quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Álcool juntou Bíblia a Código moral do construtor do comunismo


Sentindo falta de ideias para mobilizar a sociedade soviética, os dirigentes da URSS decidiram, mos anos de 1960, criar um código moral do comunismo que mais parecia os Dez Mandamentos bíblicos. Fruto de uma ressaca, esse código falhou redondamente, mas, pelos vistos, deixou sementes que ainda hoje dão fruto.
Num encontro com apoiantes seus, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, reconheceu: Se olharmos para o código do construtor do comunismo que foi amplamente divulgado na União Soviética, ele faz muito lembrar a Bíblia. Isto não é uma anedota, é um trecho da Bíblia”.
Guennadi Ziuganov, actual dirigente do Partido Comunista da Federação da Rússia, comparou o código moral do construtor do comunismo ao “Sermão da Montanha”.
E, salvo o facto de os mandamentos serem dez e os princípios do construtor do comunismo serem doze e terem sido sujeitos a algumas manipulações para disfarçar, nota-se semelhanças evidentes. 
Por exemplo, se o primeiro mandamento diz: “Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas”, o primeiro princípio do código comunista reza: “Fidelidade à causa do comunismo, amor à Pátria socialista, aos países socialistas”. O mandamento “não matar” corresponde ao princípio “Relações humanas e respeito mútuo entre as pessoas: o homem é amigo, camarada e irmão”. O “não furtar” tem o equivalente em: “Cada um deve preocupar-se com a conservação e o aumento da riqueza social”.
Quanto aos mandamentos: “Guardar castidade nas palavras e nas obras” e “Não desejar a mulher do próximo”, eles estão representados no código num só princípio: “Honestidade e verdade, pureza moral, simplicidade e humildade na vida social e privada”.    
Claro que, na altura da transmissão da tábua a Moisés, Deus ainda não podia acrescentar mandamentos semelhantes a alguns princípios do código comunista: “Amizade e irmandade de todos os povos da URSS, a intolerância face ao nacionalismo e racismo” ou “Intolerância para com os inimigos do comunismo da causa da paz e da liberdade dos povos”, ou ainda: “Solidariedade fraternal com os trabalhadores de todos os países, com todos os povos”.
Isto poderia levar a acreditar que os dirigentes comunistas soviéticos lessem frequentemente a Sagrada Escritura ou tivessem concluído que o Judaísmo e o Cristianismo também faziam parte dos alicerces do marxismo-leninismo.
Porém, as semelhanças devem-se, no fundamental, a uma borracheira e consequente ressaca dos autores do código. O conhecido jornalista soviético Fiodor Burlatsky, um dos seus autores, recorda:
“As coisas aconteceram nos arredores de Moscovo, na antiga casa de campo de Gorky, no ano de 1961. Eu trabalhava num grupo de consultores do PCUS que preparavam o programa do partido, desde o início e até ao fim. O nosso grupo era dirigido por Boris Nikolaevitch Ponomariov, secretário do CC, mas os trabalhos eram dirigidos pelo seu vice: Elizar Ilitch Kuskov, uma pessoa com um espírito extraordinário, um jornalista que escrevia de forma aguda e com um sentido refinado da palavra.  
Numa certa manhã, depois de uma forte borracheira na noite anterior, estávamos sentados num caramanchão e bebíamos chá. Elizar disse-me:
- Sabes, Fiodor, telefonou-me o “nosso” (assim ele tratava Ponomariov) e disse: “Nikita Sergueevitch Khruschov viu tudo o que vocês escreveram e aconselhou a que se inventasse rapidamente um código moral dos comunistas. De preferência, ele deve ser enviado para Moscovo durante três horas”.
E nós começámos a fantasiar. Um dizia “paz”, outro: “liberdade”, um terceiro: “solidariedade” … Eu disse que é preciso partir não só dos postulados comunistas, mas também dos mandamentos de Moisés, Cristo, então tudo “encaixaria” realmente na consciência social. Tratou-se de um acto consciente de inclusão de elementos religiosos na ideologia comunista.
Escrevemos em hora e meia o texto que foi unanimemente aprovado no Presidium do Comité Central”.
Duvido muito que Khruschov e outros dirigentes soviéticos tenham compreendido essa ligação tão eclética, isto porque, nessa altura, Khruschov prometeu mostrar “o último padre ortodoxo pela televisão”.


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