terça-feira, agosto 15, 2006

Faleceu o meu amigo Manuel Lopes


Esta notícia não vem da Rússia, mas da Póvoa de Varzim, minha terra natal. O meu irmão Filipe telefonou e disse: "Zé, o Lopinhes morreu!". Lopinhes é o nome pelo qual os poveiros conheciam Manuel Lopes, um homem que deixou uma obra inapagável na história da minha cidade. Não quis acreditar, telefonei a amigos que tinham o telemóvel desligado e foi no sítio da Rádio Mar que vi a confirmação da notícia.
A Póvoa de Varzim, Portugal perderam uma pessoa de uma cultura ímpar, um estudioso infatigável, o organizador da exposição "Siglas Poveiras", da construção da "Lancha Poveira", impulsionador do Museu local e da Biblioteca Rocha Peixoto.
Eu perdi um amigo e um dos meus mestres. Conheci-o na Cooperativa Livreira António Sérgio da Póvoa de Varzim, que durante o "Verão quente" de 1975 acabou por ser destruída por uma bomba da extrema-direita. Foi ele que me ensinou a conhecer e a amar o Gerês, para onde íamos passar umas temporadas a fim de "fugir à civilização" e conversar.
Recordo-me que foi no dia seguinte a um acampamento nas margens do Cávado (no dia 16 de Agosto de 1977), onde estiveram, além de Manuel Lopes, também eu, a Zulmira, o Marito e o Zé Manel Rocha, que o José Heliodoro (mais conhecido por Zequinha) me veio trazer a notícia de que eu tinha recebido um bolsa de estudo na União Soviética.
Depois, sempre que vinha de Moscovo à Póvoa de Varzim, era "obrigatório" um encontro com o Manuel Lopes para discutirmos a situação na União Soviética. Fomo-nos afastando ideologicamente, o Manel continuava a ser um fiel e sincero adepto do comunismo, enquanto que a experiência soviética derrubava as minhas últimas ilusões. Mas isso não foi motivo de ruptura. Continuo a nutrir um profundo respeito pelo Manuel Lopes.
Ao escrever esta postagem, andei na net à procura de uma fotografia tua, mas nada encontrei. Recordei-me que eras director da Biblioteca Rocha Peixoto e fui ao sítio, encontrei "informações > quadro de pessoal", mas também aí só estava o teu nome e o teu correio electrónico.
Decidi escolher a fotografia do brasão da nossa terra e um extracto do poema de António Nobre, que certamente apreciavas. Até sempre, Manel!
P.S. Um dos leitores do nosso blog encontrou a fotografia do Manel Lopes, que me apresso a publicar. Obrigado


Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!

Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a com toda a força,
Clamam todas à urra: «Agora! agora! agora!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!

Senhora Daguarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!

Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Semos probes!

Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!

Parece o Farol...
Maim de Jesus!

É tal e qual ela, se lhe dá o sol!

Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matosinhos!

Os mestres ainda são os mesmos dantes -
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vasco da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!

O lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»

Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...
Adeus! adeus! adeus!

5 comentários:

Anónimo disse...

É sempre de lamentar a perda de um amigo e também de uma pessoa que se dedicava à sua terra de alma e coração. Pelo menos assim parece pela sua descrição pois eu não tive o prazer de conhecer o senhor.

Os meus pêsames para a familia e amigos.

Ibn von Faize disse...

Caro JMilhazes,
venho lamentar a sua perda.

Ao ler o seu post fui, por curiosidade, à procura de saber mais acerca do seu amigo e encontrei isto:

http://atelier.hannover2000.mct.pt/~pr281/figuras.htm

Fala do seu trabalho e contém uma foto (nao sei se recente) do seu conterrâneo.

as minhas condolências
Ibn von Faize

Da Rússia, de Portugal e do Mundo disse...

Caro ibn von faize, muito obrigado pela sua ajuda e colaboração na busca de uma fotografia de um homem que muito admiro.
Cumprimemntos. JMilhazes

Ainoga66 disse...

Tive o prazer de conhecer Manuel Lopes, nos meus tempos de estudante.
Sinceras condolências à familia e amigos.
Paulo Agonia

Ainoga66 disse...

Tive o prazer de conhecer pessoalmente Manuel Lopes nos meus tempos de estudante.
Sinceras condolências à familia e amigos.
Paulo Agonia