quinta-feira, outubro 31, 2013

Nova etapa na vida


Caros amigos e leitores, chega hoje ao fim o meu contrato de colaboração com a Agência Lusa. Encerra-se uma fase importante da minha vida e abre-se um futuro ainda incerto e desconhecido. 
Não irei abandonar definitivamente a Rússia, pois esse país continuará a ser vital para o meu posterior trabalho, mas passarei temporadas maiores em Portugal. No fundo, trata-se quase de um regresso ao meu país.
Gostaria de fazer algumas considerações sobre a política do Governo Português e da Agência Lusa sobre a rede de correspondentes no estrangeiro. Porém, quero desde já deixar claro que o que está em questão não é o meu local de trabalho em Moscovo, pois, mais tarde ou mais cedo, eu teria de regressar. Primeiro, porque não há pessoas insubstituíveis e, segundo, porque todos somos mortais.
O que me preocupa profundamente é o destino da própria Agência Lusa e dos órgãos de comunicação em Portugal. Quando me comunicaram que iriam deixar de me pagar uma avença, mas se mostraram interessados em continuar a colaboração com trabalhos à peça, a Administração e a Direcção de Informação da Lusa alegaram vários pretextos, dos quais apenas recordo alguns: "A Rússia deixou de ser prioritária", "Decidimos concentrar esforços na Lusofonia", "Queremos optimizar o Internacional" e "Vamos utilizar as agências internacionais".
No entanto, é difícil levar a sério semelhantes explicações, pois a Rússia continua a justificar a presença de um correspondente português a tempo inteiro e, no futuro, ainda mais justificará.
A Rússia, por razões óbvias, está a reconquistar posições na política internacional e continuará a ter um papel importante, nomeadamente no que respeita às relações com a UE em geral, e com Portugal em particular. Não cito o caso sírio, pois esse é do conhecimento geral.
Além disso, aumentam significativamente as relações entre a Rússia e os países lusófonos, incluindo Portugal, nos mais diversos domínios. No caso concreto do nosso país, assiste-se a um aumento nunca visto do turismo russo no nosso país e das exportações portuguesas para a Rússia (este ano, o aumento nos dois campos deverá rondar os 30%). Em Novembro, o vice-ministro Paulo Portas deverá realizar uma visita oficial à Rússia com várias dezenas de empresários, uma representação da Assembleia da República irá também a Moscovo.
Como a Agência Lusa é a maior agência em língua portuguesa, poderia e deveria ter um papel importante na cobertura das relações entre a Rússia e Angola, Moçambique, Brasil, etc.
Quanto à utilização das agências internacionais, isso é normal, mas a Lusa transforma-se rapidamente numa empresa de tradução de agências, perdendo-se o olhar português  do mundo.
Além do mais, no meu caso, eu acompanhava os acontecimentos em mais 11 das antigas repúblicas da URSS e deslocava-me a alguns quando tinha meios financeiros disponíveis.
Tendo em conta a crise económica, eu renunciei a muita coisa para continuar a trabalhar em Moscovo (seguros de saúde e de vida, pagamento de despesas), mas o Governo Português e a Administração da Lusa queriam que eu passasse a trabalhar à peça, oferecendo montantes que humilham qualquer jornalista. A minha experiência com a RDP/Antena 1 mostra que se eu aceitasse as condições da Lusa, acabaria por ter de andar a mendigar para sobreviver.
Claro que me foi dito que eu poderia realizar outros trabalhos, mas quais? Dedicar-me a negócios? Durante a minha estadia na URSS/Rússia, nunca fiz isso porque considero que vai contra as normas deontológicas do jornalismo. Ajudei sempre que pude as empresas portuguesas, mas não cobrei dinheiro por isso. Excusado será dizer que também nunca pedi a nenhum empresário dinheiro para publicar notícias sobre esta ou aquela empresa.
Dito isto, quero terminar dizendo que o Governo Português e a Administração da Lusa estão a destruir mais um símbolo da nossa soberania, cada vez mais empenhada, a acabar com um importante meio de influência na comunidade lusófona. 
A política dos cortes cegos vai-nos sair muito cara. 
P.S. Todos os meus projectos existentes continuarão: o meu blog continuará vivo, os meus trabalhos de investigação não pararão até que eu tenha forças. Por isso, vamos conversando e ver o que nos traz o dia de amanhã, mas, pelos vistos, nada de bom é de esperar.      
   

6 comentários:

Anónimo disse...

...desempregado uiiii....a Zita vai continuar a sustentar-te parasita!

Anónimo disse...

Zé Milhazes, mais uma vez se cumpriu aquela máxima " Roma não paga a traidores".

É com alguma mágua que assisto ao voltar as gostas do nosso des´governo a um grande país que é a Rússia.

Se o Zé Milhazes se tivesse pautado pela honestidade informativa e feito uso do rigor de informar com insenção de certeza que tinha deixado muitos amigos. Assim duvido que não serão mais os inimigos que criou que amigos que conseguiu.

Acima de tudo desejo-lhe muita sorte e que lhe sirva de lição para o futuro.

José Milhazes disse...

Anónimos, não têm nomes quando insultam as pessoas? Segundo anónimo, se eu não me tivesse pautado pela honestidade informativa e feito uso do rigor de informar com isenção, talvez agora estivesse mais bem instalado na vida.
Mesmo assim, obrigado pelo desejo de boa sorte ao "traidor".

Anónimo disse...

Não consigo perceber os comentários de regozijo que revelam pessoas de mau íntimo e de pouco valor como seres humanos. Tenho muita pena que a perspectiva única do José Milhazes não seja aproveitado pela comunicação social portuguesa mas os portugueses têm a imprensa que merecem. Os desejos de felicidades de um leitor assíduo do blog.

Anónimo disse...

"Anónimo disse...
Não consigo perceber os comentários de regozijo que revelam pessoas de mau íntimo e de pouco valor como seres humanos".

Se não o incomodo muito, agradecia que disse-se qual a escala que usa para medir o intimo e o valor dos seres humanos.

Sei que Salazar usava uma bitola que ia da Antonio Maria Cardoso ao Tarrafal. Com uns submultiplos que passavam por Caxias e Peniche. Claro !

Anónimo disse...

Anónimo das 22:45
Bitola essa que não foi nada menosprezada no pós 25 de Abril... todos diferentes, todos iguais, não é assim?
Maria Rebelo