sábado, outubro 27, 2007

Russos querem controlar direitos humanos na União Europeia


Há muito tempo que o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, passou ao contra-ataque na política externa, tentando explorar as fraquezas e as contradições existentes entre os adversários. Isso ficou uma vez mais evidente em Lisboa e Mafra.
Em relação aos dirigentes da União Europeia, não sabemos se o que vem abaixo descrito é fruto dos "encantos de Putin" ou de alguma "falha na tradução".
Na conferência de imprensa, foi anunciado, como um dos êxitos da Cimeira, a decisão de criação de um instituto russo-europeu da liberdade e da democracia, mas as partes entenderam isso de forma completamente oposta.
O Instituto russo-europeu da Liberdade e da Democracia, cuja criação foi proposta por Vladimir Putin na Cimeira de Mafra, não será uma “empresa conjunta”, declarou Serguei Iastrjembski, assessor do Kremlin para assuntos europeus.
“Não se trata de uma empresa conjunta, mas de um instituto russo que será criado em conformidade com a legislação do país da União Europeia, onde nós o instalarmos” – afirma Iastrjembski, citado pela agência noticiosa Ria-Novosti.
“Putin assinalou que a União Europeia, através de subsídios, ajuda no desenvolvimento dos institutos desse tipo na Rússia e, segundo o Presidente, chegou a hora em que a Rússia pode, utilizando o seu crescente potencial económico e financeiro, dar o seu contributo para o desenvolvimento desse diálogo” – escreve a agência.
“Vladimir Putin explicou a sua ideia sobre o Instituto russo-europeu da Liberdade e da Democracia. Ele propôs a sua criação em Bruxelas ou numa das capitais europeus. Inicialmente, poderia parecer que Vladimir Putin está preocupado com o respeito pela democracia e pelos direitos humanos na Rússia. Mas rapidamente se tornou claro que ele se preocupa pela mesma coisa, mas na Europa” – considera o diário Komersant.
“A julgar por tudo, trata-se da nossa resposta aos programas europeus de apoio à liberdade de expressão e aos direitos humanos na Rússia, sobre os quais Vladimir Putin já não consegue falar, há muito tempo, sem um sentimento de leve desprezo, pois está convencido que os seus objectivos são contrários aos declarados” – sublinha esse jornal.
Um dos objectivos principais da criação do novo instituto visa controlar a situação das minorias russófonas nos países do Báltico: Estónia, Letónia e Lituânia, que Moscovo considera serem discriminados pelos Governos locais.

3 comentários:

Филипа disse...

Quando ouvi as declarações no final da cimeira UE - Rússia também eu não queria acreditar na "tradução" das palavras de Putin. As interpretações podiam ser múltiplas e houve desde logo os idealistas que se levantaram para falar numa mudança de política na Rússia, uma aproximação aos valores Europeus. Uma segunda abertura a ocidente, se assim se pode dizer...
Confesso que não compreendi logo a estratégia de Putin (o que me tem atormentado os pensamentos). Pois o seu post não podia ser mais esclarecedor, agora tudo parece fazer sentido, pelo menos para a na minha visão.
Mas como encara este contra-ataque russo, quais poderão ser as suas repercussões? Como estão a ver os russos esta ideia?
P.S.: Muito obrigada por manter este blog e não deixe de nos manter actualizados sobre este tema!
Filipa Santos

Jose Milhazes disse...

Cara Filipa, a Rússia tenta regressar à arena internacional e reconquistar o peso que nela tinha a União Soviética. Os métodos podem ser discutíveis, mas esta política está cair bem entre os russos. Pelo menos as sondagens mostram isso, e quando falo em sondagens, falo em estudos credíveis.
A maioria dos russos considera que Putin aumenta o prestígio da Rússia, lhes dá mais segurança e um melhor nível de vida. Daí a sua popularidade.
Quanto aos direitos humanos, isso não influi praticamente na imagem de Putin em termos internos e os estrangeiros não participam nas eleições.

Cristina disse...

Mais uma vez o Milhazes disse as coisas como verdadeiramente são e não aquilo que Putin quer que os ocidentais pensem. É preciso não ser ingénuo. De Putin não há que esperar nenhumas "aberturas" ao Ocidente, bem pelo contrário.A direcção russa tem uma estratégia própria, que leva a cabo consequentemente e essa estratégia passa por convencer os europeus sobre as suas boas intenções. O povo russo sofre os atropelos aos direitos humanos no seu dia-a-dia mas prefere viver assim e continuar calado enquanto os seus políticos internamente continuam a dizer mal da Europa. Uma coisa é o que se diz nos discursos para consumo externo e outra coisa são as verdadeiras intenções. Há que saber distinguir uma coisa da outra.