quinta-feira, agosto 14, 2008

Cem dias da presidência de Medvedev. Quem manda na Rússia?


Artigo escrito por mim para a Agência Lusa


Os cem dias da presidência de Dmitri Medvedev ainda não permitem avaliar a solidez do duo Medvedev-Putin, consideram alguns analistas políticos.
Porém, existe uma unanimidade ao afirmar que a guerra entre a Rússia e a Geórgia é o primeiro grande teste à nova construção do poder em Moscovo.
“Passados que são cem dias, continua em aberto a questão de se o duo Medvedev-Putin é uma construção temporária ou um modelo a longo prazo de organização do poder supremo no país” – considera Dmitri Badovski, comentador político do diário digital Gazeta.ru.
“Fazendo uma analogia com os Jogos Olímpicos, pode-se dizer que Dmitri Medvedev começou a correr no cargo de Presidente do país e, até ao dia 14 de Agosto” – passou os primeiros 100 metros, mas a meta ainda está muito longe, tanto mais que ainda não se compreende em que distância ele corre” – acrescentou.
Alguns analistas preveram a derrocada rápida da aliança entre Medvedev e Putin, mas o influente comentador político, Gleb Pavlovski, defendeu, em declarações à Lusa, que essa previsão falhou”.
“É muito importante que tenha passado a prova a sua união com Putin, porque, frequentemente, essas alianças desmoronam-se em situações de crise”, sublinhou ele.
Entre os analistas, não há unanimidade sobre quem é o primeiro na hierarquia do poder russo durante a guerra com a Geórgia.
Evgueni Mintchenko, director do Instituto Internacional de Estudos Políticos, considera que, após o início do conflito, “Medvedev, pela primeira vez, passou para primeiro plano, empurrando para trás o primeiro-ministro Putin”, frisou ele.
“Raramente se encontra um presidente que, durante os primeiros cem dias, tenha saído vencedor numa situação militar muito séria”, acrescentou.
Outros são os que consideram que o primeiro-ministro não passou para segundo plano, mas, pelo contrário, reforçou mais uma vez a sua posição.
“Durante o conflito georgiano-ossete, Putin demonstrou precisamente que ele desempenha um papel fulcral. Prova disso é a sua viagem a Vladikavkaz (capital da Ossétia do Norte)” – declarou à Lusa Olga Krichtanovskaia, dirigente do Centro de Estudo das Elites.
Mikhail Vinogradov, director do Centro da Conjuntura Política, tem uma posição diferente das anteriores, considerando que existe uma repartição clara de poderes entre Putin e Medvedev.
“Medvedev actua no campo internacional, enquanto Putin está presente no campo interno”, declarou ele à Lusa.
“Logo que começou a crise na Ossétia do Sul, a discussão conjunta de questões e a tomada de decisões foram rapidamente estabelecidas. Tornou-se de novo clara que a manifestação de estabilidade e de eficácia da “direcção a quatro mãos” é uma questão de princípio tanto para Dmitri Medvedev, como Vladimir Putin”, defende Dmitri Badovski.
“Resta saber quando irá começar a realização prática da estratégia do desenvolvimento do país a longo prazo. Porque essa foi precisamente a base da nova configuração do poder: o duo Medvedev e Putin”, conclui o analista.

3 comentários:

José disse...

Boas!
Embora nenhum dos dois seja "flor que se cheire", tenho Putin como pertencendo a uma linha bastante mais dura do que Medvedev e logicamente não vai "limitar-se" a ser primeiro-ministro na sombra de alguém como Medvedev. Vejo este último como uma espécie de marioneta conduzida por Putin, aliás se estivessem em posições inversas alguém acreditaria que Medvedev se deslocaria ao encontro dos refugiados na Ossétia do Norte? Não creio...
PS1 - Fiquei estupefacto com as declarações do chefe de estado maior russo, a propósito da nova directriz de Yutchenko em relação aos vasos russos que se encontram em águas ucranianas. É incrível a impunidade com que esta gente se move... Sai um post a contextualizar a questão?

Jose Milhazes disse...

Caro leitor, eu prevejo uma forte disputa entre clãs nas estruturas do poder russo. O combate foi temporariamente suspenso devido à guerra contra a Geórgia.
Quanto ao post que me pede, escreverei se tiver tempo, que me está a faltar muito.

Nuno Bento disse...

Se calhar o método é mesmo esse: reforçar os sectores estratégicos da economia (industria pesada, infraestruturas,...) particularmente a partir das encomendas para o sector militar. O dinheiro das exportações de matérias-primas veio permitir o inicio desse ciclo. Além disso, parece que o exercito ainda tem muita força na Rússia. A equação parece então ser a seguinte: como reconstruir uma potência militar que volte a pesar na politica internacional (e não se deixe ultrapassar pela China!!); melhorando ao mesmo tempo as condições de vida da população, o qual exigira recursos desviados do militar para o civil. Sera nesta dialéctica que se transformara a relação entre Putin e Medveded? Não nos esqueçamos que nos tempos que correm o capitalismo vive em crise (dixit Stiglitz) e é uma economia planificada que esta a tirar o "épingle do jeu".