sábado, maio 31, 2008

Desafio poético aos leitores


Como os meus caros leitores sabem, não sou poeta e, por conseguinte, não me sinto capaz de fazer traduções de poesia, por muito simples que ela seja.
Porém, gostaria que os meus leitores conhecessem o que os poetas e escritores russos escreveram sobre Portugal e o mundo lusófono. Por isso, publico aqui o rascunho da tradução de um poema escrito pelo poeta soviético Evgueni Evtuchenko, que visitou o nosso país em 1967, a convite de Olga de Cadaval, mulher de origem russa que desempenhou um importante papel nas ligações culturais entre Portugal e a URSS, não obstante esses países não manterem, então, laços diplomáticos.
Lanço um desafio aos meus leitores para que melhorem a versão portuguesa do poema de Evtuchenko. Para os que sabem russo, publico o original em russo depois da minha versão.


Amor à portuguesa


Como feridas as luzes lambem a noite.

Olham as estrelas pela vigia da prisão,

enquanto nos escondemos sob a Ponte de Salazar,

na sua sombra negra, negra como o breu.


Fez-nos o ditador um favor,

ele não vê por debaixo da ponte,

emigremos, nos lábios um do outro,

deste infeliz país.


Sob a ponte de betão e medo,

sob a ponte deste poder estúpido,

os nossos lábios são países maravilhosos,

onde ambos somos livres.


Roubo a liberdade, roubo,

e, num sagrado momento roubado,

sou feliz, porque, pelo menos no beijo,

a minha língua não é censurada.


Mesmo no mundo dirigido por fascistas,

onde as pessoas tão poucos direitos têm,

restam as pestanas fartas,

e sob elas há outros mundos.


Mas, trajando um leve vestido,

ela ofereceu-me um anel seu,

portuguesinha, porque choras?

Não choro. Já tudo chorei.


Dá-me teus lábios. Aproxima-te e não penses.

Eu e tu, irmazinha, somos fracos

sob a ponte como sob a sobrancelha triste

duas lágrimas não vistas pelo mundo...

Lisboa 1967


ЛЮБОВЬ ПО-ПОРТУГАЛЬСКИ


Ночь, как раны, огни зализала.
Смотрят звезды глазками тюрьмы,
ну а мы под мостом Салазара —
в его черной-пречерной тени.

Оказал нам диктатор услугу,
и, ему под мостом не видны,
эмигрируем в губы друг к другу
мы из этой несчастной страны.

Под мостом из бетона и страха,
под мостом этой власти тупой
наши губы — прекрасные страны,
где мы оба свободны с тобой.

Я ворую свободу, ворую,
и в святой уворованный миг
счастлив я, что хотя б в поцелуе
бесцензурен мой грешный язык.

Даже в мире, где правят фашисты,
где права у людей так малы,
остаются ресницы пушисты,
а под ними иные миры.

Но, одетая в тоненький плащик,
мне дарящая с пальца кольцо,
португалочка, что же ты плачешь?
Я не плачу. Я выплакал все.

Дай мне губы. Прижмись и не думай.
Мы с тобою, сестренка, слабы
под мостом, как под бровью угрюмой
две невидимых миру слезы...

1967, Лиссабон


2 comentários:

fernando baião disse...

Lembrar aqueles tempos, leva-nos a saudar todos aqueles que lutaram pela liberdade de Portugal e Colónias, para que hoje sejamos todos capazes de gozar a liberdade em paz.Neste dia mundial da Criança, para Ela, o nosso saravá, como tão bem dizia outro grande poeta que foi Vinicius de Morais.

Jose Milhazes disse...

Caro Fernando, estou plenamente de acordo consigo. Saudações.