terça-feira, junho 05, 2007

Presidente russo Vladimir Putin vai enfrentar cimeira mais difícil



Jornais e politólogos russos são unânimes a considerar que a Cimeira do G-8, que começa amanhã em Heiligendamm, na Alemanha, será a mais difícil para Vladimir Putin, Presidente da Rússia, tendo em conta o grau de deterioração das relações entre Moscovo e os restantes membros do “clube dos mais ricos”.

Nos 11 meses que decorreram depois da Cimeira de São Petersburgo, muito mudou nas relações entre os oito: os planos de instalação de sistemas de defesa antimíssil norte-americanos no Leste da Europa provocam duras reacções do Kremlin; a discussão em torno do estatuto do Kosovo está longe de estar concluída; o agravamento das relações entre a União Europeia e a Rússia, nomeadamente devido ao “embargo russo da carne polaca” e à crise russo-estónia em torno do monumento ao “Soldado Soviético”, ameaça paralizar o diálogo entre Moscovo e Bruxelas; as novas revelações sobre o assassinato de Alexandre Litvinenko, antigo agente russo, estão a “envenenar” seriamente as relações entre a Rússia e a Grã-Bretanha.

Além disso, sublinha o diário Komsomolskaia Pravda, Vladimir Putin no G-8 perdeu “amigos como Schroeder, Berlusconi e Chirac, que, em cimeiras passadas, defenderam Putin dos ataques”.

“O ambiente não será muito agradável. Deterioraram-se as relações do nosso país e dos Estados Unidos, com os quais, nos últimos tempos, temos trocado numerosos golpes” – considera Vaguif Gusseinov, director do Instituto de Avaliações e Análise Estratégicas de Moscovo, acrescentando: “Não se justificaram as nossas esperanças depositadas na Alemanha, que poderia ter, durante a sua Presidência na União Europeia, elevado as relações da Rússia com a Europa a um nível de qualidade mais alta”.

“Os países que rodeiam a Rússia na Europa do Leste, dirigidos por estadistas que cresceram e formaram-se no Ocidente, provocam um ambiente de nervosismo” – continua o politólogo, concluindo que tudo isso permitirá a George W.Bush e Tony Blair perguntar a Putin: “Vê, a Rússia nem sequer consegue estabelecer relações com aqueles com quem vizinha há muito, que temos nós a ver com isso?”

“Esta será a mais difícil cimeira para o Presidente russo” – conclui Gusseinov.

“As relações entre a União Europeia e a Rússia estão bloqueadas. As relações russo-americanas agravaram-se devido aos planos dos EUA de instalar sistema de defesa antimíssil nos países do antigo Tratado de Varsóvia” – considera Serguei Markov, politólogo próximo do Kremlin, e acrescenta: “Juntemos a isto a crise na Ucrânia e verão que diversas forças no campo da política externa, que não conseguem resolver todas essas questões, impõem literalmente aos nossos países (Rússia e EUA) um embate frontal”.

Viatcheslav Nikonov, outro analista político próximo do Kremlin, considera que “a causa do conflito entre a Rússia e a União Europeia reside numa espécie de divergência de valores. Numerosos países ocidentais apoiaram as autoridades estónias quando da desmontagem do Soldado de Bronze em Tallinn, acusando a Rússia de desvio dos princípios democráticos”.

“A situação é agravada – continua Nikonov – pelo facto de a Rússia, pela primeira vez durante muitos anos, não apoiar todos os planos do Ocidente no campo da política externa e, ao mesmo tempo, não pretende renunciar às suas posições”.

A política liberal Irina Khakamada considera que os “falhanços” da Rússia nas conversações internacionais acontecem porque Vladimir Putin não tem acesso aos mais importantes “clubes interestatais”.

“A União Europeia é o primeiro clube, a NATO é segundo, depois vem o “G-8” e a OPEP. A Rússia só faz parte de um (G-8), mas não tem peso nele” – assinala Khakamada.

Nikita Belikh, dirigente da União das Forças Liberais, apoia Khakamada, frisando que a Rússia tem de escolhar uma via para o seu desenvolvimento.

“Criar um clube próprio ou tentar ingressar nos já criados. O principal é definir a estratégia: para onde pretendemos ir e onde ingressar” – defende Belikh.

Mikhail Deliaguin, director do Instituto dos Problemas da Globalização, defende a opinião de que a criação de novos clubes por iniciativa da Rússia só pode ocorrer em campos como a exploração e exportação de gás e petróleo.

“Muitos países dependem dos nossos hidrocarbonetos. Penso que isso é um motivo suficiente para o início do diálogo político” – considera Deliaguin, acrescentando que “além disso, o nosso país tem ainda a possibilidade de estabelecer contactos no espaço post-soviético. Por exemplo, com o Cazaquistão, Turquemenistão e Bielorrússia”.

Alguns políticos consideram ter chegado a hora de a Rússia utilizar claramente as matérias-primas como meio de chantagem.

“Com a recuperação da agricultura, no país (Rússia), aumentou a produção de carne e leite. Isso transformou-se num poderoso instrumento de influência, principalmente nos países que tradicionalmente forneciam esses produtos à Rússia” – defende Vladimir Vassiliev, dirigente do Comité de Segurança da Duma (câmara baixa do Parlamento) da Rússia, e acrescenta mais um exemplo: “O mesmo diz respeito à madeira, que antes vendíamos por alguns tostões à Finlândia e, agora, decidimos transformá-la na Rússia”.


2 comentários:

Diogo disse...

«A situação é agravada – continua Nikonov – pelo facto de a Rússia, pela primeira vez durante muitos anos, não apoiar todos os planos do Ocidente no campo da política externa»

Que grande anedota! O que é a política externa do Ocidente? É a política neoconservadora de Bush? A que invadiu o Iraque com base em mentiras e que ameaça directamente a Rússia e a China com ataques nucleares? Quais são as suas fontes Milhazes?

Jose Milhazes disse...

Caro Diogo, as fontes estão citadas na postagem, variadas e representantes de diversos sectores da política russa. Se conhecer outras opiniões, envie...