terça-feira, novembro 13, 2007

Contributo para História de Angola


Artigo de Serguei Kolomnin, veterano russo da guerra em Angola, publicado no sítio “Clube dos Veteranos de Angola”.

“Os “companheiros cubanos”, que trabalhavam na base aérea em Luanda, convidavam-nos frequentemente para a festa de sábado, com leitão assado e grande quantidade de cerveja. Uma coisa e outra, numa situação de carestia total, provocada pela “revolução e destruição”, era considerada um luxo. Quando lhes perguntavam de onde vinha tanta riqueza, respondiam que os locais lhes forneciam. Isso era verdade em relação à cerveja, mas, no que diz respeito aos leitões, a sua origem ficou explicada em condições extremamente desagradáveis.
Eu e Fiodor Jarovonkov, meu colega tradutor, tínhamos herdado um meio de transporte não oficial: um “jeep” de produção indiana, semelhante ao Willis americano da segunda guerra mundial. Ele pertencera aos cubanos, mas Jenia, alegre instrutor do emprego militar do lança-mísseis “Strela” da Força Aérea e da Defesa Anti-aérea, originário de Kiev, recebeu para “utilização grátis” por um qualquer serviço prestado. O jeep estava mais do que remendado, mas era veloz. O automóvel, de cor vermelha viva, com uma caixa fechada, era muito vistoso.
Os cubanos pediam-no emprestado periodicamente. Claro que emprestávamos, sem problemas! Somos irmãos, amigos. Normalmente, pegavam no carro à noite e devolviam-no de manhã. O processo estava bem oleado, os rapazes cubanos simplesmente estacionavam o jeep perto da casa dos conselheiros e deixavam as chaves debaixo do assento, num lugar previamente combinado.
Certa vez, depois de ter emprestado o jeep aos cubanos, fui de manhã ver o carro. Isso era um processo obrigatório: em Luanda, a maioria dos “Volga” e “UAZ” (carros e jeeps de fabrico soviético) não tinham guarda e, durante a noite, alguém podia colocar neles alguma porcaria. Uma vez de manhã, o coronel Baskov, conselheiro do comandante de ligação da Força Aérea e de Defesa Anti-aérea, descobriu na cabine do seu “UAZ” uma granada ligada a um fio...
De súbito, durante a vistoria do carro, no pára-brisas (feito de um pedaço de carril ferroviário) descobri... rastos frescos de sangue. A imaginação produziu imediatamente uma acidente rodoviário, atropelamento, etc., envio para a União Soviética em 24 horas (o carro era vistoso e era difícil provar que não era eu que ia ao volante).
Como que envolto em nevoeiro, fui ter com os cubanos. A rapaziada ainda não tinha acordado. Acordei com dificuldade o meu homónimo, a quem tinha emprestado o carro na véspera, o companheiro Sérgio. “Aconteceu alguma coisa à noite?”. “Nada, correu tudo bem – responde o cubano. O carro está avariado?”. Balbucio algo sobre os restos de sangue na pára-brisas...
“É isso? Desculpa, esqueci-me de limpar” – disse o cubano bocejando e com uma calma absoluta.
“O quê!!! Atropelaste alguém?!” – pergunto eu. “Como alguém? – espanta-se Sérgio, um porco, claro. Hoje à noite, tu e o Fiodor vêm à noite à festa, não vêm?”
Tudo ficou rapidamente explicado. Os cubanos utilizavam o nosso jeep para a caça nocturna de ... porcos locais. O busílis da situação consistia em que os porcos eram domésticos. Os camponeses angolanos não mantêm esses animais, a propósito, todos eles de cor negra, fechados. Os chicos vagueiam pela aldeia à procura de comer. Aproveitando-se dessa situação, os cubanos iam à aldeia vizinha, encandeavam o animal com os faróis e, depois, atropelavam-no (precisamente para isso era necessário a potente barra do pára-brisas do nosso jeep), carregavam-no rapidamente para a caixa e... a festa estava garantida.
O nosso velho jeep servia idealmente para semelhante tipo de caça, porque o “UAZ” era demasiadamente alto e tinha um fraco pára-brisas. Os camponeses locais, para os quais os porcos eram, frequentemente, o único meio de rendimento, odiavam profundamente os cubanos por essas acções, mas nada podiam fazer: o mais forte tem sempre razão”.


5 comentários:

Kelly Cristina disse...

Que delícia de história! O teu trabalho tem sido de grande valia para a minha pesquisa, e para aprofundar o pouco conhecimento que temos das relações entre a URSS e Angola (ao menos aquela que se passou fora do âmbito mais conhecido da guerra fria). Muito obrigada. Um abraço, Kelly.

antonio disse...

Provavelmente esta historieta não será lida por nenhum internacionalista cubano que participou na consolidação da independência de Angola.
Acho que não é nenhum contributo para a História de Angola…
Os contributos para a História de Angola são feitos em actos como o que retratava ainda recentemente o «Jornal de Luanda
«Mais médicos cubanos em Angola

07-06-2007


Sessenta médicos cubanos chegam a Luanda entre os dias 15 e 20 deste mês, para reforçar os serviços de assistência médica na província de Luanda.

O director provincial da Saúde, Vita Vemba, adiantou que 25 médicos vão trabalhar como agentes de saúde comunitária, 10 como gineco-obstetras, 10 pediatras, igual número de cirurgiões e cinco anestesistas.

Os médicos serão colocados nos municípios de Kilamba Kiaxi (17), Samba (2), Rangel (2), Sambizanga (2), Maianga (3), Viana (11), Ingombota (7), Cazenga (12) e Cacuaco (4).»
António Lopes

xatoo disse...

olha lá ó Milhazes, ora que grande descoberta que tu fizeste pá!
Existem milhares, milhões de estórias dessas, com galinhas, porcos e vacas (e até com miudas jovens a que os angolanos chamam "cafecos") passadas com milhares de soldados nossos durante a guerra colonial.
Ora que ganda porra, né? só quem não viu é que pensa que há homens santos durante as guerras.
Qual é a admiração dos cubanos não serem diferentes dos outros?

Jose Milhazes disse...

Caros leitores, as pequenas historietas e estórias também fazem a História.
Por isso, vou continuar a publicar memórias de veteranos de guerra, bem como outros documentos que considere necessário.
Se tiverem documentos interessantes, enviem para publicação.

pedro disse...

Caro Milhazes:"as pequenas historietas e estórias também fazem a História"concordo,parabéns pelo site;mas a verdade só é completa quando se ouve (ou se lê)ambos lados.Para conhecimento:
http://www.scribd.com/doc/22892612/a-opcao-pela-espada
http://www.scribd.com/doc/22895547/A-Opcao-Pela-Espada-pictures-Maps
(para free download)