domingo, julho 26, 2015

Os “amigos europeus” da Rússia



A Crimeia parece que se vai transformar num lugar de peregrinação dos deputados europeus que apoiaram a anexação dessa península ucraniana, havendo na lista de inscrições um deputado europeu português.
Os primeiros “peregrinos” que lá desembarcaram no dia 23 de Julho foram 8 deputados e dois senadores da Assembleia Francesa, a maioria dos quais membros do partido dirigido por Nicolas Zarkozy.
A oposição da diplomacia francesa a essa viagem transformou os parlamentares em autênticos heróis na Rússia, onde estão a ser recebidos entre uma enchurrada de elogios.
Num encontro com os deputados franceses, Serguei Narichkin, dirigente da Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento Russo, considerou a decisão deles de “passo decidido e ousado”, e explicou de forma original (mais um versão a juntar às muitas que os dirigentes russos apresentaram para justificar a violação do Direito Internacional) a história da Crimeia depois da desintegração da União Soviética.
Conheço os vossos planos de passarem dia e meio na Crimeia, tinham planeado isso com antecedência. Conversem com os habitantes simples da península. Estou convencido de que eles falarão honestamente do que sentiram e como viveram duram 23 anos (1991-1994) quando, devido a uma série de circunstâncias, a Crimeia foi, no fundo, pacificamente, mas anexada pela Ucrânia”, declarou Narichkin.
Ora, como é sabido, a Ucrânia não anexou qualquer território em 1991, mas a Crimeia tinha-lhe sido entregue em 1954.
Narichkin explicou também que as autoridades ucranianas “mentem e dizem asneiras” quando afirmam que tem lugar uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia, pois, se isso fosse verdade, as tropas de Moscovo resolveriam o caso em “três, quatro, num máximo de cinco dias”.
Esperemos que as actuais autoridades russas não decidam concretizar o famoso mito das “aldeias de Potemkine”. Diziam as más línguas da época (acusação que os historiadores não conseguiram confirmar) que esse marechal e amante da Catarina II, a Grande, preocupado com o que a czarina, na sua viagem à Crimeia (1787), iria ver ao olhar para vilas, lugarejos e aldeias, de bordo do seu barco real ao longo das marges do rio Dniepre, resolveu construir fachadas de casas novas e pintadas, vestir os camponeses com trajes novos e limpos.
Até porque as “aldeias de Potemkine” irão servir mais vezes. O deputado russo Vassili Likhatchov anunciou que, no Outono, 15 dos 751 deputados do Parlamento Europeu tencionam visitar a Crimeia. Segundo ele, trata-se de deputados europeus que fazem parte do grupo “Amigos da Rússia”. Entre eles estão Elisabetta Gardini, do partido Força Itália, Nandi Morano, do partido dirigido por Sarkozy, bem como representantes da Inglaterra, Alemanha e Portugal.
Não consegui até agora confirmar o nome do deputado ou deputados portugueses que irão ajudar a legitimar a ocupação da Crimeia, mas, a julgar pelos comentários do jornal Avante e as posições do Partido Comunista, poderão ser deputados europeus desta força política.
Como é sabido, a Rússia não se esquece dos amigos. Helmut Schroeder, antigo chanceler alemão, trabalha hoje para a gazífera russa Gazprom; Silvio Berlusconi, antigo primeiro-ministro italiano, revelou ter recebido de Vladimir Putin, Presidente russo e seu amigo, a proposta de cidadania russa e o cargo de ministro do Desenvolvimento Económica da Rússia.
Bem diz o ditado português: "diz-me com quem andas e eu digo-te quem és".




5 comentários:

Simões disse...

Amigo Milhazes. as "aldeias de Potemkine" vi-as eu com os meus próprios olhos em Riga, em 2006, durante a cimeira da NATO. A estrada que liga o aeroporto ao centro da cidade sofreu dois tipos de intervenção: tampas de esgoto soldadas e fachadas dos edifícios pintadas. Só as fachadas, evidentemente. A propaganda não será, certamente, um exclusivo do Kremlin. Um abraço.

Anónimo disse...

....Gerhard Schröder

Anónimo disse...

Todos os comentários têm de ser censurados pela Barba Azul.

atrida disse...

Caro José Milhazes, o ex-chanceler alemão e serventuário de Putin chama-se Gerhard (e não Helmut) Schröder.

antónio m p disse...

«A julgar pelos comentários do jornal Avante e as posições do Partido Comunista, poderão ser deputados europeus desta força política». Mas a julgar pela parcialidade com que o José Milhazes costuma falar sobre o PCP, poderão não ser... A julgar!