sábado, agosto 30, 2008

Reflexões nas vésperas da Cimeira da UE sobre a Rússia


Caros leitores, estou farto, mas farto até aos cabelos, de escrever sobre a guerra entre a Rússia e a Geórgia. E, como se costuma dizer na nossa terra, "a procissão, infelizmente, ainda só vai no adro". Por isso, só resta uma coisa: "aguentar a vaga de mar" e continuar.
Não alimento grandes expectivas a respeito dos resultados da Cimeira da União Europeia sobre a Rússia, que se irá realizar na segunda-feira, porque há todas as razões para pensar assim.
A UE está profundamente dividida nas medidas a tomar. Se a Velha Europa não quer levantar a espada das sanções, os países da Nova Europa (antigos satélites da União Soviética) , apoiados pelos Estados Unidos, estão dispostos a “dar uma lição à Rússia”.
(Uma nota a este propósito. Talvez porque sejam mais dinâmicos e desenrascados (o socialismo a isso obrigava), os cidadãos dos países da Nova Europa rapidamente ocuparam cargos importantes não só na UE, mas também noutras organizações europeias como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, Parlamento Europeu, etc.
Nada tenho contra a entrada de sangue novo na Europa, pelo contrário, mas gostaria de chamar a atenção para o facto de, no campo das relações com a Rússia, esses cidadãos, muitas das vezes, não tomam decisões com a razão, mas com o coração. Isto é extremamente perigoso, porque muitos deles se regem pelo ódio cego em relação aos russos (sentimento igualmente existente entre os russos em relação a eles). Ora, o ódio não é bom conselheiro.
Tive a oportunidade de assistir a esse duelo durante a revolução laranja de 2004 na Ucrânia, quando este país se tornou num palco de combate (felizmente, dessa vez, as armas ficaram caladas) entre o Ocidente e a Rússia.)
Seria bom que, desta vez, o bom senso e a frieza vençam entre os membros da UE e não enveredam pela via das sanções económicas, o que contistuiria um erro diplomático grave.
Penso que Bruxelas também não se decidirá pelas sanções, porque as economias europeias se encontram em crise e a maioria dos europeus não parecem muito dispostos a sacrificar o seu bem-estar.
Além disso, o receio de que Moscovo possa recorrer ao corte dos fornecimentos de gás e petróleo à Europa “gela” o poder de decisão de alguns dirigentes europeus.
O facto de no interior da UE existirem fortes divergências forte à proclamação unilateral da independência do Kosovo irá dificultar seriamente a tomada de uma posição una e coerente face ao reconhecimento da Ossétia do Sul e da Abkházia pela Rússia.
Não obstante a UE tem de elaborar posições claras e firmes face ao conflito entre a Geórgia e a Rússia.
Bem ou mal, mas foi a UE, na pessoa do Presidente francês Nicolas Sarkozy, que conseguiu um acordo de cessar de fogo com Moscovo.
(Ainda não entendi porque é que Durão Barroso ou Javier Solana não apareceram, talvez tivessem achado por bem não interromper as férias. Afinal, não se trata uma guerra nuclear, mas de um conflito no Cáucaso).
Mas chega de ironia.
Além disso, Bruxelas tem que deixar um sinal claro que de que a UE depende tanto da Rússia, como esta esta depende da UE. A economia russa baseia-se e sobrevive quase exclusivamente à exportação de hidrocarbonetos. Por isso, se não os vender à Europa, não terá muitas alternativas.
Podem dizer-me que a China comprará tudo, mas não é bem assim. Além de não existirem ainda gaso- e oleodutos para transportar rapida e rentavelmente o petróleo até território chinês, o Império do Meio passará a necessitar de muito menos petróleo para a sua indústria se as economias da União Europeia e dos Estados Unidos se aprofundarem numa grave crise.
A Rússia importa da Europa grande parte do que consome, nomeadamente produtos de luxo. (Como irá viver a élite russa sem os luxos ocidentais?) Isto é tanto mais verdade se se tiver em conta uma frase de um incógnito oligarca russo: “Putin quer governar como Estaline, mas viver como Abramovitch”).
Excusado será dizer que Bruxelas tem de finalmente passar aos actos na procura de alternativas aos hidrocarbonetos russos, não só através da construção de novos tubos, mas também no investimento em energias alternativas.
Numa entrevista à televisão alemã ARD, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, declarou: “se os países europeus continuarem a realizar assim a sua política, então teremos de conversar com Washington sobre os assuntos europeus”.
É impossível não dar razão ao primeiro-ministro russo quando fala da fraqueza da Europa, mas também não posso deixar de assinalar que Vladimir Putin tenta, desse modo, ressuscitar um dos objectivos da política externa soviética: separar a Europa dos Estados Unidos.

20 comentários:

antonio everardo disse...

Caro JM, eu concordo em parte. Mas, eu afirmo que não houve conflio Russia-Geórgia; a Russia no dia-10-08 deu fim aos actos de terrorismo na Abcasia e Ossetia.

Jose Milhazes disse...

Caro António, não gosto de brincar com termos. Tratou-se de uma guerra entre a Rússia e a Geórgia. Além de, como você escreve, "a Russia no dia-10-08 deu fim aos actos de terrorismo na Abcasia e Ossetia", as tropas russas entraram no "território nuclear" da Geórgia e lá continuam.

Nuno Bento disse...

Concordo com a analise em relação à vontade dos novos países de se entregarem aos EUA. Mas eles estão dependentes ainda dos dinheiros que vêm da Europa, e enquanto esta situação perdurar, ainda são a França, Alemanha e Itália que mandam na Europa (o Reino Unido toma as consequência de se ter afastado da União Económica e do Euro). E nesses países, a Rússia é ainda tida como um parceiro económico importante: fornecedor de matérias-primas; e mercado potencial do tamanho de um continente para a industria europeia. Além do mais, 1/3 do mix energético europeu é composto pelo gás natural, o qual 50% provem da Rússia. Se a Rússia fecha as torneiras de um dia para o outro, deixo de poder ler as cronicas do JM a partir da Rússia por falta de electricidade, e sem aquecimento!

Jose Milhazes disse...

Caro Nuno Bento, se você sabe ler russo, leia no sítio da revista russa The New Times (www.newtimes.ru), o artigo de Vladimir Milov. Trata-se de uma análise curiosa sobre quem depende de quem. Não entre em pânico. O embargo árabe dos anos 70 obrigou o Ocidente a tomar medidas duras, mas transformou essa acção num fracasso para os países árabes. A propósito, nessa altura, a União Soviética ganhou muito dinheiro com a situação, ao vender petróleo à Europa.
Aqui é preciso fazer análises frias, e principalmente com o conhecimento de números.

antonio everardo disse...

Pois então? Observe, caro JM, o único erro - se é mesmo que existiu - foi quando a Russia não convidou um grupo de países, sob sua liderança, para invadir parte da Geórgia, como os USA fizeram no Iraqui, Afeganistão, etc. E mesmo que o fizesse, o ocidente reprovaria pelo mesmo jeito. Tudo que a Russia fizesse nesse sentido não teria apoio nenhum do ocidente. Por outro lado, tenho repetido vezes, o que os USA fazem é plenamente de acordo com a CI, que é uma lástima. Medvedev errou porque não conduziu um grupo de países (aqui, no caso da OCX) para impedir acções terroristas da Geórgia...Mas a pergunta então é saber porque a NATO não invadiria a Arábia Saudita? E poque tentam invadir o Irão, que é um país soberano, e tem presidente eleito democraticamente? A questão será só o enriquecimento ilegal de urânio? Somente os USA tem inimigos, a Russa não? Faça-me compreender. Um abraço.

Jose Milhazes disse...

Caro António, os crimes e erros de uns não justificam acções semelhantes dos outros. Um exemplo, eu escrevi que o reconhecimento da independência do Kosovo por alguns países ocidentais foi um erro de palmatória. E digo o mesmo em relação ao que a Rússia fez no Cáucaso. Eu não sei o advogado de nenhum dos diabos e digo (pode ver isso no que escrevi neste blog) o que penso face aos acontecimentos dos quais estou ao corrente. Achei um erro a invasão do Iraque e o posterior desmantelamento das forças armadas e polícias iraquianas, assim como achei um erro o que a Rússia fez na Tchetchénia.
E volto a repetir-me, se escrevo mais sobre a Rússia e os países vizinhos, é só por uma razão: sou correspondente da Agência Lusa, televisão SIC e rádio Antena um Moscovo, vivo aqui na Rússia há 31 anos e estudei História da Rússia na Universidade de Moscovo.
Eu não vou dissertar sob a situação no Brasil se a conheço mal. No meu blogue, falo do Brasil quando se trata de processos ligados à Rússia.
Mas se, um dia, me convidarem a trabalhar no Brasil, irei estudar o vosso país, ouvir os brasileiros e, depois, escrever sobre ele.

ivan lázaro disse...

A Guerra Fria não acabou, apenas evoluiu.Antes havia a busca por áreas de influencia geografica que se assemelhavam ao colonialismo, hoje os "blocos" neostalinistas e noeliberais procuram endereços comerciais no mundo.A Georgia deu azar de ficar no meio dessa selvageria.

Nuno Bento disse...

Sera que a Arabia Saudita pode aumentar a produção de gás e envia-lo para a Europa para compensar a redução das exportações russas? O Sr. Milov não estará a confundir petroleo com gás? De qq das formas, lembre-se da ultima crise entre a Ucrânia e a Rússia a propósito do gás, que levou à histeria principalmente na Itália. Fala-lhe quem trabalha há vários anos no desenvolvimento de novos vectores energéticos para a Europa (Hidrogénio), o que levara ainda algumas décadas a concretizar-se. Cumprimentos!

Jose Milhazes disse...

Caro Nuno, leu o artigo todo? A Arábia Saudita tem petróleo. Quanto ao gás, além da Rússia, há muito gás no Cazaquistão, Turquemenitão, Qatar, Líbia, Argélia, Irão.

Catarina Batalha disse...

Na minha opinião os países da "nova Europa" quiseram entrar para a UE para fazer frente á Rússia e não por acreditarem como os da "velha Europa "nos beneficios e potencialidades do projecto europeu.Daí que os vemos apressadamente a procurar aderir á NATO e sobretudo a se tornarem grandes amigos dos EUA e se disporem a ser os defensores dos seus "interesses militares " em solo europeu,de preferencia nas fronteiras com a Rússia.Não foi este o sonho dos pais fundadores da hoje UE,portanto se o Tratado de Lisboa entrar em vigor vai ser muito complicado conseguir integrar esses países numa politica de segurança e defesa europeia.

Jose Milhazes disse...

Cara Catarina, bem visto

Xico Ribeiro disse...

A Russia a manter-se em territorio que não lhe pertence está a colocar-se a par dos EUA, de Israel e de todos os estados que o praticam, num clara atitude de desrespeito pela ordem internacional, perdendo de vez a face da seriedade.

A russia até ao momento não transmite a imagem de país, serio e cumpridor das leis. Mantem uma atitude de arrogancia e de preconceitos que lhe retiram o que de melhor tem. Seria uma atitude de grande significado,daria uma bafetada a muitos estados, se unilateralmente saí-se da Georgia.

Nuno Bento disse...

Caro JM, tem toda a razão. Não fosse o Turcomenistão, por exemplo, ser um quebra-cabeças para os profissionais das estatísticas da energia. é que esse país já assinou contratos de fornecimento de gás em quantidades muito superiores àquelas que dispõem. :) Quanto ao Qatar, que referiu, seria um fornecedor de GNL (gás natural liquefeito), mais caro e com a concorrência no lado da procura a nível global. Os nossos amigos da Gás de Portugal é que lhe podem explicar bem o quanto é difícil se aprovisionar nesse mercado.

Nuno Bento disse...

Era só para esclarecer que concordo com a analise. A Rússia precisa em muito das divisas da Europa. Mas a Europa, nos dias que correm, não precisa menos dos hidrocarbonetos russos. O argumento do aumento da eficiência energética e da % de renováveis no mix energético de modo a reforçar a independência face à Rússia, tem-se mostrado um desafio muito complicado. Sobretudo quando os 'novos países' são dependentes dos fornecimentos energéticos da Rússia, alguns a quase 100%. Além do mais, a guerra no Iraque não veio melhorar as coisas para quem quer diversificar os fornecedores.

Fernanda Valente disse...

Os dois últimos parágrafos do seu post, resumem só por si as grandes preocupações russas e o seu objectivo em chamar a Europa à sua esfera de influência. Por isso Medvedev assinou o "acordo de paz" proposto por Sarkozy, quando a intenção russa era seguir em frente, provocar a queda do governo georgiano, para evitar a proliferação da influência norte-americana na região do Cáucaso.
Putin é um grande estadista e ainda vai conseguir os seus intentos.
Quanto à passividade de Bruxelas, talvez a culpa seja do Tratado de Lisboa...

Pippo disse...

A passividade da UE resulta a sua génese e das suas características. A CEE nasceu para alimentar e reconstruir a Europa devastada pela guerra, e foi até aos anos 90 um projecto económico e pouco mais. Depois os gurus pensaram que o melhor era transformar a CEE em UE, com um cariz claramente político e federalista. O problema é que a Europa é formada por vários países, várias nações, e não se revê num projecto político unitário. A EU não tem uma missão, não nos une, não nos faz sentir como EUropeus.
Em suma, à UE não corresponde um projecto civilizacional. Privada de rumo e de unidade, como pode ela competir com espaços nacionais coesos como os EUA, a Rússia e a China?

Ana Pereira disse...

Longe de mim ter qualquer simpatia por Putin mas ele disse á CNN aquilo que muito boa gente pensou pelo Mundo fora,a criação deste conflito da Geórgia com a Rússia neste preciso momento em que decorre a campanha eleitoral para a Presidencia dos EUA a fim de dar um empurrão ao candidato republicano,talvez até contra a opinião do próprio que não parece ser dado a aventuras.Se olharmos á situação em que o Afeganistão está bem como o Paquistão detentor de um arsenal nuclear que não se percebe bem em que mãos andará,o momento é de contar com a Rússia para o que possa acontecer e não de criar uma frente de hostilidades entre a NATO e a Rússia.

Jose Milhazes disse...

Cara Ana, apenas uma pergunta: o primeiro-ministro russo quando diz que fica com a impressão de que a guerra foi desencadeada para ajudar a vitória dos republicanos, é porque deve ter razões para isso. Se assim é, para alguma coisa servem os srrviços de informação, coloca-se uma pergunta: como é que ele se deixou embarcar nessa provocação e dar uma ajudinha a MacCain? Ou será que veio ao de cima a tradição dos dirigentes soviéticos de se darem melhor com presidentes conservadores do que com os democratas?

Ana Pereira disse...

A presença de conselheiros militares americanos na Geórgia,a visita na vespera da senhorita Rice,as informações dos serviços secretos levaram a Rússia a preparar-se militarmente para o que pudesse acontecer.Ficou clara para todos que foi a Geórgia que abriu as hostilidades,esta é que foi a provocação,pensava o Sr.jornalista que os russos na Ossétia ficavam de braços caídos,claro que fizeram o mesmo que a NATO faria caso a Sérvia pegasse em armas e invadisse o Kosovo.

Wandard disse...

Cara Ana Pereira parabéns. A Geórgia foi estimulada a fazer o que fez pelos Estados Unidos, se considerava protegida pela NATO e se baseou no posicionamento que a Rússia adotou nas duas últimas décadas, em que só protestou e nunca foi ouvida pelos Estados Unidos, França e Inglaterra e assistiu sem poder reagir às manobras ditadas pela NATO e os Estados Unidos. Foram anos de humilhações, séculos de cerco. Em sua história a Rússia sempre teve de lutar para manter seu território e seus Recursos Naturais, diversos erros foram cometidos pelos seus governantes dos Czares aos Presidentes Soviéticos, mas até parece que os Governos Europeus não têm telhado de vidro, afinal os países da atual União Européia que se regorzijam e arrotam sua democracia e seus direitos humanos, parece que se esquecem que um dia tiveram colonias e ofereceram aos povos dominados um tratamento ímpar.