quarta-feira, maio 28, 2008

Música coral portuguesa em São Petersburgo


O Coro de Câmara “Jovens Vozes de São Petersburgo” interpretou, na terça-feira, canções de autores portugueses dos séculos XVI-XX na Sala Pequena da Filarmónica de São Petersburgo, um dos maiores centros culturais da Rússia

Vinte e sete coralistas, dirigidos pelo maestro português João Tiago Santos, pretenderam transmitir aos ouvintes um amplo leque de obras da música coral, que abrange quatro séculos.

Na primeira parte, o coro interpretou Kyrie, de Manuel Cardoso (cerca de 1566-1650), Audivi vocem de caelo, de Duarte Lobo (cerca de 1565-1646), Laudate Pueri, de Lopes Morago (cerca de 1575 - depois de 1640), Regina caeli laetare, de João Rodrigues Esteves (1699-1755), e três cantigas e vilancetes do Cancioneiro Musical d’Elvas.

Na segunda parte do espectáculo, o centro das atenções virou-se para a música coral portuguesa do Século XX: Males de Amor, de Claudio Carneyro (1895-1963), Quatro Canções, de Joly Braga Santos (1924-1988), Das oliveiras frutos redondos, de Fernando Lopes Graça (1906-1994), Ó meu menino e Ó Senhora do Amparo!, de Eurico Carrapatoso (1962) e o tema popular português Tia Anica de Loulé.

O concerto, que teve casa cheia, foi organizado e patrocinado pelo Instituto Camões.

No início desta iniciativa, que coincidiu com o dia da fundação de São Petersburgo, João Mendonça João, leitor do Instituto Camões, quis sublinhar que se tratava de “uma prenda portuguesa para a cidade mandada edificar por Pedro, o Grande”.

“Além do mais, trata-se do primeiro concerto de música coral portuguesa na Rússia e esperamos que seja o reinício da presença musical lusa em São Petersburgo” - acrescentou.

Entre os séculos XVIII e XX, Portugal “exportou” para o Império Russo músicos e cantores de renome mundial. As salas de espectáculos de São Petersburgo ouviram obras de compositores lusos como Domingos Bomtempo e Marcos Portugal e intérpretes como Vianna da Mota. A cantora lírica Luísa Todi e a fadista Amália Rodrigues foram também aplaudidas na cidade.

Mais recentemente, em São Petersburgo actuaram os pianistas portugueses Maria João Pires e Filipe Pinto-Ribeiro.

Tratando-se do primeiro evento do género, o Instituto Camões optou por convidar os estudantes e professores de português das escolas superiores de São Petersburgo.

João Mendonça João disse à agência Lusa que cerca de 70 estudantes frequentam cursos de língua portuguesa na Universidade de São Petersburgo e no Instituto Pedagõgico Herzen.

“Claro que é sempre um risco apresentar pela primeira vez a cultura musical de um país pouco conhecido e longínquo. Mas, por outro, a novidade desperta a curiosidade dos ouvintes” - declarou à Lusa Mikhail Golikov, director artístico do Coro de Câmara “Vozes Jovens de São Petersburgo”.

O maestro João Tigao Santos reconheceu algumas dificuldades dos intérpretes russos:“como se tratou de um reportório absolutamente novo, tivemos algumas dificuldades com a língua, ou mais precisamente, com a fonética, estranha ao ouvido russo. Por isso, tivemos mesmo de ajustar o reportório”.

“O público teve mais sorte, porque recebeu a tradução para russo das canções por nós interpretadas. Esse trabalho foi realizado por alunas da Universidade Estatal de São Petersburgo” - acrescentou.

O maestro João Tiago Santos nasceu em Lisboa em 1977. Formado em direcção coral na Escola Superior de Música de Lisboa, encontra-se presentemente a realizar uma segunda licenciatura em direcção de orquestra no Conservatório de São Petersburgo.

Nesta cidade apresentou-se em concertos com as obras “Cinderela”, de António Spadaveccia, “Cosi fan tutte”, de Mozart, “Sheherazade”, de Rimski-Korsakov, “Romeu e Julieta” de Tchaikovski e “Nona Sinfonia”, de Shostakovitch.
P.S. Foi um espectáculo muito bonito, a bela sala de espectáculos estava cheia e o ambiente aí reinante foi fantástico.
Além disso, desta vez, a minha ida a São Petersburgo ficou também marcada por ter conhecido vários portugueses que vivem nessa cidade. Mais tarde, quando tiver tempo, escreverei sobre a Irmã Maria Teresa, que trabalha na Igreja de Santa Catarina, o pianista Luís Vasco e o cozinheiro Emídio Martinho. Tudo boa gente que, com os muitos amigos dos mais vários países do maestro João Tiago e do leitor João Mendonça João, criaram um momento único.
O maestro João Tiago tem um blogue Nevskiy Prospekt, que recomendo

3 comentários:

lourrain disse...

Bom dia Sr. Milhazes!
Estou muito contente por alguem se ter lembrado de apresentar em São Petersburgo, "jóias" musicais da polifonia portuguesa do século XVI e obras dos séculos seguintes. São um melómano e, como conheço relativamente bem o desenvolvimento histórico da música em Portugal, não deixo de felicitar qualquer iniciativa além fronteiras que demonstre o rico acervo cultural e antigo de Portugal nas suas mais variadas vertentes. Espero que a receptividade do público tenha sido a melhor e que no fim tenham saído satisfeitos. Lamento não ter estado presente. O facto dos cantores russos terem cantado em latim e em portugues é digno de nota, pois o trabalho prévio da aprendizagem e apreensão da língua, calculo que não tenha sido nada fácil. A polifonia como forma musical, é completamente ignorada em Portugal e raramente faz parte de um programa. No entanto, não é de admirar, uma vez de que para além da ignorância verifica-se uma enorme falta de interesse em conhecer a história da arte em Portugal. Para finalizar, expresso as minhas felicitações ao mestre João Tiago, pela coragem de ter apostado, sobretudo numa primeira parte do espectáculo, numa forma musical tão desconhecida e incompreendida, mas no fundo tão bela como é a polifonia. Espero que hajam mais iniciativas deste calibre.

Jose Milhazes disse...

Caro Lourrain, apoio as suas palavras, principalmente no que diz respeito à realização de iniciativas semelhantes, tanto mais que esta teve uma excelente plateia. Só com o trabalho de pessoas com a militância de João Tiago e João Mendonça João é que é possível realizar iniciativas dessas.

Anónimo disse...

gostaria que tivesse um tempinho para conhecer melhor o pianista Luis Vasco,visto que em portugal pouco se lhe edá importancia...e merece muito respeito pelo trabalho desenvolvido...