quinta-feira, dezembro 05, 2013

Que portugueses perdemos com a expulsão dos judeus de Portugal




António Manuel Luís Vieira foi um dos numerosos judeus portugueses que, no final do séc. XVII, fugiu à Inquisição e encontrou refúgio noutros cantos mais tolerantes da Europa. Não sendo rico e tendo perdido o pai cedo, alistou-se como grumete na marinha, não estando precisamente determinado se na inglesa ou holandesa. Mas o facto é que o czar russo Pedro I, que, em 1697, andava pela Europa para conhecer novos mundos e estudar técnicas inovadoras, apreciou o trabalho  do jovem judeu de origem portuguesa e levou-o para a Rússia, onde chegou a ocupar cargos de destaque na corte de São Petersburgo. Todavia, histórias de amor e de luta pelo poder desterrá-lo-iam para os confins da Sibéria, onde não baixou os braços, mas realizou um notável trabalho que lhe valeu a reabilitação e o respeito.
António Manuel Luís Vieira, conhecido na Rússia por Антон Мануилович Девиер ou Дивьеръ (Anton Manuilovitch Devier), deu início a uma dinastia que deixou rastos importantes na História da Rússia. Prova disso é o facto de o seu nome e o nome de alguns dos seus descendentes figurarem em diferentes livros de genealogia,   dicionários biográficos e enciclopédias (1).
Porém, muitos dos episódios da sua vida continuam ainda a ser pouco claros. Por exemplo, não se sabe ao certo a data do nascimento de António Vieira. О Dicionário Enciclopédico Brockhaus e Efron (Энциклопедическии Словарь Брокгауз и Ефрон) (2) aponta a sua data de nascimento para 1682, enquanto os historiadores A. Akinchin e T. Litvinova   falam do ano de 1673 (3).  A data mais provável parece ser a primeira, visto que em 1697, quando se dá o primeiro encontro entre o judeu de origem portuguesa e o czar Pedro o Grande, Vieira, como iremos ver mais à frente, era ainda muito jovem.
Quanto à terra natal de António Vieira, os únicos dados que conseguimos detectar sobre a sua origem encontra-se numa fonte portuguesa e revela-nos apenas a província onde nasceu: o Minho (4).
Porém, no livro A linhagem dos Menchikov na História da Rússia (Род Меншиковых в Истории России)  , os autores afirmam que “António Vieira tinha origem numa antiga linhagem espanhola de Iehaiil ben-Dodas de Vieira e era filho de um armeiro português, o judeu Ariel filho de Saul ben David”(5).
Há também polémica quanto ao país onde o judeu português se encontrou pela primeira vez com Pedro I da Rússia. Não há dúvidas que esse encontro ocorreu em 1697, durante a viagem que o czar russo realizou a vários países da Europa. Porém, se a  historiografia russa é unânime a afirmar que esse país é a Holanda (6), o Abade Tomás da Silva, que conheceu pessoalmente Vieira durante a sua visita à Rússia, afirma que se tratava da Inglaterra (7).
Uma coisa é certa, António Vieira chegou à Rússia e começou a fazer uma brilhante carreira. Em 27 de Maio de 1718, o português é promovido  a brigadeiro e nomeado general-chefe da polícia de São Petersburgo, nova capital russa que começou a ser construída por Pedro, o Grande, em 1703, nas costas do Mar Báltico. No decreto de nomeação, o czar justifica a criação deste cargo com a necessidade de “impor melhor ordem”  e “para que ninguém se justifique com o facto de não  conhecer a lei”(8).
Além disso, Pedro o Grande fez publicar mais um decreto “Instruções para o general-chefe da polícia”(9), onde define o grande número de tarefas de que António Vieira é incumbido: executar a direcção-geral das obras de construção da cidade; promover obras de consolidação das margens dos numerosos braços do delta do rio Neva; tratar da iluminação e limpeza da nova capital; controlar o abastecimento de produtos alimentares e seus preços; formar equipas de bombeiros; pôr fim à devassidão e parasitismo.  Numa palavra, gerir uma cidade em construção com cerca de 35 mil habitantes.
António Manuel Luís Vieira foi um dos numerosos judeus portugueses que, no final do séc. XVII, fugiu à Inquisição e encontrou refúgio noutros cantos mais tolerantes da Europa. Não sendo rico e tendo perdido o pai cedo, alistou-se como grumete na marinha, não estando precisamente determinado se na inglesa ou holandesa. Mas o facto é que o czar russo Pedro I, que, em 1697, andava pela Europa para conhecer novos mundos e estudar técnicas inovadoras, apreciou o trabalho  do jovem judeu de origem portuguesa e levou-o para a Rússia, onde chegou a ocupar cargos de destaque na corte de São Petersburgo. Todavia, histórias de amor e de luta pelo poder desterrá-lo-iam para os confins da Sibéria, onde não baixou os braços, mas realizou um notável trabalho que lhe valeu a reabilitação e o respeito.
António Manuel Luís Vieira, conhecido na Rússia por Антон Мануилович Девиер ou Дивьеръ (Anton Manuilovitch Devier), deu início a uma dinastia que deixou rastos importantes na História da Rússia. Prova disso é o facto de o seu nome e o nome de alguns dos seus descendentes figurarem em diferentes livros de genealogia,   dicionários biográficos e enciclopédias (1).
Porém, muitos dos episódios da sua vida continuam ainda a ser pouco claros. Por exemplo, não se sabe ao certo a data do nascimento de António Vieira. О Dicionário Enciclopédico Brockhaus e Efron (Энциклопедическии Словарь Брокгауз и Ефрон) (2) aponta a sua data de nascimento para 1682, enquanto os historiadores A. Akinchin e T. Litvinova   falam do ano de 1673 (3).  A data mais provável parece ser a primeira, visto que em 1697, quando se dá o primeiro encontro entre o judeu de origem portuguesa e o czar Pedro o Grande, Vieira, como iremos ver mais à frente, era ainda muito jovem.
Quanto à terra natal de António Vieira, os únicos dados que conseguimos detectar sobre a sua origem encontra-se numa fonte portuguesa e revela-nos apenas a província onde nasceu: o Minho (4).
Porém, no livro A linhagem dos Menchikov na História da Rússia (Род Меншиковых в Истории России)  , os autores afirmam que “António Vieira tinha origem numa antiga linhagem espanhola de Iehaiil ben-Dodas de Vieira e era filho de um armeiro português, o judeu Ariel filho de Saul ben David”(5).
Há também polémica quanto ao país onde o judeu português se encontrou pela primeira vez com Pedro I da Rússia. Não há dúvidas que esse encontro ocorreu em 1697, durante a viagem que o czar russo realizou a vários países da Europa. Porém, se a  historiografia russa é unânime a afirmar que esse país é a Holanda (6), o Abade Tomás da Silva, que conheceu pessoalmente Vieira durante a sua visita à Rússia, afirma que se tratava da Inglaterra (7).
Uma coisa é certa, António Vieira chegou à Rússia e começou a fazer uma brilhante carreira. Em 27 de Maio de 1718, o português é promovido  a brigadeiro e nomeado general-chefe da polícia de São Petersburgo, nova capital russa que começou a ser construída por Pedro, o Grande, em 1703, nas costas do Mar Báltico. No decreto de nomeação, o czar justifica a criação deste cargo com a necessidade de “impor melhor ordem”  e “para que ninguém se justifique com o facto de não  conhecer a lei”(8).
Além disso, Pedro o Grande fez publicar mais um decreto “Instruções para o general-chefe da polícia”(9), onde define o grande número de tarefas de que António Vieira é incumbido: executar a direcção-geral das obras de construção da cidade; promover obras de consolidação das margens dos numerosos braços do delta do rio Neva; tratar da iluminação e limpeza da nova capital; controlar o abastecimento de produtos alimentares e seus preços; formar equipas de bombeiros; pôr fim à devassidão e parasitismo.  Numa palavra, gerir uma cidade em construção com cerca de 35 mil habitantes.
Vieira realizava com mão de ferro as instruções do czar russo. Por exemplo, se alguém fosse apanhado três vezes a vender produtos de má qualidade, era condenado à morte. Segundo testemunhas da época, “Vieira fazia, pessoalmente, revistas diárias à sua cidade e era tão severo que só o seu nome impunha    respeito e medo nas ruas de São Petersburgo”(10)
António Vieira devia também organizar a vida social e cultural da alta sociedade da nova capital russa. Para isso, faz publicar, no mesmo ano de 1718, o decreto “Sobre as Assembleias” (11) , documento que regulamenta a realização de reuniões da alta sociedade russa.
Segundo os três pontos desse documento, as assembleias, que se realizavam nos palácios dos nobres residentes em São Petersburgo,  não podiam ter início   antes das quatro ou cinco da tarde e deviam terminar antes da meia-noite; os donos da casa onde se realizavam as reuniões, não deviam “nem receber, nem acompanhar, nem servir as visitas, mas apenas pôr  à disposição algumas salas, mesas, velas, bebidas para matar a sede”; “além das salas e bebidas, os donos da casa deviam preocupar-se com a música”.
Durante essas assembleias, onde Pedro, o Grande, era um hóspede frequente, dançava-se, trocava-se informações, jogava-se às cartas, etc. Se alguém violava algum dos pontos previstos na ordem de Vieira, por exemplo, ficava sem dama para dançar, era castigado e obrigado a beber de um gole uma “águia”, enorme taça de vinho onde estava gravado o escudo imperial.
António Vieira, já depois da morte de Pedro I, é encarregado de resolver  uma questão diplomática melindrosa na  Curlândia, um dos muitos minúsculos estados alemães que estavam na orbita russa. Nos finais de 1726, o já  major-general Vieira é enviado à Curlândia a fim de realizar uma missão secreta: “Deve, secretamente, determinar quais os curliandeses que querem a união da Curlândia com a Polónia e quais não desejam tal coisa, quais olham com bons olhos para a Rússia e exigem a sua protecção”(12).
No dia 10 (21) de Janeiro de 1727, Vieira aconselha Catarina I, esposa e sucessora de Pedro I à frente dos destinos da Rússia, que aposte no conde Maurício da Saxónia, um dos pretendentes ao trono da Curlândia: “Ontem, consegui encontrar-me secretamente com o senhor Maurício e, pelo que me consegui aperceber, ele   deseja fortemente ficar sob a protecção de Vossa Alteza e  confia plenamente na Vossa vontade” (13).
Os senhores da Rússia compensavam abundantemente os bons serviços prestados por António Vieira. Em 6 (17) de Janeiro de 1725, Pedro o Grande concede-lhe o título de “Cavaleiro da Ordem de Alexandre Nevski”, a mais alta condecoração russa da época. Em 18 (29) de Fevereiro de 1726, Catarina I fez dele senador e conde (14). Isto tornava-o num dos homens mais fortes da corte de São Petersburgo, colocou-os entre aqueles políticos russos que ajudaram Pedro I a reformar o seu país e que, por isso, entraram na história como “as crias do ninho de Pedro, o Grande”.
Mas Vieira tinha um sério adversário inimigo entre as ditas “crias”: o príncipe (15) Alexandre Menchikov. Segundo uma das lendas que corriam sobre este estadista russo,  ele teria sido um simples vendedor de bolos que o czar Pedro notára e levára para a corte. Segundo outra, seria filho de um dos muitos criados da estrebaria do Kremlin, palácio onde habitava a família real russa em Moscovo. Seja como for, as qualidades naturais deste russo do povo levaram-no a fazer uma carreira brilhante nos corredores do poder.
Sendo António Vieira judeu, povo visto com maus olhos e desconfiança também em terras russas (16), precisava de um bom casamento para se integrar na alta sociedade de São Petersburgo. E, ironia do destino, “pôs o olho” em Anna Danilovna Menchikova, irmã mais nova de Alexandre, que “se apaixonara loucamente pelo belo português”(17).
Isto não estava nos planos de Menchikov, que pensara mesmo casar a sua irmã com o czar Pedro I, a fim de reforçar o seu poder. Para isso, Alexandre decide elevar o nível cultural e intelectual da irmã e escreve à sua esposa: “ Por Deus - Daria Mikhailovna – obriga a minha irmã para que estude russo e alemão, a fim de que não passe o tempo em vão” (18). 
Porém, em 1709, Alexandre Menchikov vê-se coagido a autorizar o casamento da jovem com António Vieira. Quando o português apareceu em casa dos Menchikov para pedir a mão de Anna, talvez já soubesse da posição de Alexandre face a esse casamento, tanto mais que, nos salões de São Petersburgo, já se comentava muito as relações íntimas de António e Anna. Por isso, o português preveniu o irmão da noiva que, caso fosse negado o seu pedido, a jovem russa daria à luz um filho que não iria ter pai. O príncipe Alexandre ficou tão irado com a desfaçatez do português que o mandou chicotear por criados seus.
Tendo escapado por um milagre à “justiça” dos Menchikov, António Vieira corre a pedir a intervenção do próprio czar Pedro, que se coloca do lado do português e ordena o casamento entre António e Anna. Desta vez, Vieira ganhou, mas Alexandre não se esqueceu da afronta e vinga-se mais tarde (19).
Porém, antes ainda da vingança, quando as relações entre Pedro, o Grande, e Alexandre são tensas (1722-1723), existindo a ameaça real de o príncipe Menchikov cair em desgraça, este tenta recorrer aos serviços de Vieira para que o mantenha informado das intenções do monarca russo em relação à sua pessoa. Quando nasce o primeiro filho de António Vieira, que recebe o nome de Alexandre em honra do tio, este envia cordiais felicitações ao cunhado: “Neste dia solene para Vós e toda a vossa família, envio desejos de boa saúde para Vós e o vosso recém-nascido, nosso querido sobrinho”(20).
O momento da desforra chegou quando a czarina Catarina I, esposa e sucessora de Pedro, o Grande, no trono russo, se encontra no leito da morte e ainda estava por definir o seu sucessor à frente dos destinos do Império Russo. O conde Vieira, bem como alguns nobres russos, defendia que os destinos do país deveriam passar para as mãos de Anna Petrovna, uma das filhas do czar Pedro, o Grande. Mas Alexandre Menchikov tinha planos faraónicos: casar a sua filha Maria com o príncipe Pedro, neto do czar Pedro I, fazendo com que a avó deixasse em testamento o trono ao seu neto.
E assim aconteceu. Catarina I assina o testamento onde nomeia o príncipe Pedro seu sucessor e lhe ordena casar-se com Maria Menchikova. Mas para que a combinação fosse segura, Alexandre Menchikov necessita de liquidar os seus adversários na corte russa. Com esse objectivo, consegue fazer com que a já moribunda Catarina I ordene a abertura de um processo criminal contra Vieira e outros nobres russos, acusando o português de “desrespeitar a família real”. Ao mesmo tempo, manda detê-lo (21).
O embaixador da Saxónia em São Petersburgo, Leforte, descreve assim a cena da prisão do judeu de origem portuguesa: “Um capitão da guarda foi ter com Vieira, que se encontrava nos apartamentos do palácio, e deu-lhe voz de prisão, exigindo-lhe que entregasse a espada. Vieira, fazendo de conta que entregava a espada, tirou-a da bainha com a intenção de a espetar no príncipe Menchikov, mas o golpe foi desviado”(22).
As forças e a coragem abandonaram Vieira quando ele, nos calabouços da Fortaleza de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo, foi submetido a interrogatório e torturas para denunciar os nomes dos cúmplices. Após vinte e cinco chicotadas, reconhece todos os “crimes” e, a 6 de Maio de 1727,  Catarina I, que falece nesse mesmo dia à noite,  assina um decreto que o condena à morte, mas, pouco tempo depois, outro que substitui a pena capital pelo exílio na Sibéria.
Ainda antes, a 30 de Abril, Anna Danilovna Menchikova-Vieira, envia uma carta ao irmão a pedir misericórdia para o marido: “Ouso, por causa da minha infinita dor, pedir-vos, príncipe ilustríssimo, meu pai e senhor misericordioso, por meu marido… Para que a ira da nossa czarina se transforme em misericórdia” (23). 
Mas esse grito de desespero ficou sem resposta.
Em 27 de Maio (7 de Junho) de 1727, um manifesto do novo czar e imperador russo, Pedro II, ordena “castigá-lo com o chicote  e o degredo na Região de Iakutia” (24), onde passou dez anos.
Baseando-se em informações do médico Ribeiro Sanches e do padre Tomás da Silva de Avelar, Rómulo de Carvalho escrever que António Vieira morreu no desterro siberiano.
“Aqui houve um português chamado António Manuel Luís Vieira, que foi generalíssimo primeiro no mar, e ao depois Regedor das Justiças, casou com uma irmã de um príncipe da Alemanha, há quatro anos que o dito português foi desterrado para sempre para os confins da China em Siberia por pouco fiel a Sua Megestade” – escreveu Ribeiro Sanches numa carta publicada por Rómulo de Carvalho (25).
O padre Tomás da Silva Avelar vai ainda mais longe: “O Conde Vieyra, que foi exterminado para a Siberia, onde será falecido” (26).
Mas os documentos dos arquivos russos desmentem essa versão. Em Abril de 1737, a imperatriz Anna Ioanovna (1730-1740), sobrinha de Pedro, o Grande, lembra-se de Vieira e nomeia-o comandante do Porto de Okhotsk, então em construção no Extremo Oriente da Rússia e uma das primeiras portas para o Oceano Pacífico. Não tendo perdido qualidades como a honestidade, virtude muito rara naquela altura entre os funcionários públicos russos, António Vieira volta a revelar as suas capacidades de administração: pôs fim a desvios de dinheiros e levou a bom termo a construção do porto.
Os documentos russos registaram mais dois relevantes feitos do minhoto. Foi ele que organizou a fase final da segunda expedição de Vitus Bering (1681-1741), navegador dinamarquês que, ao serviço da Rússia, descobriu o Alasca. Além disso, em 1740, António Vieira criou a primeira escola naval na Sibéria e Extremo Oriente russo, que existiu durante mais de 100 anos e foi um importante foco cultural em regiões tão remotas(27).
As notícias da obra do português desterrado iam chegando a São Petersburgo e a imperatriz e czarina Elizabete Petrovna (1741-1762), filha de Pedro, o Grande, lembrou-se de António Vieira, “que sofreu injustamente” e, em 1743, manda-o regressar da Sibéria, devolve-lhe o cargo de general-tenente, o título de conde, a Ordem de Alexandre Nevski. Além disso, a czarina ofereceu-lhe mil e oitocentos servos que, antes, tinham pertencido ao seu cunhado Alexandre, que, entretanto, vira seus bens confiscados e fora desterrado devido às exageradas ambições políticas (28).
Todavia, as honras e mercês não puderam compensar a perda de saúde de Vieira, seriamente abalada pelos frios gélidos da Sibéria, e vem a falecer dois anos após a sua reabilitação, em 27 de Julho (7 Agosto) 1745, tendo sido sepultado no Cemitério de Alexandre Nevski, em São Petersburgo, última morada para muitos dos heróis e ilustres da História da Rússia.



Vieira realizava com mão de ferro as instruções do czar russo. Por exemplo, se alguém fosse apanhado três vezes a vender produtos de má qualidade, era condenado à morte. Segundo testemunhas da época, “Vieira fazia, pessoalmente, revistas diárias à sua cidade e era tão severo que só o seu nome impunha    respeito e medo nas ruas de São Petersburgo”(10)
António Vieira devia também organizar a vida social e cultural da alta sociedade da nova capital russa. Para isso, faz publicar, no mesmo ano de 1718, o decreto “Sobre as Assembleias” (11) , documento que regulamenta a realização de reuniões da alta sociedade russa.
Segundo os três pontos desse documento, as assembleias, que se realizavam nos palácios dos nobres residentes em São Petersburgo,  não podiam ter início   antes das quatro ou cinco da tarde e deviam terminar antes da meia-noite; os donos da casa onde se realizavam as reuniões, não deviam “nem receber, nem acompanhar, nem servir as visitas, mas apenas pôr  à disposição algumas salas, mesas, velas, bebidas para matar a sede”; “além das salas e bebidas, os donos da casa deviam preocupar-se com a música”.
Durante essas assembleias, onde Pedro, o Grande, era um hóspede frequente, dançava-se, trocava-se informações, jogava-se às cartas, etc. Se alguém violava algum dos pontos previstos na ordem de Vieira, por exemplo, ficava sem dama para dançar, era castigado e obrigado a beber de um gole uma “águia”, enorme taça de vinho onde estava gravado o escudo imperial.
António Vieira, já depois da morte de Pedro I, é encarregado de resolver  uma questão diplomática melindrosa na  Curlândia, um dos muitos minúsculos estados alemães que estavam na orbita russa. Nos finais de 1726, o já  major-general Vieira é enviado à Curlândia a fim de realizar uma missão secreta: “Deve, secretamente, determinar quais os curliandeses que querem a união da Curlândia com a Polónia e quais não desejam tal coisa, quais olham com bons olhos para a Rússia e exigem a sua protecção”(12).
No dia 10 (21) de Janeiro de 1727, Vieira aconselha Catarina I, esposa e sucessora de Pedro I à frente dos destinos da Rússia, que aposte no conde Maurício da Saxónia, um dos pretendentes ao trono da Curlândia: “Ontem, consegui encontrar-me secretamente com o senhor Maurício e, pelo que me consegui aperceber, ele   deseja fortemente ficar sob a protecção de Vossa Alteza e  confia plenamente na Vossa vontade” (13).
Os senhores da Rússia compensavam abundantemente os bons serviços prestados por António Vieira. Em 6 (17) de Janeiro de 1725, Pedro o Grande concede-lhe o título de “Cavaleiro da Ordem de Alexandre Nevski”, a mais alta condecoração russa da época. Em 18 (29) de Fevereiro de 1726, Catarina I fez dele senador e conde (14). Isto tornava-o num dos homens mais fortes da corte de São Petersburgo, colocou-os entre aqueles políticos russos que ajudaram Pedro I a reformar o seu país e que, por isso, entraram na história como “as crias do ninho de Pedro, o Grande”.
Mas Vieira tinha um sério adversário inimigo entre as ditas “crias”: o príncipe (15) Alexandre Menchikov. Segundo uma das lendas que corriam sobre este estadista russo,  ele teria sido um simples vendedor de bolos que o czar Pedro notára e levára para a corte. Segundo outra, seria filho de um dos muitos criados da estrebaria do Kremlin, palácio onde habitava a família real russa em Moscovo. Seja como for, as qualidades naturais deste russo do povo levaram-no a fazer uma carreira brilhante nos corredores do poder.
Sendo António Vieira judeu, povo visto com maus olhos e desconfiança também em terras russas (16), precisava de um bom casamento para se integrar na alta sociedade de São Petersburgo. E, ironia do destino, “pôs o olho” em Anna Danilovna Menchikova, irmã mais nova de Alexandre, que “se apaixonara loucamente pelo belo português”(17).
Isto não estava nos planos de Menchikov, que pensara mesmo casar a sua irmã com o czar Pedro I, a fim de reforçar o seu poder. Para isso, Alexandre decide elevar o nível cultural e intelectual da irmã e escreve à sua esposa: “ Por Deus - Daria Mikhailovna – obriga a minha irmã para que estude russo e alemão, a fim de que não passe o tempo em vão” (18). 
Porém, em 1709, Alexandre Menchikov vê-se coagido a autorizar o casamento da jovem com António Vieira. Quando o português apareceu em casa dos Menchikov para pedir a mão de Anna, talvez já soubesse da posição de Alexandre face a esse casamento, tanto mais que, nos salões de São Petersburgo, já se comentava muito as relações íntimas de António e Anna. Por isso, o português preveniu o irmão da noiva que, caso fosse negado o seu pedido, a jovem russa daria à luz um filho que não iria ter pai. O príncipe Alexandre ficou tão irado com a desfaçatez do português que o mandou chicotear por criados seus.
Tendo escapado por um milagre à “justiça” dos Menchikov, António Vieira corre a pedir a intervenção do próprio czar Pedro, que se coloca do lado do português e ordena o casamento entre António e Anna. Desta vez, Vieira ganhou, mas Alexandre não se esqueceu da afronta e vinga-se mais tarde (19).
Porém, antes ainda da vingança, quando as relações entre Pedro, o Grande, e Alexandre são tensas (1722-1723), existindo a ameaça real de o príncipe Menchikov cair em desgraça, este tenta recorrer aos serviços de Vieira para que o mantenha informado das intenções do monarca russo em relação à sua pessoa. Quando nasce o primeiro filho de António Vieira, que recebe o nome de Alexandre em honra do tio, este envia cordiais felicitações ao cunhado: “Neste dia solene para Vós e toda a vossa família, envio desejos de boa saúde para Vós e o vosso recém-nascido, nosso querido sobrinho”(20).
O momento da desforra chegou quando a czarina Catarina I, esposa e sucessora de Pedro, o Grande, no trono russo, se encontra no leito da morte e ainda estava por definir o seu sucessor à frente dos destinos do Império Russo. O conde Vieira, bem como alguns nobres russos, defendia que os destinos do país deveriam passar para as mãos de Anna Petrovna, uma das filhas do czar Pedro, o Grande. Mas Alexandre Menchikov tinha planos faraónicos: casar a sua filha Maria com o príncipe Pedro, neto do czar Pedro I, fazendo com que a avó deixasse em testamento o trono ao seu neto.
E assim aconteceu. Catarina I assina o testamento onde nomeia o príncipe Pedro seu sucessor e lhe ordena casar-se com Maria Menchikova. Mas para que a combinação fosse segura, Alexandre Menchikov necessita de liquidar os seus adversários na corte russa. Com esse objectivo, consegue fazer com que a já moribunda Catarina I ordene a abertura de um processo criminal contra Vieira e outros nobres russos, acusando o português de “desrespeitar a família real”. Ao mesmo tempo, manda detê-lo (21).
O embaixador da Saxónia em São Petersburgo, Leforte, descreve assim a cena da prisão do judeu de origem portuguesa: “Um capitão da guarda foi ter com Vieira, que se encontrava nos apartamentos do palácio, e deu-lhe voz de prisão, exigindo-lhe que entregasse a espada. Vieira, fazendo de conta que entregava a espada, tirou-a da bainha com a intenção de a espetar no príncipe Menchikov, mas o golpe foi desviado”(22).
As forças e a coragem abandonaram Vieira quando ele, nos calabouços da Fortaleza de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo, foi submetido a interrogatório e torturas para denunciar os nomes dos cúmplices. Após vinte e cinco chicotadas, reconhece todos os “crimes” e, a 6 de Maio de 1727,  Catarina I, que falece nesse mesmo dia à noite,  assina um decreto que o condena à morte, mas, pouco tempo depois, outro que substitui a pena capital pelo exílio na Sibéria.
Ainda antes, a 30 de Abril, Anna Danilovna Menchikova-Vieira, envia uma carta ao irmão a pedir misericórdia para o marido: “Ouso, por causa da minha infinita dor, pedir-vos, príncipe ilustríssimo, meu pai e senhor misericordioso, por meu marido… Para que a ira da nossa czarina se transforme em misericórdia” (23). 
Mas esse grito de desespero ficou sem resposta.
Em 27 de Maio (7 de Junho) de 1727, um manifesto do novo czar e imperador russo, Pedro II, ordena “castigá-lo com o chicote  e o degredo na Região de Iakutia” (24), onde passou dez anos.
Baseando-se em informações do médico Ribeiro Sanches e do padre Tomás da Silva de Avelar, Rómulo de Carvalho escrever que António Vieira morreu no desterro siberiano.
“Aqui houve um português chamado António Manuel Luís Vieira, que foi generalíssimo primeiro no mar, e ao depois Regedor das Justiças, casou com uma irmã de um príncipe da Alemanha, há quatro anos que o dito português foi desterrado para sempre para os confins da China em Siberia por pouco fiel a Sua Megestade” – escreveu Ribeiro Sanches numa carta publicada por Rómulo de Carvalho (25).
O padre Tomás da Silva Avelar vai ainda mais longe: “O Conde Vieyra, que foi exterminado para a Siberia, onde será falecido” (26).
Mas os documentos dos arquivos russos desmentem essa versão. Em Abril de 1737, a imperatriz Anna Ioanovna (1730-1740), sobrinha de Pedro, o Grande, lembra-se de Vieira e nomeia-o comandante do Porto de Okhotsk, então em construção no Extremo Oriente da Rússia e uma das primeiras portas para o Oceano Pacífico. Não tendo perdido qualidades como a honestidade, virtude muito rara naquela altura entre os funcionários públicos russos, António Vieira volta a revelar as suas capacidades de administração: pôs fim a desvios de dinheiros e levou a bom termo a construção do porto.
Os documentos russos registaram mais dois relevantes feitos do minhoto. Foi ele que organizou a fase final da segunda expedição de Vitus Bering (1681-1741), navegador dinamarquês que, ao serviço da Rússia, descobriu o Alasca. Além disso, em 1740, António Vieira criou a primeira escola naval na Sibéria e Extremo Oriente russo, que existiu durante mais de 100 anos e foi um importante foco cultural em regiões tão remotas(27).
As notícias da obra do português desterrado iam chegando a São Petersburgo e a imperatriz e czarina Elizabete Petrovna (1741-1762), filha de Pedro, o Grande, lembrou-se de António Vieira, “que sofreu injustamente” e, em 1743, manda-o regressar da Sibéria, devolve-lhe o cargo de general-tenente, o título de conde, a Ordem de Alexandre Nevski. Além disso, a czarina ofereceu-lhe mil e oitocentos servos que, antes, tinham pertencido ao seu cunhado Alexandre, que, entretanto, vira seus bens confiscados e fora desterrado devido às exageradas ambições políticas (28).
Todavia, as honras e mercês não puderam compensar a perda de saúde de Vieira, seriamente abalada pelos frios gélidos da Sibéria, e vem a falecer dois anos após a sua reabilitação, em 27 de Julho (7 Agosto) 1745, tendo sido sepultado no Cemitério de Alexandre Nevski, em São Petersburgo, última morada para muitos dos heróis e ilustres da História da Rússia. 

António Manuel Luís Vieira foi um dos numerosos judeus portugueses que, no final do séc. XVII, fugiu à Inquisição e encontrou refúgio noutros cantos mais tolerantes da Europa. Não sendo rico e tendo perdido o pai cedo, alistou-se como grumete na marinha, não estando precisamente determinado se na inglesa ou holandesa. Mas o facto é que o czar russo Pedro I, que, em 1697, andava pela Europa para conhecer novos mundos e estudar técnicas inovadoras, apreciou o trabalho  do jovem judeu de origem portuguesa e levou-o para a Rússia, onde chegou a ocupar cargos de destaque na corte de São Petersburgo. Todavia, histórias de amor e de luta pelo poder desterrá-lo-iam para os confins da Sibéria, onde não baixou os braços, mas realizou um notável trabalho que lhe valeu a reabilitação e o respeito.
António Manuel Luís Vieira, conhecido na Rússia por Антон Мануилович Девиер ou Дивьеръ (Anton Manuilovitch Devier), deu início a uma dinastia que deixou rastos importantes na História da Rússia. Prova disso é o facto de o seu nome e o nome de alguns dos seus descendentes figurarem em diferentes livros de genealogia,   dicionários biográficos e enciclopédias (1).
Porém, muitos dos episódios da sua vida continuam ainda a ser pouco claros. Por exemplo, não se sabe ao certo a data do nascimento de António Vieira. О Dicionário Enciclopédico Brockhaus e Efron (Энциклопедическии Словарь Брокгауз и Ефрон) (2) aponta a sua data de nascimento para 1682, enquanto os historiadores A. Akinchin e T. Litvinova   falam do ano de 1673 (3).  A data mais provável parece ser a primeira, visto que em 1697, quando se dá o primeiro encontro entre o judeu de origem portuguesa e o czar Pedro o Grande, Vieira, como iremos ver mais à frente, era ainda muito jovem.
Quanto à terra natal de António Vieira, os únicos dados que conseguimos detectar sobre a sua origem encontra-se numa fonte portuguesa e revela-nos apenas a província onde nasceu: o Minho (4).
Porém, no livro A linhagem dos Menchikov na História da Rússia (Род Меншиковых в Истории России)  , os autores afirmam que “António Vieira tinha origem numa antiga linhagem espanhola de Iehaiil ben-Dodas de Vieira e era filho de um armeiro português, o judeu Ariel filho de Saul ben David”(5).
Há também polémica quanto ao país onde o judeu português se encontrou pela primeira vez com Pedro I da Rússia. Não há dúvidas que esse encontro ocorreu em 1697, durante a viagem que o czar russo realizou a vários países da Europa. Porém, se a  historiografia russa é unânime a afirmar que esse país é a Holanda (6), o Abade Tomás da Silva, que conheceu pessoalmente Vieira durante a sua visita à Rússia, afirma que se tratava da Inglaterra (7).
Uma coisa é certa, António Vieira chegou à Rússia e começou a fazer uma brilhante carreira. Em 27 de Maio de 1718, o português é promovido  a brigadeiro e nomeado general-chefe da polícia de São Petersburgo, nova capital russa que começou a ser construída por Pedro, o Grande, em 1703, nas costas do Mar Báltico. No decreto de nomeação, o czar justifica a criação deste cargo com a necessidade de “impor melhor ordem”  e “para que ninguém se justifique com o facto de não  conhecer a lei”(8).
Além disso, Pedro o Grande fez publicar mais um decreto “Instruções para o general-chefe da polícia”(9), onde define o grande número de tarefas de que António Vieira é incumbido: executar a direcção-geral das obras de construção da cidade; promover obras de consolidação das margens dos numerosos braços do delta do rio Neva; tratar da iluminação e limpeza da nova capital; controlar o abastecimento de produtos alimentares e seus preços; formar equipas de bombeiros; pôr fim à devassidão e parasitismo.  Numa palavra, gerir uma cidade em construção com cerca de 35 mil habitantes.
Vieira realizava com mão de ferro as instruções do czar russo. Por exemplo, se alguém fosse apanhado três vezes a vender produtos de má qualidade, era condenado à morte. Segundo testemunhas da época, “Vieira fazia, pessoalmente, revistas diárias à sua cidade e era tão severo que só o seu nome impunha    respeito e medo nas ruas de São Petersburgo”(10)
António Vieira devia também organizar a vida social e cultural da alta sociedade da nova capital russa. Para isso, faz publicar, no mesmo ano de 1718, o decreto “Sobre as Assembleias” (11) , documento que regulamenta a realização de reuniões da alta sociedade russa.
Segundo os três pontos desse documento, as assembleias, que se realizavam nos palácios dos nobres residentes em São Petersburgo,  não podiam ter início   antes das quatro ou cinco da tarde e deviam terminar antes da meia-noite; os donos da casa onde se realizavam as reuniões, não deviam “nem receber, nem acompanhar, nem servir as visitas, mas apenas pôr  à disposição algumas salas, mesas, velas, bebidas para matar a sede”; “além das salas e bebidas, os donos da casa deviam preocupar-se com a música”.
Durante essas assembleias, onde Pedro, o Grande, era um hóspede frequente, dançava-se, trocava-se informações, jogava-se às cartas, etc. Se alguém violava algum dos pontos previstos na ordem de Vieira, por exemplo, ficava sem dama para dançar, era castigado e obrigado a beber de um gole uma “águia”, enorme taça de vinho onde estava gravado o escudo imperial.
António Vieira, já depois da morte de Pedro I, é encarregado de resolver  uma questão diplomática melindrosa na  Curlândia, um dos muitos minúsculos estados alemães que estavam na orbita russa. Nos finais de 1726, o já  major-general Vieira é enviado à Curlândia a fim de realizar uma missão secreta: “Deve, secretamente, determinar quais os curliandeses que querem a união da Curlândia com a Polónia e quais não desejam tal coisa, quais olham com bons olhos para a Rússia e exigem a sua protecção”(12).
No dia 10 (21) de Janeiro de 1727, Vieira aconselha Catarina I, esposa e sucessora de Pedro I à frente dos destinos da Rússia, que aposte no conde Maurício da Saxónia, um dos pretendentes ao trono da Curlândia: “Ontem, consegui encontrar-me secretamente com o senhor Maurício e, pelo que me consegui aperceber, ele   deseja fortemente ficar sob a protecção de Vossa Alteza e  confia plenamente na Vossa vontade” (13).
Os senhores da Rússia compensavam abundantemente os bons serviços prestados por António Vieira. Em 6 (17) de Janeiro de 1725, Pedro o Grande concede-lhe o título de “Cavaleiro da Ordem de Alexandre Nevski”, a mais alta condecoração russa da época. Em 18 (29) de Fevereiro de 1726, Catarina I fez dele senador e conde (14). Isto tornava-o num dos homens mais fortes da corte de São Petersburgo, colocou-os entre aqueles políticos russos que ajudaram Pedro I a reformar o seu país e que, por isso, entraram na história como “as crias do ninho de Pedro, o Grande”.
Mas Vieira tinha um sério adversário inimigo entre as ditas “crias”: o príncipe (15) Alexandre Menchikov. Segundo uma das lendas que corriam sobre este estadista russo,  ele teria sido um simples vendedor de bolos que o czar Pedro notára e levára para a corte. Segundo outra, seria filho de um dos muitos criados da estrebaria do Kremlin, palácio onde habitava a família real russa em Moscovo. Seja como for, as qualidades naturais deste russo do povo levaram-no a fazer uma carreira brilhante nos corredores do poder.
Sendo António Vieira judeu, povo visto com maus olhos e desconfiança também em terras russas (16), precisava de um bom casamento para se integrar na alta sociedade de São Petersburgo. E, ironia do destino, “pôs o olho” em Anna Danilovna Menchikova, irmã mais nova de Alexandre, que “se apaixonara loucamente pelo belo português”(17).
Isto não estava nos planos de Menchikov, que pensara mesmo casar a sua irmã com o czar Pedro I, a fim de reforçar o seu poder. Para isso, Alexandre decide elevar o nível cultural e intelectual da irmã e escreve à sua esposa: “ Por Deus - Daria Mikhailovna – obriga a minha irmã para que estude russo e alemão, a fim de que não passe o tempo em vão” (18). 
Porém, em 1709, Alexandre Menchikov vê-se coagido a autorizar o casamento da jovem com António Vieira. Quando o português apareceu em casa dos Menchikov para pedir a mão de Anna, talvez já soubesse da posição de Alexandre face a esse casamento, tanto mais que, nos salões de São Petersburgo, já se comentava muito as relações íntimas de António e Anna. Por isso, o português preveniu o irmão da noiva que, caso fosse negado o seu pedido, a jovem russa daria à luz um filho que não iria ter pai. O príncipe Alexandre ficou tão irado com a desfaçatez do português que o mandou chicotear por criados seus.
Tendo escapado por um milagre à “justiça” dos Menchikov, António Vieira corre a pedir a intervenção do próprio czar Pedro, que se coloca do lado do português e ordena o casamento entre António e Anna. Desta vez, Vieira ganhou, mas Alexandre não se esqueceu da afronta e vinga-se mais tarde (19).
Porém, antes ainda da vingança, quando as relações entre Pedro, o Grande, e Alexandre são tensas (1722-1723), existindo a ameaça real de o príncipe Menchikov cair em desgraça, este tenta recorrer aos serviços de Vieira para que o mantenha informado das intenções do monarca russo em relação à sua pessoa. Quando nasce o primeiro filho de António Vieira, que recebe o nome de Alexandre em honra do tio, este envia cordiais felicitações ao cunhado: “Neste dia solene para Vós e toda a vossa família, envio desejos de boa saúde para Vós e o vosso recém-nascido, nosso querido sobrinho”(20).
O momento da desforra chegou quando a czarina Catarina I, esposa e sucessora de Pedro, o Grande, no trono russo, se encontra no leito da morte e ainda estava por definir o seu sucessor à frente dos destinos do Império Russo. O conde Vieira, bem como alguns nobres russos, defendia que os destinos do país deveriam passar para as mãos de Anna Petrovna, uma das filhas do czar Pedro, o Grande. Mas Alexandre Menchikov tinha planos faraónicos: casar a sua filha Maria com o príncipe Pedro, neto do czar Pedro I, fazendo com que a avó deixasse em testamento o trono ao seu neto.
E assim aconteceu. Catarina I assina o testamento onde nomeia o príncipe Pedro seu sucessor e lhe ordena casar-se com Maria Menchikova. Mas para que a combinação fosse segura, Alexandre Menchikov necessita de liquidar os seus adversários na corte russa. Com esse objectivo, consegue fazer com que a já moribunda Catarina I ordene a abertura de um processo criminal contra Vieira e outros nobres russos, acusando o português de “desrespeitar a família real”. Ao mesmo tempo, manda detê-lo (21).
O embaixador da Saxónia em São Petersburgo, Leforte, descreve assim a cena da prisão do judeu de origem portuguesa: “Um capitão da guarda foi ter com Vieira, que se encontrava nos apartamentos do palácio, e deu-lhe voz de prisão, exigindo-lhe que entregasse a espada. Vieira, fazendo de conta que entregava a espada, tirou-a da bainha com a intenção de a espetar no príncipe Menchikov, mas o golpe foi desviado”(22).
As forças e a coragem abandonaram Vieira quando ele, nos calabouços da Fortaleza de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo, foi submetido a interrogatório e torturas para denunciar os nomes dos cúmplices. Após vinte e cinco chicotadas, reconhece todos os “crimes” e, a 6 de Maio de 1727,  Catarina I, que falece nesse mesmo dia à noite,  assina um decreto que o condena à morte, mas, pouco tempo depois, outro que substitui a pena capital pelo exílio na Sibéria.
Ainda antes, a 30 de Abril, Anna Danilovna Menchikova-Vieira, envia uma carta ao irmão a pedir misericórdia para o marido: “Ouso, por causa da minha infinita dor, pedir-vos, príncipe ilustríssimo, meu pai e senhor misericordioso, por meu marido… Para que a ira da nossa czarina se transforme em misericórdia” (23). 
Mas esse grito de desespero ficou sem resposta.
Em 27 de Maio (7 de Junho) de 1727, um manifesto do novo czar e imperador russo, Pedro II, ordena “castigá-lo com o chicote  e o degredo na Região de Iakutia” (24), onde passou dez anos.
Baseando-se em informações do médico Ribeiro Sanches e do padre Tomás da Silva de Avelar, Rómulo de Carvalho escrever que António Vieira morreu no desterro siberiano.
“Aqui houve um português chamado António Manuel Luís Vieira, que foi generalíssimo primeiro no mar, e ao depois Regedor das Justiças, casou com uma irmã de um príncipe da Alemanha, há quatro anos que o dito português foi desterrado para sempre para os confins da China em Siberia por pouco fiel a Sua Megestade” – escreveu Ribeiro Sanches numa carta publicada por Rómulo de Carvalho (25).
O padre Tomás da Silva Avelar vai ainda mais longe: “O Conde Vieyra, que foi exterminado para a Siberia, onde será falecido” (26).
Mas os documentos dos arquivos russos desmentem essa versão. Em Abril de 1737, a imperatriz Anna Ioanovna (1730-1740), sobrinha de Pedro, o Grande, lembra-se de Vieira e nomeia-o comandante do Porto de Okhotsk, então em construção no Extremo Oriente da Rússia e uma das primeiras portas para o Oceano Pacífico. Não tendo perdido qualidades como a honestidade, virtude muito rara naquela altura entre os funcionários públicos russos, António Vieira volta a revelar as suas capacidades de administração: pôs fim a desvios de dinheiros e levou a bom termo a construção do porto.
Os documentos russos registaram mais dois relevantes feitos do minhoto. Foi ele que organizou a fase final da segunda expedição de Vitus Bering (1681-1741), navegador dinamarquês que, ao serviço da Rússia, descobriu o Alasca. Além disso, em 1740, António Vieira criou a primeira escola naval na Sibéria e Extremo Oriente russo, que existiu durante mais de 100 anos e foi um importante foco cultural em regiões tão remotas(27).
As notícias da obra do português desterrado iam chegando a São Petersburgo e a imperatriz e czarina Elizabete Petrovna (1741-1762), filha de Pedro, o Grande, lembrou-se de António Vieira, “que sofreu injustamente” e, em 1743, manda-o regressar da Sibéria, devolve-lhe o cargo de general-tenente, o título de conde, a Ordem de Alexandre Nevski. Além disso, a czarina ofereceu-lhe mil e oitocentos servos que, antes, tinham pertencido ao seu cunhado Alexandre, que, entretanto, vira seus bens confiscados e fora desterrado devido às exageradas ambições políticas (28).

Todavia, as honras e mercês não puderam compensar a perda de saúde de Vieira, seriamente abalada pelos frios gélidos da Sibéria, e vem a falecer dois anos após a sua reabilitação, em 27 de Julho (7 Agosto) 1745, tendo sido sepultado no Cemitério de Alexandre Nevski, em São Petersburgo, última morada para muitos dos heróis e ilustres da História da Rússia. 

P.S. Se quiserem ler sobre mais judeus que se tornaram famosos na Rússia, podem ler o livro: "A Saga dos Portugueses na Rússia", ed. INCM, 2010

12 comentários:

Anónimo disse...


Sem dúvida, a Rússia ganhou muito com o judeus revolucionários de outubro de 1917. Olha que bela porcaria eles contribuem para o grande pais.
Milhões de mortos.

Mesmo que haja um que é honesto e faz qualquer coisa de jeito nunca compensa as judiarias que eles cometem por onde metem as patas.

Os EUA estão completamente dominados por essa gente. 98% da imprensa é deles. 100% da banca é deles. Hollywood é controlado por eles.

Livra.....




Anónimo disse...

È bom para Portugal ter expulso esses parasitos.
Viva a santa inquisição!!
A nossa geração em 2013 tem de continuar o trabalho.

Pippo disse...

JM, nem acredita como é extremamente instrutivo e salutar ler estas peças “desconhecidas” da História. Nunca havia imaginado que um português, para mais judeu, tivesse alcançado tamanhos postos na administração e aristocracia russa!

É uma infelicidade que ele tenha sofrido as injustiças que sofreu, mas muito pior sorte sofreu um seu quase contemporâneo, herói português da Guerra da Restauração, o capitão Jácome de Melo Pereira, fidalgo e membro da Ordem de Cristo, distinto capitão de cavalaria, com uma longa e brilhante folha de serviços, que seria preso pela Inquisição em 1665, acusado de judaísmo, e mais tarde executado na fogueira em Évora.

Anónimo disse...

Senhor José Milhazes gostaria de ver um artigo seu acerca dos famosos Protocolos dos Sábios de Sião que surgiram na Rússia. Só para completar o que um anónimo disse, sobre 98% a imprensa dos EUA. A imprensa estadunidense é quase toda esquerdista/progressista. O único canal de direita conservador é a Fox News e actualmente o pessoal da Arábia Saudita comprou uma porção das acções da Fox News. Nos EUA os conservadores têm o rádio e os neocomunistas/progressistas/socialistas têm a hegemonia cultural nas universidades, na TV, nos Jornais, em Hollywood até. Muitos deles enriqueceram com propaganda socialista como Michael Moore. O próprio Barack Hussein Obama é suspeito e na Rússia cerca de 50 milhões de pessoas que assistem a um show que dizem ser o Rush Limbaugh da Rússia, sabem que os documentos de nascimento de Obama são falsos. Obama é um radicalista de esquerda, discípulo de Saul Alisnky o escritor do livro "Regras para Radicais" o qual o dedica a satanás (está escrito no prefácio do livro). Mas em Portugal isso ainda nem sequer chegou...

José Milhazes disse...

Anónimo, eu considero o livro Sábios de Sião uma falsificação, por isso não escrevo sobre um tema a propósito do qual correram mares de tinta.

Anónimo disse...


"eu considero o livro Sábios de Sião uma falsificação"

Sempre a mesma falinha.

É uma falsificação mas o que está lá escrito tem acontecido e está a acontecer.
Como explica isso Milhazes?

Qual seria a intenção alguém, só para difamar os judeus, escrever uma coisa tão profética e tão estruturada?

Falsificação é a porcaria que escreveram sobre a II Guerra mundial e sobretudo sobre o Holoconto. Isso sim é a maior falsidade de todos os tempos.

Porque razão a imprensa judia andava a falar em 6 milhões em vários anos antes de Hitler ter chegado ao poder?

E porque razão falam em 6 milhões quando o relatório da cruz vermelha apontava para 270 mil, e de várias etnias?


José Milhazes disse...

Anónimo, esconde o seu nome porque tem vergonha das idiotices que diz? Antes de se deitar, olhe para debaixo da cama e veja se não está lá um judeu com um punhal pronto para o enviar para o outro mundo. Ah, pode recorrer a um psiquiatra, mas cuidado pois pode ser um judeu disfarçado.

Anónimo disse...

Senhor José Milhazes, eu também não acredito muito nessa história, porém acredito que alguém usa semelhante estratégia e esse livro serviu-me como abre-olhos, mas como dizem que os protocolos vêm da Rússia pensei que soubesse um pouco mais que eu a respeito disso.

Falsificar o "Holoconto"? Por amor de Deus, você pega nos livros dos nacional-socialistas que fugiram da alemanha quando começaram a duvidar do sistema que eles apoiavam e leia o que eles escreveram. Um deles até dou o nome Hermann Rauschning, que escreveu o livro "Warning to the West". No inicio as pessoas da europa também pensavam que os judeus estavam a mentir, que era tudo teoria da conspiração e que ninguém morria na "naziland" só quando houve um maior barulho é que as pessoas acreditaram. Alguns judeus mentiam, não por não terem sido ameaçados, mas por terem ficados de tal maneira traumatizados com a experiência que transformaram Hitler num demónio e pensavam de maneira histérica. Contudo imagino que haja muita coisa em branco acerca do que se passou na "naziland", e porque é que cientistas deles foram levados para os EUA, quem é que os levou, quem é que foram os banqueiros que financiaram não só o Hitler mas também Stalin e Mao-Tsé Tung etc.

Fernanda disse...

que comentarios tão estupidos sobre o holocausto, porque não vão visitar os campos de concentração, os documentos oficiais, os museus antes de falarem? porqê em pleno sec. xxi se continua a negar a historia? SErá que D. Afonso Henriques fundou a Holanda? Será que Pedro Alvares Cabral foi o arquitecto do Cristo Rei em Almada?

Carlos Gomes disse...

Tenho lido desde há vários anos em diversas fontes informações dispersas segundo as quais José Vissaniorovich Djugachvili (Estaline) terá sido descendente de judeus portugueses que se haviam refugiado em Diu, fugidos à Inquisição. E, daí terão deslocado-se para oriente rumo à Geórgia.
Curiosamente, Iveria que também deu o nome a um dos seus poemas de juventude, alude provavelmente às suas origens que ele situaria algures na Ibéria (Peninsula Ibérica).
A corroborar esta tese, o seu apelido significará "Filho de Diu) atendendo a que o j em cirílico corresponde ao i. Segundo outros, significará "Filho de Judeu".
O que pode acrescentar acerca do assunto?
Muito obrigado!
Carlos Gomes

José Milhazes disse...

Carlos Gomes, nunca li nada sobre essa tese acho-a muito estranha e pouco fundamentada.A Geórgia não fica a oriente de Diu, mas a noroeste.
O poema é Ivéria, um dos nomes míticos da Geórgia, mas é insufiente para sustentar essa tese.

Anónimo disse...

Estimado Sr. Jose,
У Вас,по-моему ,самое фундаментальное иследование об этом человеке из тех,которые я уже читал.Спасибо Огромное за Ваш труд.

1)Сохранилась ли могила Antón Devier?Если да,то есть ли где-либо ее фотография?

2)Исследовал ли кто-либо генеалогию семьи Antón Devier?

Alexander Burbelo