terça-feira, abril 15, 2008

Putin, o "apartidário" vai dirigir maior partido russo


Não sei se haverá precedentes destes na política mundial, mas, na Rússia, tudo pode acontecer. Um político que diz não ter partido aceita dirigir o Partido Rússia Unida, com poderes quase absolutos. Putin promete levar o seu país ao clube dos cinco mais desenvolvidos do mundo.
A propósito, vem-me à memória um paralelismo histórico. Em 1960, o dirigente soviético Nikita Khrutchov prometeu que "a próxima geração irá viver na sociedade comunista", mas o regime não foi além de lhe dar os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980. Em 2014, em Sotchi, na Rússia realizam-se os Jogos Olímpicos de Inverno. A ver vamos, as comparações históricas, por vezes, falham.
O Presidente cessante da Rússia, Vladimir Putin, aceitou chefiar o Partido Rússia Unida, mas só depois de Dmitri Medvedev ser empossado na presidência do país.
"Aceito com gratidão a proposta dos membros do partido e da direcção", declarou Putin no IX Congresso da Rússia Unida, que se está a realizar em Moscovo. "Se essa decisão for tomada pelo Congresso, deve entrar em vigor depois do chefe de Estado eleito ser empossado e, por conseguinte, depois dessas prerrogativas (presidenciais) serem retiradas a este vosso humilde servo", acrescentou o dirigente russo. Dmitri Medvedev deverá ser empossado como Presidente da Rússia no próximo dia 07 de Maio. Os delegados do Congresso do Partido Rússia Unida elegeram por unanimidade Vladimir Putin presidente da força política que detém a maioria qualificada na Duma Estatal (câmara baixa) do parlamento russo. O líder do Kremlin voltou a tomar a palavra para agradecer o apoio e prometer purgas na Rússia Unida com vista a limpar o partido da "burocracia" e de "pessoas interesseiras". "O partido deve reformar-se, deve tornar-se mais aberto às discussões e ter em conta as opiniões dos eleitores, deve ser completamente desburocratizado, limpo de pessoas ocasionais, que perseguem apenas vantagens pessoais", frisou o dirigente russo. "Os tempos mudaram. Temos muita, muita coisa interessante pela frente, renovam-se todas as estruturas da nossa sociedade e o sistema político da Rússia deve desenvolver-se de forma adequada a essas mudanças", disse Putin. Putin assinalou que "invariável continua apenas o desejo das pessoas de terem uma vida digna, liberdade, justiça e prosperidade", acrescentando que ser "dever contribuir de todas as formas para a consecução desses objectivos". "As envergaduras e ambições dos nossos planos não são consequência de caprichos ou fantasias delirantes, mas, no sentido directo da palavra, trata-se do futuro da nação russa", acrescentou e lembrou que o objectivo é pôr a Rússia "entre as cinco maiores economias do mundo". Segundo as alterações feitas nos estatutos do Partido Rússia Unida, o seu presidente, ou seja, Vladimir Putin terá, durante quatro anos, poderes praticamente absolutos, podendo vetar qualquer decisão dessa força política. Dmitri Medvedev discursou também no fórum para agradecer aos delegados pelo convite feito para ingressar na Rússia, acrescentando que preferia continuar a ser apartidário. Porém, revelou o desejo de trabalhar com um "primeiro-ministro membro da Rússia Unida". Como já foi anunciado, Putin passará a dirigir o Governo russo logo depois de Medvedev entrar no Kremlin.

4 comentários:

Fábio disse...

A Rússia enveredou por uma espécie de democracia capitalista que, de democrática nada tem..

Jose Milhazes disse...

Caro Fábio, democracia capitalista? Mais um termo estranho. Quais são os outros tipos de democracia: esclavagista, feudal, socialista? Tente explicar-nos

Sapka disse...

Só na Rússia é que se dão coisas dessas, apartidários a tutelarem partidos, diz você.

Olhe, em Portugal, o sr. Eanes, que era apartidário e supra-partidário e outras coisas mais, saíu da presidência da República e, como Putin, aceitou ser a figura tutelar de um partido, o PRD (onde estavam todos os eanistas e que ainda hoje é lembrado como o partido do Eanes). Putin é uma espécie de Eanes desse partido russo: também não é o secretário-geral ou presidente executivo do partido, pois não?

Democracia esclavagista? - pergunta você ao Fábio, muito intrigado. Pois é claro que há exemplos disso, sim senhor. Por exemplo, a primeira democracia, a grega! Você sabia isso, só que não se lembrou.

Havia também as "democracias populares", anti-capitalistas, que eram essas republiquetas comunistas satélites da URSS. Não eram lá muito "democráticas", dirá você. Pois não, mas certas democracias liberais também não o serão, na pureza do termo.

O feudalismo não era propriamente um sistema político. Mas sei-lhe dar o exemplo de um grande senhor feudal russo que foi um grande democrata: Lev Nikolayevitch Tolstoy.

A expressão "democracia capitalista" também não será uma coisa assim tão absurda ou pleonástica. Se pensarmos que há e houve países capitalistas com regimes anti-democráticos, então aí já fará algum sentido. Com o 25 de Abril, Portugal passou de um regime autoritário, anti-democrático, baseado numa economia capitalista para um regime democrático baseado numa economia semi-capitalista, semi colectivista e, finalmente, para uma regime democrático completamente capitalista. São três coisas diferentes.

Jose Milhazes disse...

Caro Sapka, compreendi a sua ideia e, no sentido histórico, estou de acordo consigo.