quarta-feira, fevereiro 27, 2008

"Seca" nunca vista ou desabafo pessoal...


Já acompanhei muitas campanhas eleitorais e eleições durante os quase vinte anos de jornalismo, mas nunca assisti a uma campanha tão desinteressante como a que termina na próxima sexta-feira na Rússia.
Pobres eleições quando a única intriga que resta é saber se Medvedev vai ter ou não em 2008 mais votos do que Putin em 2004!
Cada povo tem os dirigentes que merece, mas, mesmo assim, não posso deixar de fazer aqui algumas considerações pessoais.
Após terem sido afastado da corrida eleitoral candidatos da oposição como Garri Kasparov e Mikhail Kassianov, os que ficaram para dar a impressão de que as eleições presidenciais são democráticas: Ziuganov, Jirinovski e Bogdanov, desempenham o seu papel, mas de forma pouco convincente.
O candidato comunista Guennadi Ziuganov protesta contra a discriminação a que é sujeito nos canais de televisão pública, contra a falta de condições democráticas, mas não desiste. Dá cobertura a uma espécie de eleições democráticas porque , caso contrário, tem problemas com o Kremlin, que pode marginalizar o Partido Comunista, como já marginalizou muitas outras forças políticas. Ou pode mesmo fazer com que o Partido Comunista decidida arranjar "outro dirigente".
Isto faz lembrar uma das velhas anedotas soviéticas. Quando Estaline começou a ficar farto das críticas da esposa de Lénine, Nadejda Krupskaia, disse-lhe: "Ou te portas bem, ou arranjamos outra viúva para o camarada Lénine".
Quanto aos outros dois candidatos, nem vale a pena fazer comentários...
A propaganda eleitoral nas televisões é uma conversa à parte e talvez merecesse mesmo uma análise atenta de psicólogos e até de psiquiatras. Mas deixo algumas notas, mesmo não sendo nem uma coisa, nem outra. Sou apenas um telespectador.
Os candidatos deviam ter tempos de antena iguais, mas o facto é que Dmitri Medvedev aparece de todas as formas e feitios, nos lugares mais insólitos e inesperados, enquanto que os restantes têm direito a uns poucos minutos.
Sabem qual a explicação da Comissão Eleitoral Central da Rússia para caso tão insólito? Muito simples. Os órgãos de informação mostram Dmitri Medvedev na qualidade de primeiro vice-primeiro-ministro, e não de candidato a Presidente.
E assim vão as coisas por estes lados...


15 comentários:

António disse...

Cada povo temos dirigentes que merece??? Ó José Milhazes, isso nem parece seu... Então acha que um povo que produziu pessoas como Shostakovich, Brodsky, Tolstoi, Repin, Chagall, Stravinsky, Bulgakov, Korolev e milhares de outros merece ter levado com a revolução bolchevique e o que se lhe seguiu, com os anos negros de Yeltsin e agora com o FSB, todos uns a seguir aos outros?? Jesus...

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro António Campos, cada povo tem os dirigentes que merece e escolhe. O povo que deu Bach, Goethe, Kant, etc., etc. elegeu Hitler e depois pagou o preço que todos conhecemos. Os povos enganam-se, e muitas vezes, infelizmente.

António disse...

Caro José Milhazes,

Se eu fosse uma vítima de um regime totalitário e repressivo, consideraria o seu comentário, no mínimo, insultuoso. Como sabe, o partido nazi nunca conseguiu eleger uma maioria suficiente para formar governo de acordo com os mecanismos democráticos estabelecidos. Hitler foi nomeado chanceler (directa e relutantemente) pelo presidente Hindenburg, para chefiar um governo de coligação, através de uma série de negociações de bastidores duvidosas, e na sequência de uma série de crises políticas que agravaram a já profunda crise económica causada pela grande depressão. A sua base de apoio tinha origem em falsidades, intimidação e no descrédito que as instituições democráticas sofreram, dada a sua inaptidão para criar melhores condições económicas. Depois, a paranóia iniciada pelo fogo-posto no Reichstag e a intimidação pelos camisas-castanhas culminou com a passagem no parlamento de uma lei que permitia o governo de Hitler governar por decreto, uma espécie de legitimação de um “estado de emergência” fabricado pelos nazis. Daí até à supressão de todos os direitos e liberdades, e a todo o resto que sabemos, foi um passo. Neste contexto, afirmar que Hitler foi escolhido pelos alemães é, no mínimo, abusivo.

Aliás, se os alemães mereceram Hitler, seríamos obrigados a concluir, por exclusão de partes, que não mereceram Konrad Adenauer.

Muitos dos tiranos totalitários utilizam mecanismos democráticos para manipular a sua subida ao poder. Outros, tal como Estaline, subiram ao poder, em última análise, através de golpes de estado totalmente alheios ao escrutínio popular, cujo primeiro exemplo é a revolução de Outubro. Reflectir o carácter de um povo através de governantes seus, que atingiram o poder pela força, por razões circunstanciais ou porque manipularam mecanismos democráticos e depois os revogaram é o mesmo que colocar uma venda na História. Uma simplificação infantil.

António Campos

António disse...

E curiosamente, a força do apoio a Putin tem razões assustadoramente semelhantes às que levaram o partido nazi a obter uma maioria relativa no Reichstag.

A esta hora, já o "imerecido" Potemkin deve estar a rebolar de raiva no caixão...

Jose Milhazes disse...

Caro António, eu quando digo que o povo tem o governo que merece, quero dizer que há povos (e são muitos) que não aprendem com a História.
Putin é popular porque esmagou à força a rebelião tchetchena, deu algum pão e segurança ao povo e fala com o Ocidente numa linguagem que o povo gosta: "Deixem de tirar macacos do país!", "Vão ensinar a vossa esposa a fazer sopa!", "Não metam o nariz ranhoso nos nossos assuntos internos", etc.
O problema é que esse bem estar é apenas e só devido aos altos preços do petróleo e gás no mercado internacional. A Rússia está a perder mais uma oportunidade de modernizar-se. Em meados dos anos 70, o preço do petróleo caiu e foi uma das causas directas do fim da URSS. Se Gorbatchov tivesse os actuais preços do petróleo, ainda estaria no poder. Se o preço do petróleo cair, a Rússia voltará a ver-se em mais lençóis, pois não está a ser feita para modernizar o país, todo o dinheiro é consumido em produtos importados, etc., etc.
A história repete-se e o povo volta a pôr o pé na mesma poça.

Cristina disse...

Não concordo com o leitor António Campos e concordo plenamente com o José Milhazes.
Aliás, a expressão "cada povo tem o dirigente que merece" é uma expressão russa que significa que um dirigente reflecte as características do seu povo,que é o apoio das pessoas que lhe permite ser líder. O povo russo tem duas facetas bem marcadas: tem a faceta de grande humanismo, elevação espiritual e bondade mas também tem a de autoritarismo, agressividade e intolerância. Na Rússia, mais do que em outros países, há coisas muito boas e coisas muito más.

Almir disse...

Acho que o leitor Antonio Campos deveria fazer uma viagem à Rússia para entender bem o que disse o José Milhazes. Sim, cada povo tem o dirigente que merece! Os russos, de modo muito particular, são inclusive menos cuidadosos com a personificação de seu representante, bastando-lhes que seja forte e tenha o país sob controle. Buscam o autoritarismo mais do que o equilíbrio no poder. A história da Rússia torna compreensível (não justificável) essa peculiaridade do povo russo. O que ocorre neste momento, contudo, é uma tentativa da nova classe dirigente russa de disfarçar-se de democratas ao estilo ocidental, simulando eleições livres, querendo fazer o mundo acreditar de que as liberdades individuais, de expressão, de minorias, etc são respeitadas na Rússia tanto quanto o são na Europa. Enfim, uma encenação cínica, um desprezo à inteligência comum. No entanto, apesar das tragédias do dia-a-dia, Putin é mais popular do que qualquer dirigente ocidental. Para entender isso, só concordando com a reflexão de José Milhazes!

Francisco disse...

Na minha opiniao, um líder pode basearse nas fraquezas do seu povo, mas também pegar na "passionalnost" desse mesmo povo, no sentido de Gumiliov.
Nenhuma terra deu apenas má ou boa gente, acho que o facto de destacar mais uma do que a outra está ligado nao só à factores antropológicos, mas também cojunturais e pessoais. Pedro o grande pegou numa parte da Russia, o Stalin numa outra, mas essas mesmas partes estao sempre lá.
Putin é um líder que tem marcado uma época na Russia, e deu o que a grande parte do povo quería recever num preço que para gente costumada viver na URSS pouco significada: liberdade ou nao, participaçao ou nao, futuro ou nao, ainda faz pouca diferença na grande Russia.
oubrigado caro Milhazes.

Maria disse...

Concordo totalmente com o leitor precedente.Acho que, de forma sintética, é mesmo isso que se está a passar na Rússia. Quem, de facto, não vive lá é levado a acreditar nas aparências ...
O nosso Salazar também fazia eleições e também havia vários candidatos...

Cristina disse...

Peço desculpa, o "leitor precedente não era o Francisco mas sim o Almir.

Sapka disse...

Portanto, José Milhazes, se bem o entendi, o preço que os russos pagaram por terem tido o Stalin foi terem levado com o Hruchov, o Brejnev, o Andropov e o Tchernyenko. Depois veio o Gorbatchov, que foi o preço que os russos pagaram por terem tido aqueles todos. Depois veio o Yeltsin, que foi o preço a pagar pelo Gorbatchov. Depois veio o Putin, que foi o preço a pagar pelo Yeltsin. Bem vistas as coisas, com o advento do Medevedev o preço está a reduzir-se cada vez mais, uma vez que este tipo já não vale nada, na sua opinião.

Eu comparo esse simulacro de democracia, que você denuncia, com as eleições americanas, em que são gastos, nas suas diferentes fases, muitos milhares de milhões de dólares para fabricar votantes esquizofrénicos que escolhem para presidente atrasados mentais mentirosos e belicistas como George W. Bush. Se pelos frutos e pelas colheitas se deveria avaliar um regime, eu talvez desse melhor nota à paródia de democracia que se desempenha na Rússia do que à manipulação maciça que decorre na América.

Jose Milhazes disse...

Caro Sapka, reconheço que existe um problema global, que é a separação entre o poder político e os cidadãos.Na Rússia, o que me preocupa é que o poder tudo fez e faz para travar o aparecimento de opinião pública. Pode dizer-me que isso tem lugar noutros países, e tem razão.
Mas aqui acho que isso é feito de forma descarada, até insultuosa, tendo em conta o nível intelectual dos russos.

Batista Export disse...

Cumprimentos a todos.
Devido à elevada participação neste Blog-Issue, decidi dar o meu contributo.
Confesso que nunca entendi a democracia como ideologia politica, “da Rússia” não me lembro mesmo se algum dia existiu, porém, na actualidade, a imposição de Medvedev na continuação de Putin, parece-me ajustada. Poderei vir a arrepender-me desta opinião uma vez que Kosovo provoca-me miopia. O circo que José Milhazes aqui descreve, parece-me aparentemente saudável, isto porque eu não vivo em Moscovo, porque sou Europeu e sei que “nós” não nos organizamos, e fundamentalmente não gosto de ver os USA a colocar mais tentáculos na nossa Europa.
Assim, e tendo em conta as minhas parcas preocupações de politica externa, entendo que o circo eleitoral Russo, é interessante, aceitável, e em ultimo desejável.
Imposto, a Rússia mostra força, e é barómetro de politica externa.
Cumprimentos a todos.

António disse...

Caro José Milhazes, espero que tenha percebido que o meu ponto tem essencialmente que ver com o facto de acreditar piamente que a Rússia merece muito melhor do que Putin e é mais do que óbvio que essa opinião é partilhada consigo. Basta ler com atenção todos os seus posts com conteúdo político para o perceber.

Para entender o valor da democracia, os alemães, além de terem o seu país destruído por um monstro totalitário, beneficiaram do plano Marshall e do empenho das outras democracias mundiais para criar uma Alemanha próspera. Coisa que os soviéticos não viram nem sombra. No final da guerra, como sabe, surgiu um sentimento de que “tudo iria mudar para melhor”, em grande medida devido ao contacto do exército vermelho com a realidade ocidental e à esperança de que tamanho sacrifício traria mais respeito pelos sacrificados do que até então. Tal como tinha acontecido após a campanha de 1812, que levou à revolta dezembrista. A história repetiu-se. Ambas as ondas de mudança foram esmagadas pelo poder.

Infelizmente, a mudança vem sempre de cima. Senão, o levantamento popular de Fevereiro de 1917 nunca teria degenerado na revolução bolchevique.

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro António Campos, estamos plenamente de acordo. Na Rússia, as mudanças vêem sempre de cima, à excepção apresentada por si, porque neste santo país foram sempre esmagadas as tentativas de criação da chamada sociedade civil. Gostaria de recordar que a servidão da gleba (escravidão)terminou na Rússia em 1861, ou seja, apenas há 147 anos. Aconselho a leitura a todos os leitores http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?Session=&CpContentId=312340