domingo, julho 29, 2007

A aventura russa do "rouxinol de Setúbal"


Dos portugueses que passaram por São Petersburgo, foi a cantora de ópera Luísa Todi quem deixou maior rasto na história da cultura da cidade. No auge da sua carreira, o rouxinol de Setúbal lançou-se na aventura de actuar na Rússia, país que, nos finais do século XVIII, era considerado "distante" e "bárbaro" pelos europeus do Ocidente.
A sua voz permitiu-lhe não só cativar o coração de muitos russos como enfrentar e defender os seus interesses face a Catarina, a Grande, senhora absoluta e toda poderosa da Rússia. A correspondência, a que tivemos acesso, de Catarina II com Frederich Grimm, conhecido crítico literário e enciclopedista francês, permite-nos acompanhar as peripécias de Luísa Todi na distante e enigmática Rússia, desde a sua chegada em 27 de Maio de 1784 até à sua partida em finais de 1786.
Grimm escreveu que a vontade da cantora de actuar perante a imperatriz russa era tão grande que ela teria decidido partir para São Petersburgo sem qualquer tipo de contrato. Ao anunciar o envio da bagagem de Luísa Todi para a Rússia, o crítico francês escreve: "Acreditei poder chamar a mim esse serviço a uma cantora tão célebre, que o desejo de contemplar a glória de Catartina conduz a São Petersburgo, e que recusou todas as ofertas que lhe foram feitas aqui para ficar, a fim de seguir a voz do senhor de Bibikov [director dos teatros russos], que a convidou para ir, prometendo que ela seria perfeitamente bem tratada, mas sem ter assinado um contrato com ela, sem que ele lhe tivesse mesmo concedido dinheiro para a viagem".
A carta de recomendação de Grimm não podia ser mais elogiosa. Ele escreveu a Catarina II: "A senhora Todi obteve êxitos estrondosos em França, Inglaterra, Alemanha, Itália. Ela é portuguesa,... possui, além de um raro talento para a música, que Vossa Majestade ama com paixão, as qualidades de uma honestidade e mulher amável, feita para viver em boa companhia".
A czarina russa decide convidar a cantora portuguesa em Agosto de 1873. Então, ela escreve a Grimm: "O senhor de Bibikov perdeu a direcção dos teatros, à frente do qual está o senhor Olsoufief... Eu recomendar-lhe-ei a Senhora Todi".
Esta tarda a chegar e Catarina II escreve no mês seguinte: "Enquanto a Senhora Todi se encontra doente em Potsdam, pode-se desesperar de a ver". Em Abril de 1784, constata: "a Senhora Todi ainda está para vir" e, a 10 de Maio, volta a escrever a Grimm: "que eu saiba, a Senhora Todi ainda não chegou".
Luísa Todi chega a São Petersburgo a 27 de Maio de 1784 e actua perante Catarina II no dia 30. Alexandre Lanskoi, moço de câmara da czarina russa, escreve a Frederich Grimm: "a nossa graciosa Soberana ficou tão satisfeita com ela que ofereceu à dita Todi um soberbo par de braceletes guarnecidas com brilhantes".
A cantora portuguesa responde à "generosidade imperial" escrevendo o libreto da opereta "Pollinia", que dedica a Catarina II.
Mas os atritos entre Luísa Todi e a imperatriz não tardaram a aparecer. A razão foi o dinheiro. A 22 de Abril de 1785, Catarina escreve ao enciclopedista francês: "a senhora Todi só receberá a remuneração depois de regressar de Moscovo, onde ela ganhou muito dinheiro, que se diz que o senhor seu marido perdeu no jogo: assim, o que traz a flauta leva o tambor".
Em Agosto do mesmo ano, a imperatriz russa retrata assim a Grimm as suas relações com a cantora lusa: "A Senhora Todi encontra-se aqui, onde se passeia tanto quanto pode com o seu querido esposo; muito frequentemente, encontramo-nos frente a frente, sempre sem nos tocar. Eu digo-lhe: "Bom dia ou boa noite, senhora Todi, como está?", e ela beija-me a mão e eu a sua face; os nossos cães cheiram-se; ela pega o seu marido pelo braço, eu chamo os meus cães e cada uma continua o seu caminho".
A czarina russa só esquece os atritos com Luísa Todi quando a ouve cantar. A 24 de Setembro de 1786 escreve: "Castor e Pollux é um espectáculo soberbo; a Todi e Marcezini [cantor italiano] encantaram ao fazer desmaiar os amadores e os conhecedores; para os fazedores de comédia, uma grande ópera é um pouco dura para digestão".
Em 23 de Abril de 1787, Luísa Todi dá o seu último espectáculo na Rússia, em Moscovo, desempenhando o papel principal na opereta Pollinia, cujo libretto ela própria escrevera (quanto à música, persiste a dúvida: será do italiano Saccini ou do marido da cantora portuguesa?)
A ruptura entre Luísa Todi e Catarina II deu-se quando a cantora começou a exigir somas exageradas para permanecer na Rússia, pois tanto ela como o marido não olhavam a despesas. Em Janeiro de 1787, a czarina russa queixava-se a Grimm: "o director [dos teatros] faz muito bem em não chamar a si mais despesas, porque eles estão endividados em oitenta mil rublos, que eu não pagarei nem pelo director, nem pela direcção, e são também inadmissíveis as suas condições de serem pagas pelo público sem querer aparecer perante ele".
Existe outra versão desta ruptura, quase uma lenda sob a forma de diálogo. Luísa Todi terá pedido uma remuneração tão grande a Catarina II pelas suas actuações que ela exclamou: "Mas eu nem sequer aos meus marechais pago tanto!". E a portuguesa terá respondido: "então os marechais que cantem para Vossa Alteza!"
O certo é que Luísa Todi partiu da Rússia sem se despedir de Catarina II. Esta escreve a Grimm: "diz-se em Petersburgo que a senhora Todi foi para Berlim... Em boa hora..."
No ano seguinte, porém, já a imperatriz tinha saudades. Em Abril de 1788, depois de ter assistido a uma ópera cómica, desabafou numa missiva a Grimm: "havia cantores detestáveis; os bons partiram todos. A senhora Todi encontra-se em Berlim".

8 comentários:

Diogo disse...

September 12, 2001 - Commander-in-Chief of the Russian Navy, General Anatoli Kornukov, says it's "generally impossible" how the 9/11 attacks happened in the U.S.

SENSATION: RUSSIA ALSO BECAME AN OBJECT FOR AIR TERRORISTS’ ATTACKS

"Generally it is impossible to carry out an act of terror on the scenario which was used in the USA yesterday. This was said by the commander-in-chief of the Russian Navy, Anatoli Kornukov. We had such facts too, - said the general straightforwardly. Kornukov did not specify what happened in Russia and when and to what extent it resembled the events in the US. He did not advise what was the end of air terrorists- attempts either.
But the fact the general said that means a lot. As it turns out the way the terrorists acted in America is not unique. The notification and control system for the air transport in Russia does not allow uncontrolled flights and leads to immediate reaction of the anti-missile defense, Kornukov said. As soon as something like that happens here, I am reported about that right away and in a minute we are all up, -said the general." - Pravda (09/12/01)

http://english.pravda.ru/main/2001/09/12/14983.html

Diogo disse...

Do you speak english Milhazes?

Duarte disse...

Já por diversas vezes disse a amigos meus que o que se passou no 9/11 nos E.U.A. não podia acontecer sem conivencia interna, há uma resposta de poucos minutos a ameaças por ar, até nós pobrezinhos tugas, a prontidão pelo que eu sei não chega a 15 minutos por isso não estranho estas declarações

Jose Milhazes disse...

Caros leitores Diogo e Duarte, que tem a ver a Luísa Todi com o 11 de Setembro? Não experimentem a paciência dos outros, há tantos blogues onde podem publicar os vossos comentários a propósito! Aqui, comentem sobre o tema e não utilizem os comentários para publicidade.
Da próxima vez, comentários despropositados vão para o lugar que merecem.
Quanto ao general Kornukov, caro leitor Diogo, conheço bem as suas "façanhas". Sabe que foi um dos que participou no derrube do Boeing sul-coreano? Morreram mais de uma centena de pessoas inocentes.
Cumprimentos e comentem a propósito, ou seja, acertem na baliza!

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado por mail pelo leitor João Santos: "Caro José Milhazes,
o que é muito curioso em relação a Luisa Todi é verificar que, aquela
que é considerada como a cantora lírica portuguesa com maior projecção
internacional de sempre, fez a sua carreira num período em que o
Marquês de Pombal havia proibído a actuação das mulheres nos palcos
portugueses, quer em ópera, quer em bailado.(aparentemente esta
decisão foi despoltada pelo caso de uma cantora de ópera italiana que
na época actuava em Portugal e cujo furor causado era bastante mais do
que só musical, particularmente junto de um dos filhos do marquês,
coisa que não agradava ao marquês que temia pela estabilidade
familiar). Sem possibilidade de actuar em Portugal, em boa hora Luísa
Todi partiu à procura de outra sorte no estrangeiro e o resultado foi
o que se sabe!

PS - Admiro a sua paciência para com o seu leitor Diogo, esse grande
defensor dos direitos humanos mas que não é capaz de seguir regras
básicas de respeito, como se tem visto no seu blog.
Gostava de o ver na Nevsky, por 10min., com um cartaz a dizer de
Putin, o mesmo que o professor Charrua disse do Sócrates. Ficava a
saber o que é democracia pelas "nossas" bandas.

João Santos"

rouxinol de Bernardim disse...

Caro josé Milhazes:

Este "rouxinol de Setúbal" foi de facto um embaixador da ópera e da raça lusa. Digamos que era uma espécie de Cristiano Ronaldo da época....

Mas Catarina, a Grande, ficou deveras encantada... apesar dos amuos... e "petites histoires"...

Parabéns por essas divagações históricas que enriquecem todos os que aqui gostam de entrar.

J.A. disse...

Excelente texto, que reproduzi no blogue Cetóbriga - espero que não veja inconveniente nisso. Obrigado.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor J.A.,nao tenho nada contra, pelo contrario