sexta-feira, julho 27, 2007

Vulcão sexual luso na intempérie da reestruturação soviética


O livro “Etna no vendaval da perestroika”, escrito por Miguel Urbano Rodrigues e Ana Catarina Almeida, despertou em mim uma grande curiosidade por duas razões.

A primeira tem a ver com a dedicatória: “aos portugueses que estudaram na União Soviética e permanecem comunistas” e a segunda prende-se com a afirmação em uma das capas: “é o primeiro romance português que tem por tema central o sismo político e social que destruiu a União Soviética”.

Quanto à dedicatória, fico de fora, porque estando entre os bolseiros que estudaram na URSS, não obedeço ao segundo critério. Porém, no que respeita à segunda razão, eu estive lá na mesma altura e, por conseguinte, posso falar com conhecimento de causa.

A descrição da chegada de um novato à URSS e das aventuras ligadas aos primeiros trâmites coincide com o que aconteceu com a maioria dos bolseiros quando chegaram ao “país dos Sovietes”.

Porém, a continuação do enredo provocou em mim enorme perplexidade. O grande número de orgasmos bem conseguidos por Etna, intervalados com citações de discursos e declarações de Mikhail Gorbatchov e de outros dirigentes soviéticos, trouxeram-me à memória as primeiras linhas do brilhante romance “As doze cadeiras”, dos escritos soviéticos Ilf e Petrov.

Peço desculpa por algum desvio, mas vou citar de memória: “Na cidade N. havia tantas barbearias e agências funerárias que se ficava com a impressão de que os habitantes dessa cidade apenas nasciam para cortar o cabelo e morrer”. Até parece que os bolseiros portugueses foram para a URSS aprender a atingir orgasmos supremos e, nos intervalos, liam os discursos dos dirigentes soviéticos.

Talvez para prestar tributo ao internacionalismo proletário, um dos fundamentos básicos do marxismo-leninismo, a heroína fez amor pela primeira vez com o português Francisco, mas depois atraiu e foi atraída por homens de outras raças e civilizações.

Mas é estranho que uma jovem revolucionária sexualmente tão activa, a ponto de fazer inveja a uma das maiores defensoras do amor livre: Alexandra Kolantai, não tenha feito amor com um representante sequer dos mais de cem povos e etnias que povoavam a URSS (cito a propaganda soviética).

Em geral, os soviéticos são seres raros neste livro que pretende retratar um dos períodos mais agitados da História da URSS. Uma colega de quarto ucraniana, a senhora anafada do Palácio dos Casamentos, o presidente do Kolkhose (unidade agrícola soviética) e o professor de História. Não me devo ter esquecido de muitos mais.

As aventuras “kama-sutristas” do vulcão sexual luso, fundamentalmente com homens de países oprimidos, trouxeram-me à memória uma reunião de militantes comunistas portugueses em Moscovo, no início de 1978. Joaquim Pires Jorge, nosso controleiro e representante do PCP junto do irmão mais velho, decidiu colocar na ordem de trabalhos a discussão dos namoros e casamentos de estudantes portugueses com estrangeiros, alertando para o perigo de se estar a assistir “a uma perda de quadros para a futura revolução portuguesa”. Se Etna tivesse participado nessa reunião, não se teria saído bem ...

A ausência de nativos soviéticos nesta obra e a presença maioritária de personagens estrangeiras levou-me a pensar que isso tenha levado à indevida interpretação da correlação dos factores dirigente-massas no período da perestroika soviética (1985-1991).

Etna tenta-nos convencer que Mikhail Gorbatchov conseguiu realizar, quase sozinho, aquilo a que se opunham a maioria dos dirigentes comunistas soviéticos e do povo, ou seja, a destruição da União Soviética. Um estudante que cursou História numa universidade soviética, que queimou muitas pestanas a decorar a História do PCUS, o Materialismo Histórico e Dialéctico, o Ateísmo e Comunismo Científico, apresenta-nos o decorrer dos acontecimentos, grosso modo, como uma operação planeada e realizada por Gorbatchov (claro que a CIA deveria estar algures) contra a vontade de “verdadeiros comunistas” como Vorotnikov, Ligatchov e Krutchkov e com a “passividade das massas”.

Tal como um “encantador de serpentes”, Gorbatchov conduz um bando de carneiros de tal maneira dóceis e ingénuos, que quase não reagem mesmo quando sabem que estão a ser conduzidos para o “matadouro”.

A Etna, talvez ocupada com outras coisas importantes, não viu as grandes manifestações de rua que se realizaram nos anos da perestroika, não participou, nem acompanhou as acesas discussões sobre o futuro da URSS, nem, embora historiadora, se interessou pelos numerosos documentos que foram então revelados.

Os organizadores do golpe de 19 de Agosto de 1991, reunidos no Comité para o Estado de Emergência, pensaram da mesma forma e esperavam que a sua conjura se iria cingir a um golpe palaciano, tal como fora derrubado Nikita Khritchov em 1964. Enganaram-se. As massas saíram para as ruas de Moscovo e de outras cidades soviéticas, pondo os dirigentes da conjura a tremer de medo ou talvez os tremores se devessem à ingestão excessiva de álcool. Basta recordar aquela famosa conferência de imprensa dos cinco "salvadores" da URSS que lhe deram o golpe de misericórdia.

Eu acompanhei os acontecimentos e posso testemunhar que nem todos os que vieram defender a sua liberdade nas ruas da capital russa eram agentes da CIA. Longe disso... Claro que se pode discutir se se concretizaram as expectativas desses milhares e milhares de pessoas, mas, nessa altura, acreditaram na sua força.

Mas este livro poderá ter um mérito, se provocar a publicação de outras memórias, de outros romances sobre a passagem pela URSS. Eu não me arrisco a isso, porque – e escrevo isto sem a mínima ironia – falta-me as veias poética, romântica e trágica para conseguir ilustrar tão grande saga.

Quanto aos autores, entendo que Ana Catarina Furtado tenha escrito este livro, pois viveu em Kiev, mas Miguel Urbano Rodrigues, ao que sei, não foi bolseiro na antiga União Soviética. Mas, enfim, cada um escreve o que quer e ao leitor cabe tirar conclusões.

P.S. Este blogue está aberto à publicação de memórias, artigos e outros textos sobre o mesmo tema, sem censura.

12 comentários:

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado via mail: "Escrevo-lhe directamente porque não consegui comentar o seu artigo. Gostava de lhe dizer que os autores do livro mereciam que se lhes lembrasse a dureza e crueldade do regime que defendem, e que caso tivessemos na Europa Ocidental um regime igual ao que defendem para o país dos outros estavam do outro lado da barricada e já teriam sido fuzilados por "actividades contra capitalistas". Essa gente não entende o significado da palavra "LIBERDADE" e por isso o comunismo continua a ser tão perigoso para o mundo em que vivemos. Lembre-se de Putin, José Eduardo dos Santos, Fidel Castro, o tolo da Coreia do Norte, a loucura que é a China do século XXI, Hugo Chavez, e tantos outros que continuam na senda tenebrosa que o Sr. tão bem conhece. Juro que pagava uma viagem só de ida para a Coreia do Norte,China, Venezuela para esses dois pseudo autores irem viver como anónimos; não podia ser como comunistas com pergaminhos pois claro senão não tinha piada.

Sem medo de ser expulso ou perseguido de correspondente na URSS diga a esses senhores o que lhe aconteceria se fizesse uma reportagem de fundo sobre os sobreviventes de campos de concentração na URSS e quantos lhe falariam sem tapar a cara. Diga-lhes, e diga-lhes que não são dignos da Liberdade que usufruem por ter nascido na Europa Ocidental. Diga-lhes que só vi um russo, ucraniano, moldavo e romeno depois da Perestroika e não seria por não saberem que havia mais Europa depois da fronteira, ou seria? Até o fascismo português não impediu a emigração em massa dos anos 40 a 60. Pergunte-lhes quantos comunistas mandou Salazar matar- um milhão? nem 100. Diga-lhes que façam a proporção para a população portuguesa dos mortos da URSS e vejam quantos da sua laia Salazar teria mandado matar. Sabe que mais: Deus lhes perdoe.

Obrigado pela sua atenção


Rui Rebelo"

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado por mail: "Talvez por isso é que, tal como sucede com o verdadeiro Etna, que
apenas tem uma erupção 'quando o Rei faz anos', e já sem qualquer
importância ou perigo, A URSS se desmembrou e os Países dela
oriundos são hoje o que são - pedaços grotescos do Tigre de Papel
que a Mãe era - e que o PCP é a desgraça actual, já não covencendo
ninguém pois os MUR's, as ACA's e todos os apparachiks que por lá
grassam, já não conseguem suportar um Partido e, muito menos, fazê-lo
vingar nos tempos actuais (veja-se a 'extraordinária' percentagem
obtida há quinze dias...).

Melhores cumprimentos
Filipe Cordeiro"

carlmartins disse...

Já chega de comentários anti-comunistas primários, as pessoas esqueçem-se que a Russia no principio do sec. passado era um país fundamentalmente agricola e que precisou, apenas, de um seculo para se transformar num dos maiores e mais poderosos países do mundo, sob um regime Comunista.Cometeram-se muitos excessos, injustiças, crimes não punidos, mas qual é a sociedade Capitalista ou não, que não o tenha feito? Falam sistematicamente de Cuba, como um exemplo falhado de uma Sociedade Comunista, então e as sociedades Capitalistas falhadas? Ninguém as enumera!A Sociedade Comunista é a sociedade mais justa, mais solidaria que existe, mas para resultar tem que ter a colaboração de todo o povo, e pode ser melhorada com mecanismos de controlo de abuso de Poder.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor ou leitora Carlmartins, não consigo compreender o que quer dizer com "comentários anti-comunistas primários". Mas se significa que é preciso elevar ainda mais o teor da discussão, assim o faremos.
Começo por pôr em causa a afirmação de que a Rússia no início do séc. passado era "um país fundamentalmente agrícola". Os factos e estatísticas mostram também que esse país, nas vésperas da 1ª Guerra Mundial, estava entre os quatro países mais industrializados do mundo.
Quanto aos crimes cometidos pelas sociedades capitalistas, eles são do conhecimento geral e alguns mereceram mesmo condenação universal e castigo severo no Processo de Nuremberga, tenho em vista, claro está, o nazismo alemão.Neste blogue, nunca fiz a apologia de quaisqer crimes porque foram cometidos por capitalistas. A sociedade actual russa é claramente capitalista, na sua revelação mais selvagem.
Mas isso acontece porque os "arquitectos" da construção são os mesmos que, há uns anos atrás, queriam empurrar as pessoas à força para o "futuro radioso da Humanidade".
Mas esses e outros quaisquer crimes das sociedades capitalistas não podem, nem devem ser utilizados para justificar o extermínio de muitos milhões de pessoas nos regimes comunistas. Será que a justificação da mortadade comunista terá alguma justificação?
Quanto à sua afirmação de que "a Sociedade Comunista é a mais justa e solidária", não concordo. Se você tivesse vivido na URSS ou noutro país socialista, teria constatado que numa sociedade onde todos eram iguais, havia "uns mais iguais do que os outros". A nomenclatura comunista tinha privilégios que a maioria das pessoas não tinham. E não permitia accionar, nem accionava ela própria mecanismos para que o povo controlasse o seu povo.
No que respeita a Cuba, deixo apenas duas perguntas, se se trata de uma sociedade de iguais, porque é que só um pode ser presidente até que a morte chegue? E porque é que o irmão já é sucessor?
Considero que se deve aprofundar a discussão e fugir a chavões. Por isso, as suas considerações serão sempre bemvindas, mesmo que eu discorde delas.
Cumprimentos

Jorge disse...

O artigo que toma por tema o romance «Etna no vendaval da perestroika» é um texto deplorável.
Pretende ser um comentário sobre uma obra que mereceu já referências elogiosas na imprensa e na rádio portuguesas. Mas quem não leu o livro chega ao fim do artigo sem poder sequer ter uma ideia do conteúdo da obra. Porque o texto é um amontoado de insultos dirigidos aos autores. Sugere quase que se trata de num romance pornográfico. Eu li Etna com muito agrado. É um romance de reflexão sobre a história, a brevidade dos impérios, a ambição humana, o amor e a catástrofe que foi o fim da URSS.
Para agravar os dislates que escreveu no seu artigo, em resposta a um leitor que o identificou um cultor do anticomunismo primário, afirma com convicção que a Rússia imperial nas vésperas da Primeira Guerra Mundial era uma das quatro potencias mais industrializadas do mundo. Qualquer estudante universitário sabe que, por ordem decrescente, as quatro potências mais industrializadas eram então os Estados Unidos, a Alemanha, a Inglaterra e a França. A indústria da Rússia imperial era tão insuficiente que não conseguira produzir sequer espingardas suficientes para o exército. O autor da catilinaria anticomunista contra o romance junta assim ao seu anticomunismo exacerbado uma dose de incultura excessiva para um jornalista.

Hermengarda disse...

Quanto a questão do anticomunismo primário, ocorre-me sempre a questão de que o mal do comunismo não está nas ideias, mas nas pessoas, como refere a sra. crlamartins na necessidade de colaboração de todo povo, porém aqui terei que parafrasear a Zita Seabra que no seu livro diz que o mal está na ideia do comunismo. Quantos de nós leram o Manifesto do Partido Comunista, a base de toda ideologia escrita por Marx? Eu li, e lembro-me sempre que fala na eliminação da classe burguesa, e não nos enganemos não se trata de uma eliminação simbólica. Como se pode tratar de um regime bom e justo se baseia na sua índole na morte das pessoas? Haverá uma subversão de valores? Será que a morte de alguns é necessária para o bem-estar dos outros? E quem decide sobre quem irá viver para beneficiar dos frutos e quem irá morrer para o bem comum?
Nesse contexto, proponho que todos que leram o manifesto discutam o comunismo primário e todos que não leiam o façam e depois me expliquem onde está um mundo naquele texto...
Quanto a Etna, talvez se trate de uma interpretação freudiana do reflexo de Pavlov (em que se associa as refeições ao tocar de um sininho) em que a personagem associa no seu sub-consciente os bons orgasmos ao comunismo e a URSS?

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Jorge, quanto ao romance "Etna" dei a minha opinião pessoal depois de o ler atentamente. Você centrou-se apenas na quantidade de orgasmos, que não é pequena, mas a minha crítica foi bem mais ampla. Acho um testemunho pobre demais para uma pessoa que viveu na URSS toda a perestroika.
Quanto ao desenvolvimento industrial da Rússia, você deve estar mal informado. Vá consultar as estatísticas referentes a 1913. Quanto à insuficiência de armas, isso, por si só, não é um indicativo absoluto.
Além disso, se a Rússia não era um país industrializado, onde foi Lénine buscar o proletariado para ser a vanguarda da revolução. E se o proletariado era apenas fachada para a nomenclatura comunista se manter no povo, então isso esclarece parte da história soviética.
Caro Jorge, eu tive a sorte, e tenho orgulho em dizer, que estudei História da Rússia na Universidade Estatal de Moscovo (Lomonossov). Por isso, estou disposto a aprofundar a discussão.
Cumprimentos. JMilhazes

xana disse...

Não li o livro, mas faz-me confusão este ataque tão cerrado ao "comunismo", percebo muito pouco de história e de politica, mas faz-me confusão que o Zé que é tão douto nestas áreas confunda o regime soviético com comunismo. Também estudei na ex-URSS, fui para lá e regressei da Ucrânia. Viagei muito como "gruzina" pois o meu aspecto e sotaque assim o permitiam.Lidei mais com o povo do que com a classe politica, e concluo do fundo do coração que era mais justa, socialmente a sociedade da URSS do que a actual das ex-republicas. Continuo a trocar correspondência com os meus amigos "soviéticos", e leio, pelas palavras deles que a sociedade se está a tornar cada vez mais injusta. Quanto à Liberdade, isso é é umj assunto muito mais complexo, quando tiver tempo, escreverei algo mais...
Xana

Jose Milhazes disse...

Cara leitora Xana, se o regime soviético e o comunismo não são sinónimos, então o que são.
Eu nunca escrevi neste blogue que os actuais habitantes do antigo espaço soviético vivem bem e felizes, mas isso não significa que antes fosse melhor.
Xana, eu continuo a acreditar que não há liberdade sem pão, nem pão sem liberdade. Um abraço de um ex-bolseiro

Jose Milhazes disse...

Texto enviado por mail pelo leitor Carlos Aves: "Caro José Milhazes,

Na impossibilidade de comentar o seu artigo envio este mail com algumas linhas sobre o assunto em apreço.

Discussão interessante mas condicionada por opções políticas que, como sabemos, a todos tolda o raciocínio.

Paradigmático, é o recente livro (interessante mas repetitivo e muito mal escrito) da Zita Seabra (Esta é uma mulher que só tem amigos médicos. Nem um serralheiro, nem electricista, p. ex. Para uma antiga comunista, é obra!)

Todos sabemos as condicionantes existentes na Rússia no início do séc. XX.

Conhecemos igualmente o fervilhar das novas ideias que circulavam um pouco por toda a parte desde os finais do séc. XIX.

Afirmar que a Rússia era um país industrializado na altura é claramente uma forçada forma de expressão.

Alguns surtos industriais ao redor de 2 ou 3 cidades, fruto de investimentos estrangeiros, não chegam para permitir aceitar aquele epíteto.

Aliás, com excepção da Inglaterra, não poderemos falar de sociedades industrializadas em lado nenhum, nem mesmo em França, Japão ou Estados Unidos.

A Revolução Russa de 1917 foi, sem qualquer dúvida, uma pedrada no charco numa sociedade totalitária onde a pobreza e a miséria eram realidades.

Serviu igualmente como alerta para todas as sociedades semelhantes - sobretudo europeias - para que a mudança de paradigma era necessária (vejam o que se passou nos anos 20).

Depois. Bem, depois passou-se o mesmo que actualmente se passa nas ditas democracias liberais (a caminhar para neoliberais).

Promete-se uma coisa, faz-se o contrário e vão-se eliminando todos aqueles que não estão alinhados.

Muitos comunistas de então, como o José Milhazes, beneficiaram do acesso à formação superior no exterior - existem muitas cá nesta situação - e agora rendem-se aos encantos do capitalismo desprezando os ideais que lhe proporcionaram meios para atingirem estatutos de algum destaque e retribuição ajustada.

É a vida...

Carlos Alves"

zramática disse...

Apesar de saber quem são os donos do Público e seus cúmplices (onde figuram em diferentes níveis gente como António Lobo Xavier, José Manuel Fernandes, António Barreto, António Vitorino ou António Borges, todos liderados agora por Paulo Azevedo o filho do papá - estou a imaginar o José Milhazes a dizer ao Belmiro que é indecente e anti democrata um grupo económico da dimensão da Sonae passar do filho para o pai) e de constatar a relevante influência que esta publicação tem junto da burguesia dominante (dos usurpadores do estado a favor dos lucristas e aos lucristas eles mesmo, e da extrema direita à pseudo esquerda), não perdi ainda a capacidade de me surpreender com o ultra conservadorismo tacanho de certas articulações mentais dos seus colaboradores escolhidos a dedo: é o caso do comentário de José Milhazes ao livro Etna No Vendaval da Perestroika.

Metade do texto a tecer ironias à volta da vida sexual da figura central do livro revelam baixeza moral e um machismo ao nível dos mais grotescos bispos. Por isso é natural que perante tais premissas encontremos nos comentários ao texto de José Milhazes gente afirmando em jeito de pergunta, “Quanto a Etna, talvez se trate de uma interpretação freudiana do reflexo de Pavlov (em que se associa as refeições ao tocar de um sininho) em que a personagem associa no seu sub-consciente os bons orgasmos ao comunismo e a URSS?”. Bom, isto seria como associar o anti comunismo de José Milhazes a um problema de impotência sexual durante a sua estada na URSS nos tempos da Perestroika. A parvoíce tem de facto o dom multiplicar-se rapidamente.

Eu li o livro e o mais cativante de tudo foi não encontrar nele qualquer tipo de idealização da URSS. Estamos perante um livro materialista, com sentido da história, onde a experiência de Etna serve de fio condutor a uma reflexão vasta sobre a história da humanidade e seus impérios. É um livro revolucionário da literatura portuguesa não só por ter sido escrito a quatro mãos, não só por acedermos a uma tão rara visão feminina da história, mas, principalmente, por encontrarmos nele os princípios de uma literatura didáctica estruturada a partir da dialéctica entre o individuo e a humanidade que o acolhe. É um livro que nos mostra uma sociedade não estática mas passível de ser transformada.

Claro que este vislumbre mete confusão a quem gosta de acreditar que o capitalismo é o fim da história, que vivemos no melhor dos mundos possível, que chegámos aqui e alto lá, parou! Mas a revolução é um vulcão: mesmo que a declararem extinta ela continua em ebulição. Enquanto o planeta não for desprivatizado, enquanto os recursos de todos estiverem a ser explorados para lucro de uns quantos em vez de usados para o bem de todos, a luta continuará: por um mundo melhor e mais justo.

Bem sei que estas últimas palavras devem fazer pular de contente o cinismo dos bem postos. Por isso apresento uma citação que descreve uma sociedade extrema. É de um autor que muito me agrada (apesar de não me recordar do nome) e também vou citar de memória: “Na cidade X. haviam tantos restaurantes de fast food e tantos sem abrigo que ficávamos com a seguinte impressão dos habitantes dessa cidade: que apenas nasciam para enfardar ou morrer à fome”.

E para terminar um poema meu, a Multiplicação da Mentira: Há por norma honestidade na mentira / A maioria dos mentirosos / não sabem que mentem / pois afirmam sinceros / a mentira de alguém

Jorge Feliciano

Jose Milhazes disse...

Caro leitor José Feliciano, a julgar pelos desenhos publicados nos seus blogues, qualquer homem, em comparação com os seus "heróis", será um impotente, viva ele ou não num período de perestroika.
Quer um conselho: ofereça alguns dos seus desenhos para a próxima edição do livro "Etna". Talvez não seja má ideia publicar um álbum de desenhos seus e utilizar o texto do "Etna" como legendas! Se quiser aproveitar esta ideia, avance, porque não levo direitos de autor.
P.S. Eu não sou jornalista do Público há já algum tempo, mas sim da Agência Lusa. Por isso, já não dependo das pessoas por si citadas. Mas quero deixar claro que sinto orgulho em ter no meu CV o facto de ter sido correspondente do Público em Moscovo desde o seu primeiro número.