sexta-feira, agosto 08, 2008

Sobre invasão da Geórgia

Comentário que escrevi na manhã de sexta-feira para a Lusa

O conflito entre a Geórgia e as regiões separatistas da Abkházia e Ossétia do Sul tem origens no período de desintegração da União da Soviética (fim dos anos 80 e início dos anos 90 do século passado).
Então, Zviad Gamsakhurdia, Presidente da Geórgia, decidiu pôr fim à autonomia delas através da força. Destacamentos armados georgianos entraram na Abkházia e Ossétia do Sul, dando início à guerra civil que durou até 1994. Grupos armados separatistas, apoiados por Moscovo, conseguiram travar a ofensiva georgiana e controlar grande parte do território dessas duas regiões.
Em 1994, as partes do conflito, tendo a Rússia como intermediária, assinaram um cessar de fogo. Tropas de manutenção da paz russas instalaram-se na região, mas a contenda foi apenas congelada.
Os presidentes georgianos, quando iniciam funções, começam por prometer o restabelecimento da unidade territorial. Os separatistas da Ossétia do Sul realizaram dois referendos onde o sim à independência do território e sua posterior unificação à Ossétia do Norte, república que faz parte da Rússia, teve o apoio da esmagadora maioria. Moscovo apoia, directa e indirectamente, os separatistas, utilizando-os como alavancas de pressão sobre Tbilissi. Por exemplo, a Rússia deu cidadania à esmagadora maioria da população dos dois teritórios separatistas.
Caso se decida pela intervenção militar directa (o que vei oa acontecer), o Kremlin irá apelar ao facto de pretender proteger os seus cidadãos (o que veio a acontecer).
A situação nesta região do Cáucaso complicou-se ainda mais depois da proclamação da independência pelo Kosovo. Os dirigentes separatistas viram nele um precedente.
Para contrariar o avanço da Rússia na região, Mikhail Saakachvili aproximou o país da NATO, mas é pouco provável que a Aliança Atlântica venha em seu socorro. Se a guerra não for travada, a Rússia poderá envolver-se mais, tanto através da participação directa de tropas, como do envio de voluntários das regiões russas do Cáucaso do Norte (o que veio a acontecer).
O envolvimento da Rússia no conflito irá também complicar mais as relações com países vizinhos como a Ucrânia e Estados do Báltico. No caso da Ucrânia, Kiev fornece armamentos a Tbilissi, porque receia que, depois da Geórgia, chegue a sua vez. Moscovo não esconde pretensões territoriais face à Ucrânia, exigindo a devolução da da Crimeia. E isso será mais um motivo para que a Ucrânia tente aderir à NATO o mais rápido possível.
Quanto à comunidade internacional, as últimas reuniões do Conselho de Segurança da ONU revelam fortes divergências entre os seus membros face ao conflito. Analistas russos contactados pela Lusa consideram que os conflitos como estes são de solução complicada no quadro do actual Direito Internacional, onde não está definido qual dos direitos: à autodeterminação dos povos ou à inviolabilidade de fronteiras, impera.


12 comentários:

sérgio disse...

Mas porque é que a Georgia não dá a independencia aqueles dois bocados do seu território? Acabava-se os problemas para a Geórgia, obtinha rapidamente a tão ambicionada adesão á NATO e mais tarde à UE, e em termos geo-estratégicos não ficava assim muito diminuida a sua capacidade em permitir a ligação do Ocidente á Asia Central. Só com desenvolvimento e prosperidade é que a Geórgia poderá exercer um poder de atracção sobre esses povos, através dos meios que agora utiliza só irá gerar miséria, pobreza e sofrimento. Será que se o povo Georgiano se pudesse pronunciar não optaria rapidamente pela independencia dessas regiões. Agora que a guerra começou, espero que a Geórgia se aguente perante o avanço da Rússia, porque senão não deveria ter começado uma coisa que não poderia ter levado até ao fim. A hipocrisia da Rússia não tem limites, intervem militarmente na Tchetenia para por fim ao separatismo daquela região Russa, manifesta-se contra a Independencia do Kosovo, e dá cobertura aos movimentos independentistas na Geórgia, e pior envolve-se militarmente. Quem sabe se ainda não serão surpreendidos com adversários que não esperavam...

Jose Milhazes disse...

Caro Sérgio, se a Geórgia ceder estes territórios, os apetites de Moscovo vão mais longe...

Anónimo disse...

O que me choca neste assunto é a ganância imperial russa. Pouco lhes importa se a Ossétia do Sul é território da Geórgia. Pouco lhes importa a duplicidade de critérios quando reclamam a Chechénia como território russo e promovem o separatismo na Ossétia. Pouco lhes importa todo o tipo de mafias e tráficos com conivência russa na Ossétia. Parece que o que é preciso é aumentar o Império Russo custe o que custar.

xicoribeiro disse...

A russia imperial e colonialista esta de volta. Os povos da Geogia tem direito à sua independencia e aos territorios que historicamente lhe pertencem.
A Russia não é uma nação respeitavel, pela simples razão de não respeitar os outros. São habitos quevai ser dificil perder.

kaprov disse...

Alexander Zhebit, livre-docente em história de Relações Internacionais e Política Externa pela Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia; e de Angelo Segrillo, historiador da USP, UFF e Instituto Pushkin de Moscou.

Para Zhebit, a tensão entre a Geórgia e a Ossétia do Sul era muito grande desde a chegada ao poder, em 2004, do presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, aliado dos EUA. Ele diz que a escalada ganhou força após a independência de Kosovo, em fevereiro. Para o professor, o uso da força demonstrado hoje por parte da Geórgia foi "simplesmente ultrajante".

Ele classifica a rivalidade como puro nacionalismo. "E o nacionalismo georgiano, graças à política do Mikhail, é predominante. Eles estão tentando estabelecer controle sobre as regiões separatistas. A questão não é se eles têm direito, mas que eles têm de fazer isso usando os meios legais, recorrendo ao direito internacional, à negociação e não ao uso da força."



Link da reportagem completa:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u431392.shtml

Anónimo disse...

Queria perguntar ao Zé se foi Estaline quem traçou as actuais fronteiras da Rússia/Geórgia/Ossétias e da Abkásia. Grato Francisco

Jose Milhazes disse...

Caro Francisco, foi o Estaline que definiu não só as fronteiras da Geórgia, mas de muitas outras regiões e repúblicas da URSS. Um campo de minas mais ou menos adormecidas.

anton disse...

a hipocrisia russa nao tem limites.
ja Bush é o exemplo de consistencia, o apoio ao Kosovo vs o apoio a Georgia.
é obvio que o Kosovo abre um precedente que ira ser aproveitado, e nao so pela Ossetia do sul

lucio disse...

Só pra lembrar que a Criméia era parte da Rússia e foi dada de presente à Ucrânia, nos anos 50por Kruschov > Nada mais justo que seja redefinida a situação, uma vez que o Ocidente estimula a independêcia de Kosovo, por exemplo.

Rui Lopes disse...

Vejo que grande parte dos comentários se refere à hipocrisia das posições tomadas por Rússia e/ou EUA em relação a "pequenos" conflitos armados. Apesar de possível, esse ponto de vista em nada contribui para clarificar a questão; não há hipocrisia no comportamento estratégico de duas potências militares que se envolvem em toda a espécie de diferendos separatistas, agora como no passado, com o único objectivo de salvaguardar os seus interesses.

Perante o iminente ressurgimento da guerra fria nos mass media impõe-se uma questão interessante: Após a queda do socialismo e abertura da Rússia a uma economia de mercado quais serão as justificações de ambos os lados para assumir um novo conflito? Será que século XXI nos mostrará a guerra como sempre foi, uma simples disputa de poder? É desejável que assim seja. Se somos forçados a conviver com o espectro da guerra ao menos que não encontremos resignação nas motivações de cariz ideológico que nos foram impingidas desde o início do séc. XX até à actualidade.

Anónimo disse...

Foi mencionada aqui a Crimeia. De facto a Crimeia é outro exemplo do genocídio perpetrado pela Rússia no passado. Em 1944 foi inventada a mentira duma eventual colaboração da população local, os tatares ou tártaros com o invasor nazi. Apesar de ter sido verificado que isso foi uma mentira eles foram deportados para a Ásia e depois criadas difilculdades ao seu retorno. Mas muitos problemas semelhantes ocurreram aquando da ocupação russa da Crimeia em 1783. A propósito algo de semelhante sucedeu por volta de 1864 na zona da actual Sochi com o genocídio e deportação da população local para substitui-los por colonos russos. Ou ainda o tratado de Georgievski em 1784 em que a Rússia se comprometeu a respeitar como aliado a Geórgia para afinal querer conquistar anos depois. Tudo isto decorre duma lógica imperial russa. Querer culpar Saakashvili é apenas querer atirar areia para os olhos do mundo com mentiras.

Jose Milhazes disse...

Caro Rui Lopes, a segunda guerra fria já está a andar a toda a força, quanto a pretextos, certamente não faltarão. Apenas um: a contradição entre o direito dos povos à autodeterminação e o direito de inviolabilidade de fronteiras.