sexta-feira, março 07, 2014

Rússia nada tem a ver com situação na Ucrânia


Pelo menos esta não foi de farda verde

Por vezes, fico com a impressão de que regressei à era soviética e estou a ler os jornais Pravda e Izvestia e lembro-me da velha anedota soviética de que “Pravda (Verdade) não há no Izvestia (Notícias), nem Izvestia no Pravda”.
Digo isto a propósito das declarações que hoje foram feitas por Dmitri Peskov num programa de televisão “Domingo à Noite com Vladimir Soloviov” que é um expoente máximo da propaganda soviética, misturada com as novas tecnologias e técnicas de markting.
Neste talk-show, Peskov, porta-voz de Vladimir Putin, afirma que a Rússia nada tem a ver com os acontecimentos das últimas semanas na Ucrânia e que estes têm origem em “processos ucranianos internos”.
“O que se passa no Leste (da Ucrânia) e na Crimeia nada tem a ver com a Federação da Rússia”, disse ele, acrescentando: “não se trata de processos artificiais e muito menos processos provocados por acções da Rússia. Bem pelo contrário, a Rússia é um país a quem pedem ajuda”, acrescentou.
Bem, esta história da Rússia vir em ajuda de quem a pede faz-me lembrar a história que nós oficialmente aprendíamos na Universidade de Moscovo na era comunista. Segundo ela, todos os povos que faziam parte da URSS tinham aderido voluntariamente ao Império Russo ou à URSS: fosse no Cáucaso, na Crimeia, na Ásia Central, etc.
Porém, os professores tinham dificuldade em compatibilizar essa tese com outra tese de Vladimir Lénine, fundador da Rússia comunista, de que “O Império Russo é a prisão dos povos”. Cada um que tirasse as conclusões, mas que não tivesse a infeliz ideia de ir dizer para o exame que os ditos povos foram para a prisão voluntariamente.
O próprio Peskov cai no mesmo erro da propaganda soviética, pois o que ele disse entra contradição com que o seu chefe diz em público e que o porta-voz cita: “E como correctamente diz Putin (outra fórmula muito familiar aos que conheceram a URSS), a Rússia é um país que em caso algum deixa esses processos sem atenção. Mas a génese desses processos está no interior da Ucrânia”.
Afinal em que ficamos, será que o papel da Rússia em relação à Ucrânia é o mesmo que o da Jugoslávia em relação ao COMECOM (mercado comum comunista), que, tal como os testículos, participava, mas não entrava. (Peço desculpa por esta tirada pouco convencional, mas é difícil encontrar paralelos normais).
Mas, verdade seja dita, não posso deixar de estar de acordo com Dmitri Peskov quando afirma que Ocidente segue uma política de “duplos padrões”, “cínica”, etc. Mas o Kremlin, pelos vistos, é um exemplo de virtudes. Peskov, por exemplo, indigna-se com o facto de o Ocidente ter “absolutamente recusado a parte do povo ucraniano o direito à autodeterminação, a decisões legítimas, o direito a empreender acções com vista a defender a própria dignidade e segurança”.
As centenas de milhares de homens, mulheres e crianças tchetchenas chacinadas nos anos 90 foram privadas pelo Kremlin não só desse direito, mas da vida. Os que justificam carnifarias destas afirmam que isso foi feito para “defender a integridade territorial da Rússia” e “travar o avanço do radicalismo islâmico”, ou seja, uns povos têm direito à “autodeterminação” e outros não. Quanto ao radicalismo islâmico, é de recordar que o movimento autonomista tchetcheno era, inicialmente, laico e se Moscovo tivesse dialogado com os seus primeiros dirigentes, talvez o conflito não tivesse chegado onde chegou. Mas, em história, não há “ses”.
Pode é repetir-se e, dentro de algum tempo, os tártaros do Volga ou outros povos da Rússia podem começar a pedir mais autonomia e independência. Os terroristas do Cáucaso do Norte também não deverão querer depor as armas e resignar-se a viver na Rússia. Ou, quem sabe, os milhões de chineses que vivem na Sibéria e Extremo Oriente russo sentirem-se “ofendidos” e “humilhados” e pedirem ajuda ao governo de Pequim.
Podem dizer-me que é impossível? Eu não seria tão peremptório, porque, do lado do Ocidente, prometeram-nos o “fim da história” (a propósito saudado euforicamente por muitos intelectuais e jornalistas da nossa praça) nos finais dos 1980 e rapidamente vimos que a história era outra, ou mais precisamente, era a continuação da mesma história: o mais forte pode e manda. Do lado da Rússia, os dirigentes do Kremlin teimam em repetir erros do passado: querem meter-se em todas e depois não aguentam a pedalada.

Por isso, vou guardar religiosamente este texto no meu arquivo, pode servir-me mais vezes.

35 comentários:

PortugueseMan disse...

os dirigentes do Kremlin teimam em repetir erros do passado: querem meter-se em todas e depois não aguentam a pedalada.

Quais todas meu caro?

Onde é que o Kremlin se meteu e que não tenha aguentado a pedalada?

PortugueseMan disse...

...esta história da Rússia vir em ajuda de quem a pede...

... Parece-me igual à história de pedirem ajuda à UE/NATO.

Uns querem os russos outros querem a UE/NATO.

Não vale a pena ir mais longe na história, o presente diz-nos tudo.

José Milhazes disse...

Caro PM, você faz-me lembrar aqueles que, na era comunista, consideravam que a URSS era inabalável e o futuro radioso da humanidade: Transdnistria, Nagorno-Karabakh, Osséia do Sul, Abkházia, Tchetchénia, Crimeia e vamos esperar o resto. Por exemplo, se os americanos e a NATO deixarem o Afeganistão.

José Milhazes disse...

Caro PM, se você tiver um vizinho logo vai-se comportar como ele?

PortugueseMan disse...

As centenas de milhares de homens, mulheres e crianças tchetchenas chacinadas nos anos 90 foram privadas pelo Kremlin não só desse direito, mas da vida. Os que justificam carnifarias destas afirmam que isso foi feito para “defender a integridade territorial da Rússia” e “travar o avanço do radicalismo islâmico”, ou seja, uns povos têm direito à “autodeterminação” e outros não.

Exactamente, esta é a nossa realidade.

Quem quer autodeterminação tem que lutar por ela.

E como em todos os casos existem 2 lados, ambos podem recuar, algum recuou?

Não.

Mas eu também já o disse aqui a si, a Rússia não podia, NEM VAI, recuar naquela zona.

Portanto quem vai lutar contra um grande oponente, tem que saber e pesar o mal que vai fazer à sua gente.

A Ucrânia pode transformar-se num palco de batalha entre NATO e Rússia, mas não vai ser a Rússia nem os EUA que vão ser bombardeados. vão ser os ucranianos. eles também vão ter que pensar até ondem querem ir.

Porque a Rússia, não vai permitir a NATO ali, a Rússia não vai permitir ali o sistema anti-míssil (o tal que parece que é contra o Irão...).

A Ucrânia arrisca-se a transformar no que é hoje a Síria.

PortugueseMan disse...

Mas os americanos vão sair do Afeganistão, essa é uma realidade.

E a Rússia terá que lidar com isso.

Não me diga que são os americanos que estão a impedir um ataque afegão aos russos...

lamento meu caro, mas por mais que escreva no seu blogue, que a Rússia não tem pedalada, que não tem economia, o facto é que a tem.

E você não consegue remar contra a maré dos factos ...

Você diz que o rublo está a perder força.

- e depois?

você há anos que fala aqui sobre a fraqueza da economia.

- Já lhe pedi para me mostrar quando é que esteve mais forte do que hoje

Que as forças armadas estão na miséria.

- Porque não escreve sobre tudo o que tem saido em termos militares?

Criticou o GLONASS

Criticou a qualidade dos sistemas espaciais.

Criticou os esforços de relançar a indústria aeronáutica

Você CRITICA tudo. Tudo o que é russo é mau. Estes não podem ter interesses. Outros podem ter interesses espalhados pelo o globo a Rússia não pode ter à porta de casa.

Quem você me faz lembrar? alguém que se recusa a ver a realidade, mesmo esta estando à frente dos seus olhos.

PortugueseMan disse...

Caro PM, se você tiver um vizinho logo vai-se comportar como ele?

Concerteza.

Ele trata das suas coisas, eu trato das minhas.

E se ele entrar no meu quintal, vamos ter chatices.

E tenho a certeza que ele faria o mesmo, caso eu fosse para o quintal dele.

Amigos, Amigos, quintais à parte.

Fernando Negro disse...

Os americanos não vão sair do Afeganistão. Pelo menos, não no futuro próximo.

Pois, têm lá 13 bases militares secretas, a partir das quais planeiam atacar a Rússia.

http://www.youtube.com/watch?v=UN9eiicrm8M#t=2m33s

E, não foram construir tudo aquilo para nada e para agora simplesmente entregá-las aos afegãos.

Luiz Martins disse...

muito bom!
parabéns pelo texto, José!

PortugueseMan disse...

Gazprom Threatens Ukraine Supplies Over Late Payment

Gazprom said Friday it may suspend gas supply to Ukraine after Kiev failed to pay for February deliveries, but Russia's gas monopoly said it will continue transit shipments to Europe...


http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702304554004579425012387900666?mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB10001424052702304554004579425012387900666.html

Ora, onde é que nós já vimos isto?
A Ucrânia está a perder integridade territorial e ainda tem que pagar à Rússia.

E agora?

Não paga? não paga não tem gás. A não ser que desvie de novo o gás que é para a Europa.

Portanto a Europa (NÓS) que pague rápidamente a dívida, ou coloque inspectores para ver quem REALMENTE desvia o gás...

Como é que os ucranianos se foram enfiar num buraco destes.

Será que não são capazes de perceber que ENQUANTO estiverem dependentes de outros, não podem ir contra eles?

Agora há pouco a fazer.

JMAST disse...


PortugueseMan, muito bem, concordo com tudo o que diz.

PortugueseMan disse...

Um artigo da CNN.

http://edition.cnn.com/2014/03/07/opinion/putin-western-hypocrosy/index.html?hpt=hp_c1

Pippo disse...

JM, vá aqui criticou "ad nauseam" as "aventuras" russas e sempre pressagiou resultados funestos.

Também aqui nega sempre à Rússia a possibilidade desta intervir no mundo que a rodeia, devendo sempre (no seu entender) cingir-se ao Direito Internacional.

Qual é a parte, que lhe parece esta a escapar, de que o Direito Internacional é uma coisa vaga que só é válida para quem não tem poder?
Qual é a parte, que parece estar isenta de críticas, de que os maiores países, e que são os mais acérrimos adversários da Rússia, se estão a borrifar para as normas internacionais, para a "integridade territorial dos Estados", para os "Direitos Humanos", etc.?

Já ouviu falar do Kosovo?
Já ouviu falar do Iraque?
Já ouviu falar de Guantánamo?

A Guerra no Afeganistão é legal ou ilegal? E os ataques norte-americanos ao Paquistão, Iémen, Somália, etc., são legais ou ilegais?

Porquê esta constante duplicidade de valores, em que os russos NÃO PODEM FAZER o que os outros fazem, impunemente, há anos?

Os russos têm algum estatuto de menoridade? São inferiores? Devem ser humildes, subservientes e fracos?

Não entendo, sinceramente.

José Milhazes disse...

Caro Pippo, pelas perguntas que me faz, é evidente que não lê com atenção o que escrevo.

Noé Rocha disse...

Alguem explica a um ignorante como eu (sim, admito alguma ignorancia nestes assuntos), porque toda a gente se assusta com a expansão Russa, quando tudo o que eu vejo a expandir é a UE e bases militares dos EUA ou NATO, etc, que se formam como cogumelos...porque raio precisa tanto de bases militares e defesas anti-missil por tudo quanto é lado ? Quem é que não consegue dormir com tantos pesadelos com martelos e foices ??

Dias atras, uma minitra Lituana do parlamento europeu (penso) disse - "a seguir vai ser a Moldávia.." como é possivel toldar a cabeça da pessoas com estas afirmações irresponsáveis.

Nojo de sociedade.

João Pedro disse...

Caro Pippo, parece-me que o facto de negar a preferir o uso da força ao do Direito Internacional tem a ver com algum desconhecimento que tem deste.

"Guerra no Afeganistão é legal ou ilegal?"

É legal, porque resultou de um ataque armado feito ao território dos EUA por uma organização sediada no Afeganistão, com protecção do governo local (que só era reconhecido por dois países), e que aliás não negou nada. Os EUA podiam automaticamente responder, mas ainda esperou pelo aval da ONU. Não lhe faltava legalidade nem legitimidade.


"E os ataques norte-americanos ao Paquistão, Iémen, Somália, etc., são legais ou ilegais?"

Onde é que os americanos atacaram a Somália? Intervieram lá integrados numa força da ONU, a UNOSOM, que contava também com paquistaneses, para controlar a situação, que era de anarquia total, uma guerra civil entre senhores da guerra locais (e não foram muito eficazes na missão, diga-se de passagem).

E se a Rússia, quando se deixar de conversa fiada, porque estas negações não convencem ninguém, assumir a ocupação da Crimeia com o pretexto de que "ouviu o apelo de auxílio do seu povo" e o justificar com o caso do Kosovo? É um péssimo precedente, é certo, provavelmente perigoso e inútil, porque só vexou os sérvios criando uma segunda Albânia, mas se for esse o caso, reconhecerá a Rússia a independência do Kosovo, abandonando os habituais laços com a Sèrvia?

João Pedro disse...

Caro Pippo, parece-me que o facto de negar a preferir o uso da força ao do Direito Internacional tem a ver com algum desconhecimento que tem deste.

"Guerra no Afeganistão é legal ou ilegal?"

É legal, porque resultou de um ataque armado feito ao território dos EUA por uma organização sediada no Afeganistão, com protecção do governo local (que só era reconhecido por dois países), e que aliás não negou nada. Os EUA podiam automaticamente responder, mas ainda esperou pelo aval da ONU. Não lhe faltava legalidade nem legitimidade.


"E os ataques norte-americanos ao Paquistão, Iémen, Somália, etc., são legais ou ilegais?"

Onde é que os americanos atacaram a Somália? Intervieram lá integrados numa força da ONU, a UNOSOM, que contava também com paquistaneses, para controlar a situação, que era de anarquia total, uma guerra civil entre senhores da guerra locais (e não foram muito eficazes na missão, diga-se de passagem).

E se a Rússia, quando se deixar de conversa fiada, porque estas negações não convencem ninguém, assumir a ocupação da Crimeia com o pretexto de que "ouviu o apelo de auxílio do seu povo" e o justificar com o caso do Kosovo? É um péssimo precedente, é certo, provavelmente perigoso e inútil, porque só vexou os sérvios criando uma segunda Albânia, mas se for esse o caso, reconhecerá a Rússia a independência do Kosovo, abandonando os habituais laços com a Sèrvia?

João Pedro disse...

Caro Pippo, dá tanta primazia ao uso da força sobre o Direito Internacional que pareça desconhecê-lo?

"A Guerra no Afeganistão é legal ou ilegal?"

É legal porque os EUA intervieram depois de um ataque armado ao seu território por um grupo sediado no Afeganistão e protegido pelo governo local (que aliás era só reconhecido por dois países), que aliás nunca negou nada. Os americanos podiam intervir automaticamente, segundo a Carta das Nações unidas, mas ainda pediram autorização ao Conselho de Segurança.

"E os ataques norte-americanos ao Paquistão, Iémen, Somália, etc., são legais ou ilegais?"

Ataque à Somália? Não estará a confundir com a participação dos EUA na força de intervenção da ONU para pacificar o território, que vivia em total anarquia dividido por senhores da guerra locais (missão aliás com pouco êxito)? Acho que nem é preciso responder.

E se a Rússia, quando se deixar de conversa fiada que não convence ninguém, ocupar militarmente a Crimeia para "acudir ao apelo de auxílio" dos russos ou falantes de russo que aí vivem? Justificar-se-á com o exemplo do Kosovo? É certo que este é um mau precedente, além de que criar uma segunda Albânia é perigoso e inútil, mas se os russos forem por aí, vão reconhecer a independência kosovar, abandonando assim os tradicionais laços com a Sérvia?

Fernando Negro disse...

Mas, realmente... Vou ter de me informar a fundo sobre esta questão da Chechénia...

Pois, apesar de ter sabido, entretanto, que houve um referendo e uma eleição presidencial em que ganhou a opção pró-independentista, do que leio na Wikipedia, o primeiro é descrito como "controverso" e a segunda foi realizada "sob a égide" da OSCE, quando estava o bêbado-fantoche Ieltsin no poder (o que não me inspira muita confiança).

Alguém aqui que seja honesto e que saiba de fontes independentes (não pró-russas, nem pró-ocidentais) que expliquem o que se passou neste território, se souber de boas fontes sobre este assunto, por favor deixe-as aqui.

José Corvo disse...

Mas o que aconteceu ao Milhazes para ser tão anti-soviético?
Foi mal tratado?
Tem filosoficamente ideias contrárias a realização de uma sociedade mais justa e mais virada para o liberalismo económico?
Eu estou convencido que a era soviética não desapareceu, antes se aperfeiçoou.
A dialéctica da luta de classes persiste e os capitalistas só não irão arrasar a Rússia e a China se não forem capazes disso porque vontade não lhes falta.
Não concorda?

Fernando Negro disse...

Mas, sobre o que é dito na colocação, de que «o movimento autonomista tchetcheno era, inicialmente, laico»,

O que já pude ler, numa das melhores fontes que conheço, foi que, aquando do desmembramento da União Soviética, "em Grozny, as pessoas que se intitulavam democratas, até mesmo os mais radicais anticomunistas, realizavam os seus comícios sob uma bandeira verde islâmica".

http://www.larouchepub.com/eiw/public/1995/eirv22n18-19950428/eirv22n18-19950428_060-chechnya_the_russian_sicily.pdf

(E também que, os líderes desta insurgência tinham ligações políticas e comerciais a Londres. Mas, que se tratou de uma insurgência instigada pelo Ocidente, já eu sabia. E, o que me preocupa aqui, é saber se era de facto vontade de uma maioria de pessoas serem independentes.)

E, o que li nesse mesmo artigo, foi que os membros das diferentes tribos eram forçados a adoptar a posição política do líder da sua tribo. E também que os líderes das diferentes tribos eram nomeados pelas autoridades - e não eleitos. (Por isso, poderá vir daí o facto do referendo de independência ter sido considerado "controverso".)

E, o facto do primeiro movimento pró-independência ser de natureza islâmica liga-o, obviamente, ao segundo movimento pró-independência. E, tendo sido o segundo iniciado por guerrilhas fundamentalistas islâmicas, isso faz suspeitar de que não terá havido uma mudança de personalidade em tanta gente, num tão curto espaço de tempo, e que também o primeiro movimento pró-independência terá sido iniciado por fundamentalistas islâmicos.

(Mas, terei ainda de me informar melhor sobre isto...)

Antonio Cristovao disse...

A Catalunha e a Escocia querem autonomizar-se. A UE já avisou que dentroda UE não ficam. A democracia é tão linda pregada na casa dos outros!!

Pippo disse...

Caro João Pedro, a Al Qaida não tem sede, é uma organização não-estatal e transnacional, que poderia estar e qualquer ponto do mundo. O seu líder, Ossama bin Laden, estava no Afeganistão, país que não tinha qualquer governo "legítimo" mas que tinha um governo "de facto" o qual nunca tinha sido contestado até então.
O facto de um país não ter u governo reconhecido internacionalmente habilita-o a ser invadido? Se assim é, desconheço então essa norma do Direito Internacional.

Quanto à Somália, não me referia, obviamente, à intervenção de 1991 mas sim às intervenções, sem mandato, ocorridas recentemente.

Mas já que o João percebe tanto de DI, poderá então esclarecer-me quanto aos ataques efectuados no Iémen e Paquistão, bem como os realizados à Sérvia, Iraque, Líbia, ...

Foram, ou não foram, violações gravíssimas do DI?
Foram ou não foram violações muito mais graves, nomeadamente ao nível das consequências (milhares de mortos, destruição, etc.) do que a actual intervenção russa na Crimeia?

Obviamente, concordo consigo (porque não acho piada nenhuma a mentiras e conversas fiadas) de que a Rússia deveria assumir, de forma máscula, que interveio na Crimeia para proteger a população russa e para obviar a ocupação desta península pela NATO. Tout court.

E para os hipócritas que criticam e impõe sanções, perguntar-lhes-ia acerca do Kosovo, Iraque, etc..

Mas os russos têm uma diplomacia fraca e não são muito incisivos.

Fernando Negro disse...

Pippo e toda a gente que estranha as fortes críticas que faz o autor deste blogue ao governo russo,

Sendo o autor deste blogue alguém que vive na Rússia, obviamente que, é a par do que faz o governo russo que está o autor deste blogue e é nisto que se concentra a sua atenção, não? (E não do/no que fazem os diferentes governos ocidentais nos seus países - onde o autor deste blogue não vive. Tendo, no entanto, o autor também criticado estes últimos governos, quanto ao que sabe que eles fazem.)

Sendo este um blogue escrito "da Rússia", é sobre o que lá se passa que deverá ser maioritariamente o conteúdo do mesmo, não?

Queriam o quê? Que o autor deste blogue estivesse sempre a dizer mal do governo do Japão, se não é afectado pelo que faz o último?

Para nós, que estamos de fora, é fácil relativizar as coisas... Mas, para quem vive na Rússia, não deverá ser algo de muito agradável viver sob a autoridade de Putin e estar constantemente a levar com a propaganda que o seu governo emite. (Lembrem-se de que Putin, ainda que não seja tão mau para os seus súbditos, comparativamente aos líderes ocidentais, também não é nenhum "santo"...)

De críticas comparativas, entre o que faz a Rússia e o que faz o Ocidente, está a imprensa alternativa cheia, na Internet. E, não precisam de ir mais longe do que a estatal "RT" (financiada pelo governo russo) para ler e ver algumas.

A utilidade deste blogue, para mim, está em saber também os "podres" do lado russo. Pois, penso que é sempre bom saber o que de mal fazem ambos os lados, para melhor fazer uma avaliação das situações em causa e também do carácter das várias partes nelas envolvidas.

(As conclusões finais, cabe a cada um tirar/fazer as suas...)

Pippo disse...

JM, eu leio com bastante atenção o que escreve. acontece que os seus paralelismos com o Kosovo, etc., são, digamos assim, demasiado fugazes, demasiado "en passant", quando deveriam, na minha opinião, incidir muito mais neste e noutros casos parecidos.

Porque é que não compara a invasão da Crimeia à invasão do Iraque em 1993?

Porque é que não faz a pergunta "que legitimidade têm os EUA em impor sanções à Rússia, o que legitimidade tem Durão Barroso de criticar Moscovo, quando a invasão norte-americana do Iraque, com o aval do actual Presidente da Comissão Europeia, não só foi ilegal à luz do Direito Internacional como originou quase meio milhão de vítimas mortais?"

Era este tipo de questões que eu esperaria de si, e não meras referências ao Kosovo, "só para que conste".

Pippo disse...

Por falar em fardas verdes (e a menina que está na foto pode aparecer vestida - ou não - com o que ela quiser que a gente não se importa! :) ), há quem vista fardas vermelhas e esteja disposto a "combater o Tzar" na Crimeia! :)

http://www.thedailymash.co.uk/news/war/battle-re-enactors-volunteer-for-crimean-war-2014030584262

Europeísta disse...

Quem apóia isso não tem moral para citicar o Iraque.

Europeísta disse...

Nazista russo é preso na Ucrânia:

http://ucrania-mozambique.blogspot.com.br/2014/03/quem-sao-os-nazis-na-ucrania.html

Europeísta disse...

PortugueseMan,

Vc já ouviu falar em liberdade de expressão? Cada um tem o direito de criticar o que quiser. Se quer ouvir só elogios ao Putin procura a versão em portugues da Voz da Rússia ou do Pravda:

http://portuguese.ruvr.ru/
http://port.pravda.ru/

Europeísta disse...

Acho que a Chechênia deve ser um estado tipo a Bósnia: islâmico mas democrática e próximo aos EUA. Futuramente o será sem dúvida.

Dionísio Pereira disse...

"Acho que a Chechênia deve ser um estado tipo a Bósnia: islâmico mas democrática e próximo aos EUA. Futuramente o será sem dúvida"


Chiça. Ele há com cada um!!!!

Que terá este ser na tola para escrever tão prosaica prosa.

Ao menos dá para um gajo dar umas gargalhadas. Sempre houve parolos e haverá.

PortugueseMan disse...

Vc já ouviu falar em liberdade de expressão? Cada um tem o direito de criticar o que quiser.

Agradeço o esclarecimento, mas EU já SEI que tenho o direito a criticar quem e o que quiser.

E como pode ver, eu já estou a dar uso aos meus direitos.

Ricardo Break disse...

Olha muito bem eu concordo plenamente com a russia e com todas as suas acções pois tá no seu direito de "ajudar" o povo pro russo e ao mesmo tempo lucrar com os seus interesses naquela região .
Sobre equipamento militar e mesmo economia vocês devem falar de uma russia diferente que a que eu conheço .
Pois a russia tem os melhores anti mísseis , os melhores aviões de combate , os melhores submarinos e os melhores balísticos (intercontinentais) e as mais poderosas armas nucleares ! Morei quase dois anos nos estados unidos e neste momento moro na russia e desde já digo não queiram comparar o poder militar russo com nada mas pronto relacionado com a situação na Ucrânia continuo a proteger os russos Pq a ucrania não é kiev é muito mais que isso ou seja não concordo com uma integração na Europa e concordo plenamente com a intervenção militar Pq so desta maneira o raio dos americanos e europeus entendem que não são nem podem ser os donos do mundo e os que rasgam documentos e tratados internacionais e que os outros não podem fazer o mesmo !

João Pedro disse...

Caro Pippo, já vim um pouco tarde, mas em relação ao que me perguntou, o regime do Afeganistão era contestado, sim, mas obviamente a intervenção noa Afeganistão só se tornou premente a partir de 2001, pelas mesmíssimas razões que lhe expus. A Lei Internacional que lhe conferia legalidade? A Carta das Nações Unidas. A própria, nos seus capítulos VI e VII.

"Mas já que o João percebe tanto de DI, poderá então esclarecer-me quanto aos ataques efectuados no Iémen e Paquistão, bem como os realizados à Sérvia, Iraque, Líbia".

Ninguém disse que eram legais. Na Líbia havia um mandato, votado pelo conselho de Segurança, de restrição do espaço área às forças governamentais, mas que obviamente se ultrapassou.
destruição, etc.) Quanto ao caso do Kosovo, considero que havia razões de intervenção para proteger os kosovares albaneses (que não tinham propriamente bases navais a protege-los, até porque ali não há mar). A criação da Albânia 2 é que já é outra história. De qualquer modo, não há comparação possível entre a violência a que os albaneses estavam a ser sujeitos por Milosevic e o pretexto de protecção dos russos na Crimeia - como se as forças russas ali estacionadas não fossem suficientes para qualquer disuasão.

Pippo disse...

João Pedro, o Afeganistão não constituía nenhuma ameaça à paz, etc., conforme está previsto no Cap. VII da CNU. A al-Qaida, essa sim, contituía, e somente contra ela, e não contra o governo afegão (tão legítimo como o actual da Ucrânia) é que poderia ser encetada uma acção internacional.

Mas os casos mais prementes são, precisamente, os do Iémen, etc., uma vez que não há qualquer mandato e legitimidade que permita efectuar ataques contra esses países.

Quanto ao caso do Kosovo, como deve saber, foram os albaneses kosovares quem abriu as hostilidades contra os sérvios. Isso está documentado e é mais que sabido. Além disso, o "considerar que havia razões de intervenção para proteger os kosovares albaneses" torna-se irrelevante pois não houve qualquer mandato das NU para intervir. Foi uma acção unilateral por parte de uma coligação liderada pela NATO, ilegal, ilegítima também (pelas razões acima explicadas), mas que produziu resultados factuais. Mais: a ocupação (ilegal) do Kosovo por parte da NATO produziu um efeito, que foi a limpeza étnica do território da quase totalidade da sua minoria sérvia. Outra ilegalidade, toda ela feita ante o olhar complacente da NATO.

Quanto a comparações... quantos mortos é que provocou a intervenção russa na Crimeia? É que os bombardeamentos da NATO mataram mais de 1000 pessoas.