Vou ou fico?)

Texto traduzido e enviado pela leitora Cristina Mestre:

 
"Coluna semanal de Svetlana Kolchik* (RIA Novosti)

“Já é hora de fazer as malas”. Esta é a ideia que ouço de muitos amigos após os recentes distúrbios em Moscovo.

“Está na hora de mudar de país”, dizia um amigo jornalista na sua página no Facebook. A sua mensagem não insinuava mudanças na Rússia mas sim que o melhor era procurar outro país para viver. Começou um debate virtual e muitos participantes concordaram com ele. Quando a situação na Rússia se torna mais dura e sobretudo imprevisível, inevitavelmente surge a questão de fazer as malas e ir embora.

Talvez valha a pena pelo menos pensar nisso?

Para dizer a verdade, ao longo de muitos anos fiz a mim própria esta pergunta. Desde que me recordo de mim mesma, os meus pais e, especialmente, a minha mãe, artista dissidente nascida no Gulag, incitavam-me a “fazer os possíveis por abandonar este país sem futuro”.

A dada altura vi-me a viver no outro lado do Atlântico, americanizando-me rapidamente e planeando transformar a América na minha nova pátria. Mas as circunstâncias, a minha vida pessoal, as minhas opções profissionais e essa força misteriosa chamada destino, levaram-me a regressar por casualidade. Foi há uns oito anos e, ao longo de todo este período, perguntei-me muitas vezes se teria feito bem em não abandonar a Rússia, especialmente tendo tantas oportunidades para o fazer.

Estou agora precisamente a fazer as malas, não para ir embora de vez mas sim para voltar, após uma viagem de negócios e umas férias de uma semana. Ainda que sempre me tenha sentido afortunada por poder viajar regularmente, antes gostava de deixar Moscovo (era uma pausa para descansar do metro apinhado nas horas de ponta, dos engarrafamentos, dos rostos depressivos dos meus compatriotas) mas ultimamente volto ao meu país com muito mais gosto.

Talvez isso signifique que me sinto mais velha e mais consciente das raízes e das prioridades ou então é esta milagrosa sensação inspiradora de ser cidadã do mundo, que surge quando viajamos frequentemente.

Mas nem todos sentem o mesmo. “Já me teria ido embora se soubesse que encontrava um bom trabalho no estrangeiro”, confessou-me uma amiga, editora-chefe de uma famosa revista feminina e mãe de um menino de dois anos. Depois perguntou-me se eu podia contar com algo no caso de abandonar a Rússia. Com uma voz desesperadamente áspera e alarmada, disse que “as coisas não melhoram na Rússia, até pioram, aproximamo-nos de uma guerra civil”.

“Não quero envelhecer neste país, já que conheço a situação por dentro e isso não me inspira optimismo”, disse-me outra jovem, que trabalha como consultora do Banco Mundial para a reforma governamental da Rússia.

“Está tudo bem se ganhas bom dinheiro e tens bons amigos, assim durante certo tempo esqueces-te que vives aqui. Mas este país recorda-te constantemente que as coisas estão a ir por um caminho infeliz”, disse outra amiga, que está bem na vida, é produtora de televisão e teve a oportunidade de obter um passaporte norte-americano. Acrescentou que, para ela, já está fora de questão criar os filhos na Rússia e que, juntamente com o marido, tenciona mudar-se para os EUA nos finais do próximo ano.

Chamem-me superficial, desinformada ou irresponsável mas, ainda que às vezes o que se passa na Rússia me envergonhe, não me sinto pessimista. Simplesmente não me quero sentir. Na realidade, sinto-me ligada ao meu país através de uma rara relação de amor e ódio. Tal como em qualquer relação de dependência, sou um pouco viciada nas coisas que me deixam louca aqui.

Sinto a adrenalina de não saber o que irá acontecer no futuro próximo e o repousante sentimento de que tens que tirar partido da vida hoje, porque amanhã poderás já não ter essa oportunidade; a satisfação infinita que te dá o facto de solucionar problemas, ainda que tão ridículos como encontrar um desvio para evitar um engarrafamento e chegar ao trabalho a tempo; o clima desafiante que te faz apreciar o dia quando ocasionalmente faz bom tempo.

Os sinais esporádicos de “normalidade”, as coisas que preenchem o teu dia na Rússia: o vizinho que te cumprimenta ou te sorri inesperadamente no elevador, um desconhecido que te estende a mão quando cais no passeio, o rapaz ao volante que te cede a passagem, a nova padaria acolhedora ao estilo parisiense com uma boa selecção de baguettes frescas e um bom café a preço moderado….

Após viver em vários países e ver os seus problemas (a erva parece sempre mais verde do outro lado da estrada, no sítio onde não viveste e aquele aonde nunca foste), comecei a tratar o meu país como um familiar com os seus defeitos, que de certa forma toleras e até aprendes a gostar apesar de tudo.

Contra a perspectiva deprimente, gostaria de acreditar que o destino da Rússia não é um livro fechado. Que o bem-estar do país, pelo menos no mínimo, depende da nossa esperança, da nossa decisão de ficar e da nossa capacidade de dedicação.



* Jornalista russa, directora adjunta da revista Marie Claire. Formou-se na Universidade Estatal de Moscovo (faculdade de jornalismo) e na Universidade de Columbia (Escola de Estudos Avançados em Jornalismo) colaborou com o jornal Argumenti i Fakti, USA Today em Washington, com o RussiaProfile.org, edições russas da Vogue, Forbes e outras".



13 comentários:

Anónimo disse...

Interessante isso. Conheço 4 cidadãos russos que estão de malas prontas pra se mudarem para minha cidade. Gente preparada, culta e de grande valia para o Brasil. Espero que venham milhares. Nós os receberemos de braços abertos.

Francisco Lucrecio disse...

Esta gentalha está a mais na Rússia.

Assim como aqueles que mamaram na teta da URSS, para tirarem cursos superiores.

E hoje são uns anti-comunistas de alto gabarito.

Cristina disse...

Esta gentalha está a mais? Então que fazer com ela? Deportá-la para a Sibéria, para o Ocidente ou simplesmente prendê-la? Parece que o Francisco Lucrécio ainda deverá ter outras opções .... Ora aqui temos um moderno comunista tolerante....

Jose Milhazes disse...

Cara Cristina, não vês o destino que nos está reservado se seres como Francisco Lucrécio chegarem um dia ao poder!?
Deixa-o falar, pois assim outros ficarão a saber o que é que os "comunistas tolerantes" realmente querem.

António disse...

O Lucrecio tem razão: esta gente está a mais na Rússia, simplesmente porque o país não os quer.

A qualidade de uma sociedade pode ser medida pela vontade ou não de emigrar. Se o país passa uma mensagem clara de que não precisa de profissionais qualificados, uma vez que não se preocupa em dar-lhes condições de desenvoverem condignamente uma actividade profissional e usufruirem de uma vida boa para a família, está de facto a dar-lhes um pontapé no rabo dali para fora.

Mas os génios rejeitados desta forma pela Rússia nutrem sentimentos recíprocos pelo país que os abandonou. Quando indagado sobre o que o faria voltar para a o seu país natal para desenvolver a sua actividade científica, o laureado pelo Nobel da física de 2010, Andre Geim, respondeu: "reincarnação".

Antonio Campos

Anónimo disse...

A mais estão os malditos comunas que já deviam ter desaparecido da face da terra.

o russo disse...

Achei este texto muito interessante pois de certa forma é o que eu sinto em relação a Portugal. Quando cá estou falo mal de tudo, pessoas feias, ruas sujas, passeios estreitos, falta de locais interessantes onde ir... Mas quando estou no local onde tenho o que falta em Portugal, só me consigo lembrar das coisas boas do meu país e mais facilmente vejo os pecados mortais de onde estou.

Anónimo disse...

'A mais estão os malditos comunas que já deviam ter desaparecido da face da terra."(2)


Acho que somos tolerantes demais com essa corja.

Acho que, da mesma forma que os nazistas são proibidos de se reerguer com partidos legalizados na maioria dos países, acho que o mesmo deve se dar com o comunismo.


Não tenho nenhuma "tolerância" para com comunistas. São a escória da espécie humana e se agem com violência ou ameaça, devem receber o troco à altura.


Esse Francisco Lucrécio mesmo, esse fracassado... um infleiz que vive atacando a democracia, o ocidente e as BENESSES que desfruta em seu país natal, mas se fosse comunista e homem de verdade, já deveria ter imigrado pra Cuba ou Coreia do Norte.

É vc quem está sobrando, comunista. Não existe mais espaço pra vcs no mundo civilizado. e tenho dito.

Anónimo disse...

"Vou resumir aqui umas verdades óbvias e bem provadas, que uma desprezível convenção politicamente correta proíbe como indecentes.

Todo comunista, sem exceção, é cúmplice de genocídio, é um criminoso, um celerado, tanto mais desprovido de consciência moral quanto mais imbuído da ilusão satânica da sua própria santidade.

Nenhum comunista merece consideração, nenhum comunista é pessoa decente, nenhum comunista é digno de crédito.

São todos, junto com os nazistas e os terroristas islâmicos, a escória da espécie humana. Devemos respeitar seu direito à vida e à liberdade, como respeitamos o dos cães e das lagartixas, mas não devemos lhes conceder nada mais que isso. E seu direito à vida cessa no instante em que atentam contra a vida alheia.


Quem pode esperar um debate político razoável com pessoas de mentalidade tão deformada, tão manifestamente sociopática?

Um comunista honesto, um comunista honrado, um comunista bom, um comunista que por princípio diga a verdade contra o Partido, um comunista que sobreponha aos interesses da sua maldita revolução o direito de seus adversários à vida e à liberdade, um comunista sem ódio insano no coração e ambições megalômanas na cabeça, é uma roda triangular, um elefante com asas, uma pedra que fala, um leão que pia em vez de rugir e só come alface. Não existiu jamais, não existe hoje, não existirá nunca."


OLAVO DE CARVALHO

MSantos disse...

Vejo que entre os campos opostos grassa a "tolerância e o debate de ideias".

Continuem!

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

Concordo com o comentário de "o russo" que suponho ser português.
Sôbre os furiosos comentários contra os "malditos comunistas" lembro só que o comunismo sempre beneficiou do anti-comunismo primário e não o contrário.
É em clima de liberdade e de luta de ideias que tem mais dificuldade em sobreviver.O salazarismo pivou-me do conhecimento do que se passava na Rússia ou na China.
Foi com influência de homens de esquerda que a certa altura da minha vida me aproximei do comunismo, mas também foi por influência de autores de esquerda(alguns tinham sido comunistas)que dele me afastei.Falo de autores mas também de experiências e testemunhos.

Francisco Lucrecio disse...

«««««««António disse...
O Lucrecio tem razão: esta gente está a mais na Rússia, simplesmente porque o país não os quer»»»»»»».

Sabe quantos intelectuais, catedráticos e tecnicos altamente qualificados abandonaram a Rússia depois de 1991?

Forma mais de 100 000 (cem mil entendeu bem?).

É capaz de explicar-me as razões porque isto aconteceu?

Estas pessoas é que fazem imensa falta na Rússia, não são os vendedores de ilusões através das revistas Cor de Rosa como se alude no artigo aqui publicado e publicitado.

Deve habituar-se a dizer a verdade, não lhe vai ficar nada mal.

Ou também considera
que este êxodo maciço das forças dinamizadoras da sociedade Russa é da responsabilidade dos comunistas?

Cristina disse...

Obviamente que é.