segunda-feira, outubro 29, 2007

Moscovo recorda vítimas das repressões estalinistas


A organização de defesa dos direitos humanos Memorial está a realizar hoje, na capital russa, uma vigília em memória das vítimas das repressões estalinistas de 1937-1938. A cerimónia, que decorrerá durante doze horas, tem lugar no Praça Lubianka, onde está situada a sede da antiga polícia política soviética: KGB.
Segundo os últimos estudos do Memorial, a ditadura de José Estaline liquidou fisicamente, nesses dois anos, mais de trinta mil moscovitas.
Os manifestantes reúnem-se junto da Pedra de Solovetski, trazida da ilha honónima e onde as autoridades comunistas criaram o primeiro campo de concentração para “reabilitar” os seus adversários políticos em 1922.
“Na nossa iniciativa não há discursos” – declarou Tatiana Kassatkina, directora executiva da Memorial, acrescentando que “só são lidos nomes, apelidos, datas de nascimento, profissões, data da execução”.
Qualquer pessoa pode-se aproximar do local e ler uma ou duas páginas com nomes de vítimas da repressão. “Mesmo só lendo o nome, apelido, ano de nascimento, profissão e data da execução, talvez só consigamos enumerar os nomes de alguns milhares” – frisou Arseni Roguinski, presidente da Memorial.
Esta cerimónia realiza-se na véspera do Dia Nacional de Memória das Vítimas das Repressões Políticas, que se assinala amanhã na Rússia. Os organizadores da iniciativa apelam aos moscovitas para passarem pelo local, mas pedem aos dirigentes políticos que não apareçam na Praça Lubianka para fazer propaganda eleitoral.
Na quinta-feira passada, a Memorial publicou , em versão electrónica, os nomes de dois milhões e seiscentas mil vítimas das repressões na União Soviética.
Segundo a Lei da Reabilitação, cerca de doze milhões e quinhentas mil pessoas foram vítimas de repressões entre 1917 e 1991, ou seja, durante a vigência do regime comunista na URSS.

1 comentário:

António disse...

Acaba de sair um livro indispensável e com uma abordagem inédita a este tema. trata-se do monumental "The Whisperers", escrito por Orlando Figes, professor de história no Birkbeck College. Ao contrário da maioria dos estudos publicados até à data, a obra concentra-se nas vidas privadas de centenas de pessoas afectadas, na forma como as suas famílias foram separadas ou destruídas e nas estratégias a que tiveram que recorrer para sobreviverem ao terror, tentando ter uma vida o mais "normal" possível.

O título da obra é elucidativo. Traduzido por "os sussuradores", dá a ideia de um país inteiro a exprimir os seus sentimentos ou opiniões ao ouvido de entes próximos, cientes de que "as paredes têm ouvidos", ou a denunciar em voz baixa um parente, colega ou vizinho a troco de uma promoção profissional ou mais uns metros quadrados de espaço num apartamento comunal.

Baseado em centenas de entrevistas aos cada vez menos sobreviventes dos piores momentos dessa época (a idade média dos entrevistados era de 80 anos e pelo menos 27 deles morreram no decurso da elaboração do livro), é o testemunho mais importante do impacto atroz do estalinismo em mais de duas gerações de russos, ajudando a perceber as razões que levaram à deformação da mentalidade de uma nação inteira.

Imperdível para os interessados neste tema.

António Campos