segunda-feira, agosto 25, 2008

Rússia “enterra” princípio da inviolabilidade das fronteiras


O reconhecimento pela Rússia da independência da Abkházia e Ossétia do Sul “acelerará fortemente os processos de revisão da geografia política”, declarou Nikolai Zlovin, director do Instituto de Segurança Mundial.
“A Rússia, que era o mais forte adepto da renúncia à revisão das fronteiras políticas, enterrou essa política. E, agora, ser-lhe-á muito difícil regressar a essas posições”, sublinhou.
Quanto à posição do Ocidente face ao passo do Kremlin de reconhecer a independência da Abkházia e Ossétia do Sul, ele afirmou: “Por um lado, irão haver emoções, acusações de desrespeito pelo Direito Internacional. Mas, por outro lado, muitos respirarão de alívio, porque essa decisão liberta os braços dos que pretendem rever muitas das realidades do mundo actual”.
Os analistas consideram que o número de países que irão apoiar a Rússia será muito menor do que aqueles que apoiaram a independência unilateral do Kosovo.
À excepção da Bielorrússia, e só depois de fortes pressões de Moscovo, nenhum país da Comunidade dos Estados Independentes apoiou a intervenção militar russa na Geórgia e nenhum terá pressa em reconhecer a independência da Ossétia do Sul e Abkházia.
“Praticamente todos os países da CEI têm problemas territoriais, de separatismo e, por isso, não se apressam a apoiar Moscovo”, declarou à Lusa uma fonte diplomática na capital russa.
“Além disso, acrecenta a fonte, praticamente todos os países do antigo espaço soviético receiam o reforço exagerado da Rússia, porque, depois da Geórgia, poderá vir a Ucrânia, países do Báltico e todos os que ousarem opor-se ao Kremlin”.
Anatoli Adamich, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, acrescenta que a decisão do Kremlim irá também desagradar a China, “porque para ela a integridade territorial é um problema”, e terá problemas com a Sérvia.“Consideramos sempre que o Kosovo é um erro crasso de Washington e seus aliados, e evocamos o cenário kosovar”, precisa.
Leonid Slutski, vice-chefe do Comité para Relações Internacionais da Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento russo, revelou-se mais optimista, prevendo que a decisão do Kremlin “terá, no mínimo, o apoio de Cuba, Venezuela, Bielorrússia, Irão, Síria e Turquia”.

7 comentários:

kaprov disse...

Quem enterrou o princípio foram os europeus e americanos na antiga Yugoslávia e deram uma de coveiro em Kosovo.A Rússia apenas colocou uma pá definitiva neste assunto.Mas vamos deixar claro para o leitor e dizer quem destruiu o sistema e as regras até agora vigentes no contexto internacional.

Acho bom mesmo pois à Rússia tem à parte oriental da Ucrânia para reclamar.Sem dizer que à Alemanha pode fazer o mesmo perante os poloneses, sem contar outras nações.

Dois pesos, duas medidas e toneladas de hipocrisia da UE e EUA.

rui disse...

O facto de a Rússia "apenas" ter posto uma "pá definitiva" no assunto (a ver vamos) não lhe tira uma enorme (e negativa) responsabilidade.

sérgio disse...

A Turquia não reconhecerá essas republicas, gostaria de saber onde aquele senhor foi buscar essa ideia. Esperemos que a hipocrisia dos EUA e UE não impeça a Rússia de ser coerente e reconhecer o Kosovo e a Tchetchenia para começar, porque dentro das suas fronteiras e noutros lados não faltam povos á espera de exercerem o seu direito à auto-determinação. Vou já mandar um e-mail para o sr. Presidente da Rússia para ele tomar conhecimento de que o Tibete, e outras provincias Chinesas também pretendem a independencia, afinal não deve ter conhecimento, senão a esta hora já os tanques russos tinham intervido.

Jose Milhazes disse...

Caro Sérgio, antes disso, o Presidente Medvedev tem que distribuir passaportes russos aos molhos no Tibete e noutras províncias russas! Por outro lado, nas regiões orientais da Rússia é cada vez maior o número de chineses aí instalados. E se Pequim se lembrar de ir em ajuda deles?
Claro que se trata de exagero, mas num mundo tão louco...

sérgio disse...

Pois é Sr. José Milhazes tem razão, tinha-me esquecido do pormenor dos passaportes. Nisto de relações internacionais é preciso ter cuidado com estes detalhes senão as pessoas podem ficar a conhecer as verdadeiras intenções de alguns países. Bem a maioria das pessoas, que há sempre alguem disposto a acreditar no conto do vigário.

tiago santos disse...

acho que nao é nada extraordinario o reconhecimento da independencia daquelas zonas...eles já andavam a falar nisso desde a crise com o kosovo...
nao vale a pena criticar por criticar...nem apoiar por apoiar...faz-me rir ouvir dizer que o objectivo dos russos é salvar aquelas pessoas...embora à muito tempo elas suspirassem pela independencia...mas tambem acho extraordinaria a lata de certos politicos que vêm falar de integridade territorial e leis internacionais quando passaram os ultimos anos a desrespeitar uma serie de principios e regras da onu e aceites pela comunidade internacional...
quer queiramos, quer nao...a russia tinha mais direito a atacar a georgia do que os EUA a atacar o iraque...mas quem nos dera que o senhor medvedev fosse um mahatma cheio d boa vontade para tirar os problemas àquelas pessoas...

Anónimo disse...

kaprov

Acho que não dá pra comparar a situação da Polónia com a Alemanha e a Rússia com a Ucrânia. Porque no primeira caso essas antigas terras "alemãs" são hoje povoadas por mais de 15 milhões de polacos (99% da população dessas regiões). O que vai se fazer com esse povo todo se a Alemanha decidir anexar? Outra limpeza étnica? Impossível algo tão gigantesco no mundo atual...

Antunes