sábado, agosto 18, 2007

Pequenos "milagres" da democracia


O Lago Peipsi (em estónio) e Tchudskoe (em russo) é uma imensa massa de água que serve de fronteira entre a Estónia e a Rússia. Nas suas margens encontra-se uma pequena vila de pescadores chamada Mustvee, onde parte significativa da população é constituída por velhos crentes ortodoxos russos. Trata-se de uma cisão ocorrida na Igreja Ortodoxa Russa, algo de semelhante à ruptura ocorrida entre protestantes e católicos.
Na era do czar Pedro I, no início do séc. XVIII, numerosos velhos crentes russos fugiram às perseguições e refugiaram-se nas margens estónias do Lago Peipsi. Não obstante as perseguições comunistas, essa comunidade conseguiu manter a sua fé e alguns dos seus costumes.



De passagem por este vila, entrei no que parecia ser o único restaurante das proximidades, o "KuldKala" (Peixe Dourado), e deparei com o Presidente da Estónia, Toomas Heindrik Ilves, a almoçar a uma das mesas. A presença do mais alto representante estónio em nada alterou o ritmo de trabalho deste simples restaurante, onde os pratos principais eram peixes do Lago Peipsi.



Talvez porque a segurança não fosse rígida, não resisti à tentação de fotografar Toomas Heindrik Ilves "à sucapa", tal como um comum "paparazzo". O certo é que nem os guarda-costas, nem o Presidente estónio viraram as costas aos vários fotógrafos amadores que o esperavam à saída do restaurante.


Na Rússia seria impensável uma coisa destas: entrar no restaurante onde está a almoçar o Presidente Putin e tirar-lhe umas fotografias. Talvez isto tenha sido possível na Estónia porque aconteceu no restaurante "Peixe Dourado", embora eu não tenha pedido tal desejo. Ou talvez se deva ao facto de este país já ser uma democracia, jovem, mas consistente.

9 comentários:

Klubnika disse...

Democracia na Estónia? Hummm! Cá para mim, estão-se a preparar para mudar o restaurante para algum local inacessível, talvez para o meio do lago. Os estónios são especialistas nesse tipo de mudanças.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor ou leitora, não duvide que na Estónia há democracia, e muito maior e eficaz do que na Rússia. A não ser que há muito não visita esse país e se limita a ler os que escrevem os órgãos de informação do Kremlin na Rússia.

antonio disse...

(…)
«Em 1992, recuperando uma antiga lei da nacionalidade, a cidadania automática só foi dada a quem já a tinha antes de 1940, e aos seus descendentes. Só os estónios de “sangue puro” puderam votar no referendo constitucional. Todos os outros - e entre estes a população de origem russa - foram obrigados a realizar exames de língua e de História estónias, internacionalmente considerados como extraordinariamente exigentes, se quisessem aceder à nacionalidade do país em que nasceram. O resultado desta política está hoje à vista: 15% da população da Estónia não tem direitos de cidadania e é discriminada nos empregos e nos serviços sociais. Os motins de fins de Abril reflectem o profundo descontentamento que grassa entre esta minoria nacional. .»(…)
Extracto de txt de Miguel Portas extraído da Internet.

José Milhazes
Faça o favor de contestar as opiniões neste texto.

Miss Lee disse...

é verdade que na Estónia a democracia é maior e mais eficaz que na Rússia, mas mais pequena que em Portugal... Neste estado Báltico a democracia é tão jovem quanto frágil, e as instâncias que a devem assegurar nem sempre funcionam de maneira puramente democrática!
a questão dos passaportes cinzentos é apenas metade do rosário!
Quanto ao Sr Ilves no Lago Peipsi, acho que se deve muito ao facto de este povo ser calmo e desconfiar pouco da maldade alheia. É como as mães que deixam os bebés nos carrinhos à porta das lojas ou dos cabeleireiros... até ao dia em que aconteça algo de grave!

Jose Milhazes disse...

Caro António, considero que o que escreve o deputado Miguel Portas contém alguma verdade, mas algumas imprecisões graves. Por exemplo, no referendo constitucional não votaram apenas os estónios de "sangue puro", mas todos os que podiam fazê-lo segundo a lei citada de 1992: todos os que eram cidadãos em 1940 e os seus descendentes.
Quanto aos exames de língua e de História estónias, isso é uma norma comum na Europa e América. Então os cidadãos do país não devem saber a língua e a História do país? Os não estónios foram enviados para a Estónia depois da segunda guerra mundial como colonizadores, para "criar a classe operária" e servir de base de apoio ao comunismo. Eles precisavam apenas de falar russo, porque o estónio era uma língua inferior. Agora que a situação mudou, os estónios não têm direito a exigir que os cidadãos do país falem a língua estónia?
Quanto ao número de pessoas que não têm cidadania estónia, o seu número diminui rapidamente e já é inferior aos 10% da população total.. Os russófonos não só não querem regressar à Rússia, mas mostram querer continuar a viver na Estónia e União Europeia. Além disso, estes têm direitos, apenas não podem participar nas eleições presidenciais e parlamentares, mas podem participar nas locais.
Claro que há problemas e considero que a integração desta parte da população na Estónia poderia ser mais rápida, mas o importante é que a solução dos problemas está a ser feita sem violência.
E mais uma coisa: eu visito a Estónia frequentemente desde 1982 e posso-lhe dizer que, durante o período da ocupação comunista, o "anti-russismo" era muito maior do que actualmente. Eu sei algumas frases em estónio, compreendo pouco essa língua, que é muito complicada, e, quando visito esse país, falo em russo. Durante a ocupação comunista, mandaram-me várias vezes "dar uma volta" quando começava a falar russo, mas, agora, não tenho problemas desses.
Claro que se pode exigir tudo para todos e muito depressa, receitas rápidas para todos os males da Humanidade, mas isso só na teoria.

Jose Milhazes disse...

Caro António, apenas mais uma nota. Na semana passada, a revista The Economist escreve um artigo muito interessante sobre o tema. Eu li a tradução em russo, mas se conseguir lê-lo, aconselho muito. Também não faria mal ao deputado Miguel Portas, pois poderia compreender mais profundamente o nível de complicação dos problemas.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor António e restantes leitores, para quem se interessa pela situação das minorias na Estónia, aqui vai o sítio do the economist com o artigo na net.

http://www.economist.com/displayStory.cfm?story_id=9645274&fsrc=RSS

antonio disse...

José Milhazes
Já li o artigo que indica… não altera substancialmente aquilo que já se escreveu aqui sobre o assunto, ou seja a discriminação é óbvia.
Só me oferece dizer o seguinte:
Somos todos mais tolerantes quando se trata de «entender» os nossos amigos, não acha?

Jose Milhazes disse...

Caro António, mesmo para com os amigos tento ser objectivo, embora reconheça que seja difícil. Eu não escondo que na Estónia haja problemas nas relações entre estónios e não estónios, mas o importante é que eles se resolvam através do diálogo e não através da pancadaria.
Quanto ao comentário da Miss Lee, a comparação entre os estónios e as mães que deixam os filhos no carrinho à porta do cabeleireiro é preocupante. A Miss Lee preferia ver um presidente cercado por dezenas de seguranças e a "limpar" o território em redor, num raio de quilómetros? O facto de o Presidente do país se movimentar assim é um sinal (não só na Estónia, mas também noutros países do Norte da Europa) de que existe segurança na sociedade. Claro que me podem dizer que foi assim que o primeiro-ministro sueco, Olaf Palme, foi assassinado, porque "facilitou" no campo da segurança.
Mas não se pode aceitar um mundo onde as leis e o comportamento são ditados por terroristas e bandidos.
Reconheço que a situação, neste campo, é cada vez mais grave, mesmo num país que se podia orgulhar da sua segurança interna como o meu: Portugal, mas a sociedade deve exigir das autoridades que tome medidas para que se viva em segurança.