sexta-feira, novembro 23, 2007

Contributo para História


Por uns bidões de aguardente brasileiro

Artigo de Serguei Kolomin, veterano soviético da guerra em Angola, num dos sítios electrónicos de veteranos de guerra.

"O tenente-coronel Mbeto Traça, chefe do Estado Maior da Força Aérea e da Defesa Anti-Aérea de Angola no início dos anos 80, queixou-se, certa vez, de que o Exército angolano tinha falta de bombardeiros para a frente de combate e propôs ao seu conselheiro, ao coronel Saveliev, que estudasse a questão da utilização dos aviões de transporte Antonov-26 para bombardear a toca de Savimbi em Jamba.
Todas as explicações de que esse avião não servia para tais fins apenas irritavam o angolano. Ele exigia insistentemente que se equipasse aviões com mecanismos especiais para pendurar bombas FAB-250 e FAB-500, que havia em quantidades suficientes nos arsenais. Mas viu-se que os Antonov-26 eram fornecidos a Angola não pelo Ministério da Defesa, mas pela Aviação Civil. Esta instituição puramente civil considerava com razão que ela nada tinha a ver com o reequipamento dos aviões para fins militares.
As discussões entre as partes realizaram-se vários vezes, mas não deram resultados. Embora os nossos especialistas considerassem possível o reequipamento dos aviões, havia uma causa importante que travava esse processo.
Em 1981, ainda não havia pilotos angolanos para os Antonov-26 (nos finais dos anos 80, quando já havia pilotos suficientes para os Antonov-26, eles bombardeavam com êxito as bases da UNITA). Mas os então conselheiros do comandante e chefe do Estado Maior da Força Aérea e da Força de Defesa Anti-Aérea de Angola, coronéis Kislitsin e Saveliev, depois de puxar pela cabeça, concluíram que os angolanos, depois do reequipamento dos aviões de transporte em militares em bombardeiros, darão o seguinte passo lógico: exigirão dos nossos pilotos voar para bombardear Savimbi. E então? Como reagirá a opinião pública mundial?
Nessa altura, um avião soviético Antonov-26, que fazia um voo de transporte para Menongue, capital da província Cuando-Cubango, foi derrubado por um míssil da UNITA e dois pilotos soviéticos foram feitos prisioneiros. O serviço de imprensa da UNITA apresentou as coisas como se eles tivessem bombardeado cidades pacíficas que se encontravam sob o controlo de Savimbi. Não se podia permitir semelhante desenrolar dos acontecimentos.
Mbeto Traça, entretanto, já tinha informado as “cúpulas” da sua ideia prometedora de eliminar Savimbi com a ajuda dos Antonov-26 e não tencionava dar marcha atrás. Sem o conhecimento do seu conselheiro, ele ordenou ao tenente Michael, comandante de uma base aérea em Luanda, que preparasse mecanismos para pendurar as bombas nas oficinas locais. A falta de perspectivas desta alhada era evidente. Porém, ela quase foi realizada na prática!
O que fez Michael, guerrilheiro emérito do MPLA, que tinha uma ideia muito pouco aproximada da aviação, depois de receber a ordem? Foi ter directamente com técnicos soviéticos que prestavam assistência aos aviões angolanos Mig-17 e cubanos Mig-21 bis. Em compensação, prometer trazer dois bidões de excelente álcool brasileiro bebível, que os angolanos tinham adquirido para a realização de trabalhos de afinamento em substituição do álcool soviético para rectificação que há muito tinha sido bebido pelos nossos. Os nossos técnicos, impulsionados por perspectiva tão atractiva (já corriam lendas entre o pessoal técnico soviético sobre o aguardente brasileiro, produzido a partir de uvas naturais e com um odor divino do bagaço georgiano, que tinha recentemente entrado nos armazéns), puseram as mãos ao trabalho.
Engenheiros e técnicos, durante uma semana, faziam feitiçarias nas oficinas da base aérea em Luanda, até que isso acabou de chegar aos ouvidos do coronel Saveliev, conselheiro do chefe do Estado Maior da Força Aérea e da Defesa Anti-aérea. O engenheiro principal junto da secção de exploração técnica “apanhou nas orelhas” e ordem para esquecer essa “ideia delirante”. Os restantes tiveram de esquecer o milagroso álcool com “cheiro a aguardente”.
Este caso serviu de pretexto para fazer “um ponto da situação”. Felizmente para os técnicos, a chefia não soube nada do álcool. Mas a reunião seguinte do grupo de conselheiros e especialistas da Força Aérea e da Defesa Anti-aérea de Luanda foi totalmente dedicada ao “reforço da interacção dos elos superior e inferior do aparelho de conselheiros”.
Entretanto, o comando da Força Aérea angolana não conseguia acalmar-se na sua intenção de bombardear Savimbi. Depois do fiasco com o reequipamento do Antonov-26, o tenente-coronel Mbeto Traça teve mais uma “ideia genial”. Num encontro com o seu conselheiro, ele declarou, inesperadamente, que o seu país irá pedir à URSS para submeter a Jamba a “bombardeamentos em tapete" por aviões estratégicos soviéticos Tupolev-95”. Mas teve mais uma desilusão. O tenente-coronel, que não tinha instrução militar, ficou muito surpreendido ao saber que os voos regulares da URSS para Luanda, através de Havana, e de volta não eram bombardeiros, mas de reconhecimento. Depois de pensar um pouco, disse: “Mas pode-se pendurar bombas neles?”. Quando recebeu mais uma resposta negativa, entre o conselheiro e o aconselhado “atravessou um gato preto” e as relações ficaram estragadas durante muito tempo."

1 comentário:

Joaquinna disse...

E tu o que sabes do tenente-coronel Mbeto Traca para publicares tal artigo?

O que sabes realmente da historia de Angola para ter a arrogancia de sequer denominar algum do teu trabalho "contributo para a historia"?

Nao deveria um jornalista confirmar as suas fontes e informacoes antes de falar a toa??? Ao tentar ridicularizar homem tao nobre acabes por ridicularizar-te a ti e ao teu trabalho insignificante.

Nunca tiveste a oportunidade de lutar por causas pobres como a independencia do teu pais entao falas de outros que muito fizeram...

Sinceramente... Tristes sao certas pessoas...