quinta-feira, maio 29, 2008

Eleições para Academia de Ciências com fumos de escândalo


A Academia das Ciências da Rússia anunciou hoje os nomes dos novos 44 académicos, 120 membros correspondentes e 13 membros estrangeiros, eleição que ficou marcada por vários escândalos.
O primeiro tem a ver com o facto de os académicos russos não terem eleito para as suas fileiras Mikhail Kovaltchuk, director do Instituto de Estudos Nucleares Kurtchatov de Moscovo. Mikhail Kovaltchuk é irmão de Iúri Kovaltchuk, irmão de Iúri Kovaltchuk, homem de negócios muito próximo do primeiro-ministro Vladimir Putin.
Os analistas vêem no resultado da votação secreta um sinal enviado pelos académicos ao Kremlin para que não politize a Academia das Ciências do país.
Os académicos russos vetaram também o lugar de membro correspondente a Serguei Stepachin, presidente do Tribunal de Contas da Rússia, Andrei Beloussov, vice-ministro do Desenvolvimento Económico da Rússia, Gareguin Tossunian, presidente da Associação dos Bancos da Rússia, e Guennadi Semiguin, homem de negócios e dirigente do partido Patriotas da Rússia.
Outra surpresa (talvez a maior) foi a eleição do antigo chanceler alemão, Herard Schroder, membro estrangeiro da Academia das Ciências. Segundo o diário Kommersant, quando Igor Mechkov, membro correspondente da mais prestigiosa instituição do país, perguntou sobre os fundamentos de tal candidatura, foi-lhe dito que “o senhor Schroder fez recentemente uma análise científica do problema da economia de transição” e que essa análise foi publicada no livro “Decisões. A minha vida na política”.
Estas memórias de Schroeder foram recentemente publicadas em russo e mereceram um prefácio escrito por Dmitri Medvedev, então primeiro-vice-primeiro-ministro do Governo russo e, hoje, Presidente da Rússia.
Num documento difundido entre os académicos antes da votação, chama-se a atenção para o facto de no livro ter sido publicado um capítulo dedicado à Rússia, “onde se dá uma resposta dura aos que levantam obstáculos na via do renascimento da Rússia”.
Presentemente, Herard Schroeder dirige a realização do projecto North Stream, que prevê a construção de um gasoduto entre a Rússia e a Alemanha através das águas do Báltico e recebe o salário da empresa russa Gazprom.
“Trata-se de uma decisão ditada por motivos políticos, que não é motivada pelos êxitos científicos de Herard Schroeder” – considera Alexandre Rar, perito do Conselho para a Política Externa da Alemanha.
Importa também salientar que alguns académicos souberam apenas da candidatura do antigo chanceler alemão pouco antes da votação.
Jores Alferov, Prémio Nobel da Física declarou que se tinha encontrado várias vezes com Schroeder, mas que desconhecia o facto de ele pretender ser eleito membro estrangeiro da Academia das Ciências da Rússia.
Após o anúncio do resultado da eleição, Vladimir Putin tomou a palavra para anunciar grandes investimentos públicos na ciência russa. Até 2010 serão investidos anualmente 60 mil milhões de rublos (cerca de dois mil milhões de euros) no apoio à investigação no país, ou seja, dez vezes mais do que em 2000.
O primeiro-ministro russo lançou um apelo aos académicos russos para que participem mais activamente na frente ideológica.
“É necessário reforçar a ligação constante com os meios de comunicação na luta pela propaganda dos êxitos da ciência, na luta contra a pseudo-ciência, resumindo, contra o obscurantismo e o extremismo”.
A Academia de Ciências da Rússia foi criada em 1724 e entre os seu membros estrangeiros encontra-se um português: o médico e enciclopedista António Ribeiro Sanches.

2 comentários:

lourrain disse...

É bem claro a influência politica no poder económico, se bem que na maior parte das vezes não se sabe quem influencia quem e os verdadeiros interesses que se escondem por de trás de tais decisões. Ao elegerem o chanceler Herard Schroeder como membro estrangeiro da Academia das Ciências, é sem dúvida, legitimar um grande negócio. Comparativamente a outros tempos, em que as eleições dos membros eram realizadas pelos valores intelectuais e conhecimentos reais da ciência, como é o caso do médico e enciclopedista António Ribeiro Sanches, hoje em dia desvirtuaram-se. Vale a pena reflectir nesta realidade politica/económica, pois muitas das vezes, são nefastas para as populações. Como refere Miguel Real no seu livro - A Morte de Portugal, o que se faz não só em Portugal como a nível mundial, é o facto de se ter retirado a politica de todos os campos pelos quais as sociedades se regulam, ou seja, economia, educação, cultura e a nivel social. Nos tempos correntes apenas importam os interesses dos grandes grupos económicos. Ao poder politico apenas resta submeter-se e promiscuir-se nas decisões desses poderosos grupos económicos. Concerteza que a eleição do Sr.Schroder vai permitir a obtenção de grandes lucros da North Stream.

Jose Milhazes disse...

Caro Lourrain, estou de acordo consigo, mas gostaria de acrescentar que também há muita falta de vergonha,e demasiada promiscuidade entre os interesses políticos e económicos.