quinta-feira, dezembro 27, 2012

Qual é a culpa das crianças?





Como é do conhecimento geral, o Congresso e o Senado dos Estados Unidos aprovaram a chamada “Lista Magnitski”, que acabou por ser homologada pelo Presidente Obama.
Segundo esta lei, Washington recusa a concessão de vistos de entrada nos EUA a funcionários russos que, directa ou indirectamente, estiveram ligados à morte do advogado Serguei Magnitski. Além disso, as autoridades norte-americanas podem congelar contas bancárias desses.
Serguei Magnitski era um advogado russo que trabalhava na Rússia para a empresa de investimentos Hermitage Capital e, a determinada altura, começou a denunciar fraudes nos serviços de cobrança de impostos russos no valor de muitos milhões de euros.
No lugar de as autoridades investigarem o caso, Magnitski foi preso e faleceu misteriosamente numa das prisões de Moscovo. Até hoje ainda não se sabe ao certo se ele morreu de morte natural, faleceu por falta de assistência médica ou foi simplesmente assassinado. Mas, tendo em conta a actuação das autoridades competentes, pode dizer-se que “aqui há gato”.
Vladimir Putin e os deputados russos consideraram a aprovação dessa lista uma ingerência nos assuntos internos da Rússia e decidiram responder de “forma assimétrica”.
Recentemente, o Presidente russo disse que não daria a outra face a quem lhe desse uma chapada, lançando assim o mote para a “assimetria”
O Parlamento da Rússia aprovou uma decisão que proíbe a entrada no país de norte-americanos envolvidos na violação dos direitos humanos em todo o mundo, incluindo aqueles que detiveram, julgaram e condenaram à prisão Victor But, traficante de armas mais conhecido por “senhor da guerra”.
Mas os deputados russos decidiram recorrer às crianças órfãs russas para criar a “assimetria” na resposta. Decidiram proibir a adopção de crianças russas por famílias norte-americanas, alegadamente devido aos maus-tratos a que são algumas sujeitas.
Por isso acharam por bem chamar à sua resposta lei “Dima Iakovlev”, criança adoptada por um casal norte-americano que faleceu por negligência do pai adotivo. Este, por descuido, deixou a criança fechada dentro do automóvel e ela morreu de asfixia.
Alguns ministros como Serguei Lavrov (Negócios Estrangeiros), Olga Golodets (vice-primeira-ministra) e Dmitri Livanov (Educação), bem como numerosas figuras públicas russas apelaram à não aprovação da lei nessa redacção, mas ninguém os ouviu.
Na véspera, quando Vladimir Putin condecorou conhecidas personalidades russas, o actor Konstantin Khabetski foi receber a medalha levando na lapela um crachá onde se lia “As crianças estão fora da política!”.
Talvez nem todos saibam, mas na Rússia há cerca de 700 mil crianças abandonadas, ou seja, quase tantas como na URSS durante a Segunda Guerra Mundial, e o Estado não quer ou não pode criar condições para que essas crianças tenham uma educação normal.
Por isso, a adopção de crianças russas por cidadãos estrangeiros, incluindo americanos, era uma das formas de atenuar o problema.
Além do mais, os casais estrangeiros mostram-se prontas a adoptar crianças deficientes, coisa que é muito raramente feito por casais russos.
Claro que não se pode fechar os olhos aos problemas que algumas crianças russas tiveram nas famílias de adopção, sendo, por vezes, alvo de maus-tratos. Também é preciso combater a corrupção existente nesta área, que pode ameaçar transformar-se em tráfico de seres humanos.
Porém, o número de casos de adopção com êxito é incomparavelmente maior e é por isso que a nova lei do Parlamento Russo é particularmente cruel.
Os deputados dizem fazer isso por estarem preocupados com o destino das crianças russas que são levadas para o estrangeiro, mas esquecem-se das que vivem no país.
Um exemplo flagrante é de Alexandra Zarubina, criança que foi retirada de uma boa família em Portugal para ir viver para uma casa de madeira a cair de podre numa região onde o termómetro pode marcar -20 ou -30 graus centígrados.
O apoio das autoridades não é nenhum, talvez elas tenham medo de estragar os caros fatos franceses e italianos ao entrarem na casa da menina ou a salvação de todas as crianças russas não lhes deixe tempo para resolver um caso concreto.
É mesmo momento para dizer: deixem ficar as crianças fora dos jogos políticos dos adultos! Tanto mais que, por este andar, as relações entre Rússia e Estados Unidos poderão deteriorar-se gravemente.
Putin e a elite russa não querem fazer figura de fracos e os dirigentes norte-americanos também não são conhecidos pela sua maleabilidade.

14 comentários:

Anónimo disse...

é de louvar essa preocupação do estado a-la URSS com os "negros linchados nos EUA" :-)

agora, os fedelhos nacionais ... são nacionais, aguentam perfeitamente os frios que os pais e avos aguentavam...

Lura do Grilo disse...

Lamentável...os tiques soviéticos continuam.

Ricardo disse...

Se for por falta de criança, na África existem milhoes esperando por um lar descente, porém as crianças de lá não tem pele e olhos claros, como os norte-americanos e europeus gostam.

Pippo disse...

"Um exemplo flagrante é de Alexandra Zarubina, criança que foi retirada de uma boa família em Portugal para ir viver para uma casa de madeira a cair de podre numa região onde o termómetro pode marcar -20 ou -30 graus centígrados."

Se bem me recordo, e o JM garantidamente recorda-se, a Alexandra foi retirada aos seus pais adoptivos por um tribunal PORTUGUÊS. Não culpe agora a Rússia e os russos por decisões dos nossos tribunais.

José Milhazes disse...

Caro Pippo, só lhe queria recordar que no Tribunal de Guimarães um funcionário do Consulado Russo em Lisboa apresentou documentos de que a menina iria ter todas as condições para uma vida normal. Não desculpo o juiz do Tribunal de Guimarães, mas admito que ele tenha sido enganado.

Anónimo disse...

Já por várias vezes prometi que deixava de participar neste blogue.

Mas perante tamanha falta de sensatez para com os mais desprotegidos (que não são apenas as crianças as vitimas do sistema).

O mais grave nisto é a tentativa de amputar a verdade.

Escreve-se, escreve-se mas não se vai ao fundo da questão, omitem-se as principais causas do abandono das crianças na Rússia.

Já lá vamos!

E porque razão a preferencia de adoção de crianças Russas por parte dos cidadãos Norte Americanos?


Porque não adoptam crianças da India?
De certeza que em qualquer grande cidade Indiana há mais crianças abandonadas que em toda a Rússia.

E porque não odoptam também crianças da Ucrânia?
A situação será menos grave que na Rússia?

Isto dos Americanos adoptarem hoje dezenas de milhares de crianças Russas vai ter um grande retorno politico daqui a algumas décadas.

O mais caricato neste drama humano, é aquelas pessoas que alegam que as crianças não devem servir de joguete em interesses politicos, elas próprias cavalgando no infortunio dos seres mais indefesos da sociedade, procuram tirar os seus próprios divendos politicos.

Porque razão não denunciam as causas que levam a esta situação vergonhosa?

As criancinhas como são carinhosas e inocentes no trato ainda encontram alguém que simpatize com elas.

E os milhões de idosos que vivem entregues a si próprios por toda a Rússia e no ex-espaço Soviético, será que ninguém consegue arranjar uma palavra para denunciar a sua situação?

E os milhares e milhares de deficientes que não lhes é dispensado qualquer apoio, também não é dever de todos e em particular quem sabe da sua situação dar a conhecer ao mundo o estado de abandono em que vivem?


Responsabilizar apenas Putin é muito redutor, as causas são fruto do sistema que Putin representa.

Por outro lado é conveniente questionar. Será que no Harlem e noutros guetos das cidades Americanos não existem crianças para adoção?


FRANCISCO LUCRECIO

HAVOC disse...

Acontece que os americanos não querem adotar crianças negras. A classe média-alta americana gosta de adotar crianças loiras, de olhos azuis, e quase a totalidade da população russa é assim. As crianças orfãos da Rússia se encaixam no padrão de adoção americano, por atender as exigencias das familias por crianças brancas, loiras e de olhos azúis, ao contrário da África.

José Milhazes disse...

Francisco Lucrécio, ninguém o obriga a ler este blog, a não ser que o Sr. não consiga mesmo resistir.
Na era soviética não havia dados estatísticos fidedignos sobre sem-abrigo, mas claro que existiam, pois o próprio poder reconheceu muitas vezes não ter capacidade para dar uma casa condigna a todos os cidadãos. Além disso, acrescente aos sem-abrigo as pessoas que vivem e continuem a viver em autênticas barracas e prédios degradados.
Posso estar de acordo consigo que hoje haverá muito mais sem-abrigo na Rússia do que antes.
Na URSS, o número de crianças abandonadas por pais vivos e entregues a instituições de Estado, muitas das quais péssimas, era muito grande, fala-se de várias centenas de milhar.
Quanto à nacionalidade da adopção, devo dizer que há também numerosas crianças ucranianas e de outras antigas repúblicas da URSS.
Putin tem o poder absoluto no país e, por isso, deve ter a absoluta responsabilidade.
E para terminar, feliz ano-novo.

Anónimo disse...

O dragão a mostrar que manda e a bater onde dói a muitos, porque o que há é mesmo tráfico de crianças e para muitos fins.NOTA: não é laiva de justiça nenhuma, mas apenas braço de ferro, e com tal elite dependente das adopções, Putin já ganhou esta.

Anónimo disse...

Qual a culpa das crianças? Nenhuma, mas qual é a responsabilidade dos Americanos? Houve casos em que órfãos Russos adoptados pelos Americanos deu cana. Gostaria de ser presidente de um país e ver seus órfãos emigrarem para um país diferente e passado uns anos ter as suas centrais de inteligência a expor com provas sólidas que seus órfãos estão sendo exploradas pela indústria pornográfica, ainda tendo em conta que você é um presidente que se identifica com uma religião (Cristianismo)? Gostaria também de ver um órfão do seu país a morrer no carro porque o seu pai adoptivo se esqueceu dele, e melhor, gostaria de ver esse mesmo pai a sair impune do tribunal, sem castigo aplicado pelos tribunais dos EUA? É melhor deixar órfãos do seu país serem explorados? De facto a grande maioria de famílias não faz isso, mas como dita o velho provérbio, paga justo por pecador.

Pippo disse...

JM, quais são as condições para uma vida normal na Rússia? É viver num T3 em Moscovo, ou numa casa construída nos anos 70/80, concedida pelos Estado à medida das "necessidades" da família? É viver numa casa de tijolo na província, ou numa izbá, como as vi aos milhares nas minhas deambulações pela província russa? É viver com temperaturas de -20º ou -30º, como é normal na Rússia, ou é viver com os 30º+ do Algarve?
Para os padrões russos, repito, russos, a Alexandra tem condições normais de vida?


"Acontece que os americanos não querem adotar crianças negras. A classe média-alta americana gosta de adotar crianças loiras, de olhos azuis"

Obviamente, se a maioria da classe média norte-americana é louras e de olhos azuis, naturalmente quererá adoptar crianças compatíveis. Duvido que a classe média negra norte-americana adopte crianças russas louras de olhos azuis...

José Milhazes disse...

Caro Pippo, para os padrões russos, o nível de vida da Alexandra é bastante baixo, embora reconheça que haja muito milhares, senão milhões de crianças a viverem do mesmo modo. Mas, em relação ao nível que ela tinha em Portugal, é incomparavelmente muito, mas mesmo muito pior.

Pippo disse...

Pois é. Nesse caso, se quisessem usar um "padrão português", e uma vez que a decisão dependia das autoridades judiciais portuguesas, deveriam ter sido os magistrados lusos a averiguar, directamente ou através dos serviços consulares portugueses, as condições de vida da mãe da miúda de forma a poderem decidir em conformidade.
Uma vez que a opção foi pelo "padrão russo" (pois foi às autoridades russas que foi pedida a opinião), não podemos agora vir acusar os russos ou mesmo Putin (usado como habitual bombo da festa) para recriminar a incompetência dos juízes portugueses.

Quanto à outra lei que vai "tratar da saúde" aos americanos que andam a "tratar da saúde" a cidadãos russos, estou curioso para ver no que é que isso irá dar. :0)

celso disse...

Senhor HAVOC, se realmente e' assim, então por que os casais negros americanos não adotam as crianças africanas ?
já vi varias historias de mães loiras e de olhos azuis adotarem crianças mulatas ou negras. Isso e' mais conversa de esquerdista do que realidade .