domingo, junho 01, 2008

Desafio poético aos leitores 1


O leitor Álvaro Carvalho, colega mais jovem das andanças soviéticas e russas, enviou-me um mail com uma tradução do poema de Evtuchenko "Amor à Portuguesa", realizada por Manuel Seabra e publicada na "Antologia da Poesia Soviética", Editorial Futura, 1973.
Manuel Seabra foi um português que se exilou de Portugal durante a ditadura e viveu muitos anos na União Soviética, onde exercia psiquiatria. Esta tradução, considero eu, é muito precisa, já mais poética do que a minha, mas ainda longe do ideal. Por isso, fico à espera de mais contributos. Afinal Portugal não é um país de poeta!
Já depois de ter publicado o texto acima citado, recebi um mail do meu caro amigo João Barradas, onde faz uma observação importante: eu confundi o Joaquim Seabra-Dinis, psiquiatra que viveu e trabalhou na URSS, com o tradutor Manuel Seabra.
Aqui fica reposta a verdade, peço desculpa aos dois senhores Seabra e deixo aqui uma pequena biografia do tradutor: "
Manuel de Seabra (Lisboa, 1932), romancista, poeta, crítico, tradutor do russo, do português, do catalão, etc., reside em Barcelona, com intermitências, desde 1954. Foi jornalista na Emissora Nacional e na B.B.C. e correspondente do diário catalão "Avui" em Lisboa. Embora nunca tenha deixado de escrever em português, considera também o catalão sua língua literária. Foi traduzido para português, para russo e para ucraniano. É autor, com sua esposa, Vimala Devi, também poetisa em português e catalão, dos dicionários português-catalão e catalão-português".







Amor à Portuguesa

A noite, como uma chaga, inundou-se de luz.
As estrelas olham com olhos de prisão,
e nós ali sob a ponte Salazar
à sua sombra negra como breu.

O ditador prestou-nos um serviço,
e como ele não está ali connosco,
emigramos com os lábios de visita
desta terra desditosa.

Sob a ponte de betão e medo,
e com um nome tão autoritário,
os nossos lábios eram dois países
onde nós os dois eramos livres.

Eu roubo, eu roubo a liberdade
e basta um só momento de roubada
para eu ser feliz,
sem censura a minha língua pecadora.

Mas no mundo, onde mandam os fascistas,
onde os direitos de todos são pequenos,
ficam umas pestanas compridas,
e debaixo da ponte um mundo diferente.

Mas, vestindo gabardina fina,
mostrando-me o anel no dedo,
uma portuguesinha diz: porque choras?
Eu não choro. Já chorei tudo.

Dá-me os teus lábios. Aperta-me e não penses.
Eu e tu, minha querida, somos fracos
debaixo desta ponte, como de um cenho duro
duas lágrimas que o mundo não vê...

2 comentários:

Oleg Zolotarev disse...

Bom dia José Milhazes. Leio sempre os seus artigos. E gosto de os ler. A sua tradução é muito exacta. Eu aprecio a mais do que a tradução do Àlvaro Carvalho. Só no primeiro verso é que há uma imprecisão.
Ночь ,как раны, огни зализала = Ночь зализала огни, как раны = A noite lambeu as luzes como feridas. (o que significa que tudo esta muito muito escuro). Os animais lambem as feridas até curar. A noite lambeu as luzes até desaparecer.
лизать - lamber, зализать - lamber tudo.
Em resto a tradução é perfeita.
Com respeito, Oleg Zolotarev.
P.s. sou russo e aprecio o poeta Evgueni Evtuchenko.

Jose Milhazes disse...

Caro Oleg Zolotarev, muito obrigado pela achega. Vou emendar. Obrigado